Phaeleh I
44 Capítulo 44 – Confissão
Notas iniciais
Svan tinha suas mãos sob o queixo, inclinado para frente de sua mesa de carvalho em seu escritório. Seu olhar estudava seu melhor amigo, Wray.
— A busca não teve uma conclusão. – Wray respondeu em um murmúrio. Sentia-se tão perdido como nunca desta vez. Sua sabedoria, que sempre tinha beneficiado os outros, não foi o suficiente para lhe ajudar em um momento como este. – A única informação que temos foi a do bar além das nossas propriedades. Um local de seres misturados, sem legalização alguma. – Agora um jarro com hidromel lhe cairia muito bem.
Seu líder estava pensando enquanto lhe dava um olhar analisador. Devia ser estranho para ele, já que Wray não estava conseguindo mascarar sua tristeza com o desaparecimento de Skylar.
Todos esses dias, Wray tinha estado segurando a sua preocupação, a sua dor… pensar no que Skylar estava fazendo, ou no que diabos lhe aconteceu. Tudo parecia tão estranho. E, de acordo com as informações que obteve daquele maldito bar que deveria ser demolido, agora seu coração estava ainda mais fragmentado.
— E qual seria essa informação? – Svan ergueu uma sobrancelha para ele.
Wray engoliu, lutando para não ter suas emoções aflitas acima dele neste momento.
— Disseram que ele bebeu muito e saiu com duas mulheres…
— Está tudo bem, Wray? – Svan se levantou devagar de sua poltrona e se moveu para frente da mesa, seus olhos nunca o deixando. – Você parece… um tanto incomodado com este assunto. Acaso me esconde algo?
Seu lábio inferior fora sugado por entre os dentes com a pergunta do líder.
Merda.
Wray era tão sábio, tão tranquilo e compreendia tão bem as pessoas. Por que o único a lhe deixar à beira dos nervos era Skylar? Mas, agora... não parecia tanto como antes, parecia insuportável.
— Eu estou bem.
— Não, você não está. – Svan torceu as sobrancelhas, mas não tinha uma carranca assustadora. – Você está chorando? – Disse em surpresa.
Os olhos de Wray se arregalaram. Imediatamente ele se virou de costas para Svan e esfregou seus olhos contra a manga da camisa branca que vestia.
— Não me dê as costas, Wray! – A voz imponente do líder ecoou pelo recinto.
— Eu não estou chorando.
— E o que maldições são as lágrimas em seus olhos?
Wray se virou lentamente e olhou duramente para Svan.
— Eu não estou chorando.
O suspiro do líder Berserker foi longo e ele se recostou contra sua mesa, cruzando os braços sobre o peito.
— Tudo bem. Mas ainda não me convenceu. Está agindo estranho… ultimamente tem evitado qualquer assunto relacionado a Skylar, e mesmo quando digo o nome dele, você estremece. Pensa que não posso perceber?
Wray desviou do olhar quente e fuzilante de Svan. De verdade ele estava muito, muito aflito por saber que Skylar tinha fugido. Mas por quê? Com quem? Por qual motivo ele faria isso? Justo quando mais precisavam dele.
Permaneceu em silêncio, não sabendo o que realmente responder ao seu amigo. Sabia que Svan não era um homem que aceitava bem estar apenas curioso, ele buscava ao máximo possível encontrar as respostas quando desconfiava de algo.
— Skylar deixou o vilarejo. Não se preocupa pelo que deve ter lhe acontecido?
— Claro que me preocupo. Mas você sabe que não são todos os guerreiros disponíveis para encontrá-lo. Apenas um grupo pode seguir o seu rastro, o pouco que ele deixou… e nada foi descoberto além do fato que ele bebeu em um bar clandestino e ficou com duas mulheres ao mesmo tempo.
Wray apertou suas mãos em punhos e olhou para os seus pés, franzindo o cenho.
— Diga para mim o que tanto te incomoda, Wray. Você sempre me ouve, sempre me aconselha… Toma conta de Meine, além de me auxiliar em meus assuntos particulares. Será que eu não sou capaz de ouvir-te também?
Não, por favor.
Wray não queria expor seus sentimentos. Ele sabia que o que Svan estava lhe dizendo era verdade. Mas ele simplesmente não achava que podia abrir a ele um assunto tão profundo e sentimental do qual apenas Meine sabia.
