Phaeleh I

35 Capítulo 35 – A proposta de Darius


Notas iniciais
Miky: Olá meus amores *-* Ufa... finalmente mais um capítulo, esse bem recheado para vocês! Me desculpem pela demora, assim como me justifiquei em Akai Ito, desde semana passada estou apertada em tanta coisa pra fazer, provas, trabalhos, coisas me chateando, aff, heheheh mas estou me esforçando! Espero que gostem! Apreciem a leitura ♥

Svan não perguntou a Rurik porque havia aquela máscara de vida feliz em sua face quando dor exalava por seus poros. O pequeno ruivo parecia querer estar em qualquer lugar que não fosse ali, portanto, antes de entrarem na cabana de Alasd, ele prometeu que pensaria em sua petição com bastante cuidado. Antes, tinha de se desculpar com Niels e então lhe falaria do pedido do escravo.

Assim que seus pés pisaram no mesmo cômodo onde estava Darius, todo o bom humor desapareceu de seu interior e ele encarou seu provável inimigo, pronto para batalhar ou acordar a paz a qualquer momento. Uma coisa que estava fora de cogitação era entregar Meine, nem que para isso devesse sequestrá-lo e levá-lo para algum buraco na terra.

Darius o avaliava, sondando-o, até que Svan se afastou da porta e Rurik entrou em seu campo de visão – ele seria comum em aparência se não fosse ruivo. Tão incrivelmente ruivo, como se os deuses tivessem acendido uma chama e posto em sua cabeça. Ele olhava para o chão, característico dos escravos, mostrando sua subserviência. Darius olhava fixamente para o humano, como se buscasse o mais sutil traço de sua importância divina.

Não havia.

— É ele? – Darius, enfim, perguntou. Seus passos foram firmes, enquanto os de Rurik eram um pouco vacilantes. Ele olhava para o rapaz com curiosidade indisfarçada e um pouco de incredulidade. Svan assentiu com a cabeça.

— Eis nosso Oráculo – falou sem muita animação.

Rurik se encolheu visivelmente quando o Rei dos Elfos de Luz tocou uma mecha de seu cabelo e a ergueu, avaliando-a como se os fios acobreados possuíssem algum indicativo de magia ou algo inesperado. Svan acreditava que era a primeira vez que o via tão interessado em algo além do Phaeleh.

— É tão jovem – comentou, mais para si mesmo do que para os que o cercavam – E é humano. Como pode isso?

O silêncio perdurou entre eles. Rurik uniu as mãos diante do corpo, curvando levemente os ombros. A camisa era grande demais para o seu tamanho e a gola caiu sobre as omoplatas. Darius avaliava cada pedaço do rapaz, inclusive ergueu seu lábio superior para lhe olhar os dentes. Rurik se manteve calmo, provavelmente habituado a tal tratamento após tantas experiências com venda de escravos. Darius espalmou suas nádegas com ambas as mãos e a única indicação de seu desconforto foi o rubor em suas bochechas.

— É saudável – Darius murmurou, rodeando Rurik, pegando suas mãos unidas entre as suas e as apertando, estudando cada dedo – Mas parece tão comum. – e seus olhos, enfim, pousaram no rosto de Rurik. Estranhamente, a postura combativa de Darius arrefeceu e seu cenho pálido se franziu, como se algo o preocupasse – Sinto muita dor irradiando de você – Rurik pulou como se uma cobra cruzasse seu caminho e seus olhos se arregalaram para o elfo, em total estado de choque – Está ferido, jovem humano?

Svan observou com curiosidade Rurik abrir e fechar a boca consecutivas vezes, até pressionar os lábios com força. E suspirar. Manteve-se cabisbaixo, apertando as próprias mãos até os dedos ficarem brancos. Negou com a cabeça, arrepiando ainda mais os cabelos.

— Estou bem – sibilou.

A mentira era notável. Rurik era um péssimo mentiroso e ambos os líderes podiam sentir isso.

— Não minta – Darius disse suavemente – Onde lhe dói?

Rurik se desvencilhou do toque do elfo, aprumando os ombros e empinando orgulhosamente o queixo, batendo no lado esquerdo do peito com um punho.

