Phantomhive

11 A terrível quarta-feira chuvosa


Notas iniciais
Olá pessoal!! ainda lembram de mim?

eu sei, demorei um século, mas esse capítulo foi super difícil...escrevi grande parte no feriado de carnaval..mas por um acidente que me irrita só de lembrar....perdi o capitulo e tive que reescrever tudo.

Enfim...estou feliz porque soube que vão voltar a apresentar o musical do Kuroshitsuji ...no Japão T.T......e triste porque não vou poder ver...e pq o Ciel não será mais o Yukito...pena ele e o yuya transmitiam um clima tão fofo*3*...o novo Ciel se chama Tanaka XD...é fofo tbm....e estou com medo do possível filme queo povo quer fazer do Kuro, se passará 130 anos depois do mangá..tipo...terá Sebastian, mas não terá Ciel? Não pode isso gente!

Capa nova e decente...não é minha..só editei...nossa como é difícil achar imagem do Ciel Adolescente..essa foi a melhor.

Enrolações a parte...Obrigada a Chrys, Audy, Hinamori, Lia, Karen Kpop, Nagase, Sosoll, Letícia e a Milene por favoritarem.

E obrigada a todos que leram e deixaram review....amo vcs =^.^=

Como podem ver esse capítulo ficou maior ainda...não sei se ficou tão bom assim.. eu li e reli ...tentei melhorar...mas foi o melhor que consegui.... mas espero que gostem....

perdoem os erros de escrita...e

Boa leitura

Capítulo 11: A terrível quarta-feira chuvosa

Amanda chegou à casa do Sebastian no domingo a tarde, e, desfrutando de toda sua liberdade, foi logo entrando. Porém, diferente do que sempre acontecia, não o encontrou na sala. Talvez estivesse na biblioteca. Também não estava lá.

A loira saía da biblioteca quando ouviu um barulho vindo da sala ao lado. A sala do piano. Sebastian tinha várias manias estranhas, uma delas era não permitir que ninguém entrasse naquela sala. Ele jamais permitiu que alguém chegasse perto do piano e, muito provavelmente, ninguém além de Lílian tocou alguma música nele. Sebastian jamais tocou no nome dela, mas Amanda conhecia muito bem a história daquela mulher.

Embaralhadas notas musicais escapavam pela fresta da porta entreaberta. Ao abri-la, deparou-se com uma cena nada comum: Sebastian e Ciel se beijavam. O adolescente estava sentado sobre as teclas do piano... Aí estava a razão das notas desconexas. Amanda tentou chamar a atenção dos dois com um pigarro. Estava um pouco constrangida, mas não chocada.

– Ahm, ahm... Com licença, estou atrapalhando algo? – os dois interromperam o beijo. Ciel, envergonhado, escondeu o rosto no peito do moreno.

– Na verdade, está sim. – Sebastian respondeu num tom irônico, como se tudo fosse uma brincadeira muito divertida.

– Neste caso, sinto muito, mas é realmente importante.

Sebastian suspirou e se dirigiu a Ciel.

– Pode esperar? – o jovem o olhou com aqueles intensos olhos azuis. Aquele olhar tinha um significado: o imprevisível.

– Espere você.

O garoto respondeu autoritário, levantou-se do piano e caminhou em direção à saída sem sequer olhar para Sebastian ou Amanda.

Ciel caminhava pelas ruas de Liverpool muito irritado. Como aquele imbecil pode beijá-lo e depois tratá-lo daquela maneira? Quem ele pensa que é? E quem aquela Amanda pensa que é? De fato, qual é a verdadeira relação daqueles dois? Sempre que a loira aparece, Sebastian o deixa de lado. Isso era deveras irritante e agora Ciel tinha mais consciência do por quê.

O adolescente interrompeu seu caminhar furioso e parou em uma rua qualquer. Tocou os lábios por um instante, lembrando-se do toque macio e cálido do beijo. Sim, Sebastian o beijara. E não foi algo que aconteceu por acidente, a intensidade com a qual fora beijado provava que o mais velho realmente queria beijá-lo. Ou seriam todos os beijos assim? Ciel jamais provou uma sensação tão... Íntima. Tentadora.

Era estranho, ele sabia disso. Mas, estranho por quê? Com certeza a grande maioria dos jovens de sua idade passou ou passa por essa experiência... Com uma pequena diferença. Provavelmente a experiência dessa grande maioria não aconteceu com outro homem, mas isso levava a crer que exista uma minoria de garotos que não teve seu primeiro beijo com uma garota.

Isso incomodava Ciel? Um pouco. Não pela opinião alheia, era orgulhoso demais para se importar com o que os outros pensavam ou deixavam de pensar. Sentia-se incomodado pela confusão, o conflito em seu interior. Mas quando estava com Sebastian, por mais que odiasse admitir, até para si mesmo, sentia-se bem, nada mais importava. E agora, quando se lembrava do beijo, só pensava em como fora maravilhoso e o desejo de repeti-lo crescia em seu peito.

Apertou o passo.

Considerava-se um tolo, pois sentia um contentamento inexplicável, o barulho dos carros parecia mais melódico, os transeuntes pareciam mais felizes, a tarde parecia mais agradável, os pássaros pareciam mais livres, até um corvo entre as árvores lhe pareceu voar de um jeito magnífico, as árvores pareciam mais majestosas, conseguia ouvir os risos das crianças na praça, sentia a brisa leve que brincava com seus cabelos, o céu estava limpo e azul, a beleza de um dia sem chuva. Não podia ver, mas suas bochechas coradas se destacavam em sua jovial pele alva. Se alguém lhe perguntasse a razão de ele se sentir assim, ele não saberia dizer. Também, como poderia? É difícil explicar algo que nunca sentiu antes. O jovem sabia o que sentia, mas não sabia que tudo se resumia a uma simples condição: estar apaixonado.

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Angélica ajudava a mãe a cuidar das roseiras do jardim. Seus olhos azuis claros refletiam o intenso vermelho das pétalas em suas mãos. O barulho de motor de carro na casa vizinha chamou sua atenção.

Um homem de cabelos pretos, alto, olhos azuis, estacionou na garagem ao lado. Ao reparar nas duas mulheres no jardim vizinho, parou para cumprimentá-las.

– Boa tarde senhora Valentine! Boa tarde Angélica!

– Boa tarde! – responderam as duas, a moça corando levemente.

– Muito trabalho no hospital, Daniel?