Seu amigo elfo era o único que lhe entendia por uma familiaridade incrível e surpreendente. No entanto, Wray não queria que Svan soubesse, que o visse como um fraco. Seria em vão o quanto lutou para ser forte, para estar ao nível desses homens guerreiros. Ser um Berserker, e agora… Wray se sentia cair muito lentamente pelos sentimentos mais profundos em relação àquele guerreiro ruivo com o sorriso cativante, que tinha o seu coração há tanto tempo que ele nem se lembrava.
Notando o olhar de Svan em cima dele, Wray permaneceu em silêncio, ponderando sobre o dever de dizer-lhe ou não. Seus sentimentos eram por demais preciosos para ele, portanto não queria ter de contá-los, nem mesmo a Svan, que considerava tanto. Entretanto, algo em seu mais profundo coçava para ter isso exposto. Para dizer a Svan sobre seus verdadeiros sentimentos e pedir um ombro amigo.
Ele tinha Meine, sabia. Mas Svan… Ele era seu amigo de longa data. Tinha ele o direito de saber sobre quem Wray gostava, e não somente se deixar sofrer sozinho.
Algum dia, essa mesma forma de pensar foi um conselho para alguém, esperava que servisse para si mesmo também agora.
— Svan…
— Você tem sentimentos por ele, Wray? – Svan deixou-lhe surpreso.
Wray tinha. Uma infinidade de amor recolhido em seu peito pelo tempo em que guardou o seu coração a apenas uma pessoa que não o amava. Que assim que experimentou dele um mero beijo, se afastou e preferiu ir para longe a fim de não mais ter de suportar a traição de seu amigo. Cuja amizade sempre foi boa, para então descobrir que ele de verdade o desejava.
Se Skylar notou algo assim naquela vez, seria este um motivo para mantê-lo longe? Ele tinha notado?
— Sim. – Foi o que conseguiu responder.
Svan suspirou outra vez.
— Por que parece que eu já sabia sobre isso? – Ele coçou seu queixo espetando pela barba por fazer. Svan sempre mantinha um pouco de pelos no maxilar. – Nós iremos encontrá-lo, Wray. Mais cedo ou mais tarde.
— Vivo ou morto. – Wray apenas virou sobre seus pés e deixou o escritório, pela primeira vez tão afetado apenas por singelas palavras, por uma porção de pensamentos negativos, que não combinavam com ele. E igualmente como Niels havia feito, ele apenas queria correr para sua casa, seu quarto e então deixar sua tristeza fluir, ao menos com a esperança de acalmar este sentimento.
—*-*-
Rurik estava estranhando tudo, com certeza.
Ele acordou pela terceira vez consecutiva em seu sono leve. Não era por desconforto, a cama em que estava era tão maravilhosa, o que lhe pareceu um bocado de esquisito, desde que ele esteve toda a sua vida dormindo em um tapete velho. No máximo ele teve um gostinho de dormir próximo a Niels, naquela cama macia. E embora tivesse sido tão bom… poxa, não se comparava com esta cama enorme, de lençóis de algodão branco e cheirosos, e tantos — mais tantos — travesseiros de pena de ganso.
Fyren ensinou a ele uma porção de coisas naquele mesmo dia em que chegou, porém infelizmente ele não teve a atenção necessária porque estava muito cansado. Ele deitou quando o sol já havia se posto, dormiu por algumas horas e acordou vezes depois disso. Simplesmente por estar em um lugar diferente. Com aromas diferentes, pessoas estranhas, mesmo sabendo que sua porta estava trancada, tinha uma leve impressão de que poderiam invadir o quarto e assustá-lo a noite.
Ele não quis se sentar, apenas permaneceu afundado naquele monte de travesseiros. No entanto, foi perturbado quando alguém bateu a sua porta. Imediatamente cada pelo do corpo de Rurik se eriçou. Deixou a cama muito lentamente. Vestia apenas uma calça de linho branco, enquanto seu peitoral esguio permanecia nu.
— Quem é? – Ele sussurrou contra a porta, mas o indivíduo não pareceu ouvi-lo. Apenas permaneceu em silêncio.