— Aqui – disse com firmeza, sem temor. Svan admirou a coragem do rapaz, tanto de admitir o que o afligia como para enfrentar o que o machucava ante um desconhecido – É aqui que dói.

Darius... parecia compreender isso. Svan precisou de muito autocontrole para não demonstrar o quão cético estava ao presenciar a simpatia do rei por seu escravo humano.

Os elfos não eram escravocratas, mas respeitavam quem era. Todavia, o motivo para Darius estar tão à vontade em uma relação igualitária com Rurik se limitava ao fato de o ruivo ser um Oráculo e, para os elfos, era algo tão sagrado quanto um Phaeleh, apesar de inferior a esse. Os Oráculos transmitiam as mensagens dos deuses e eram, provavelmente, as criaturas mais próximas a eles com a exceção do Phaeleh. Ele viu o respeito nascer em Darius conforme reconhecia o rapaz como um Oráculo, aquele que guiaria o Phaeleh em sua jornada.

— Eu entendo a sua dor – Darius disse baixinho. Após um longo momento de silêncio, ele olhou por sobre o ombro para Svan – Ele ainda é muito imaturo com relação aos seus dons.

— Sim – Svan aquiesceu – Rurik.

— Si-Sim, chefe?

O garoto estava exacerbadamente nervoso.

— Você pode falar sem medo de repreensão aqui.

Ele acenou veementemente com a cabeça, mas permaneceu em silêncio.

— Eu sinto uma magia suave fluindo de sua aura – dizia Darius. Cabisbaixo, Rurik o olhou por entre a franja de cabelo de ruivo – É tão sutil, tão imperceptível... Há quanto tempo despertou como Oráculo, rapaz?

Rurik engoliu. Seu desconforto era quase palpável e Svan sentiu um pouco de condolência pelo rapaz ter de passar por aquele tipo de situação.

— Eu... – ele não parecia muito seguro do que falar, como se relutasse em se abrir para o Rei. Olhou para Svan, pedindo silenciosamente por ajuda ou permissão, obtendo um aceno de cabeça como resposta – Tinha seis anos.

A curiosidade de Darius aumentou ante a admissão.

— Conte-me mais. Como se tornou escravo?

— Eu... não entendo como isso se envolve com...

— Diga, Rurik – Svan o interrompeu rispidamente, impaciente – O que é dito aqui, daqui não sairá.

Rurik acenou com a cabeça novamente, nervoso.

— Meu clã me acusou de estar possuído pelo demônio – confessou, voltando a apertar as mãos diante do corpo, como se estivesse algemado. Provavelmente se acostumara tanto ao uso dos grilhões que, mesmo sem eles, ainda se sentia acorrentado – Eu era apenas uma criança quando tive minhas primeiras visões. Minha mãe... ela não lidou bem com isso. Nem meu pai.

O que ele não diria era que o pai matara a mãe por ser a progenitora do feto do diabo. Queria evitar que ela engravidasse mais uma prole maligna e amaldiçoada e ninguém o julgou errado.

— E então? – Incentivou o rei elfo.

Rurik não queria falar. Não queria entrar em detalhes. Quanto mais adentrassem em seu passado, mais imundo notariam que ele era. Sua história o envergonhava, admitia, mas também o orgulhava, pois ele sobrevivera a todas as provações e rastejara novamente adiante, sem jamais desistir, por mais que muitas vezes fraquejou e desejou afundar no meio do caminho, estagnado.

Aos olhos de Rurik, o rei estava se mostrando bastante irritado com a menção aos humanos que o destrataram – mas ele sabia que não era um instinto protetor por ele. Era apenas porque ele era importante para os elfos como Oráculo.

Engoliu o nó na garganta, empurrando as sombras do passado para longe.