– Sim, peguei dois plantões seguidos, mas consegui um tempinho agora pra dar uma passada em casa. Nesse trabalho é importante saber que temos que parar pra descansar às vezes, afinal se o médico fica doente quem vai atender os pacientes, não é mesmo? Mas e você, Angélica, quando começa sua residência?

– Ano que vem se Deus quiser. – respondeu animada, demonstrando toda sua expectativa.

– Que bom! Bom, caso se interesse por infectologia, pode ser que eu a escolha como minha “residente aprendiz”. É trabalhoso, mas é uma ótima experiência.

– Seria uma honra! Me aguarde.

– Isso que é determinação. Bom, deixe-me entrar... A propósito, as rosas estão lindas, vermelho combina com você.

– O-obrigada.

Poucas pessoas conseguiam deixar Angie envergonhada. Poucas tinham a capacidade de deixá-la tão retraída a ponto de parecer uma colegial apaixonada. Se bem que apaixonada ela estava. Mais que isso, ela amava Daniel.

Daniel Morrisom era um infectologista do Hospital de Liverpool, cuidava do Departamento de Medicina Diagnóstica, tinha trinta e sete anos e era um excelente médico. Os Morrisom eram vizinhos dos Valentine desde sempre, Angélica não se lembrava exatamente de quando viu Daniel pela primeira vez, mas lembrava-se que sempre gostou dele. O sentimento foi aumentando com o passar dos anos.

Como não havia muitas crianças na vizinhança, sempre brincavam juntos. Ele, que sempre desejou uma irmã, fez de Angie a sua. Ele era doze anos mais velho, mas ela não se importava. Os sentimentos de Angie se firmaram quando o moreno começou a dar-lhe aulas particulares, ela tinha doze anos, ele já estava na faculdade, mas sempre arranjava tempo para ajudá-la e conversavam horas sobre o campus e a matéria. A garota começou a ficar fascinada pela medicina. Mas engana-se quem pensa que Angélica só escolheu cursar medicina por causa de Daniel. A razão foi seu irmão.

Há uns nove anos atrás, Ciel passou por problemas muito sérios, problemas que desestabilizou toda a família por um ano e culminou num incidente terrível. Angie tinha apenas dezessete anos, e sentia-se aflita só de lembrar-se da cena que encontrara no banheiro. Naquele dia seu irmão, seu amado irmão quase morreu. Ela entrou em desespero, não sabia o que fazer, e Ciel não reagia. Correu desesperada e gritando por socorro, Daniel veio como um relâmpago. Ele prestou os primeiros socorros, reanimou Ciel e o levou para o hospital. Se não fosse Daniel, Ciel teria morrido.

Angie lastimou-se por ser tão inútil. Se um médico não morasse ali perto, teria perdido seu irmão, pois a única coisa que sabia fazer era um curativo e isso não resolveria muito. Naquele dia, prometeu a si mesma que jamais deixaria ninguém sofrer ou morrer se pudesse fazer algo para ajudar. Naquele dia escolheu sua profissão.

Ciel se recuperou, e realmente melhorou. Mas mudou muito, muito mesmo. Angélica jamais esqueceria como Daniel havia salvado seu irmão. Passou a amá-lo mais ainda. Pena que o homem não via nela mais que uma amiga, uma irmã mais nova. Mas tinha a esperança de que um dia ele a notasse. Algum dia ele notaria que ela já era uma mulher. Por isso exibia tanto os namorados, na esperança de que ele percebesseque outros homens olhavam pra ela e que ele poderia perdê-la se não se apressasse. A verdade era que Angie esperaria uma eternidade por ele.

– Angie, querida, as ervas daninhas crescem mais rápido do que você as arranca... eu faria isso, mas essa barriga não permite. – Dizia a mãe trazendo a ruiva de volta à realidade, achava realmente impressionante como Daniel tinha a capacidade de transformar a Angie Furacão em uma Doce Angie. Massageava sua enorme barriga, agora de nove meses, a qualquer momento a futura ou futuro Valentine poderia nascer.

– Tá mãe. – disse bufando. Pegou a tesoura de jardineiro para aparar os galhos quando notou o irmão “tentar” entrar despercebido em casa – COMO FOI O CONSERTO DO PIANO, CIEL?

– Bom. – e fechou a porta sem dizer mais. Angie sorriu.

– Qual a graça? – quis saber a senhora Valentine.

– Ah! É... é um trocadilho... Ele ia consertar o piano do Sebastian, aí eu perguntei como foi o conserto, que soa como foi o concerto do piano, sabe... Concerto de música... HAHAHAHAHA!

– As roseiras, Angélica, as roseiras. – massageava as têmporas não entendendo a maluquice da filha.

– Tá, mãe, tá. Eu podia tá lá em cima chateando o Ciel ou estudando. Mas estou aqui, cuidando das rosas. Sujando-me de barro...

– As roseiras são suas.

– Ah... Isso é só um detalhe...

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Era segunda-feira, manhã. Roger Valentine e seu assistente, Harris, esperavam no Liverpool John Lennon Airport a chegada dos dois homens enviados pela Scotland Yard para ajudar no caso. Após meia hora, os dois chegaram. Figuras pouco comum, diga-se de passagem.

Um tinha cabelos loiros já desbotados pela idade, devia ter uns quarenta e cinco anos, olhos verdes, alto e corpulento, rosto largo e bem marcado. Trajava-se como um cavalheiro, trazia até uma bengala ou seria um guarda-chuva? Harris notou que ele trazia na lapela um broche. Um escudo com asas, com uma letra P sobre uma grande letra M. O brasão das Empresas Midford e da própria família Midford. nunca soube o porquê do P no brasão.

O outro era igualmente alto, mas andava meio encurvado. Tinha cabelos grisalhos na altura dos ombros, largados e bagunçados com uma espécie de franja que lhe caía sobre os olhos. Um visual bem desleixado para um homem de sua idade.

Roger caminhou até eles e tomou a frente no cumprimento.

– Bem vindos a Liverpool. Prazer, Roger Valentine, Chefe do Departamento de Polícia de Liverpool.

– Detetive Claus Midford. Prazer. – disse o loiro. – Este é o legista Mark Callaway. Gostaríamos de dar uma olhada nos relatórios o mais rápido possível.

– Claro. Venham conosco.