Rurik então abriu a porta com cautela. Quase levando um baita susto com Fyren — o oráculo de Darius – parado em frente dele. O olhar do rapaz era estranho, um pouco avaliativo, mas Rurik notou algumas faíscas de medo, de timidez. Ele tinha suas mãos pra trás, seu cabelo estava solto e um pouco fora do normal, mas isso não o fazia menos belo.
— Te acordei?
Rurik sabia que sua aparência estava terrível. Seus cabelos ruivos já eram difíceis de lidar, e ainda mais que ele esteve dormindo, agora estavam pior e ainda mais rebeldes .
— Não, eu não estou conseguindo dormir direito. – Rurik deu espaço para Fyren entrar. Ele não o tinha convidado, mas o elfo quis mesmo assim.
— Não está confortável? Este é um dos melhores quartos de hóspedes. – Fyren lhe perguntou curioso.
— Não! Não é isso… – Ele olhou para suas mãos nervosas. – Apenas, porque me sinto estranho em um lugar diferente, e quão diferente do que eu costumava ter. – Fyren recostou a porta e então trancou-a.
— Você tem marcas. Estas cicatrizes… – Ele olhava para o seu dorso, o que fez o ruivo se encolher, e em um momento, se exasperar. – Onde as conseguiu?
— Não foi nada. – Disse entre os dentes. Ele tinha um passado do qual preferia não se lembrar. No entanto, os olhos de Fyren foram estranhos depois disso, não soube ao certo qual foi a diferença, mas algo em torno de Rurik congelou.
— Eu sou um oráculo, se esqueceu? Eu sei muito bem como controlar meus poderes, assim como eu sei exatamente como descobrir sobre estas marcas. – Apontou novamente para o corpo de Rurik. – Eu sinto muito pelo sofrimento que passou.
Rurik tomou uma das peles sobre o leito e cobriu a parte superior de seu corpo, sem realmente ter coragem de olhar em Fyren.
Eles permanecerem em silêncio por algum tempo, o elfo se aproximou da janela e empurrou as cortinas, deixando assim que a luz da lua se infiltrasse no quarto. Quanto ao humano, ele apenas sentou-se à beira da cama e observou pelo canto dos olhos o que o elfo fazia. Ele não parecia uma ameaça, mas ele era aquele tipo difícil de confiar tão logo quando acabou de conhecer alguém.
— Desculpe, eu não me lembro de mais nada do que me ensinou ontem.
Fyren piscou diversas vezes e assoprou o fios lisos fora de sua visão. Quando o encontrou pela primeira vez no dia anterior — o dia em que chegou à cidade dos elfos — Fyren tinha sido estranho, tímido, seus olhos frios e sem brilho. No entanto, agora ele não parecia ser exatamente um ser assustador, era mais como alguém adorável. Rurik se sentiu um pouco mais à vontade, tirando o fato de que era assombroso saber que aquele elfo descobriu tão facilmente o seu passado.
Por mais que Rurik tentasse, ele não conseguia simplesmente controlar as visões quando essas vinham para ele. Era uma coisa completamente fora de controle, que surgia naturalmente no momento em que decidia surgir.
— Eu o ensinarei novamente, não se preocupe.
— Obrigado.
Fyren aproximou-se da cama e sentou-se próximo a Ruriik. O ruivo, no entanto, se afastou e sentou-se quase há um metro longe dele.
— Os deuses me usam. – Ele murmurou. – Sempre me usaram para transferir mensagens ao nosso Rei. Sou o sobrinho de Darius, então sempre tive os melhores ensinamentos, e desde minha infância, eu estive diretamente ligado aos deuses.
Rurik não estava entendendo aonde ele queria chegar lhe contando essas coisas.
— Mas você teve uma vida completamente diferente. Por ser humano, você passou por tantas provações e nem mesmo soube o que elas significavam, mas tudo pelo qual enfrentou teve um propósito, e você certamente foi aprovado a cada etapa.
Uma brisa fria e sobrenatural arrepiou todos os pelos de Rurik.
— Eu já te conhecia antes mesmo que viesse para o nosso reino. – Fyren estava calmo, seus olhos serenos enquanto falava. – Tive uma sequência inteira de visões a seu respeito. E no momento em que te vi pela primeira vez, foi um baque de energia que me deixou confuso.
— Te deixou confuso? – Confuso era Rurik, isso sim.