— Meu pai tentou me matar – afogado e amarrado, ele se lembrava perfeitamente. Nenhum de seus irmãos se moveu para ajudá-lo, estavam atemorizados demais com o que ele era – Mas o clã foi invadido e saqueado por vikings do norte. Eu fui levado para um leilão em mar e – comprado pelo homem que o usou de muitas formas diferentes, tanto para ganhar dinheiro em cima de suas previsões quanto para ameaçar outros humanos da carga demoníaca que ele mantinha, conquistando-os pelo medo. Aos dez anos, Rurik descobriu o que era ter um membro masculino enterrado secamente em seu corpo. Ele sentiu a dor de ser rasgado, violado brutalmente. Descobriu o quão inútil era chorar e implorar. Desde então, jurara a si mesmo nunca mais derramar lágrimas e suplicar por piedade. Notando que ficara repentinamente em silêncio, balançou a cabeça de lado a outro, lutando por se concentrar no presente e nos homens que o fitavam. Rogava aos deuses para que Svan estivesse certo e aquele assunto jamais fosse revelado a ninguém mais. Menos ainda para Niels – Eu fui comprado por um Jarl. Passei a maior parte dos anos da minha vida servindo-o antes de fugir e... Niels me encontrar – falar o nome do irmão de Svan nunca foi tão difícil e ele acreditou que os outros notaram como sua língua travou ao pronunciá-lo – Niels me salvou e Svan me acolheu. Desde então, eu vivo aqui.

— E apenas recentemente soubemos que era o Oráculo.

Darius assentia com a cabeça a cada palavra e seus olhos pareciam enxergar além do que Rurik falara, como se soubesse de tudo que ele tratara de ocultar.

— Compreendo – murmurou, pensativo. Ele se voltou para Svan e uma conversa ocular se estabeleceu entre eles, o que Rurik achou bastante curioso – Eu tenho uma proposta para você, meu amigo.

Svan não se mostrou muito satisfeito – estava desconfiado. De repente, havia uma forte tensão entre os grandes homens e Rurik se sentiu desconfortável ante tamanho embate visual.

O que estava acontecendo ali?

— Diga – Svan ousou dizer após um longo momento de reflexão.

Darius nada disse de imediato. Andou pela cabana, afastando-se de Rurik e diminuindo a lacuna entre ele e o Chefe dos Berserkers. Ele e Svan se olharam profundamente nos olhos, silenciosos. Rurik sentiu a musculatura dos ombros se retesando.

— Acredito que já saiba que o Phaeleh nos pertence e que não há mais ínfima possibilidade de um milagre acontecer e você ficar com ele.

Rurik arregalou os olhos quando a compreensão o acertou em cheio – era uma briga por Meine. Seu querido Mei. Rurik separou levemente os pés, adquirindo uma postura combativa, sentindo a diminuta simpatia que nutrira pelo rei dos elfos minguar instantaneamente ao saber que ele desejava arrancar Mei deles. Svan pareceu notar a mudança neles e lhe respondeu com um breve fechar de olhos antes de se concentrar no rei, como se assim lhe dissesse que estava tudo bem e que ele resolveria a partir dali.

Rurik confiava nele para cuidar de Meine, assim como confiava nele para cuidar de si. Svan era uma das melhores pessoas que já apareceram em sua vida. Sua lealdade para ele era independente das condições do clã, pois devia sua vida e seu espírito a ele. Svan o ajudara a se erguer da lama, dera-lhe esperança. Isso era impagável.

— Já lhe disse que não abro mão de Meine – rosnou Svan, expondo os dentes.

Darius balançou a cabeça, desdenhando de sua fala. Ou considerando-a. Rurik não saberia dizer.

— O importante é que o Phaeleh não caia nas mãos dos Elfos das Trevas – prosseguiu, inabalável – Ele deve ser protegido de humanos e bestas. Como todos sabem, ele é sagrado e pertence a nós – ele enfatizou a si e aos elfos brancos – Nós somos seus guardiões.

— Meine não pertence a ninguém além de mim – grunhiu Svan, semicerrando ameaçadoramente os olhos. Darius sequer titubeou ante a fúria Berserker. Ele era, inclusive, tão poderoso quanto um, talvez mais.

— Sei que o comprou como escravo – prosseguiu Darius tranquilamente – Mas você não tem condições de protegê-lo. O clã de Skoll está em um estado tão deprimente quanto o seu e, mesmo unindo ambos, não serão capazes de derrotar todos os elfos de luz – a força na voz de Darius fez Rurik tremer, pois o poder nela contida era sobrenatural e esmagador, tornando o ar rarefeito e difícil de inalar – Agora, visualize elfos brancos e elfos das trevas contra você e mais todo um exército fae. Os Berserker serão esmagados e extintos. E o Phaeleh poderá cair em mãos erradas.