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Ciel saía da escola com Liza, os dois combinavam um trabalho de Literatura que teriam que fazer juntos, quando encontrou um certo moreno recostado em um carro preto parado próximo a saída da Academia Nottingham. Sebastian exibia seu sorriso clássico. Dentes perfeitos e brancos. Seus olhos castanhos tinham um admirável brilho vermelho sob o sol. O que ele fazia ali? O adolescente ficou aborrecido. Sempre que se sentia constrangido ficava aborrecido. Em outras palavras, estava envergonhado.

Desde aquela tarde, pensara no moreno várias vezes e no que deveria dizer, mas agora que o via novamente, sentia toda a sua coragem se esvair.

Sebastian caminhou até eles. Trajava jeans escuro, camisa branca e colete cinza com mangas compridas, puxadas até os cotovelos; para terminar, um cachecol preto em volta do pescoço.

– Olá! Estava passando por aqui e resolvi fazer uma visita. O que acham de tomar um chá?

– Não, obrig...

– Seria maravilhoso, Sebastian! Vamos, Ciel? Não seja ranzinza.

Os olhos da garota brilhavam. Ciel acabou concordando.

– Vamos no meu carro.

– Aonde iremos? – Liza perguntou, colocando o cinto do banco traseiro. Ciel fazia o mesmo, enquanto olhava Sebastian com suspeita.

– A um maid café chamado Darjeeling Chá. Ciel e eu já fomos lá.

– Ah... Mesmo?! – Liza não soube bem como reagir a essa informação, mas sentiu algo estranho – Ainda não conheci este lugar.

– Tenho certeza de que vai gostar.

Sebastian olhou para Ciel pelo espelho do carro. O adolescente estreitou os olhos para ele.

O que Sebastian pretendia com tudo isso?

Quando chegaram ao Darjeeling, Elizabeth ficou encantada com o lugar. Reconheceu Ruby da festa na casa da Amanda e achou tudo maravilhoso. Seus olhos foram atraídos por uma vitrine decorada por coloridos e apetitosos cupcakes.

– Ah! Olha, Ciel. Não são fofos!!

– Vá lá. Pode escolher alguns pra você. – disse Sebastian.

– Sério?!

– Não, Liza. Não vamos abusar. – a garota fez uma expressão desapontada.

– Não dê atenção a ele, Elizabeth. É um presente meu para você. Vá lá e escolha quantos quiser. Escolha alguns para o Ciel também, eu sei que ele quer, mas está fazendo cerimônia.

– Pode deixar. Não se preocupe Ciel, vou ver se tem os seus sabores favoritos.

Assim que a jovem se afastou, Ciel esbravejou:

– O que você pensa que está fazendo?

– Tomando chá e comendo bolo na companhia dos meus amigos. – respondeu displicente.

– Não se faça de idiota, Sebastian. Você sabe do que estou falando? Por que disse pra Liza que eu vinha aqui com você?

– E por que não deveria? Não há nada de errado nisso. A não ser que você tenha tido alguma razão em especial para não contar nada a ela.

Sebastian levou a xícara de chá à boca, fazendo parecer que falava de um assunto qualquer, mas seus olhos transbordavam ironia. Chá com duas colheres de provocação: um sabor maravilhoso.

Ciel inchou as bochechas de raiva. Nunca contara para Liza que encontrara Sebastian várias vezes no Darjeeling Chá, assim como nunca contou que passava a maioria das suas tardes na casa do outro. Mas a razão de não ter contado era desconhecida. Mencionou algumas vezes que esteve com ele, mas não deu nenhum detalhe sobre o que fizeram ou aonde foram. Sua intenção nunca foi esconder alguma coisa, simplesmente não informou. Mas depois do que aconteceu no domingo, todo contato que ele já teve com o moreno lhe parecia, agora, muito comprometedor e suspeito. Temia que Liza descobrisse algo, pois sabia que a moça não reagiria bem a algo que nem ele havia aceitado direito.

E ali estava Sebastian. O provocando como sempre fazia, para ver sua reação. Agindo como se tivesse descoberto que o garoto era autor de um crime. Até parece que o mais velho também não se entregara ao pecado.

Elizabeth escolhia animadamente os bolinhos mais belos. Ruby tentava ajudá-la a escolher, embora parecesse ficar mais boba diante dos confeitos do que sua cliente.

Sebastian pousou a xícara sobre o pires de porcelana, passando a língua sobre os lábios, secando os resquícios de chá. Ciel acompanhava cada movimento seu. Estava irritado e envergonhado. E quando ficava envergonhado, tendia a ser mais áspero. Não sabia como lidar com esse tipo de sentimento, nem com esse tipo de situação, então, a casmurrice e a rudez serviam de escudo e de ataque. Portanto, muitas das vezes em que fora rude, não pretendia ser realmente indelicado, assim como não pretendia ser com Sebastian. Porém, o outro conseguia irritá-lo de tal maneira, que o diálogo que se seguiu não foi nem de longe o que planejara ter.

– O que você quer de mim, Sebastian?

– Conversar. Pois eu tenho certeza de que não imaginei o que aconteceu no domingo. E você, Ciel?

– Gostou tanto assim de me beijar que veio logo me procurar?

Ponto para Ciel. Sebastian surpreendeu-se com a pergunta provocativa. Deu um sorriso de canto.

– Engraçado, na hora eu jurei que você estava... Apreciando.

E assim começou a duelo de palavras.

– E-é, foi legal.

– Legal?

– Sim, por quê? Achou que significou alguma coisa?

– E não significou?

– Claro que não. Eu queria só experimentar.

– Oh, mesmo?! – Sebastian abandonou a postura perfeita, recostando-se de um jeito mais largado. Queria ver até onde o jovem ia chegar. – Experimentar, é?

– Sim. Eu sou adolescente e... E como tal, tenho minhas curiosidades, acaso é errado querer experimentar outro... Outros tipos de coisas?

– Então foi só isso, curiosidade adolescente. – Sebastian parecia se divertir como nunca.

– Exato.

– Não sabia que você era tão... Moderno assim.

– Pois sou. – Sebastian não sabia o que era mais admirável, a capacidade que Ciel tinha de ser imprevisível ou a maneira séria e decidida com a qual falava.

– Agora me responda uma coisa, meu caro e moderno adolescente curioso... – Sebastian inclinou-se um pouco sobre a mesa, e falou num sussurro sedutor. – A experiência lhe foi suficientemente gratificante?