— Sim. Você tem uma energia muito confusa. – Ele fez um gesto estranho com as mãos. – Algo como uma espiral e vários vórtices ao redor de todas as cores possíveis. Eu me perguntei se quando te conhecesse, eu veria uma pessoa triste e lamentável… no entanto, você é uma mistura de todos os sentimentos bons, e sentimentos ruins dos quais você luta para suportá-los, para superá-los também.
O ruivo não estava bem entendendo onde Fyren queria chegar. Ele dizia coisas confusas, mas que de alguma forma faziam sentido e eram verdadeiras. Então Rurik apenas o deixou falar.
— Eu creio que você poderá aprender bem e rápido o que eu tenho para te ensinar. Apenas há algo em você que provavelmente atrapalhará.
— E o que seria? – O ruivo ergueu uma sobrancelha.
— Você ama alguém. E este alguém não está aqui por você. – Fyren deu-lhe um pequeno sorriso estranho. Ele parecia o tipo de rapaz que não costumava sorrir muito. Rurik ficou hipnotizado em quão diferente dos humanos ele era, sua beleza rara, sua cor tão clara como Meine, até mesmo os símbolos de cor clara em sua pele. Tudo nele irradiava pureza. – Eu sinto muito.
— Não sinta pena de mim. – Olhou-o de canto. – Eu estou conformado com isso. – Mentiu. E ele sabia muito bem que Fyren sabia, mas o elfo não ousou retrucar.
— Eu gostaria de amar alguém.
Rurik ficou surpreso com as palavras do outro.
— Você nunca amou?
— Da forma como você faz… amar loucamente… não. – Admitiu corando sutilmente suas bochechas.
Rurik não tinha planos de voltar para o vilarejo dos Berserkers quando veio para o Reino dos elfos de luz. Ele tinha estado com muito ódio de Niels, entretanto, agora seus pensamentos estavam tomando outro rumo, e ele sentiu o desejo de voltar. Por que de alguma forma, aquele vilarejo foi o único lugar em sua vida que realmente fez sentir como uma casa, um lar do qual ele pertencia. Seu único motivo de querer sair de lá foi Niels, mas talvez o tempo longe dele, poderia amenizar as coisas.
— Falando nisso, por que veio aqui a essa hora da noite? Também não consegue dormir? – Rurik perguntou ao elfo, que não mais parecia um professor superior a ele, mas sim alguém de sua mesma idade.
— Eu não posso dormir quando minha mente está perturbada. – Dessa vez seu olhar era sério. – Sinto como se os deuses estivessem em dúvida sobre o que dizer para mim e… – Sua voz até agora tinha sido singela, calma e baixa como desde que Rurik o conheceu. No entanto, sua entonação foi alterada de repente e sua voz estava monótoma e sem vida. – Não importa se es um humano. Inclusive os humanos foram criados pelos deuses e dependem deles. Não se sinta inferior, pois es tão precioso quanto os outros seres que um dia te fizeram submisso. Não amaldiçoe os deuses pelo teu dom, ele é necessário, é a chave para muitos problemas.
O rosto do ruivo empalideceu, ele notou Fyren piscar diversas vezes, confuso. Ele fez uma careta e então corou acima das bochechas.
— Você controla esse tipo de coisas também?
— As visões sim, mas os deuses são seres incontroláveis, não é mesmo? – Rurik assentiu. – O que eu posso ensiná-lo, é tentar uma resposta divina, enxergar através da mente das pessoas, ouvir a voz interior de cada um, sentir a aura e a conturbação da alma.
— Uau. – Rurik mal podia imaginar que ele seria capaz de fazer tudo isso. – Se sente melhor agora?
Fyren se encolheu um pouco ao seu lado e assentiu timidamente.
— Eu… eu… – O elfo queria dizer algo.
— Você? – Incentivou.
— Eu vim aqui para te pedir uma coisa.
Rurik ergueu uma sobrancelha, esperando.
— Será que… nesse tempo em que estiver vivendo no palácio, não gostaria de ser meu amigo?
O ruivo ficou paralisado sobre o olhar tímido daqueles olhos heterocromáticos que antes lhe assustavam.
— Está falando sério?
— Hum. – Fyren assentiu, tendo o seu rosto ficando completamente rubro. – Eu não tenho amigos… apenas meu tio Darius, por que ele cuidou de mim.