Svan rosnou entre dentes, o peito vibrando pela intensidade de sua ira.

— E acha que você pode protegê-lo contra tudo isso?

— Mas é claro – Darius disse, confiante, sem sequer hesitar – Vejo que o ama muito, Svan dos Ursos. Eu tive o prazer de ver o... espetáculo de sua briga para mantê-lo. Creio que não houve uma única pessoa que não tenha visto.

Svan grunhiu.

— E daí?

— Com licença – Rurik se forçou a dizer, tentando distrair o foco de Svan para não que acontecesse outra tragédia como a dos irmãos se enfrentando como naquela manhã. Ambos os homens se voltaram para ele – Onde isso me envolve?

Darius lhe forneceu um tranquilizador meio-sorriso.

— O que estou propondo é uma aliança – Darius disse, afastando-se, de forma que pudesse oscilar seu olhar entre Rurik e Svan, que estavam cada vez menos entendo aonde ele queria chegar – Seu Oráculo virá comigo e será treinado pelo meu – o coração de Rurik congelou no peito e ele pareceu criar raízes no chão, incapaz de se mover, de pensar, de encontrar a própria voz – Enquanto deixarei meus três mais fortes guerreiros para proteger o Phaeleh. Quando os ensinamentos forem completados, devolverei seu Oráculo e, sem guerra, o Phaeleh irá para os meus domínios, onde será protegido e cuidado.

Svan cruzou os braços diante do corpo, encarando, desconfiado, Darius.

— Por que não levar Meine agora? Por que este súbito interesse em Rurik?

Darius se voltou para Rurik e seus dedos longos e elegantes tocaram sua bochecha tão sutilmente que ele mal sentiu.

— Os Oráculos são especiais – ele disse quase com carinho e um calafrio desceu pela coluna de Rurik. Ele sentiu sua consciência sendo puxada para um vórtice de escuridão. – Eles devem ser tratados como algo especial. E ter Berserkers e Ulfhednar unidos... É algo que...

Rurik parou de ouvir e tudo desapareceu de sua visão. Ele não viu a sala ou os líderes, ele não ouviu suas vozes. E sequer teve ciência de seu corpo caindo pesadamente ao chão. Ele viu imagens se desenrolando no nevoeiro escuro que o engoliu e um frio colossal aguilhoou-o até os ossos dolorosamente. Imagens brancas e difusas dançavam diante de si, sobrepondo-se uma a outra antes de começarem a se montar e formar algo inteligível. Ele viu, então, um homem com um elmo cônico de ferro sobre a cabeça, montando em um semental marrom. Atrás dele, havia todo um exército. Seus lábios se repuxaram em um meio-sorriso diabólico e, lentamente, ele ergueu sua espada.

O homem monta em direção ao que é sagrado para a natureza. A imortalidade, os prazeres da vida, a boa fortuna, a venda de bestas...

A imagem girou abruptamente, lançando a consciência de Rurik para outra direção, parando subitamente diante de um castelo branco. Ele viu livros. Viu um rapaz de cabelos brancos mais longos e semelhante a Meine. Viu outro rapaz, ruivo, sentado à mesa de uma ampla biblioteca, com um livro em mãos.

O Phaeleh precisa da luz. Da energia natural. Alimentado com bondade e amor, ele pode expurgar os demônios da terra e, então, apenas então, a esperança florescerá na terra que embebe sangue, ouvindo o clamor da batalha e o retumbar dos tambores.

Fogo. Fogo queimou seus olhos e ele se encolheu, apesar de não sentir dor. A imagem foi devorada por selvagens labaredas laranjas e vermelhas, até se abrirem, como se o guiassem para um novo caminho, para um novo futuro. Ele viu, então, um castelo negro, cercado por escarpados e árvores secas. Viu um rapaz de cabelos claros e longos ajoelhado no chão de ônix, iluminado unicamente por tochas que circundavam toda a extensão das paredes que o aprisionavam. Ele abraçava contra o peito uma manta de bebê branca, tecida pelos fiandeiros divinos com fios celestiais. Ele gritava e chorava com uma força que, apesar de não poder ouvir, Rurik sentia e fez seu coração doer.

Um amor perdido transformou a luz em ódio e a escuridão se alimentou, instigando todo o ciclo da guerra. Ódio criando correntes de ódio, tecendo a enchente carmesim da guerra.

