Phoenix
2 Clube de Astronomia
Notas iniciais
Ziva encarava a porta do clube de astronomia com uma certa curiosidade; o professor Matteo dissera para vir no primeiro tempo disponibilizado para os clubes e aulas extras. Por sorte, Ziva não tinha clubes ou aulas extras naquele tempo.
Na placa onde indicava o nome do clube, havia um “64”. A israelita arqueou a sobrancelha. Duvidava imenso que o internato tivesse 64 clubes, mas talvez fosse isso. Era a única teoria que tinha.
Ignorou isso e bateu à porta, a medo. Esperou até que um rapaz alto abriu a porta. Ziva não conseguiu evitar arregalar os olhos. O rapaz era gigante.
O rapaz que, pela altura, deveria estar no terceiro ano, sorriu.
— Está interessada em participar no clube? – questionou.
— Er… N-Não! – apressou-se em dizer, após de engolir em seco. – Eu vim por parte do professor Matteo e…
— Jonathan-a[1], diz para ela entrar. – uma voz feminina disse dentro da sala.
Jonathan afastou-se da entrada e fez um gesto com o braço para Ziva entrar. Ela assim o fez, sem desviar o olhar do rapaz. Ele possuía cabelos castanhos bem claros e olhos verdes, por detrás de óculos de ver. Se havia coisa que Ziva adorava era olhar para os olhos e tentar descobrir a personalidade da pessoa. A cor esverdeada era clara e era relaxante olhar para os olhos dele. Aparentava ser uma pessoa de confiança.
— Oh, é a Ziva-ya[2].
— Hae-Ju? – Ziva olhou para a pessoa que falara ao reconhecer a voz.
— Oh, vocês se conhecem? – Jonathan perguntou.
— Sim, a Ziva-hubae[3] faz parte das aulas de artes marciais assim como eu. – explicou, de forma séria.
Hae-Ju era sul-coreana e, portanto, tinha a cor de pele típica entre os asiáticos, assim como longos cabelos lisos incrivelmente negros e olhos castanhos. Ela arrastou uma cadeira e se sentou, com o seu semblante tipicamente sério. Ziva só conversou com ela poucas vezes, mas nessas conversas, parecia que havia uma muralha invisível entre ambas por conta da falta de expressividade de Hae-Ju.
Sentado na cadeira ao lado, estava um rapaz moreno (tanto de cabelo e de pele) com olhos de tom azul do céu, num dia ameno e sem nuvens; no canto do olho direito, havia um sinal que chamava logo à atenção. Ele sorria de forma carinhosa, o que fazia crer a Ziva que ele era um rapaz gentil.
— Olá, Ziva! – cumprimentou de forma animada e se levantou, estendendo a sua mão direita em direção da Ziva. – Molt de gust[4]! O meu nome é Nicolau Bonaventura e sou do terceiro ano.
Ziva olhou para a mão de Nicolau, sem saber o que fazer. Ela não podia tocar nele, nem vice-versa. No entanto, não agarrar-lhe a mão iria parecer rude. Além disso, não entendera o que o rapaz moreno acabara de dizer; ele falara em espanhol? Por fim, forçou um sorriso.
— Igualmente? Ah, desculpa, mas não posso lhe agarrar a mão. É contra a minha religião.
Ao ver a dúvida no rosto de Ziva, Nicolau riu-se de si mesmo.
— Desculpa, falei em catalão sem reparar. – disse ele. – Prazer, Ziva.
— Ah, sim, prazer!
Jonathan aproximou-se e sorriu para a Ziva.
— O meu nome é Jonathan Monstar e sou do primeiro ano.
— Primeiro ano…?
Custou imenso engolir aquela informação. Como era possível que aquele moço, mais novo que ela, fosse muitíssimo mais alto que ela?
Bom, ao menos, a Hae-Ju era mais baixa que ela… Era errado pensar assim?
Ela balançou a cabeça, a fim de afastar os seus pensamentos em relação à sua altura.
— É um prazer conhecê-lo, Jonathan.
Olhou em volta da sala do clube. A sala era grande, tendo várias mesas juntas no meio e as suas devidas cadeiras. Havia alguns armários de madeira e estantes com livros. Ao lado da janela, havia um telescópio grande que, provavelmente, teria sido caro. No entanto, aquilo que mais chamou à atenção foi o teto.
Pintado de azul-escuro, havia vários pontos brancos que, na teoria da Ziva, seriam estrelas. Sem prévio aviso, Nicolau fechou as cortinas da janela e o Jonathan desligou a luz.