— Mas em meio a tantos elfos, por que não teve amizades?
Fyren parecia cada vez mais desconcertado.
— Eles… me acham estranho. E você… é como eu. Então, eu gostaria de ter a sua amizade.
Rurik estava comovido com aquele pedido. Fez-lhe lembrar de quando sua amizade com Meine se iniciou.
— Tudo bem. – O ruivo sorriu. – Eu acho uma boa ideia.
Fyren estava boquiaberto e Rurik achou aquela expressão engraçada.
— Quer dormir aqui hoje então? – O ruivo convidou. – Quem sabe com você por perto eu possa descansar mais tranquilo. – Afinal o seu problema era a insegurança, e ter alguém próximo lhe fazia muito menos medroso.
Os olhos do elfo brilharam e ele apenas assentiu. Rurik tinha notado que ele parecia fechado, quieto, preso em seus próprios pensamentos e parecia ter medo de conversar com as pessoas. Isso lhe fez um pouco mais comovido de saber que alguém como ele queria ter a sua amizade, já que era um pouco raro fazer amigos na posição em que sempre esteve.
Novamente aquela voz retumbou em sua mente quando se deitou. Não amaldiçoe os deuses pelo teu dom, ele é necessário, é a chave para muitos problemas.
—*-*-
Aricin estava com o coração na mão. Ele não podia falar, então ninguém poderia exigir nada dele. Mesmo assim, ele estava lutando para não demonstrar sua tristeza.
Skoll iria embora no próximo dia, cuidar de seu vilarejo. Ele tinha deixado os melhores guerreiros e seus irmãos para tomar conta de seu povo e cuidar dos reparos necessários que o povoado precisava. Ele não tinha tido o Phaeleh, mas ultimamente mal tinha se importado com este detalhe. Se perguntou se ele ainda pensava em Meine.
— Oi.
Aricin arremessou sua face em direção da porta da cozinha. Aquele garotinho albino estava lá, tão lindo como era, tão fofo como sempre parecia.
Ele apenas fez um aceno de cabeça, contemplando um sorriso branco de olhos brilhantes de Meine. Ele parecia divertido com sua reação.
— Você viu Wray por ai?
Aricin fez que não com a cabeça.
— Estou procurando por ele… Van me contou que ele estava estranho desde que as buscas por Skylar voltaram. Sabe o que houve?
Aricin não sabia. Ele fechou os lábios firmemente. Porém, tinha alguma ideia.
— Você não fala mesmo Aricin? – Meine se aproximou dele com as mãos para trás. – Eu não consigo imaginar alguém que não pode dizer nada. Por que você é assim?
Como se ele pudesse responder. Contudo, Meine ficou esperando por uma resposta, olhando para sua face e piscando aqueles olhos bonitos e escuros, emoldurados por cílios albinos. Ele era tão bonito. Aricin se sentia tão feio e sem graça. Ele mal podia imaginar por qual motivo Skoll resolveu cuidar dele. Afinal ele era apenas um mero escravo marcado por uma vida dura e cruel, que agora vivia em paz nos cantos da casa de Wray.
Meine se afastou um pouco, parecendo decepcionado de que ele não o tinha respondido. Em seu mais profundo, doeu. Não tinha nada contra Meine, na verdade ele simpatizava com o garoto, e de alguma forma o queria por perto. Queria sustentar a mesma amizade bonita que seu amo Wray tinha com o elfo. Parecia divertido a forma como eles conversavam, riam juntos, saíam para um passeio. Até mesmo quando Wray cozinhava e eles comiam juntos.
Enquanto Aricin se escondia atrás de uma parede e apenas espiava.
Ele tinha inveja, mas ele não era um homem ruim. Ele ainda era humano, desejava ter uma vida de verdade em que fosse normal e aceito. Ele queria poder falar, dizer como se sentia, mesmo que sua voz estivesse tão baixinha e rouca pelas dificuldades de suas cordas vocais.
— Wray me contou que nunca te ouviu dizer uma palavra. Mas eu creio que você sabe falar. – Meine parecia sábio e de verdade era lhe dizendo essas coisas. – Eu vou procurar por ele… – Se virou prestes a sair, mas Aricin segurou a manga de sua blusa.
