Phaeleh I
8 Capítulo 8 - Festival
Notas iniciais
Capitulo 9 ~ Festival
Svan estreitou os olhos de forma hostil quando as espadas se chocaram e o tinir do aço contra o aço reverberou pela campina cercada por árvores, um tanto quanto distante da aldeia. Skylar sempre foi um exímio guerreiro, mas jamais demonstrara tamanho empenho em um embate amistoso como naquele momento. Algo deveria tê-lo deixado de bom humor antes do almoço, mas não perguntaria o que se passara, não lhe interessava.
Sky avançou um passo ao tempo que dava uma estocada, que raspou as costelas de Svan, rasgando a pele superficialmente – o bastante para lhe arrancar um filete de sangue totalmente sem importância. Em retaliação, aproveitando a posição do oponente, travou o cotovelo, prendendo o braço de Sky entre o seu e suas costelas, imobilizando-o.
– Merda – Sky grunhiu.
Tudo se passou em uma questão de segundos – mudou a espada de mãos e a desceu sobre o pescoço do ruivo, parando a lâmina a centímetros da pele.
– Perdeu outra vez – sentiu certa pontada de satisfação.
Svan era do tipo que apreciava a vitória. Sabia que era competitivo ao extremo e sentir que era superior, que era invicto ante os seus, causava-lhe certo contentamento – em parte porque lhe dava a certeza de que permanecia forte, tanto no físico quanto no mental.
Libertou Skylar, que se afastou rapidamente, esfregando a nuca como se tivesse se ferido.
– Ainda vou derrubar você.
Svan arqueou uma sobrancelha.
– Tente.
Um sorriso sardônico repuxou os lábios de seu amigo.
– Está me provocando. Vou chutar sua bunda, Svan.
De repente, um arrepio de apreensão percorreu o corpo de Svan e ele reagiu sem real consciência do que fazia, voltando-se em seus calcanhares e erguendo a espada. No mesmo instante, o retinir do aço contra o aço ressoou estridentemente e seus olhos encontraram os familiares olhos de Niels, que havia descido sua lâmina sobre ele em um corte vertical, forçando-o a deitar a folha prateada na horizontal acima da própria cabeça.
Svan franziu o lábio superior em irritação.
– Emboscada, irmão? – grunhiu.
– Seus reflexos continuam bons.
Mesmo que esteja amolecendo por causa de um estúpido escravo, estava implícito em seu olhar. Anos e anos de convivência o deixaram bastante ciente de como pensava seu irmãozinho tolo.
Svan não estava amolecendo por Meine. Era uma concessão ocasional se referir a ele pelo nome e apenas o mantinha porque... Meine o acalmava. Era uma relação por benefício.
Isso o fez recordar de que não havia reivindicado sua coisinha ainda. Ele não costumava ser paciente, e lhe surpreendia não ter seduzido o menino, uma vez que ele parecia aceitar seus toques.
Por que estava se contendo?
Não entendia. Realmente não entendia.
Antes que pudesse se aprofundar no assunto, Sky avançou por suas costas. Svan moveu sua espada em um arco no ar, forçando Niels para o lado, ao tempo em que girava nos pés em uma esquiva, desviando do golpe ascendente do ruivo. Lutar contra dois lhe exigia uma porção a mais de atenção.
Seus dois oponentes trocaram um breve olhar como se intercambiassem todo um diálogo de horas antes de se concentrarem totalmente nele.
Van.
Porra.
Svan avançou para os dois com fúria, não dirigida a eles, mas para si mesmo por sua debilidade – estava perdendo a capacidade de evitar pensamentos indesejados. Aprendera a se controlar desde que os pais morreram quando ainda era muito jovem, então, o que havia de errado agora?
Ele rosnou entre dentes, sentindo o sangue esquentando, quando fez um corte ascendente em diagonal. Com uma imprecação, Niels saltou para trás. No mesmo momento, Sky avançou em um ataque feroz.
