Physis
15 Capítulo 15 - Maçã
Notas iniciais
Os dias passavam devagar e Tess tinha prometido algo que ainda não tinha chegado. A lua era uma esfera prateada e brilhante no céu e tudo o que podia se ouvir eram grilos. Selene tentava se ocupar, fingir que não se importava, mas a verdade é que não havia muito o que se fazer nesse tipo de viagem, a não ser colher frutas, observar a paisagem e dormir. Porém, havia uma coisa que a princesa gostava mais que tudo: as histórias de Albert.
Quando eu era jovem, visitava Falcon com certa frequência, sabe? Eu viajava muito, e certamente Falcon era um lugar onde se podia encontrar todo o tipo de coisa. O reino era muito rico, tinha todo o tipo de especiarias, tecidos, carnes, metais... – o mais velho parou por um instante e olhou para a janela. Mas o que mais impressionava em Falcon, na minha humilde opinião, era a enorme biblioteca que havia lá.
Era uma linda construção em mármore branco, anexa ao castelo, e todos podiam ir e vir, consultar o que quiser. Os maiores intelectuais da época estavam lá o tempo todo, inclusive meu mestre. Ele me obrigava estudar muito. Mas, você sabe, a vida não é só estudos. Selene, que estava apoiada de modo mais preguiçoso, endireitou-se um pouco para ouvir melhor. Havia uma garota. Ela era uma garota adorável. Era loira, e tinha lindos olhos azuis. Ela vendia maçãs. Albert riu um pouco. Mas eram as melhores maçãs.
Eu comprava maçãs dela todos os dias – o mais velho chegou mais perto da princesa, como que para contar um segredo. E, algumas vezes, eu escapava um pouco dos estudos para vê-la, entende? Algumas vezes comíamos maçãs juntos, mas a mãe dela era bem rígida, então ela tinha que escapar também. Passamos alguns anos assim, até quem um dia...
Um dia eu deixei um bilhete para ela, dizendo para ela me encontrar numa clareira em que costumávamos ir de vez em quando. Era onde ela colhia as maçãs. Quando ela chegou lá, eu disse que nunca tinha visto uma maçã tão vermelha, mas não podia buscá-la porque tinha torcido o calcanhar mais cedo. Então ela sorriu e disse "onde?", e eu apontei para um dos galhos e disse "ali em cima". Ela tirou os sapatos e fez um nó no vestido. E começou a subir.
Quando ela estava quase chegando no galho certo, eu gritei para ela "Heey! Preciso te perguntar uma coisa!". Ela olhou para baixo, quase alcançando a maçã. Albert deu mais uma risada leve. "O quê??", ela gritou de volta. Então ela finalmente alcançou a maçã. Os olhos de Selene brilharam. Na maçã tinha um laço. No laço tinha um anel. "Quer se casar comigo??", eu gritei. Ela sorriu, descendo da árvore com a maçã e o anel. "Eu sabia que você não tinha torcido o calcanhar!", ela disse, e me abraçou. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Logo depois foi o momento de fugirmos de vez de lá. Fomos para Floratha, e então...-
A história de Albert fora interrompida quando a carruagem sofreu uma batida forte, quase sendo derrubada. O cocheiro gritou. Então houve um silêncio súbito. Nada podia ser ouvido, nenhum animal emitia um único som, nenhum pássaro piava, e também não havia mais grilos.
– O que está acontecendo?? — gritou Albert a esmo, abrindo a janela e olhando para fora, ficando cara a cara com um vulto encapuzado.
– Boa noite, senhores — disse o jovem, revelando-se — É um prazer conhecê-los.
O jovem tinha cabelos levemente encaracolados e castanhos, olhos azuis e pele muito branca. Era alto e esbelto o suficiente para quase sumir na capa preta que usava.
– Quem é você? — perguntou a princesa, ficando ombro a ombro com o mais velho, disputando o espaço da janela.
– Meu nome não é importante. Vim aqui a mando de Vossa Majestade Rei Lucius para protegê-los.
– Nos proteger de quê, exatamente? — perguntou Albert.
– O caminho daqui para frente fica um pouco... Digamos... Mais complicado.
O mais velho fez uma expressão de desconfiança, enquanto a princesa pareceu sentir medo.
– Olhe em volta, princesa. Vossa Graça não está mais em seu jardim...
O estranho riu e tomou a liderança no cavalo do cocheiro, que agora dividira a carruagem timidamente com o Conselheiro e a princesa. O homem ,pálido, lançou um olhar assustado a ambos, e quando entrou ficou o mais longe possível da janela, quase se fundindo com a parede oposta, catatônico como se tivesse visto um fantasma.
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