O elfo se virou para ele surpreso e esperou.
Os lábios de Aricin tremeram.
Ele nem mesmo havia dito qualquer coisa a Wray. Por que diria a Meine?
Seu próprio inconsciente lhe respondeu.
Por que ele é o Phaeleh. Meine era especial. Ele tinha um dom de atingir o coração das pessoas de uma maneira positiva.
— Você quer me dizer algo?
Ele queria? O que ele queria dizer?
Aricin recolheu a sua mão contra o peito e sussurrou, muito, muito baixo, mas que Meine captou.
— Eu… amo…
Oh se Meine não teve seus olhos tão arregalados como pratos. Ele parecia eufórico no momento em que o ouviu.
— Oh por Odin! – Ele gritou, quase pulando em seus pés em euforia. – Você realmente disse… você… você ama? Quem você ama? Wray?
Aricin balançou a cabeça negativamente. Ele gostava sim de Wray, o amava na verdade, como um irmão talvez, mas… o tipo de amor que estava falando era outro.
— Sko… – Ele sussurrou com dificuldade. Ele não pode dizer o nome completamente de Skoll, mas foi suficiente para Meine compreender.
— Você quer que eu diga a ele?
Aricin voltou a balançar a cabeça.
— Não precisa me dizer. Eu ouvi muito bem.
Seu coração congelou. Skoll estava na porta, de braços cruzados e recostado contra o batente. Ele parecia tão bom e bonito, e seu olhar tinha um brilho diferente, de emoção, de carinho…
Aricin não pensou duas vezes, ele tentou correr longe do cômodo, mas suas limitações o fizeram se desequilibrar antes de atingir a outra porta contrária. No entanto, braços fortes e musculosos rodaram seu corpo e o colocaram de pé sem qualquer esforço. Aricin sentiu-se tremendamente envergonhado, por que Skoll não retirou seus braços em torno dele, mas sim permaneceu abraçando-o.
Meine deve ter se tocado, ele saiu da cozinha com uma risadinha baixa e sapeca. Entretanto, isso não afetou Aricin, por que suas emoções eram mais fortes para o que Skoll estava fazendo. Abraçando-o contra o seu corpo grande e quente. Aspirando o cheiro de seu ombro e balançando-o gentilmente.
— Você disse aquelas palavras… você tinha tudo para dizer e escolheu justamente aquelas palavras. – Sua voz era áspera contra a sua orelha. De repente ele virou Aricin em seus braços e olhou firmemente em seus olhos, determinado. – Você vai embora comigo.
O quê?
O olhar de questionamento dele foi suficiente para valer como palavras.
— É o que estou lhe dizendo. Você irá comigo para o meu vilarejo, Aricin.
Mas ele não queria ser amante! Não queria viver como escravo lá, se aqui ele estava tão bem. Embora ele desejasse desesperadamente estar próximo de Skoll.
O amava. Sério? Ele havia dito aquelas palavras? Ele tinha admitido!
Eu nem mesmo sabia que o amava.
Aricin estava de boca aberta. E essa foi a deixa para Skoll simplesmente mergulhar em um beijo que fez o rapaz suspirar em contentamento.
O primeiro beijo que ele realmente gostou.
Foi delirante.
— Eu me contive desde que te conheci… mas sabendo que sou correspondido, não posso ficar parado. – Ele tornou a beijá-lo e deixá-lo sem fôlego. Mas Aricin não sabia o que dizer se não gemer. – Eu vou levá-lo comigo, você será o meu cônjuge.
Cônjuge?
O escravo afastou-se de Skoll, olhando-o interrogativo.
— Você não sabia? Nós de Ulfhednar não temos distinção por gênero em questão de acasalamento. Entretanto, nos preocupamos com a linhagem e os nascimentos, embora haja muitos bebês no nosso bando.
Aricin estava boquiaberto. Ele nunca tinha ouvido falar — além dos elfos — com vilarejos em que homens aceitavam o casamento entre eles na tranquilidade. Skoll de verdade falava sério?
— Venha comigo… eu prometo que te farei tão feliz como nunca foi antes.
Ele nunca tinha sido. Talvez apenas agora depois daquele beijo enlouquecedor.
Que cruel! Aricin estava dividido entre ficar com Wray, ou ser vencido por seu amor por Skoll.
Continua...
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