Ah, mas Svan era implacável. Lançou-se sem intervalo de tempo sobre Sky, chocando suas espadas. Então, quando as sobrancelhas do amigo se arquearam, Svan desferiu uma impiedosa joelhada em seu estômago, fazendo-o se curvar involuntariamente sobre o próprio corpo com um arquejo de dor.
Ele estava tão descontrolado, tão fora de si...
E por quê?
– Porra! – rosnou Niels, franzindo o cenho para ele – O que merda há de errado contigo, irmão?
Svan rosnou do fundo da garganta – não seus rosnados aborrecidos de sempre, mas algo que nascia do cerne de sua besta, algo que destilava ira e violência. Ele sabia que estava estressado. Não unicamente por odiar estar se afeiçoando ao elfo diminuto, mas por tudo – a guerra, a responsabilidade de todo um clã em seus ombros, o desprezo por uma parte de si que possuía a insegurança de falhar com os seus, o inverno que os encerraria como uma barreira glacial naquela floresta densa...
Noite passada, sua mente não conseguira parar de funcionar energicamente, construindo estratégias, planos de batalha, buscando lugares que serviriam de refúgios para os aldeões, o temor da ira de dois reinos e um clã que se voltariam contra ele se descobrissem que abrigava Meine e... A maldita pergunta que ainda retumbava em seus ouvidos: aquilo tudo valia mesmo a pena?
Ele estava exaurido. Não dormira momento algum, mesmo estando exausto, e agora... Tudo se amontoava dentro de si.
– Calma – ouviu Skylar falar com um sorriso nervoso e forçado – É só uma brincadeira. Não vamos elevar os ânimos, rapazes.
Svan passou uma mão pelo rosto, logo afastou os cabelos da testa, jogando as mechas para trás. Quando soltou o ar em um suspiro, viu Niels baixar a guarda, apesar de permanecer tenso e aborrecido. Skylar mostrou um grau incomensurável de alívio.
– Por que está tão irritadiço? – Niels perguntou.
Excesso de trabalho e uma quantidade descomunal de problemas.
Balançou a cabeça.
– Está tudo bem – murmurou.
Falta de sexo e estresse certamente eram enervantes.
Ele largou a espada no chão e encarou seus parceiros e irmãos de armas.
– Sinto que receberemos serviços – resmungou Skylar com uma careta desgostosa.
– Wray está treinando as crianças?
Niels assentiu solenemente com a cabeça.
– Já está se aproximando da temporada em que o Jarl pede as crianças para o acampamento de guerra – disse, impassível, como se não possuísse o mais ínfimo traço de emoções em seu cerne – Wray quer prepara-los para o pior.
Svan assentiu com a cabeça. Ah, deuses, eram tantas atribulações pesando em seus ombros!
– Ano passado ele pediu cem meninos – comentou Sky, perdendo parte de sua excitação anterior, deixando exposto o quanto o aborrecia ter de pagar aquele tipo de tributo ao Jarl daquelas terras. – As cotas estão aumentando.
Há muitos, muitos anos, o pai de Svan fizera um pacto com o Jarl norueguês – em troca de uma porção de terras seguras e férteis no âmago de um fiorde, a cada temporada ele lhe pagaria com meninos e ferro para o arsenal de guerra. Os vikings constantemente estavam em batalhas e era bastante comum que clãs fossem invadidos, saqueados ou destruídos. Muitas tribos optavam por se anexar a uma mais forte, criando assim outra tribo, ainda maior e com mais guerreiros.
O pai de Svan envolvera suas terras em uma barreira mágica abençoada por Odin, o deus que protegia e fortalecia os Berserkers, o pai dos ferozes e implacáveis guerreiros regidos pela chama da fúria, de forma que pudessem viver em sua própria dimensão, protegidos dos humanos e coexistindo com as outras criaturas mágicas, como os elfos filhos de Frey, o deus do sol.