Para a surpresa da israelita, os pontos começaram a brilhar no escuro e muitos ficaram interligados; eram as constelações!
— Bonito, não? – Jonathan questionou.
— Sim…!
A porta abriu-se, o que fez a iluminação entrar e “estragar” o espetáculo.
— Hm? Por que as luzes estão desligadas? – Ziva ouviu uma rapariga a dizer. – Ah, não me digam que a lâmpada se fundiu! – pelo tom de voz parecia que ela estava a brincar do que qualquer outra coisa.
A luz foi ligada, não pela tal rapariga, mas sim por um rapaz loiro. Ambos olharam para Ziva, sem saber o que fazer.
A rapariga passou a sua mão no cabelo, preto por sinal, e murmurou algo que a Ziva não conseguiu ouvir.
— Ela é uma nova membra do grupo? – questionou o rapaz.
— Foi o Seonsaeng-nim[5] quem disse para ela vir. – Hae-Ju explicou.
— Oh! – a rapariga sorriu e se aproximou. – Olá! O meu nome é Miku e o teu?
Ziva, antes de responder, analisou a moça; como mencionado antes, o cabelo dela era preto e, para além disso, era curto, à altura das orelhas. Os seus olhos eram bem escuros – Ziva podia jurar que eram negros.
— Ziva Hirsch.
— Prazer, Ziva! – ela exclamou e, de seguida, olhou para o rapaz que a acompanhava. – Hey, Sting, apresenta-te!
Sting aproximou-se com um sorriso no rosto. Os cabelos loiros dele eram curtos e espetados; Ziva presumiu que ele tinha usado gel para tal. Os olhos dele eram belos: azuis-escuros acinzentados. Eram o oposto de Nicolau: parecia a cor do céu quando este ameaça com chuvas e tempestades. Ele ainda possuía uma cicatriz intrigante no canto do lábio inferior.
— O meu nome é Sebastian. – informou. Ziva notou que os dentes caninos dele eram afiados. – É um prazer conhecê-la, Ziva.
— Igualmente.
— Bom, – começou Nicolau, voltando-se a sentar. – senta-te, Ziva, e conta-nos o que vieste aqui fazer.
Ziva fez como o catalão disse e se sentou à frente de Hae-Ju, que somente a observava. Parecia desconfiada, na opinião da israelita.
Os outros também se sentaram e, naquele momento, a judia era o centro das atenções. Ignorou o desconforto que sentia e suspirou fundo.
— Eu aceitei a proposta do professor Matteo…– murmurou, sem saber se devia dizer aquilo.
— Oh, sobre….– Miku iniciou a fala e apontou para um cartaz com uma constelação. – Aquilo?
Ziva olhou para o cartaz. Por baixo da constelação, estava o nome dela em itálico. Phoenix. Ao lado do nome, estava o número 64. Ah, era o número da constelação…?, questionou-se a judia para si mesma, lembrando-se do número da porta.
— Sim… Sobre isso. – apressou-se em responder.
— Como conheceste o professor? – Jonathan perguntou, se inclinando sobre a mesa.
A israelita não respondeu de pronto. Ainda não assimilara muito bem a partida de Théo, afinal, fora naquela manhã que ela soube.
— Eu estava no terraço quando ele apareceu. – murmurou. – Começamos a falar sobre…
— Sobre…? – Sebastian perguntou, ao ver que Ziva parara de falar.
— Sobre Théo Dupont.
— Conheces o Théo?
— Sim. Ele é um colega… Que faleceu durante um experimento.
— O Théo o quê? – Nicolau questionou, não acreditando no que ouvia.
A israelita conteve as lágrimas que queriam sair. Respirava pesadamente. Por que o Théo teve que ir desta para melhor?! Por que eles estavam naquele inferno de internato?! Por quê?!
— O professor Matteo não nos disse nada…! – Jonathan exclamou, incrédulo com as palavras de Ziva.
— Ele voltará. – Hae-Ju afirmou. A judia não entendeu o que a outra acabara de dizer; quem voltará? E por que ela falou algo tão aleatório naquele momento?
— Quem voltará?
Ziva sentiu uma mão sobre as costas dela e ela olhou para Miku, a dona da mão. Ela sorriu de uma forma carinhosa, apesar de estar destroçada por dentro.
— O Théo voltará.
***
O som dos objetos a cair ecoou durante alguns segundos até cessar por completo. Frustrado com a situação, o homem, de cabelos castanhos (e alguns brancos) e de olhos castanhos-avermelhados, deixa-se cair na cadeira e dá um murro na secretária de madeira de carvalho. A dor foi quase imediata, mas ele manteve uma expressão neutra; não queria demostrar fraqueza.