Ele nunca havia tido tantas visões simultaneamente.

–*-*-

— Rurik? – Svan perguntou delicadamente. Há algumas horas o rapaz estava deitado na cama que anteriormente servira a Hayliel, inconsciente e balbuciando profecias uma atrás da outra. Darius parecia tenso e irrequieto.

— Li-Líder? — O garoto ruivo se sentou, sentindo-se um tanto atordoado. Seu olhar foi de Svan à Darius. — Eu fiz de novo, não é?

— Sim, você fez. — Svan suspirou um pouco mais tranquilo. — O que acha da proposta? Você estaria apto a ir com Darius aprender com outro oráculo?

Rurik assentiu, mas ainda se sentia receoso. Ele não sabia absolutamente nada a respeito de elfos, sobre como eram os seus costumes, como eles normalmente tratavam os humanos como ele em viagens como essa, ou se ao menos o alimentariam. Temia que eles fossem tratá-lo pior do que quaisquer outros donos que ele tivera antes de vir para os Berserkers.

Darius olhou em seus olhos de um modo tão fixo que mesmo o importunou. Ele parecia ler através dele muitos de seus sentimentos.

— Não se preocupe com nada. Você terá um ótimo tratamento em meu palácio e com certeza aprenderá o suficiente para conseguir controlar todas essas visões que te pegam sempre de surpresa. — Disse o líder dos elfos de luz.

Rurik anuiu, apenas um pouco mais tranquilo. De qualquer forma, parecia que nenhuma maldita decisão sua o fazia sentir-se melhor. Apenas parecia se afundar cada vez mais na lama. Cada passo seu parecia avançar um metro abaixo da terra. Já não tinha certeza se era seguro respirar.

Ao mesmo tempo que imaginava que estar longe o suficiente de Niels, seria um alívio e teria muito mais chance de fazer se esquecer dele, ainda sim era uma dor tremenda, muito comparada com uma avalanche caindo sobre a sua cabeça e esmagando-a completamente, de forma que ele sentisse cada aguilhão de dor em todo o seu corpo.

Rurik deixou os dois líderes depois de ser dispensado. Ele era um mero humano, mas sabia que não era inútil quando se tratava de ler as pessoas, da forma que ele lia Niels.

Svan não estava bem, com certeza. Ele tinha uma porção de problemas, e depois do último confronto que tivera contra seu próprio irmão, ele com certeza estava fervendo por dentro. Rurik nunca admitiu isso para ninguém, apenas para si mesmo. Ele gostava muito de Svan, ele era um líder digno, forte e soberano. A forma como ele comandava as coisas, para si, eram as melhores. Esperava que ele realmente não fosse desistir de sua posição, pois não sabia como Niels poderia fazer ao tomar o seu lugar.

–*-*-

Mais tarde naquele mesmo dia, Meine ainda permanecia mimando Wray de todas as formas possíveis. Atento ao seu conforto, cozinhando um ensopado que mesmo tão simples, pareceu os céus para Wray, além de conversar muito com ele e ler para fazê-lo dormir.

Seu amigo adormeceu ao seu lado e parecia tão sereno. Não mais daquela forma como se assemelhasse a um cadáver, mas sim um parecer saudável.

Meine se aninhou próximo a ele, querendo apenas permanecer assim pertinho e sentir o seu cheiro. Wray havia se tornado tão importante para o seu coração desde que chegara a este vilarejo. Quando no mundo ele imaginou que teria um grande amigo como ele era? E saber que Wray era parte elfo, o fez se sentir muito mais próximo, também se identificar muito com o guerreiro.

Ao ouvir batidas na porta da frente, ele deixou Wray com um beijo em suas têmporas e saiu do quarto.

— Já vai! — Ele gritou já na sala de estar, e imaginando ser algum dos guerreiros atrás de Svan, ou quem sabe Rurik para fazer-lhe uma visita, se deparou com aquele homem por qual se sentia tão curioso. Darius estava justo a sua frente, mas não parecia tão altivo e soberano como costumava parecer frente aos outros no clã, além de seus próprios guerreiros. Apenas... ele olhava Meine com certo nervosismo. Isso era possível? — Se-Senhor Líder! — Meine não sabia como ser educado da melhor forma com ele, só que mesmo assim ele tentou. — Por favor entre... e sente-se.