Nesse momento, Ciel odiou-se por ser um inglês de pele tão clara, pois não sabia se o brilho rubro nos olhos de Sebastian era efeito da luz ou se os olhos castanhos do outro apenas refletiam suas bochechas em chamas. Tal reação do jovem pareceu ser suficiente para Sebastian. No fim, o mais velho ganhara esse round.

– Sobre o que falavam?

Liza voltara para a mesa.

– Eu falava de como a senhorita fica graciosa quando sorri.

Liza, claro, ficou completamente vermelha. A habilidade que Sebastian tinha de dissimular chegava a ser assustadora.

– Não precisa me chamar de senhorita, Liza está bom.

– Elizabeth, então. Escolheu os cupcakes que queria?

– Sim, Ruby está embalando eles. São tão perfeitos e lindos que dá pena de comer. Muito obrigada mesmo, Sebastian.

– Não há de quê.

Sebastian ofereceu carona para casa. Ciel ajudou Liza a carregar as duas caixas de cupcakes, sendo que uma delas pertencia a ele. Liza despediu-se de Ciel com um beijo na bochecha. O jovem voltou para o carro, dessa vez sentando-se no banco ao lado do motorista. Sebastian acenou para Liza que respondeu com um aceno mais alegre ainda. A garota esperou o jaguar preto desaparecer na esquina para entrar na casa.

Ciel suspirou impaciente ao perceber que Sebastian tomara um caminho diferente. Fechou os vidros do carro e estacionou.

– Você é persistente, não é? – Ciel falou olhando para o carro da frente.

– Só quando vale a pena ser.

As palavras penetraram a mente do jovem, o significado delas o abraçou com força, fincando as garras em sua pele, impedindo-o até de respirar. Ciel permaneceu olhando para frente, mas sem realmente ver alguma coisa. Estava perdido em seus pensamentos. “O que eu quero? O que eu quero? O que eu realmente quero?”, o jovem repetia essa pergunta para si mesmo. É tão complicado ser jovem. Tudo parece estar sempre à flor da pele. É como se existisse uma força dentro de si que o dominava. Dominava seu corpo e seus pensamentos, o obrigando a agir e a pensar de uma forma que destoava completamente do habitual, o levando a ter desejos que iam contra tudo o que acreditava, contra as regras sociais, contra regras suas, contra seus próprios conceitos de moral e amoral, de certo e errado, e, por mais que tentasse resistir, se é que realmente queria resistir, acabava sendo aprisionado pelo desejo em sua forma mais poderosa.

Sebastian apenas observava o adolescente. Ciel ainda não olhara para ele, mas sua respiração se alterara um pouco, estava levemente ofegante. O jovem devia estar travando uma batalha em sua mente. Era claro que tantas informações, tantas mudanças, tantas descobertas era muita coisa para sua consciência de dezessete anos. O homem decidiu esperar que o jovem falasse, e esperava que a decisão de Ciel fosse positiva, levando em consideração o futuro que aguardava o menor, precisava que, pelo menos, o jovem o aceitasse a seu lado.

Ainda sem olhar para o homem sentado no banco do motorista, Ciel falou.

– Pensei que não fosse gay.

– E não sou. Se me perguntasse se sou hétero, a resposta seria não. Se me perguntasse se sou bissexual, a resposta ainda seria não.

– Então é um mentiroso.

– Se dissesse que não minto, estaria mentindo. Mas eu disse a verdade, embora a verdade, no meu caso, seja complicada para você entender. Por isso eu lhe disse que você fez a pergunta errada. O que você realmente queria saber?

Ciel pensou um pouco.

– Você... – Ciel olhou para Sebastian – Você gosta de mim?

A pergunta saiu num sussurro adorável de tão inocente que foi.

– Sim.

– Gosta como?

– Assim...

Sebastian soltou seu cinto de segurança e aproximou-se do rosto de Ciel, beijando-o ternamente. Um beijo casto, quente e macio. Demorando-se o suficiente para sentir os lábios do jovem queimarem sobre os seus. Afastou-se devagar, admirando os olhos ainda fechados de Ciel. Dois orbes azuis fitaram-no de um modo intenso. Aquele olhar profundo que ele conhecia tão bem. Os únicos olhos que lhe importavam.

Ciel achou que estava enlouquecendo. Odiava se sentir tão vulnerável. Odiava não ter o controle sobre si mesmo, pois era assim que parecia estar quando tinha Sebastian ao seu lado, sem controle. Não controlava seus sentimentos, seus pensamentos, seus atos. Acabava fazendo coisas que, em outras situações, jamais faria. Coisas insensatas e que colocavam em cheque seu orgulho. Coisas como passar para o banco de trás do carro e sussurrar no ouvido do outro “Vem aqui”.

Inapropriado.

O Ciel Valentine de uns dois meses atrás jamais imaginou que faria isso. E se alguém lhe disse que o faria, com certeza, esse alguém levaria um soco. Provavelmente diriam: quem é esse? Não é o Ciel que conheci.

Sebastian foi para o banco traseiro, afastando a caixa de cupcake para o lado. Sentou-se ao lado de Ciel e esperou o próximo passo do garoto. Ciel era sempre surpreendente. Às vezes, Sebastian se perguntava quem seduzia quem.

Meio hesitante, o jovem ergueu as mãos, segurando o rosto do mais velho. Puxou-o para si, iniciando o beijo. Este começou lento e doce. Era como se os dois apenas degustassem o sabor do outro. E, à medida que descobriam gostar, saboreavam mais e mais. Sebastian explorava cada canto daquela boca jovem, notando como a língua inexperiente do menor aprendia rápido. Era o único momento em que um pecador condenado como ele podia experimentar o céu. Ciel era a luxúria e a inocência, a pureza e o pecado. E por isso lhe era tão desejável.

No carro era desconfortável. Mas pelo menos no banco de trás podiam ficar próximos, como ficaram na sala do piano. As respirações estavam descompassadas, o calor emanava dos dois corpos. Ciel não sabia ao certo quanto tempo se beijaram, mas quando sentiu sua respiração ficar perigosamente sôfrega, uma parte de sua consciência voltou a trabalhar. Seu corpo ardia, cada toque de Sebastian o arrepiava, com muito esforço, segurava uns gemidos traiçoeiros que tentavam escapar de sua boca. Os mínimos movimentos o provocavam. Estava indo longe demais. Não estava pronto pra isso. Quebrou o beijo. Sebastian, no entanto, seguiu beijando seu pescoço. Tentador. Podia sentir o cheiro agradável do pescoço do homem. Quando abriu os olhos, deparou-se com a caixa azul do Darjeeling, voltou completamente a si.

