Physis

16 Capítulo 16 - Fortaleza


Eles continuaram atravessando a floresta por mais vários dias. Albert ficava com Selene o tempo todo, dentro e fora da carruagem, enquanto o cocheiro recusava-se a sair do veículo tanto quanto possível. A floresta parecia cada vez mais estra e todos estavam um pouco mais ariscos que o normal em meio à estranheza que era passar por uma floresta em completamente sem som, a não ser pelo bater das rodas em eventuais pedras durante o caminho. Diferente dos outros, o misterioso convidado permanecia sempre do lado de fora, sem parecer sentir sono, frio ou fome. Apenas ficava lá, em cima de um dos cavalos, fazendo apenas os movimentos sutis, necessários para guiar a carruagem que não parava nunca.

Mas à noite era diferente. O casaco negro do novo cocheiro que já causava arrepios durante o dia, desparecia quase por completo ao cair da noite, sendo possível saber que ele continuava lá apenas pelo leve reflexo da lua no tecido, quase tornando-o um fantasma que lavava os espíritos para seu lugar de descanso junto ao senhor dos mortos. E no horário mais escuro da noite, quando todas as estrelas paravam de brilhar, o silêncio da floresta era finalmente interrompido por ruídos estranhos e altos que assustavam os cavalos e o cocheiro original na mesma medida. Os cavalos guinchavam e batiam as patas no chão, enquanto o antigo cocheiro encolhia-se o máximo possível contra a parede da carruagem, tampando a boca com ambas as mãos, temendo em seu subconsciente que qualquer som aterrorizado que saísse de sua boca interromperia um ritual terrível, e que o preço de tal interrupção seria sua alma.

O coração da princesa martelava em seu peito, enquanto suas mãos não saiam do cabo de sua espada. Ela recusava-se a olhar o que acontecia do lado de fora. Preferia não saber. Mas caso algo do lado de fora passasse a estar do lado de dentro, ela estaria preparada. Albert, que permanecia de pé, vigiava a janela, sua espada em punho. Seus olhos atentos não desviavam da janela nem por um instante.

A janela da carruagem era quadrada, com douração em espirais em volta, o lado de dentro sendo separado do lado de fora apenas por uma leve cortina vermelha que balançava com a brisa daquela estranha noite. No balançar do tecido Albert visualizava o lado de fora apenas pelos intervalos que o vento fornecia. Na penumbra era possível distinguir algo. Algo brilhante. Algo muito parecido com dentes.

– Todos quietos. — sussurrou Albert.

Depois de longos minutos em que o estranho som continuava e que agora parecendo ter se juntado ao som de ossos se quebrando, tudo voltou ao silêncio de antes. A carruagem aumentou a velocidade, que antes era sempre constante, e todos puderam ouvir a horrível gargalhada do homem que guiava os cavalos.

Quando finalmente amanheceu na hora seguinte os tripulantes puderam respirar com um pouco mais de alívio. Selene ofereceu uma ameixa ao antigo cocheiro, que agradeceu com um tímido "obrigado" ao pegar a fruta com mãos trêmulas. Albert guardou sua espada e sentou-se sério ao lado da princesa, e mesmo antes do misterioso encapuzado anunciar, todos puderam sentir que a viagem estava chegando ao seu fim.

– Preparem-se, estamos quase na fronteira de Falcon!– disse o terrível cocheiro numa voz ao mesmo tempo alegre e arrastada.

Quando chegaram no portão o encapuzado desceu do cavalo, e andou praticamente deslizando até os guardas que mais pareciam soldadinhos de chumbo frente ao enorme portão composto de altas e grossas lanças entrelaçadas.

– Olá, senhores! Venho ao mando seu Rei Lucius acompanhar a belíssima princesa de Floratha, neta do Rei Johnathan! — apresentou ele, curvando-se exageradamente, seu corpo dobrado assumindo um formato excêntrico de baixo do tecido.

Os soldados vestiam roupas militares pesadas em tons de vermelho e preto, seus rostos ocultados por máscaras retorcidas que lembravam demônios. Os homens olharem entre si, bateram as curiosas lanças que seguravam no chão três vezes e abriram os portões de maneira treinada e simétrica.

Mais uma vez a carruagem voltou a prosseguir em seu caminho, passando por mais soldados e longas tochas acesas que levavam à imponente entrada da cidade, que representava a boca de uma espécie de demônio. Tudo naquele lugar era de alguma forma sombrio, feito para causar arrepios os visitantes intrometidos e até mesmo aos que eram devidamente convidados. Dizem por aí que tudo só reflete a personalidade do novo Rei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.