Para manter o pacto de paz, Svan deveria anualmente fornecer o peso de cada garoto em ferro e uma quantidade que crescia a cada temporada.
Quando ainda era menino, ele foi refém político do Jarl norueguês. O humano não era nem de longe agradável, por mais ardiloso e forte que fosse. Ele cresceu no acampamento de guerra e apenas retornou quando completou seus dezesseis anos, quando seu pai precisou provar sua valia ao clã.
Wray e Sky permaneceram lá até os dezenove verões.
Lembrando-se do passado, aborreceu-se ao imaginar o que as crianças de seis a nove anos passariam nas mãos do Jarl para se tornarem atrozes e selvagens.
Aquilo também lhe era bastante desvantajoso, uma vez que a guerra já batia em suas portas e não possuía aliado algum.
Problemas, problemas, problemas.
– Há quantas crianças com Wray? – perguntou.
Niels ponderou por um momento.
– Creio que cinquenta. – disse em seu tom impessoal – As mulheres do clã estão diminuindo, Svan. Muitas morrem durante os partos.
– Elas se dividem em escravas, acasaladas e crianças – acrescentou Skylar, cruzando os braços sobre o peito em um gesto que dizia que estava pensando seriamente sobre o assunto – E são poucas.
– As férteis são ainda menores.
A cabeça de Svan parecia prestes a explodir. Buscar uma solução para o seu problema de poucos futuros guerreiros era uma merda.
Sabia que seus soldados valiam por dez elfos ou cem humanos, mas... O cerco se fechava em torno deles.
O que poderia fazer?
– E os elfos estão nos pressionando com a história do Phaeleh – disse Niels – O inverno também se aproxima.
Ele não estava mais raciocinando. Não conseguia solucionar seus problemas; eram tantos, tantos, tantos...!
Seu sangue fervia como lava em seu interior. O rosnado borbulhava em seu peito. Sentia que estava em seu limite.
– À noite faremos uma fogueira.
Skylar sorriu, radiante, mudando subitamente de humor.
– União de casais? – sugeriu.
– Boa ideia – aquiesceu Niels – Resolveremos uma pequena parte do problema.
– Sky – grunhiu para o seu amigo, que imediatamente aprumou os ombros em resposta – Avise aos homens que preparem uma galera de guerra. Partiremos na próxima semana para uma incursão.
Sky esfregou as mãos em ansiedade.
– Inglaterra? Escócia? Irlanda? – dizia rapidamente.
Svan não queria partir na semana que vem. A situação era grave demais para que se ausentasse, mas era uma necessidade urgente que trouxesse mais mulheres para o clã, mesmo que fossem mais escravas. Também traria peles, tecidos e ouro.
– Niels.
– Já sei – seu irmão murmurou – Assumirei em seu lugar.
Svan assentiu com a cabeça em aprovação.
– Não podemos perder tempo. Se vierem atrás de Meine, devemos estar preparados.
– Posso chamar os lobos para vigiarem as fronteiras, se desejar – sugeriu Niels.
– Faça isso.
– E eu? – Sky perguntou.
– Está incumbido de preparar a festividade. Hoje será noite de lua nova e as moças estão mais férteis e receptivas.
Os ciclos da lua eram tanto uma benção quanto uma dor na bunda, e ele bem sabia. As fêmeas de sua espécie eram muito sensíveis a ela.
Uma mão pousou em seu ombro.
– Não está sozinho, irmão. Nós o ajudaremos nesse período de dificuldade.
E as coisas mal começaram a se complicar.
–*-*-
Meine sorriu, radiante com a ideia de Wray.
Antes de partir para o treino das crianças, Wray lhe dera uma touca grande de lã cinza, que cobriu suas orelhas pontudas e, se enfiasse o cabelo por dentro, também poderia ocultar as mechas brancas.