– Espere. Para... Eu preciso ir. – Sebastian o olhou meio desapontado. – É sério.

– Mas você não vai me ignorar e sumir por mais uma semana, vai? – Ciel sabia que na verdade, Sebastian o perguntava se ele ainda tinha dúvidas. As dúvidas que o fizera evitar o mais velho várias vezes. Mas depois desses beijos, depois de consumar o erro e tornar a cometê-lo deliberadamente, ignorar e fingir que ele, Ciel, não fizera nada, seria muita hipocrisia de sua parte.

Ciel abriu a porta do carro e saiu.

– O que houve? – O homem também saiu do carro.

– Eu vou a pé. Por favor, não me impeça. – precisava de um tempo pra pensar – Eu não vou sumir. Eu prometo.

– Não precisa me prometer nada, Ciel. Eu espero você. – acariciou o rosto do jovem e inclinou-se para beijá-lo.

– Aqui não, seu idiota, ficou louco? – disse empurrando o outro.

– O que foi, tem vergonha de assumir?

– Não é isso. Eu ainda estou de uniforme, imbecil.

– E?

– Há guardas rondando as ruas, se me virem com você, você pode ficar encrencado. Eu ainda não tenho dezoito.

– Está preocupado comigo?

Sebastian começou a rir. Ciel corou emburrado.

– Tá! Cala a boca e anda logo. – era uma permissão. Sebastian o beijou. Pretendia dar um beijo breve, mas o próprio Ciel quis que demorasse mais um pouco. Um beijo apaixonado e carinhoso.

Dois ou três desconhecidos que passavam pela rua viram, e levando em consideração a pouca predisposição dos ingleses mais tradicionais para aceitar qualquer coisa que inflija as regras convencionais, já dá para imaginar a reação deles. No entanto, alguém que não deveria vê-los, viu.

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– Se eu pudesse morrer, certamente morreria de tédio. – suspirava.

– Do que você está reclamando? Não se cansa de tanta matança? – exibia um sorriso maldoso.

– Olha só quem fala... Isso aqui está um tédio! Acaso já escolheu sua próxima vítima?

– Sim.

– Ótimo! Quer que eu chame os kroboros?

– Ainda não. Não é o momento certo de capturá-la. O maior prazer está em deixar o inimigo em pânico. Ninguém faz ideia de quando atacarei novamente.

– Aff... Ajudar você é divertido, afinal você é bem cruel, gosto disso. Mas que demora pra escolher as “felizardas”... Diga quantas quer e eu as trarei, poderá se divertir com os gritos.

– Embora a proposta seja tentadora, sabe muito bem que não pode ser qualquer uma.

– Sei... Mas o que pretende com isso? Afinal... todas vão morrer mesmo.

– Não me entenda mal, mas, sua raça não é exatamente confiável. Acha que não sei que você tem seus próprios motivos para me ajudar?

– Que seja.

– Se carnificina é o que deseja, solte os kroboros na cidade. Não entendo porque insiste neles, eles acabam sendo mortos mesmo.

– Porque eles comem apenas os corpos... Embora seja realmente frustrante a falta de cuidado próprio deles. Como esses idiotas podem ser pegos tão facilmente?

– Não é irônico? Cães humanos enfrentando cães infernais. O engraçado é que até agora nenhum deles morreu, mas a sua matilha demoníaca é dizimada mais rápido do que consegue convocá-la.

– Tsc... Pois bem, soltarei os kroboros que estiverem mais famintos e os seguirei. Quem sabe a matilha real não diminua.

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Ventava muito na manhã de terça-feira, talvez chovesse. Ciel estava a um quarteirão de casa quando um ford prata parou ao seu lado. Para sua surpresa era Amanda.

– Podemos conversar? – a loira perguntou sorrindo, Ciel estranhou, afinal de contas a mulher nunca pedira para falar com ele.Não sem a presença do Sebastian. – Eu não mordo.

– Tudo bem. Pode falar.

– Aqui não. Entre; vamos a outro lugar, não se preocupe, não vamos demorar e depois te deixo perto da escola.

A mulher destravou a porta do carro e Ciel, ainda desconfiado, entrou. Foram a um café na zona leste da cidade. Sentaram-se em uma mesa que ficava do lado de fora. Ciel esperou que a mulher conversasse. Poderia ser qualquer coisa. Mas provavelmente seria sobre Sebastian, afinal ela pegara os dois naquele domingo. Ciel até pensou que ela contaria algo a Liza, mas pelo visto, não havia dito nada. Se tivesse contado, Elizabeth já teria feito um estardalhaço.

– Eu sei que você não gosta muito de mim, mas não há razão para isto. – a loira começou. – Quanto ao domingo, não pretendo dizer nada a ninguém. Não cabe a mim, julgar ou me intrometer na vida romântica dos outros. Sou grata por cuidar da Liza e tenho uma dívida com você. – a mulher ficou séria e depois prosseguiu – Quer saber quem realmente o Sebastian é? Ele não dirá facilmente a menos que o force.

– Não está brincado comigo?

– Não. Deve saber que perigos rondam Liverpool e não só aqui, em toda Inglaterra. Perigos que as pessoas comuns nem sonham. Um psicopata... Não é tão simples assim. Sebastian jamais lhe contará toda a verdade. Só fará isso se não tiver escolha. Te darei essa oportunidade, mas ela será única. Não poderei fazer isso novamente, se não aceitar fazer o que eu disser, continuará sem conhecer o verdadeiro Sebastian.

– O que quer que eu faça?

– Deverá ir até minha casa, apenas isso. Quarta-feira às oito horas da noite. Agora, preste atenção nas instruções. Não conseguirá falar comigo ou com Sebastian o dia todo, mas estaremos lá a essa hora. Deixarei o portão dos fundos apenas encostado, entre por lá e vá para a piscina, a porta de vidro estará aberta. Siga o corredor à esquerda, suba as escadas e entre na quarta porta. Pode escolher ir ou não, mas para mim, não fará mais diferença. – seu tom era meio tristonho ao dizer a última frase. Os olhos âmbar dela brilhavam entre os fios de cabelo platinado que o vento forte teimava em jogar em seu rosto. Amanda realmente falava sério.

– Saberei a verdade sobre o Sebastian?

– Sem dúvida. — Ciel pensou um pouco. O vento sacudia as toalhas das mesas. o tempo estava ficando frio.