— Obrigado, Phaeleh.

O silêncio pairou, fora o som das botas de Darius contra o assoalho, até que o mesmo se sentou.

— O se-senhor está procurando por Suvan? — Dedicou o seu melhor para pronunciar o nome de Svan. — Ele não está, mas eu posso achá-lo para o senhor.

O líder dos elfos de luz fez um gesto com as mãos em desdém.

— Eu vim para ter uma conversa contigo, Phaeleh. Sente-se.

Meine sugou seu lábio inferior contra os dentes, sentindo-se um bocado nervoso para discutir qualquer assunto com o homem. Ele não era como Svan ou os outros que lhe deixavam confortável quando precisava conversar, mas ainda não lhe parecia ser um homem perigoso, ou ao menos que fosse tentar algo contra ele.

— Comigo? — Ele se sentou à beira de uma das poltronas, com as mãos sobre as pernas juntas. Não conseguindo encarar o Rei. — O que o senhor gostaria de me dizer?

Darius permaneceu em silêncio por algum tempo, o que fez Meine erguer seus olhos e fitá-lo, não deixando de se encantar com a beleza do elfo. Longos cabelos louro platinados, lisos e brilhantes, e embora ele fosse alto, elegante e aparentasse ter uma força surpreendente, sua cor era branca e brilhante, como se houvesse purpurina reluzente em sua pele. Ele apenas não era albino como Meine, ou diria, translúcido como Meine era. Havia um resquício de barba loura em sua mandíbula forte.

Mas o que mais chocou Meine, eram os olhos vidrados nele, enquanto Darius esfregava seu queixo. Ele mesmo parecia hipnotizado por algum fato que Meine não compreendeu.

Quanto a Darius, ele estava realmente hipnotizado pela beleza que o Phaeleh reprentava. Vendo-o tão de perto assim, pela primeira vez em muito tempo, Darius havia sentido o que era se sentir emocionado. A presença deste garoto foi como um bálsamo, muito mais interessante do que qualquer outra coisa da qual ele tinha apreço.

Meine olhou-o curioso e Darius seguiu olhando-o da mesma forma. Ele não podia tirar os seus olhos daquele ser que lhe pareceu tão familiar, mas que de certa forma, nunca em sua vida ele havia imaginado que fosse o tão apreciado Phaeleh. No entanto... Meine o lembrou de algo maior e mais importante em sua vida. Lembrou-o do seu bem mais precioso que fora perdido há muitos anos e que ele nunca tivera quaisquer indícios de onde poderia estar, ou se certo estava vivo.

— Realmente estou admirado, Phaeleh. — Murmurou vencendo finalmente o silêncio.

Meine se encolheu.

— Por favor, me chame de Meine e não este nome.

Darius deu-lhe um sorriso suave e tranquilo.

— Meine.

— Isso. — Ele concordou.

— Diga-me uma coisa, Meine. Svan, Líder dos Berserkers, tem lhe tratado como?

Meine torceu as sobrancelhas e abaixou o seu olhar, como se ponderasse a respeito da questão.

— Por que quer saber essas coisas? — Ele parecia um tanto inseguro e sua voz estava trêmula, além de suas mãos tremerem pelo nervosismo, o que não passou despercebido pelo olhar apreciativo de Darius. — Di-Digo, não quero ser desrespeitoso, somente não entendo como pode querer falar com alguém como eu.

— Mas você é o Phaeleh... — Darius se recostou melhor, tentando algo de conforto naquela poltrona velha. — Vamos, responda-me. Prometo que não contarei a ninguém suas sinceras respostas.

Meine fez aquilo de sugar o lábio inferior entre os dentes novamente, e olhou em Darius por debaixo dos cílios.

— Hum... no começo Suvan não era muito bom. — Meine estava olhando para os seus dedos das mãos que brincavam uns com os outros. Aos poucos Darius sentiu que Meine estava relaxando. — Ele não tinha qualquer interesse em mim e não se importava comigo... mas, ele mudou muito com o tempo... ele se tornou gentil e amável. Ele até mesmo levou-me a cavalo até uma clareira muito bonita e lá se desculpou comigo sobre algo ruim que ele havia me dito. — As bochechas naturalmente rosadas de Meine se tornaram algo como carmesim brilhante. — Desculpe dar detalhes... Svan é sim, muito bom comigo.

