Phoenix
1 Phoenix
Notas iniciais
Phoenix
A música parecia querer expor alguma coisa, parecia querer dizer a verdade com melodia. Era interessante, como um som podia ter um efeito tão grande?
Era incrível.
Mas era um grande desperdício que as pessoas nem se preocupassem com o que a música queria mostrar. Quer dizer, a música é uma linguagem universal, é algo que não podia ser deixado de lado tão facilmente, mas naquele momento, parecia que estava sendo.
Os adolescentes só sabem se esfregar uns nos outros – pensava Noah, indignado.
Não era uma total verdade, eles estavam sendo loucos, ousados, selvagens... Estavam agindo como se deveria agir de acordo com os padrões da sociedade, não como senhores de oitenta anos.
Noah ficava indignado com os tais padrões – Noah se indignava com muita coisa -, ele julgava as pessoas que estavam ali – fora ele, claro – muito imaturas.
Quem são eles para ficar se divertindo enquanto milhares de tragédias estão acontecendo? – esse era seu pensamento constante.
Na verdade, Noah nunca teve a necessidade ou precisou mostrar sua ousadia interior. Não queria brigar com seus pais todo o dia pelo simples fato de serem seus pais, não tinha a menor vontade de usar drogas para ver o mundo de um jeito diferente, como Alo, seu melhor amigo, vivia dizendo para ele fazer. Ele queria coisas bem mais calmas.
Noah já tinha sua vida toda planejada. Iria para a Yale, se formaria em medicina, faria sua residência, voltaria para sua cidade natal, teria seu próprio centro de atendimento e, quando estivesse financeiramente estabilizado, começaria a pensar em ter uma família – ele queria ter três filhos.
Simples. Bem diferente do que os outros adolescentes pensavam – ou não pensava.
Olhou com tédio para as pessoas dançando e suando na multidão. Em pouco tempo avistou Alo que estava, claramente, flertando com um cara de cabelo azul. Logo sabia o que iria dizer para ele quando saíssem daquela boate: “não sabia que Smurfs faziam seu tipo”.
Soltou uma risada baixa.
Decidiu levantar um pouco, já que estava sentado no bar desde que havia chagado.
Passou por entre as pessoas murmurando “com licença”, o que obviamente não ouviam, já que estavam muito ocupadas dançando Closer.
De repente, uma mulher surgiu ao longe em seu campo de visão. Ela, de certa forma, se destacava no meio de tantas outras.
Ela tinha cabelos vermelhos, era como se as madeixas fossem labaredas de fogo que saiam de sua cabeça de forma constante, tinha um sorriso pequeno no rosto, mas parecia ser muito sincero, a pele era pálida, mas não dava a ela um aspecto doentio e estava de olhos fechados, como se realmente estivesse aproveitando o momento, além de, ora ou outra, segurar alguns fios de cabelo.
Ele, momentaneamente, ao olhar para ela se lembrou de uma fênix. Ele imaginava que, se a fênix fosse realmente real e se pudesse possuir forma humana, seria como ela.
Ficou impressionado consigo mesmo quando se viu magicamente encantado e curioso pela mulher, e tinha certeza de que não era apenas por ela ser linda e estar usando branco no meio de tanto couro preto.
Se perguntou se estaria fazendo algo de muito errado ou perigoso se aproximando dela, e como resposta, recebeu um alto e sonoro “sim!” de sua consciência, mas quando viu estava indo em direção a ela.
Deus do céu, o que estava fazendo? Ela parecia tão irreal.
Ela abriu os olhos. Eles eram verdes, como musgo e as folhas das árvores em um dia chuvoso. A alma dela era verde.
Todos tinham uma cor, a dela era verde.
Verde.
Verde.
A alma de Noah também era verde. Ela era como ele.
Sorriu.
Se aproximou cada vez mais dela, quanto mais perto ele chegava, mais irreal ela parecia.
Quando estava quase encostando ela, ouviu:
— Mamãe não te ensinou o quanto é perigoso se aproximar de estranhos? — A voz dela fez eco em sua mente.
Era um sussurro, a voz dela. Era calma, doce e constante. Lembrou a Noah um dia ensolarado, com pássaros cantando e com as folhas das árvores bem verdinhas.
— Você não é estranha. — Falou como se fosse óbvio. Ele conhecia a cor da alma dela, o quão mais profundamente uma pessoa poderia conhecer a outra?
Ela arqueou a sobrancelha esquerda, jogou a cabeça um pouco de lado e sorriu:
— Você está sugerindo que nos conhecemos de outras vidas? — Podia ser. — Pois saiba que eu acredito que tivemos e vamos ter outras vidas, acho super possível, afinal a gente não pode simplesmente morrer, não é? — Os olhos dela se semicerraram quando ela sorriu mostrando os dentes. — Quer dizer, não tem como!
Normalmente quando alguém falava demais Noah se irritava, mas tudo o que conseguia pensar naquele momento, era que queria casar com aquela mulher. Disse a si mesmo que era efeito da bebida.
— Eu acredito em outras vidas também.
Os olhos verdes dela se arregalaram.
— Então, além de achar que nos conhecemos de outras vidas, agora acho que somos almas gêmeas também.
Noah sorriu, em almas gêmeas ele não acreditava.
— Espere, tenho uma citação para isso. — Ela mordeu o lábio inferior e franziu as sobrancelhas, logo voltando a sorrir. — "Encontrar sua alma gêmea é como entrar numa casa onde você já esteve – você conhece a mobília, os quadros na parede, os livros nas prateleiras, as coisas nas gavetas: você é capaz de se localizar no escuro se precisar."*
— Não acho que existam coisas tão perfeitas, como almas gêmeas, em um mundo tão imperfeito. — Noah falou, pensativo.
A mulher – a qual Noah ainda não havia descoberto o nome – sorriu levemente, aproximou mais seu corpo do dele, fechou os olhos respirando fundo e logo depois os reabrindo.
— Ah, mas coisas perfeitas realmente não existem. — Sussurrou. — Existem coisas incríveis. — Encostou seu rosto no dele, chagando mais perto do ouvido de Noah. — E você sabe o que é incrível? — Noah inspirou seu perfume. — A vida, o amor, a paixão, a música. Nós. Nós somos incríveis. Somos a vida, o amor, a paixão e a música juntos. Somos construtores do mundo. Nós somos os construtores da nossa própria história. — Ela desencostou seu rosto do dele e o olhou. — Agora me diga, existe coisa mais incrível do que isso?
Noah a olhou com um tipo de admiração que nunca olhara para ninguém antes, como se ela fosse a peça que faltava para um quebra-cabeça que estava tentando montar a tempos.
— Como é seu nome? — Foi a única coisa que conseguiu dizer.
Ela sorriu de novo. Ele não cansava de vê-la sorrir.
— Apesar de ser considerado um nome masculino e também nome de cidade, me chamo Phoenix.
Noah segurou o rosto de Phoenix e a beijou.
— Tenho algo a te dizer, Phoenix. — Phoenix. Phoenix. Phoenix. Podia repetir aquele nome o dia todo. — Acho que estou começando a acreditar em almas gêmeas. E tenho a leve impressão que somos algo assim.
O sorriso dela aumentou, quase rasgando seu rosto.
Eles eram, definitivamente, almas gêmeas.
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