— Senhor Timberlake…– começou uma bela mulher com a pele do tom da canela, até ser interrompida pelo diretor do internato.
— Agora não, Afolayan! – vociferou ele; estava farto de tudo aquilo. No entanto, quando se apercebeu que tom acabara de usar, suspirou fundo.
A mulher estremeceu com o berro do homem, mas não se rendeu. A figura esguia aproximou-se de Joseph e começou a acariciar o cabelo dele.
— Desculpa, Folami…– ele murmurou. – Mas é complicado…
— Eu compreendo, Joseph. – Folami sussurrou. – Vem, descansa no sofá. Tu precisas.
Muito a contragosto, Joseph se levantou da cadeira e circulou até ao sofá bordô localizado à frente de uma pequena mesa. Sentou-se no sofá e olhou para Folami, como se esperasse que ela também sentasse ao lado dele. Ela sorriu e lá fez a vontade.
Folami era uma mulher belíssima. O seu cabelo preto era rente à cabeça e os seus olhos eram de um castanho-achocolatado.
— Há algo que me queiras contar? – ela perguntou com um belo sorriso. Os seus lábios eram ligeiramente grossos e lhe davam um ar esbelto à constituição física dela.
— Sim… Já ouviste aquilo?
— O quê?
— O Projeto Circe.
Ela balançou a cabeça positivamente. Sabia da mais recente desgraça ocorrida durante os experimentos. Um descuido imperdoável pelos cientistas encarregados pelo projeto.
— Queres que eu trate disso, é?
— Sim. – ele respondeu. – És a única que o pode fazer, Ami.
Ele se inclinou e se deitou no sofá, com a cabeça pousada nas pernas magras da mulher.
— O ano letivo mal começou e já temos um caso destes…– ele declarou, extremamente frustrado. Previa mais casos similares naquele ano.
— Todos anos há casos desses, Seph! – exclamou ela. – Até no nosso tempo...!
— Mas estás a gastar demasiada energia com isto!
— Por Olódùmarè[6]! – ela exclamou, revirando os olhos. – Não te preocupas com isso, sim? Agora dorme!
Ela ousou fazer um peteleco no meio da testa dele, que prontamente foi tapada com a mão.
— Hey!
A secretária riu-se. Joseph resmungou algo e abraçou a cintura dela. Inspirou fundo e exalou o doce perfume de canela que ela usava. Adorava o aroma. Com ele, lembrava-se da adolescência, a época em que conhecera Folami.
Encerrou os olhos e, em meros minutos, adormeceu. Coitado, estava mesmo cansado…, pensou a nigeriana. Agarrou nos seus documentos e começou a analisar.
O Projeto Circe consistia em dar a consumir venenos às pessoas com um paladar avançado, capazes de identificar todos os ingredientes utilizados. Assim, além dessas pessoas ficarem imunes, seriam capazes de identificar venenos.
O sujeito em questão neste experimento era Théo Dupont. 15 anos, ele nasceu em Flandres na Bélgica. Filho do famoso chefe de cozinha e dono de uma cadeira de restaurantes de primeira qualidade, Louis Dupont, Théo sempre esteve rodeado por sabores, o que fez desenvolver o seu paladar requintado. Era da turma 2ºB, sendo o melhor aluno na disciplina de Atividades Domésticas e tinha bons resultados em Química e Física. Faz parte do clube de Astronomia, de Culinária e de Teatro, além de pertencer à Orquestra, sendo que tocava clarinete. Folami parou de ler e torceu o nariz ao ver as horas: eram quase seis horas da tarde. O ensaio da Orquestra iria começar e iriam estranhar a ausência de Théo. Isto se não haver ninguém da turma dele lá.
Folami continuou a ler o perfil dele. O sonho dele era ser um cozinheiro de renome como o pai, para honrar o apelido Dupont, e ser pai de família.
A nigeriana parou de ler por uns momentos, visto que Joseph apertara-a um pouco, enquanto dormia. Ela sorriu e acariciou o rosto do adormecido.
Joseph sempre fora uma pessoa séria e, muitas vezes, mal entendida. Sabia do ódio que os alunos tinham por ele. Mas ele era uma pessoa orgulhosa e não fazia nada para mudar essa imagem. Ele seria o mau da fita para sempre, caso necessário. Desde que cumpra os seus objetivos, oh, sim, tudo estará bem.
De uma forma ou de outra, a Folami estaria sempre com ele. Pois, só ela, e mais ninguém, conseguia compreender Joseph completamente.
E, bom, também tinha ele, não?
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