Darius engoliu em seco, tentando imaginar aonde que Svan seria bom para Meine. Ele conhecia Svan o suficiente para saber que ele e nem seus guerreiros costumavam destratar os escravos com violência, mas ainda sim eles os usavam bastante para o trabalho pesado, além de favores sexuais.

— Ele tem sido bom para você Meine? Em que sentido?

Meine olhou-o sem reservas agora. Talvez perdendo um pouco de seu receio ao seu respeito. Darius queria deixá-lo o máximo confortável à sua presença, porque... oh não, isso era impossível. Simplesmente indiscutível as suas suspeitas.

A verdade era que Darius estava pensando muito sobre as verdadeiras origens do garoto.

— Huh, em todos...? — Meine não soube como lhe responder provavelmente. Darius iria reformular melhor a questão.

— O que eu quero dizer é, se Svan o tem usado para o seu bem sexual e é nisso em que ele é bom para você? Afinal, você é para ele um escravo sexual. Não foi neste propósito que te compraram? — Perguntou sem reservas.

A expressão de Meine foi cômica e seu rosto ficou tão vermelho que Darius quis rir. Ele apenas quis, porque não o fez.

— Não! — Meine ergueu sua voz, indignado. — Ele tentou me usar uma vez, mas... — Meine não se cabia de tão vermelho. — Não deu certo, só que... Ele esperou por mim, e já faz muito tempo que ele não tentou mais... — Em seguida, notou como envergonhado o pequeno elfo ficou.

Darius olhou em Meine curioso com sua resposta.

— Ele tem outro amante, é isso?

— Não! — Meine se indignou de novo, suas sobrancelhas franzidas. — Suvan não tem um amante, ele apenas tem a mim!

Darius se acalmou, ele estava fazendo o contrário do que transferir confiança ao Phaeleh e não era isso o que planejava.

— Desculpe-me por perguntar a respeito de algo tão pessoal. Apenas estava um pouco desconfiado com a forma como eles tratam alguém que é tão importante para nós, elfos de luz. — Darius pensou a respeito de Yusulf, imaginando como ele iria reagir se conhecesse Meine. Não tinha como saber se ele também se desconfiaria...

Havia um fato sobre Darius que era herança de família. Ele tinha um certo dom que era um tanto comum sobre os elfos, mas não tão poderoso como o seu próprio, em ler os sentimentos das pessoas. Muitas vezes ele conseguia entender o que o indivíduo estava pensando, através de seus sentimentos e reações, isso explicava um pouco do porquê de ele ter um olhar tão perspicaz.

E neste momento, Meine o havia perdoado de suas falas anteriores apenas por haver se desculpado disso. Foi o que o deixou tão confundido.

O silêncio perdurou durante tempo o suficiente para Darius se lembrar dos tempos difíceis de cerca de vinte anos atrás, quando ele tinha um pequeno laço com os Elfos das trevas. Naquela epoca, Yusulf e sua corte de elfos ainda tinham essa mesma denominição, como elfos escuros. Eles não eram realmente maus, mas digamos que eram o lado obscuro de qualquer ser vivente.

Darius tivera a má sorte de conhecer Yusulf quando o mesmo simplesmente declarou guerra assim que assumiu a posição em seu clã com a intenção de roubar seu território e destruir os elfos que o diferiam. Ele era anos mais jovem do que Darius, completamente louco e tinha um temperamento muito difícil.

Ninguém suportava Yusulf, inclusive os seus pais o deixaram por que fora praticamente impossível lidar com ele, ele era a verdadeira dificuldade de sua corte, o verdadeiro problema que eles tinham, e infelizmente, o líder daquele reino.

Darius fora o único que entendeu Yusulf, que conheceu seus sentimentos mais profundos, mais obscuros e que resgatou dentro dele sua única luz.

Ele fora o único capaz de amansá-lo, de enfrentá-lo realmente e mudar a forma como agia, de fazê-lo enxergar a realidade e saber lidar com ele. Darius conquistou Yusulf e fez dele outro homem.