– Eu irei.

– Que bom. Vamos, te levarei para Nottingham.

Amanda se levantou e caminhou até o carro. Enquanto a seguia, Ciel viu, por um breve instante, uma estranha tatuagem na nuca da mulher. Quando o vento soprou, o estranho desenho, oculto pelas longas madeixas se revelou. Não conseguiu ver bem o que era, mas lhe pareceu ser uma estrela. Quando o deixou em frente à escola, lhe disse: “Cuide da Elizabeth pra mim.” Não era necessário pedir.

Passou o resto do dia imaginando o que poderia encontrar lá. Ou o que Amanda e Sebastian escondiam. Ficara até tarde fazendo um maldito dever de química e fora dormir com a mente esgotada.

Na dita quarta-feira, Ciel levantou cedo. O dia amanheceu horrível. Chovia e o céu ameaçava desabar em uma tempestade maior ainda.

Dimas não apareceu na escola e a senhora Helen Wilson, a mãe de Liza, veio buscá-la mais cedo, pois havia pegado um resfriado. Liza parecia cansada e abatida. No fim do dia, ainda chovia. Ciel segurava o guarda-chuva com força, mas não adiantava muito, estava encharcado. Deparou-se com uma pequena figura ao longe parada no meio da chuva. Evelyn. Correu até ela.

– O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? – quase gritava para ser ouvido em meio ao barulho da chuva.

– Ciel! Não deveria estar aqui.

A menina pareceu preocupada. De repente, Ciel teve uma sensação estranha.

– Quem está aqui perto, o assassino ou os kroboros?

– Não pode chegar perto... Estes estão famintos.

– Evelyn, você sabe quem é o assassino, não sabe?

A menina fez uma expressão estranha.

– Sei, mas não posso dizer. Você tem que descobrir. Além do mais, acho que não vai gostar de descobrir...

– Pensei que estava aqui pra me ajudar.

A menina deu um gemido, aparentemente pesando os prós e contras. Era estranho, Ciel podia ouvi-la bem, mesmo mantendo o habitual tom calmo de voz e mesmo com a chuva.

– Basta que saiba que há uma criatura perversa, faz uma vítima após a outra. Quando mata uma, já escolhe a outra. Seus propósitos são mais sórdidos do que pode imaginar... Essa não, um bebê! – Ciel não entendeu bem, mas notou que a garota deve ter percebido algo. Ela saiu correndo e Ciel foi atrás dela. Largou o guarda-chuva, afinal, já estava molhado mesmo. Os pingos de chuva eram tão fortes que doíam na pele.

Deviam estar se aproximando, pois ouviu um grito. Assustou-se ao ver um homem vir correndo em sua direção gritando por socorro. O jovem paralisou ao ver o Estranho de Olhos Verdes aparecer do nada e atravessar o corpo do cara com uma espécie de lança. O pobre homem, por mais incrível que possa parecer, se desfez produzindo vários raios de luzes que cegaram Ciel por segundos.

– Você não pode fazer mais nada por este. – o estranho falou com desprezo, como se o garoto tivesse culpa de algo – Mas a outra humana ainda está viva.

O de olhos verdes apontou para uma viela, Ciel pensou em discutir, mas Evelyn gritou.

– Por aqui, Ciel. – os dois correram lado a lado.

Era difícil enxergar com aquele aguaceiro e os trovões violentos provavam que a chuva não passaria tão cedo. O adolescente encontrou três kroboros arrancando com os dentes pedaços de carne do corpo de um homem. Mas o quê?! Era o mesmo homem que vira desaparecer. Estavam tão concentrados em devorar e dilacerar o corpo que não notaram o garoto. A cena era tão terrível que sentiu seu estomago embrulhar. Imagina-se que um animal feroz faria algo assim, mas ver um humano, pois tinham a forma humana, fazer isso era aterrorizante.

– Rápido! – Evelyn chamou.

Ciel viu mais ao fundo, uma mulher de cabelos castanhos tentando proteger seu bebe de uns dois ou três anos dos devoradores. Seus braços estavam cheios de arranhões, usava o corpo como escudo e tentava afastá-los com um guarda-chuva fechado. Ela já teria desistido se estivesse só, mas não queria que seu bebê acabasse como o marido.

Sem pensar muito, Ciel pegou duas facas de cozinha que escondera nas meias e atirou nos kroboros. A faca acertou as costas de um deles, mas deslizou e caiu no chão sem causar ferimento algum. O jovem amaldiçoou sua péssima pontaria.

– Deixe-a em paz! – deu a ordem com autoridade e toda coragem que possuía. O plano era afastá-los da mulher para que esta pudesse fugir, mas não fazia ideia do que faria depois.

Os kroboros se viraram para ele furiosos, a aparência humana os deixava mais assustadores, os olhos ficavam cada vez mais negros, os dentes pontiagudos saltavam de suas bocas como presas de um lobo faminto e produziam um rosnado grotesco, semelhante a um cão raivoso.

Ciel apertou a faca com força. Era uma arma deprimente para usar contra demônios devoradores de carne, ele sabia disso, mas foi o melhor que conseguira. Quando pegou a faca e escondeu na mochila, achou que era a ideia mais idiota do mundo, mas agora desejava ter escondido uma arma melhor, se tivesse. O primeiro ameaçou atacar Ciel, o garoto cortou lhe o rosto, o que deixou o demônio mais furioso ainda. Os outros que devoravam o homem viram a confusão e caminharam em direção aos dois jovens, encurralando-os. Felizmente, a mulher conseguira escapar com o bebê, mas não fazia ideia de como ele e Evelyn escapariam.

– Eu estou com você. Não se preocupe. – disse a pequena. Muito reconfortante, o que uma menina pequena como ela poderia fazer? Eles eram muitos.

O bando saltou sobre eles, mas de alguma forma, não conseguiam tocá-los. Era como se algo os impedisse... uma barreira. Evelyn estava fazendo isso? Provavelmente sim. Ciel esticou a mão para segurar o braço da menina.

– Fica perto de m...

– Não pode me tocar!! – a menina falou alarmada tentando se afastar, tarde demais.

Nos breves segundos em que tocou a pele da menina, Ciel vira um flash de imagens desconexas. Uma casa antiga. Três lápides. Um anel. Uma carta. Um jardim. Uma árvore com balanço. Uma mulher de longos cabelos negros. Um selo real. A menina e o corvo. Um incêndio... e dor, muita dor.