Uma das escravas lhe trouxera um gigantesco hábito marrom, cujas mangas cobriam suas mãos e a barra ocultava seus pés. Era muito maior do que ele e o material simples pinicava e irritava sua pele. Calçado com as habituais botas brancas e trajando as vestimentas estranhas, sentiu-se diferente de quem ele era e livre para transitar pela aldeia.
Meine não suportava viver trancafiado. Entendia muito pouco, mas entendia, os motivos para permanecer em cárcere, mas a privação da luz, do vento, da terra... Estava o matando.
Ele nunca havia ficado mais de alguns momentos confinado em um ambiente e essa inércia isolante o desesperara.
O sol partia no horizonte, lançando um leque de cores ternas e acolhedoras no céu. Depois de horas sem nada fazer, apenas olhando o passar das horas pela janela, começou a se sentir fraco. Nunca havia sentido nada daquilo. Não era o bastante para debilita-lo, mas o corpo começou a pesar. Sendo uma criatura enérgica, sentir a necessidade de se encolher na cama e não se mexer nunca mais o assustava. Estava tão sensível, tão injustificavelmente cansado...
Suas forças haviam se esvaído. Ele atribuiu os sintomas mórbidos à sua natureza élfica – era incapaz de ficar longe da natureza. Da luz. Ele precisava absorver as energias da terra – era instinto.
Então, enquanto a noite se aproximava, saiu furtivamente do quarto de Svan, inflando o peito com o ar fresco e revigorante. A aldeia estava silenciosa como se houvesse sido abandonada e ele não viu ou ouviu qualquer pessoa pelas redondezas.
Aquilo era uma parte de ser quem era? Era uma necessidade daqueles de sua espécie carecer de boas energias?
Ele amava um ambiente feliz. Sentia-se forte quando estava cercado por pessoas satisfeitas e alegres. Sentia-se incrivelmente bem quando tocava a terra. Mona sempre dissera que Meine era um garotinho adorável que fazia a pessoa mais amarga sorrir, pois havia uma espécie de aura em torno de si que espalhava uma boa e inominável emoção em seus âmagos. Meine ainda não compreendia a complexidade daquela informação, mas agora que acreditava verdadeiramente ser um elfo como lhe disseram...
Desejava conhecer outros como ele. Perguntar inúmeras coisas... Ah, ele tinha tantas dúvidas, tantos temores!
Uma luz ao longe chamou sua atenção, assim como o som e os aromas trazidos pelo vento – fumaça e carne assando. Música e cantorias.
Uma festa?
Rumou para a floresta, que se fechava em torno de si monstruosamente. Quanto mais andava, mas refrescado se sentia. A natureza o tragava para um banho de prazer tranquilizante e ele sentia que o mal-estar de outrora arrefecia a cada segundo em que a liberdade o preenchi de uma sensação apaziguadora e pacífica.
Tinha de voltar para casa o quanto antes, mas aqueles minutos em contato com a terra... Aquilo o fortalecia. Não queria pensar na reação de Svan ao voltar para casa e não vê-lo lá – tudo o que desejava era respirar e sentir a saúde retornando.
Alaúdes e flautas enchiam o ambiente com uma melodia agradável e alegre. À medida em que Meine se aproximava, deu-se conta de que a luz que o atraía era uma gigantesca fogueira no centro de uma clareira cercada por árvores de um lado e um lago cristalino do outro. Ele caminhou por entre troncos altos como titãs, afastando-se mais e mais das casas da aldeia, hipnotizado pelas festividades.
Àquela altura, a escuridão descera sobre a floresta e mochos ululavam por todos os lados. Meine ouviu lobos uivando ao longe, e isso o fez enrijecer pelo medo. Ainda assim, dirigiu-se para as proximidades da festa.
Por que Svan estava festejando e não o levara?
Ah...
A compreensão o atingiu com um golpe seco – era um escravo.
Por que levariam um escravo para perto de seus donos?
Realmente, não fazia sentido.
