Physis

12 Capítulo 12 - O que Trazer Consigo


Notas iniciais
"The Hardest Part" - Coldplay

Selene chegou rapidamente no alto de sua torre. Seu quarto intocado pelas aias, todos os objetos exatamente como os deixara mais cedo (os poucos que ia mesmo deixar durante sua viagem), agora parecia mais triste e sem vida. As aias sabiam que em dia de viagem, nada podia ser tocado em seu quarto, pois sempre gostou de fazer suas próprias malas, tendo sempre em mente que só a própria pessoa sabe o que quer levar consigo. E o que quer deixar para trás.


A princesa dirigiu-se uma última vez para observar a vista de sua varanda ao entardecer. Dalí pôde ver um vulto ao longe, num caminho que sabia terminar na Ala Hospitalar. Emille. Aquele era um corte bem feio que sua imprudência deixara no rosto dele, embora houvesse um igual e tão profundo quanto em seu coração naquele momento. Ela partiria não só com seus objetivos pacíficos, mas com decisões próprias para tomar.


Seu pai entrou em seu quarto no momento seguinte com Camélia, sua mãe, logo atrás dele. Ela era uma mulher um palmo mais baixa que o marido, usava um vestido cor de vinho que arrastava um pouco no chão, não muito decotado e cheio de rendas douradas, sendo apropriado para seus quarenta e tantos anos de idade. Era magra, e tinha a pele muito branca com insignificantes pintas vermelhas em um ou outro ponto, exceto em seu rosto de lábios finos e esbranquiçados e olhos acinzentados. Podia-se dizer que ela tinha uma espécie de beleza espectral e incomum.


Ambos aproximaram-se altivos, olhando em volta pelo quarto.


– Não se esqueceu de nada, querida? — perguntou a mãe num leve tom esnobe.

– Não, mamãe. — respondeu Selene, automaticamente. Estava muito acostumada a fazer malas.

– Está quase na hora — disse o Major — Chamei as aias para levar as malas até a sua carroagem.

– Obrigada, papai. — disse ela, parecendo perdida no mundo, sem ter consciência do que respondia.


O Major geralmente era uma pessoa dura e distante, mas por hábito e carinho, aproximou-se da princesa e lhe deu um beijo na testa enquanto as aias entravam no quarto em fila, todas com vestidos azuis lisos, presos como togas. Todas as três aias entraram no quarto olhando para baixo, cabelos presos com pequenas bijuterias brilhantes, levantaram as malas, e sairam em fila, assim como entraram.


Assim como sua mãe, Selene reparou que seu pai também já estava em seus trajes militares cerimoniais, tinha quepe decorado em dourado e diversas medalhas de honra retangulares em seu peito, acompanhado também de sua grossa e pesada espada que levava consigo. Enquanto isso ela estava apenas nas suas roupas de antes, que ainda estavam úmidas.


– Logo me encontro com vocês — disse Selene, voltando seu olhar para a varanda mais uma vez. Era um fim de tarde bem quente, e o sol começava a se pôr.

– Tudo bem — disse o pai, e saiu.


Houve um breve momento de silêncio enquanto sua mãe ainda circulava pelo quarto de Selene. Ela detestava essa sensação. Essa mania que ela tinha de invadir seu espaço. Então Camélia olhou para a filha.


– Que raios aconteceu com você? Está encharcada. Toque-se. — disse ela com um de seus famosos olhares de superioridade, e saiu do aposento, deixando a porta aberta, como sempre.


Dessa vez ela não quis ajuda das aias para se trocar, ainda que sua vestimenta fosse complicada. Queria ficar sozinha. Começou a prender os cabelos num coque centralizado e logo seus pensamentos foram para o Rei de Falcon, e como lidar com ele. Em sua última viagem para lá, o Rei ainda era seu pai, um homem de índole duvidosa, mas poucas ações concretas. Mas, recentemente, ouvira muitos rumores do golpe de seu próprio filho para tomar o poder, e aparentemente as coisas eram diferentes agora.


Ela olhou para o espelho sem muito orgulho de si mesma, vestido suas roupas cerimoniais de partida. Dessa vez era um vestido preto de seda, bem justo, coberto por um tipo de kimono vermelho transparente com detalhes em dourado e prateado, serpenteando por toda sua extensão. Ela então pôs seu colar, uma jóia também vermelha e vestiu seus sapatos de amarras delicadas e salto fino que não tinha hábito de usar.


Selene respirou fundo e viu-se uma última vez no espelho inteiriço de seu quarto. Ultimamente, por mais que estivesse bela, não gostava de olhar para ele. Não gostava de olhar para si mesma depois dos últimos acontecimentos e conviver com a culpa e com a raiva. Fez um enorme esforço para engolir o choro de uma tempestade que guardava no peito, endireitou a postura, inventou um sorriso qualquer, e saiu de seu quarto.