Sua visão ficou turva. Evelyn tinha sumido. Sua cabeça parecia prestes a explodir. Caiu sobre os joelhos, a chuva atingindo suas costas com força. Sentiu que estava morrendo.

Morrendo...

– Afastem-se dele! – o garoto ouviu uma voz feminina gritar. Mas não era Evelyn. Ouviu tiros e um par de coturnos pousar ao seu lado.

Os estampidos invadiam sua cabeça, impedindo que a sensação de letargia o dominasse. Tentou focar a visão e enxergou a mulher de vestido verde escuro cheio de babado contrastando com a jaqueta vermelha de couro. O peso do vestido molhado limitava seus movimentos, mas lutava e atirava neles com incrível agilidade, tentando mantê-los longe de Ciel. Um dos kroboros segurou a ruiva pelo pescoço, sufocando-a.

– Eu vou quebrar o seu pescoço vadia. – a mulher tentava se soltar.

Ciel agarrou o guarda-chuva da mulher do bebe e acertou a cabeça do demônio com toda força que tinha. O kroboro soltou a ruiva. Outro devorador atirou Ciel contra a parede. O garoto sentiu um forte dor nas costelas e não podia respirar direito. A mulher levantou atirando neles. Quando as balas os atingia, os devoradores desapareciam como poeira.

– Ad Infernum! Sumam cães malditos! Voltem para o inferno! – começou a atirar com as duas pistolas compulsivamente até acertar o último. Tremia, não sabia se de medo, adrenalina ou raiva. Provavelmente os três. – Droga! Estraguei outro uniforme. – olhava para o vestido rasgado e sujo de sangue.

A mulher correu para o adolescente.

– Ciel, você está bem? O garoto tossiu, tinha um filete de sangue saindo da boca, não conseguia respirar direito. Levantou os olhos para a mulher.

– Ruby...

E desmaiou.

Quando recobrou a consciência, estava num quarto completamente desconhecido. Era pequeno e cheio de ursos, bonecos, pôsteres de desenhos, filmes, atores e sei lá mais o quê. Ouvia vozes no corredor. Ruby falava com um homem.

– Por que o trouxe pra cá? – a voz tinha um sotaque estranho.

– Queria que eu fizesse o quê? Que o deixasse lá pra morrer?

– Nós é que vamos morrer? Porque ele não acorda?

– Ele bateu a cabeça. Acha que devemos levá-lo ao hospital?

– Vão nos fazer perguntas e vamos dizer o quê?

Enquanto os dois discutiam. Ciel viu as armas de Ruby sobre a escrivaninha. Ainda chovia torrencialmente, mas lá fora estava mais escuro ainda. Olhou no relógio de pulso. Sete e dez. tinha que chegar a casa da Amanda depressa.

– Acho melhor deixá-lo aqui até decidirmos o que fazer.

Nem pensar. Ciel levantou-se com dificuldade, pegou uma das pistolas de Ruby, pareciam aquelas armas antigas de colecionador. Escondeu a arma no colete do uniforme e saiu pela janela usando a escada de incêndio. Quando os dois notassem que o garoto havia fugido, ele já estaria longe.

Caminhou perdido pelas ruas, a chuva parecia querer desfazer tudo em água. Havia relâmpagos e trovões a todo o momento, era imprudência continuar ali. Procurou uma sacada e ligou para um táxi. Com muita relutância o taxista veio buscá-lo e o deixou em uma rua próxima a casa da Amanda. O homem, apreensivo, perguntou se não deveria levá-lo a policia ou ao hospital, vendo o estado do jovem. Ciel declinou.

Estava extremamente frio e uma sensação terrível começava a apoderar-se de seu corpo. Não sabia se era consequência do encontro com os kroboros ou se era efeito do contato com Evelyn. E o que teria acontecido com ela? Preferiu se concentrar em chegar a casa da Amanda; temia o que poderia encontrar ou descobrir. Talvez fosse só uma brincadeira da Amanda ou se fosse uma armadilha dela... Pelo menos estava armado. Isso era loucura. Mas qualquer um com certeza agiria da mesma forma se passasse por tudo aquilo.

Ciel chegou à casa da Amanda. O portão dos fundos, assim como a porta de vidro que dava acesso a piscina, estava aberto, exatamente como a loira dissera que estaria. A casa estava iluminada e silenciosa. O barulho dos trovões ecoava pelos cômodos. Tentou lembrar-se das instruções de como encontrá-la. Saiu da sala seguindo um corredor para direta. Encontrou a escada que levava ao andar superior. Subia os degraus o mais silenciosamente possível. Chegou ao corredor do andar superior, no qual havia várias portas. Uma, duas, três, quatro. A quarta porta era a que deveria entrar. Estava ofegante e apreensivo, não sabia exatamente o que o esperava.

Chutou a porta com força. Invadiu o quarto com a arma de Ruby em mãos, o dedo no gatilho. Pronto para atirar.

Sebastian estava de costas, de pé no espaço entre a cama e a janela do quarto. Tinha o corpo inerte de Amanda nos braços. Ela parecia usar um vestido simples de seda, azul claro, ou talvez fosse apenas uma roupa de dormir. O homem virou-se. Ouvia-se apenas a chuva.

– Ciel?!

Estava realmente surpreso. Não entendeu o que o garoto estava fazendo ali.

– O que está fazendo com ela, Sebastian? – sua mente estava a mil. Pensava inúmeras coisas ao mesmo tempo, muitas possíveis respostas, algumas assustadoras demais para ser verdade. Mas sentia naquele quarto uma sensação indesejável, ameaçadora. O ar estava perigosamente pesado... Perverso.

– Eu posso explicar...

– Não se aproxime. – Ciel apontou a arma pra ele. Seu coração palpitava. Sebastian o olhou de um jeito enigmático. Sorriu.

– Vai atirar em mim? – perguntou em tom incrédulo.

– Meu pai é policial. Acha mesmo que não sei usar isso? Se for preciso eu atiro. Agora, coloca ela na cama. – Ciel apontou a cama com a cabeça, sem tirar o cano na pistola do alvo. Sebastian permaneceu parado, estreitou os olhos perigosamente. – Eu mandei colocá-la na cama... AGORA!

– Como desejar.

Sebastian colocou Amanda sobre a cama.

– Agora se afaste.

– Ciel...

– Eu falei pra se afastar. Pro canto... Anda Sebastian!