Meine parou de andar antes de abandonar a proteção oferecida pelas árvores. Seus olhos curiosos dançaram pelo espaço adiante – madeira queimava com um estalo alto e uma parede de chamas se erguia para o céu como um devoto das estrelas tentando alcançar a lua. Risadas enchiam o ar – tanto de mulheres como de homens, mas de nenhuma criança.
O que era aquilo tudo?
Ele segurou o amontoado de lã velha em seus pés e ergueu o hábito até os joelhos, para assim facilitar sua caminhada. Ficou ao lado de uma árvore, espiando o desenrolar dos acontecimentos, mordendo o lábio e refreando seu desejo de se divertir.
Vários homens que já vira antes transitando pela aldeia agora dançavam com moças também familiares, rindo e se divertindo em torno da fogueira. Meine viu com encanto como giravam e saltavam, dando os braços e se separando, agitando os cabelos ao vento, enquanto a lua se refletia no lago escuro atrás deles.
Era tão bonito.
Fogueiras menores cercavam a maior, metros ao longe, assando as carnes em espetos – leitões, faisões e lebres. Alguns comiam sentados em troncos enquanto conversavam animadamente, outros dançavam e outros...
O rosto de Meine esquentou quando mulheres e homens, sem pudor, começaram a arrancar as próprias roupas. Seus olhos pareciam prestes a saltas da face e os lábios se entreabriram ao encarar inúmeros traseiros pálidos ao vento. Os nórdicos abriram os braços e gritaram para a lua, como se abraçassem a noite.
Não era como se nunca tivesse visto pessoas nuas, mas... mas... mas...
Aquilo parecia constrangedor.
Os Berserkers correram e se lançaram nas águas escuras, mergulhando em suas frias profundezas. Mais se juntaram a eles.
Meine engoliu em seco.
Passara horas trancado em um aposento frio e escuro, pois Svan não queria que saísse, tampouco designaram alguém para acender a lareira próxima à cama. Meine ainda tentara, mas perdera bastante tempo em um trabalho infrutífero e rasgara as palmas nos tocos de madeira e nas palhas de turfa.
E agora sabia por que estivera tão solitário em seu calvário: estavam festejando. Não poder sair, não poder falar com ninguém, não ter o que fazer... Era causticante e desesperador. Ele não queria ficar mais um dia inteiro aguardando a boa vontade de Svan.
Quer dizer, sabia que ele era ocupado, mas... Não seria perigoso acompanhar Wray vestido da incômoda forma como estava agora, certo?
Gemeu pela irritação na pele, pelas coceiras que se intensificavam.
Decidindo permanecer ali e observar até o final, escalou a árvore mais próxima, agarrando o galho mais baixo e se içando para cima, até saltar para um nível mais alto e assim por diante, até que estava totalmente oculto pela proteção das folhas, da noite e de muitos galhos. Deitou-se escarranchado sobre a madeira áspera, debruçando-se para ver o que acontecia.
Mulheres e homens nadavam nus e uns poucos se engalfinhavam sem temer olhares sobre suas ações – Meine arregalou ainda mais os olhos quando um homem grande agarrou uma mulher pela cintura e a puxou para si, colando seus corpos. O rosto do menino queimou quando as bocas se abriram para um beijo apaixonado e intenso.
Eles pareciam... Devorar-se.
Deuses...
O corpo da mulher se moveu como uma onda, serpenteando contra o homem, enquanto ele se agigantava sobre ele e tomava o seio farto na palma, apertando-o.
Sentou-se abruptamente no galho e as folhas farfalharam, esvoaçando-se em torno de si. Olhou energicamente ao redor, um nó se formando em sua garganta.
Svan... Ele estava com uma mulher naquele momento?
Todos os rapazes e moças do clã estavam presentes. Então... O que poderia significar?
Svan decidira que ele não era o suficiente e achara uma mulher com a qual pudesse brincar?