Eles tiveram um filho.

Mas anos depois, os deuses realmente amaldiçoaram o destino que eles teriam. Eles não concordaram com aquele realacionamento e dividiram o que era para ser uma pequena família. Desde aquele dia, Darius teve o seu coração trancado e Yusulf se tornou três vezes o pior líder que seu povo poderia ter.

Ele não notou suas lágrimas, quando se lembrou daqueles primeiros seis anos em que viveram juntos, com o verdadeiro sentimento de união, de paz. Ele não podia maldizer aos deuses, mas amaldiçoava a si mesmo. Ele tinha suas dúvidas, suas desconfianças sobre os elfos das trevas... Yusulf poderia ter mentido sobre amá-lo, tudo poderia ter sido uma farsa sobre aquelas mudanças, aquela conquista, e provavelmente levado seu filho embora e dado um fim nele em sua loucura.

Sua pequena criança... um menino tão pequeno e inocente. Era uma criança albina, com olhos escuros e brilhantes. Tão puro e incapaz de fazer qualquer coisa por si mesmo, desde que era tão pequeno e estava aprendendo. Ele nunca saberia dizer não ao seu progenitor... nunca saberia correr para Darius se Yusulf de repente quisesse matá-lo.

O que mais lhe doía, era que em seu reino havia muitos albinos, que diferente dos humanos, necessitavam da luz élfica, onde o sol se misturava com a magia branca e os embalava em uma segurança diferente de todas as outras. Sempre ao vê-los, Darius se lembrava como bonito foi o seu filho.

Meine era um albino.

Sem chance que fosse ele. O único que poderia descobrir sobre isso seria o seu progenitor. Aquele capaz de sentir o sangue, por tê-lo gerado em seu ventre durante tantos meses. Mas Darius... de verdade ele não sabia mais o que pensar, o que fazer.

Ele tinha buscado por toda Saranmir sobre seu filho. Ele enviou muitos espiões aos Elfos das Trevas, ele verificou túmulos, ele usou magia para procurá-lo, perguntou um milhão de vezes ao oráculo se poderia encontrar o seu bem mais precioso. O seu pequeno filhote. Mas nunca obteve uma resposta.

Os deuses não queriam respondê-lo.

Darius nunca fora tão desesperado. E conforme o tempo se passou, ele se trancou e decidiu que apenas governaria. Sua vida, essa não importava, porque tudo o que ele mais desejou, foi-lhe privado. E ele apenas nasceu para este propósito, que era governar.

— Líder?

Estivera tão perdido em suas lembranças que não notara Meine se levantando e se colocando à frente dele.

— Você está triste?

Darius não tinha mesmo sentido que lágrimas escorriam livremente pela face. Sentiu-se envergonhado por mostrar tanto dele que não deveria.

— Apenas... não é nada para se importar. — Voltou a sua indiferença, trancando novamente o coração, antes que voltasse a se lembrar daquilo que não deveria, e a saudade lhe açoitasse.

Para sua surpresa, Meine se ajoelhou a frente dele e encostou a cabeça ao chão.

— Líder! — Ele levantou a face e colocou as mãos juntas. — Por favor, deixe-me ficar com Suvan... eu farei qualquer coisa que me pedir, mas... eu lhe imploro! Deixe-me ficar!

Darius estava pela primeira vez em muito tempo, de boca aberta. Nunca antes alguém lhe surpreendera tanto, do que ter Phaeleh ajoelhado a sua frente, implorando para ele ficar com um Berserker.

— Por que Meine? — Darius perguntou-lhe suavemente, se levantando e puxando o garoto delicadamente para os seus pés. — O que lhe é tão importante naquele guerreiro? Não acha que seria feliz em um lugar, onde todos são como você?

Meine apertou seus lábios juntos e seus olhos brilharam em lágrimas. Aquilo cortou o coração de Darius e fisgou-o profundamente.

— Eu... eu não posso ir, senhor. Porque... — Meine não conseguiu segurar as lágrimas, e ele parecia tão magoado.

Meine olhou nos olhos de Darius, mesmo com todas aquelas lágrimas atrapalhando sua visão.

— Eu o amo.

Continua...

Notas finais
Miky: Muito Obrigada por ler ♥ Até breve! Beijinhoos