Sebastian percebeu que não seria prudente discutir, o jovem estava visivelmente transtornado. Foi para o canto indicado. Ciel ainda o mantinha na mira.

Quando o moreno se afastou, Ciel caminhou até a cama. Segurou a pistola somente com a mão direita e com a esquerda segurou o ombro da loira. Ainda estava quente.

– Amanda? – sacudiu-a – Amanda? AMANDA!

– Ela não pode mais escutá-lo...

– Pare! – voltou-se para Sebastian, este deu um passo para trás. Ciel segurou o pulso da mulher, não havia pulsação. Estava morta. Claro, por que Amanda o procuraria para contar algo, por que a tristeza? Talvez soubesse que estava em perigo. Sentiu uma angústia, não pela morte da loira, mas pela ideia de quem era o possível assassino. Engoliu em seco e olhou para Sebastian. – V-Você a matou? – não, não podia ser Sebastian... Ele não faria isso... Faria? – Você a matou? O que ia fazer com ela, Sebastian? RESPONDA!

Sebastian permanecia impassível.

– Prefere que eu minta ou diga a verdade?

– Meu deus, Sebastian! Por que, infernos, você fez isso?

– Porque escolhi você.

– Quê?! Eu não pedi isso!

– Não, ela pediu.

– Você é louco?! O que ia fazer com ela? Sebastian, o que você ia fazer com o corpo dela?

Sebastian continuou olhando-o enigmaticamente e sorriu de um jeito perverso. Nesse momento Ciel lembrou-se de muitas coisas.

“Aquele que todos procuram está mais perto do que imagina. Fingir é sua maior habilidade”.

“Há uma criatura perversa, faz uma vítima após a outra. Quando mata uma, já escolhe a outra. Seus propósitos são mais sórdidos do que pode imaginar.”

Não pode ser Sebastian. Ele sabia dos kroboros, mas como? Como sabia de todas aquelas coisas? Não quisera lhe contar. Por que não? Será que o homem com quem estivera todo esse tempo poderia ser tão cruel assim? Tão... Tão... Desumano.

– Sebastian... Você é o serial killer?

– E se eu for... O que você vai fazer? – o homem falou do canto escuro. O jovem permaneceu calado. Sebastian começou a andar na direção do adolescente, com uma cautela admirável, quase provocante. – Tudo o que eu lhe disse até agora foram meias verdades, e você sabe disso. No entanto, agora, você não pode ter certeza do que foi verdade e do que foi mentira. Você não sabe muito sobre mim. De fato, nada além do que eu lhe contei. – Sebastian chegava cada vez mais perto, Ciel não abaixou a arma – E depois que nos tornamos próximos, você não insistiu em saber. Por quê? Eu respondo: no fundo, você temeu a minha resposta. Todo o seu corpo, de alguma forma, lhe diz que eu sou uma ameaça em potencial, mas você, talvez exatamente por isso, se sente atraído por mim. Porque todos aqueles que vêm a mim, de uma forma ou de outra, desejam a morte. E você, meu caro Ciel, jamais poderia resistir ao desejo de prová-la. – Sebastian parou quando o cano da pistola tocou sem peito, se o jovem atirasse, seria impossível desviar – Sendo assim, se a morte daquela mulher lhe afeta, se o seu desejo por justiça for mais forte do que seu sentimento por mim, atire. Atire, que eu nem mesmo tentarei desviar.

Ciel o olhava com uma expressão furiosa.

– Tsc... – Ciel fez irritado. Agarrou a gola da blusa do maior puxando-o para um beijo. Abaixando a mão que segurava a arma.

Sebastian abraçou a cintura do jovem aprofundando o beijo. Podia sentir um leve gosto de sangue nos lábios do menor. Surpreendeu-se ao sentir Ciel tocar sua pele sob a camisa. O conduziu até a parede sem quebrar o beijo, as línguas se tocando com urgência. Encostou o rapaz na parede, comprimindo seu corpo. Inesperadamente, Ciel mudou as posições, pressionando Sebastian na parede e apontando a pistola, que ainda não havia soltado, para a têmpora do moreno.

– Danem-se todos! Agora... – disse o jovem dando um selinho no maior – Você vai me dizer exatamente quem você é.

– Quer mesmo saber? – Sebastian sorriu profundamente satisfeito. Como aquele garoto conseguia provocá-lo daquele jeito? – Quem eu sou? Sebastian Michaelis... Akuma.

– Quê?!

Ciel não entendeu a última palavra. Sebastian deu seu clássico sorriso, mas com um acréscimo, seus olhos brilharam vermelhos como sangue para espanto do garoto.

– Buh! – disse o homem, as luzes se apagaram e Ciel não pode mais sentir o homem a sua frente. Olhou em volta, mas tudo que via era a escuridão. Vez ou outra, a luz dos relâmpagos iluminava o quarto, mas tudo que seus olhos discerniam eram os móveis e o corpo de Amanda sobre a cama. – Tsc, tsc... Sempre impaciente. Não era o momento certo, mas agora terei que apressar as coisas.

– Do que você está falando, idiota. Pare com essa brincadeira!

– Está com medo, Ciel?

– Não seja ridículo! – bufou. – O que pretende com isso?

– Está na hora de explicar algumas coisas. – Ciel girou nos calcanhares, não conseguia ver nada. A última coisa que sentiu foi Sebastian segurá-lo por trás, tapando sua boca e seu nariz com a mão e um lenço. Tentou gritar, mas não conseguiu. – Shiiiiiii... Acalme-se minha criança, vai ficar tudo bem. – Sebastian beijou-lhe pescoço. Ciel sentiu um odor mortífero e a sensação de letargia dominou seu corpo novamente. Porém, desta vez, não ouve imagens, apenas a escuridão.

Era como desfalecer nos braços da morte.

Notas finais
Bom...é isso....depois desse capitulo as explicações virão e os personagens secundários terão mais espaço

Parabens para quem adivinhou que a mulher dos coturnos era a Ruby^^

E agora, qual são as hipoteses de vcs? o_O

O Aeroporto John Lennon realmente existe, tudo em Liverpool é meio temático..sobre os Beatles, claro.

desculpe não fazer uma nota descente...quero postar logo isso...estou a um tempão esperando esse momento de finalmente entregá-lo a vcs...

espero que tenham gostado..por favor comentem

beijo a todos que leram até aqui e até o 12. UFFA!

Tai Bluerose =^.^=