Inicialmente, sentiu uma onda de tristeza tão medonha que pensou que iria chorar. Não queria ser trocado. Apesar de seu descontentamento, agradecia pela benevolência dos deuses por estar vivo e saudável naquele lugar – às vezes, pegava-se pensando no quanto desejava que sua avó estivesse ali, naquela paz com ele.
Meine não queria perder o pouco conforto fornecido por sua posição de escravo sexual.
E Svan... Iria realmente troca-lo?
Ele viu como as pessoas estavam agitadas. Um homem se juntou aos que, sentados em um tronco, tocavam o alaúde e a flauta, e começou a cantar com toda a força de seus pulmões, como se quisesse que Odin o ouvisse no Valhala. Era desafinado e sua voz era forte e muito grave. Em outro momento, poderia ter rido ante a cena do grande guerreiro com uma caneca de cerveja na mão, cantando como se fosse o melhor no que fazia.
Agora? Estava dividido entre querer e não querer saber onde e o que fazia Svan. Para sua consternação, estava surgindo certa afeição entre eles, como uma simpatia passiva. Meine também desejava ser tocado intimamente pelo grande soldado – e uma parte dele queria ver seu sorriso, o que o confundia.
Então, a tristeza da ideia de Svan estar engalfinhado com alguma mulher foi substituída por uma raiva quente e destrutiva. Meine nunca havia sido explosivo ou agressivo – fazia parte de sua natureza ser compassivo e paciente, mas... Até ele possuía um lado negro, mas adepto a... certas atitudes bastante expressivas.
Como o agradável pensamento de esganar Svan por brincar com ele e com outra pessoa ao mesmo tempo.
Então, sua raiva se inflamou ainda mais – o filho da puta o instigara para a perversão e depois recuara. Se Svan estava com outra, era porque Meine não o agradava sexualmente. Era porque não queria que Meine fizesse com ele o que havia no livro que Wray lhe dera.
O humor de Meine estava cada vez pior.
Viu Skylar se juntar ao bêbado cantor, seguindo a letra em um idioma que Meine não conhecia, com palavras carregadas de um sotaque brusco, que parecia nascer como um rosnado do fundo do peito. Eles colocaram um braço de cada um sobre os ombros do outro, cantando alegremente ao som dos instrumentos.
Então os olhos de Meine pousaram na figura desolada de Wray, que estava sentado à beira do fogo de uma das pequenas fogueiras, mordiscando um pernil sem muita vontade. Sorria para qualquer um que lhe dirigisse a palavra, mas Meine não sentiu que estava verdadeiramente contente por estar ali.
Foi quando uma mulher se aproximou de Skylar que Meine notou a mudança em Wray – seu amigo aprumou os ombros, os olhos fixos na cena de paquera. Skylar sorria, cantando e puxando a mulher para dançar. Eles dançavam e sorriam, com ele girando-a em torno de si e a puxando de encontro ao peito musculoso. Ela riu, pavoneando-se em torno dele. Jogando charme. Lambendo os lábios.
E Skylar a beijou.
Na boca.
Meine oscilava o olhar entre Wray e Skylar, vendo as mudanças que ninguém ao redor de Wray notava – o endurecimento do maxilar e os dentes trincados, mesmo quando sorria com os lábios pressionados em uma linha tensa. Por um momento, Wray apenas encarou o casal que se beijava fogosamente. As mãos de Skylar se fechando em conchas no traseiro da loura curvilínea.
E Wray entornou uma caneca de cerveja goela abaixo, mordendo com vigor o pernil. Não mais encarava Skylar e passou a fingir que ele não existia, focando-se nas pessoas que tagarelavam em torno dele.
Meine se enfureceu pelo sofrimento de seu amigo e se irritou ainda mais quando a imagem de Svan fazendo a mesma coisa com uma loura alta e formosa encheu sua mente. Segurando-a pelas nádegas com desejo, puxando-a para colar suas pélvis...
Svan nunca fizera aquilo com ele. Faria com outra pessoa?
– Deuses! – agarrou a própria cabeça, perplexo ao tomar consciência de que estava enciumado – Sou um escravo, não posso... não posso...
Ele não podia sentir ciúmes de seu amo. Não era adequado.
Algo, definitivamente, estava mal com ele.
–*-*-
Rurik se esgueirou pelos arbustos, esticando o pescoço. Não via Niels entre os garanhões reprodutores que nadavam com as mulheres no lago ou escapuliam para a floresta, onde o aroma do sexo permeava o ar que ele respirava.
Ele nem deveria estar ali, mas... As mulheres da cozinha o tinham abandonado naquele lugar enquanto corriam para a floresta, buscando um parceiro para a noite. Ser a mãe de um filho de berserker, principalmente se fosse um filho homem, garantia certo respeito entre as demais. Rurik não sabia o motivo, mas também não compreendia a mente conturbada das mulheres.
O vento uivava em torno dele, frio a ponto de fazê-lo tremer dos pés à cabeça ruiva. Passou os dedos pelas mechas acobreadas na tentativa de deixa-las menos arrepiadas e rebeldes, mas, quanto mais as penteava, mais elas se rebelavam.
– Cabelo de merda! – esbravejou consigo mesmo.
Rurik queria voltar para a casa de Svan. Ele temia a noite tanto quanto temia fantasmas. As mulheres da cozinha sempre lhe contaram histórias sobre os mortos que voltavam por vingança e, após conhecer seu próprio inferno antes de ser escravo na casa de Svan, ele acreditava. Ele próprio seria um quando morresse.
Olhava vigorosamente ao redor, esperando ver uma criatura de longos cabelos esvoaçantes e mãos esqueléticas com carne podre entre os dedos se esticando para captura-lo.
Ou duendes buscando devora-lo.
Ou ogros querendo sua macia carne.
Ou simples homens querendo se aproveitar dele.
Estava tão distraído lutando contra seu mais tenebroso inimigo que mal notou o vulto que se aproximava em uma marcha em sua direção. Soprou o cabelo que caía por sobre a testa no mesmo instante em que se chocou contra algo e gritou pelo susto, caindo sentado no chão. Grunhiu e gemeu pela queda brusca, mas todas as suas emoções se esvaíram em um segundo para dar lugar a um terror descomunal. O vulto sentado diante dele choramingava como uma criatura saída dos confins do interno. A vestimenta escura e longa ressaltava a pele pálida e os cabelos brancos que escaparam da touca de tanto mau gosto que só podia ter sido tecida pelo próprio Satanás.
Rurik ergueu o indicador para o fantasma do anão, abrindo e fechando a boca para falar, sem encontrar a voz. A criatura ficou paralisada ante ele. Então, para seu assombro, começou a se mover em sua direção.
– Você...
– Não me coma, por favor! – ele se arrastava para trás, tateando o chão em busca de uma arma.
Encontrou uma pedra. Estava para atira-la contra o servo do mal, quando um feixe de luz lunar perpassou por entre as árvores e iluminou os traços do monstro, revelando um garoto aparentemente menor do que ele próprio, olhando-o com preocupação. Rurik estreitou os olhos, os joelhos tremendo pelo terror.
– Não vou comer – o garoto franziu o cenho em uma expressão que parecia dizer a Rurik o quão absurda a ideia era.
Foi quando Rurik o reconheceu.
– Ah – foi tudo o que disse.
Era o famoso e odiado escravo pessoal de Svan. Ouvira muitas histórias a seu respeito.
O albino se ergueu e Rurik logo tratou de imita-lo, encarando-o com desconfiança e curiosidade.
Aquele pequenino era o causador de tanto rebuliço?
– Quem é você? – a coisinha clara perguntou.
Não podia ser. Sério mesmo que aquele menino era o terror das mulheres da cozinha, o atroz monstro? Como era seu nome mesmo? Maya? Mio? Miles? Marcus?
Achava que era Marcus.
– É verdade que você gosta de comer dedos dos pés? Dizem que os dedos do Chefe estão todos mastigados por sua causa. Já me disseram que ele não possui mais dedos. – foi quando sua mente absorveu que o rapaz lhe havia perguntado algo – Ah, sou Rurik. – e estancou quando um pensamento bizarro lhe ocorreu. Fez uma careta – Vai comer meus dedos agora?
Marcus arregalou os olhos em espanto. Depois, estalou em gargalhadas, agarrando o próprio estômago enquanto ria descontroladamente. O ar lhe faltou e lágrimas já lhe escorriam pelas bochechas de tanto rir. Rurik não entendeu aquilo.
Qual era a graça?
– Dedos? – e ria mais e mais, como se fosse incapaz de parar.
– Você... não come dedos?
– Não!
Rurik soltou uma risadinha nervosa.
– Ah – foi tudo o que disse mais uma vez. – De verdade?
– Por que eu comeria dedos? – ele sorria abertamente e Rurik corou ao notar o quão bonitinho ele era. O sorriso lhe fez revelar covinhas adoráveis nas bochechas e os olhos escuros eram bastante simpáticos, sem malícia alguma. Aquilo... Fez com que relaxasse.
Rurik não costumava se aproximar de homens. Na verdade, mantinha distância máxima deles.
Mesmo de Niels nunca esteve perto.
Queria Niels... Queria muito.
Mas, talvez seu maior problema fosse também seu maior conforto: não havia reciprocidade, portanto, nunca haveria necessidade de proximidade.
Era a primeira vez que estava com um homem sem petrificar pelo terror.
– Não sei – retrucou, envergonhado por não ter mordido a língua antes de perguntar aquela bobagem sobre dedos. – Desculpe.
O garoto negou com a cabeça.
– Você sabe o caminho para voltar para casa? – perguntou. – Eu preciso... – uma sombra de tristeza e insegurança cruzou sua expressão antes de ele dissimula-la com um sorrisinho – Descansar.
– Eu acho que talvez eu possa tentar nos levar de volta.
– Você também se perdeu?
Bom, ele fora largado na floresta e não vira Niels durante o dia. E nem à noite.
– Algo assim.
– Então, melhor estarmos perdidos juntos do que perdidos sozinhos – brincou Marcus.
– Tem lógica nesse pensamento – riu Rurik, virando-se na direção que acreditava ser a da aldeia – Acredito que uma linha reta pode nos levar de volta.
Marcus fez uma careta.
– Talvez.
Rurik começou a andar e Marcus o seguiu de perto, parecendo desacreditado de sua escolha, porém aliviado pela companhia.
– Meu instinto nunca falha – Rurik disse, estufando o peito – Eu sinto que é por aqui.
Marcus sorriu.
– Vou confiar em você, então.
Rurik assentiu com a cabeça, satisfeito.
– Tenho um ótimo senso de direção, sabe? Na verdade, eu sou um perito em fugas, caminhadas e excursões. Não é para me exaltar, mas realmente tenho o dom. Estar comigo é como estar com um deus das viagens, Marcus – e deu tapinhas no ombro do rapaz – Fique tranquilo.
Quem diria que achara que o baixinho era um fantasma.
Marcus riu.
– Meu nome é Meine.
– Sei disso, Marc... Mein?
– Não – ele riu outra vez – Meine.
– Mein... Mei. Mei é mais fácil. Incomoda-se?
Marcus-Mei deu de ombros e virou a face – não antes de Rurik notar a expressão triste em seus olhos.
– Mei está bom – murmurou com certo desânimo.
Rurik quis lhe perguntar por que estava tão deprimido, mas não quis parecer intrusivo a uma pessoa que acabara de conhecer, mesmo que fosse o famoso comedor de dedos de pés.
– Vamos, Mei – Rurik sorriu – Vamos para casa.
Horas mais tarde, eles estavam completamente perdidos e quase fora dos limites das terras de Svan.
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