Phaeleh I

40 Capítulo 40 - Profecia


Notas iniciais
Miky: Olá amores *-* Espero que gostem do capítulo ! Uma observação: Está muito próximo o momento tão esperado entre o casal principal ♥ Boa leitura!

Desde o clã dos Berserkers, fora rápido alcançar a linha das fronteiras. No entanto, a viagem desde aquele ponto para o Reino dos elfos de luz, seria de cerca de um dia e meio, ou dois, dependendo de como estaria a condição dos caminhos, ou mesmo se o tempo ajudaria.

De certo era, o clã dos elfos brancos era situado atrás daquela grande montanha, a mesma que Alasd sempre observou nas manhãs onde ele fora recrutado a estar vigiando desde as torres de proteção do leste.

— Vamos parar em algum lugar para passar a noite. Os cavalos provavelmente já se sentem exaustos. — Disse Darius, depois de um silêncio que durou provavelmente horas. Alasd não era um homem que vivia por sua língua, mas incomodou-o ser tão quieto.

Darius deixou a sua montaria e seguiu caminhando, os outros fizeram o mesmo, inclusive Alasd. Eles encontraram uma clareira próxima do caminho em que estavam seguindo. Era um espaço desmatado, onde a relva era baixa e as árvores ao redor eram centenárias, de troncos muito largos e raízes imensas que faziam seu jogo por fora da terra. As copas eram densas, entretanto haviam algumas poucas aberturas para visualizar a lua e as estrelas.

O Berserker notou que Darius e Hayliel não se preocuparam em prender os cavalos. Quando seguiu para fazer isso ao seu, Hayliel chegou para ele e disse:

— Você não precisa amarrá-lo. — Suas mãos estavam para trás e ele tinha um pequeno sorriso doce quando se aproximou.

Alasd ficou esperto.

— Se não prendê-lo, ele poderá se perder ou fugir simplesmente. — Era o certo.

O elfo balançou a cabeça.

— Não, ele não vai, porque nós elfos estamos aqui. — Ele apontou por cima do ombro para o seu pônei cinzento. — Meu cavalo, Loki, ele entende tudo o que eu digo e faz o que eu mando. Mas ele obedece apenas a mim e ao meu mestre.

— Hum. — Alasd olhou para o pônei cinzento e então para Hayliel, vários centímetros mais baixo do que ele. — Loki? Porque um elfo de luz daria o nome de um deus obscuro para o seu pônei?

Hayliel sorriu, parecendo de muito bom humor. Foi estranho.

— Eu não sei... Apenas quis chamá-lo assim. Darius já me questionou várias vezes.

Alasd ergueu uma sobrancelha.

— Se é assim, diga ao meu cavalo para ele não fugir. — Assistiu Hayliel chegar até a sua montaria e acariciar o pescoço do animal, o mesmo resfolegando baixo, então lambeu um lado de seu rosto. Hayliel soltou uma baixa risada divertida com a reação do animal.

— Ele vai apenas dar uma volta por ai.

O guerreiro assentiu. Por um momento, ambos apenas ficaram ali, de frente um para o outro. Alasd não pode evitar olhar em Hayliel que parecia muito a fim de dizer algo para ele, mas mesmo que ele abrisse a boca para tentar, parecia ponderar se dizia ou não.

— Eu vou encontrar madeira para uma fogueira. Está ficando tarde, é perigoso.

Hayliel assentiu um pouco exageradamente. — Sim! Meu mestre sempre prefere haver luz.

Com certeza, pensou o guerreiro, afinal eles eram elfos de luz, eles sempre prefeririam luz e cores claras. Alasd acabou demorando um pouco para mover seus próprios pés para longe, havia algo dentro dele que não queria permiti-lo afastar-se do elfo.

Aprofundou-se na floresta, coletando alguns pequenos troncos caídos, galhos secos que viriam a servir como uma fogueira fácil. Eles precisavam de luz não apenas por haver elfos consigo, mas para evitar predadores e mantê-los enxergando a si mesmo, mesmo com a luz pouca da lua.

A fogueira foi feita, ao tempo de que eles se recostaram contra as raízes tremendamente grandes das imensas árvores para ter algum descanso da viagem. Alasd sentia fome, e no momento em que fora encontrar algo em sua bolsa para aliviar seu estômago, Hayliel chegou para ele e se sentou ao seu lado, oferecendo um alimento em uma folha do tamanho de uma palma.

— O que é isso?

O elfo teve aquela expressão adorável de timidez. Alasd se sentiu um tanto atordoado por um segundo.

— Eu preparei enquanto estava na sua casa, especialmente para a viagem. É um bolo de amoras, acho que irá gostar, experimente. — Ele ofereceu um pedaço.

Alasd olhou bem para o alimento que de certa forma parecia muito saboroso. O cheiro estava bom também, então hesitante, ele tomou um bocado daquele bolo e comeu. Seus olhos cresceram de tamanho e brilharam, embora ele não quisesse ter reagido, fora inevitável porque o gosto era realmente bom.

— Você mesmo que fez isso?

— Foi sim. — Hayliel tinha um olhar assustadoramente esperançoso para ele, como se a opinião do guerreiro fosse a coisa mais importante naquele momento.

Alasd gostou disso. Ele terminou o seu pedaço e Hayliel prontamente ofereceu mais.

— E os outros? Eles não precisam se alimentar?

O elfo olhou sobre seu ombro para Darius que conversava em um sussurro com Rurik que não parecia muito feliz.

— Meu mestre prefere quando faço de ameixa ou maçã, mas eu já entreguei a eles metade do que eu preparei, estes são para nós. — Ele mostrou mais algumas folhas enroladas em pedaços do bolo que havia feito, dentro de um pequeno compartimento de madeira.

Se era assim, o Berserker não pensou duas vezes de garantir mais um pedaço, assim como o elfo se colocou ao lado dele também devorando seu bolo de amora.

Ainda assim, notou que o olhar do elfo sempre desviava para fitá-lo. Imaginou se havia algo de errado com ele, mas não, com certeza não tinha. Porque aquele olhar... bem, não era um tanto comum, era algo mais apreciativo, com certo calor que Alasd nunca antes viu alguém olhá-lo dessa mesma forma.

Era estranho, assustador um pouco, no entanto, ele gostou.

Tinha sentido a mesma coisa em seu chalé no vilarejo. Mesmo quando o elfo estava naquelas condições, definhando em sua cama depois de ter sido gravemente ferido e infectado por magia negra, ele ainda sim, olhava para ele com um olhar diferente. Completamente distinto das outras pessoas.

Alasd era um observador. Ele não estava errado quanto a isso, mas de certa forma ainda não tinha certeza do que significava, a não ser que Hayliel lhe dissesse algo.

— Você... não gostaria de vir comigo? — O elfo perguntou depois de um tempo, quase em um sussurro.

— Por quê? — Ele realmente sentiu-se surpreso dessa vez.

O elfo não quis olhá-lo, mas apesar de seus olhos estarem baixos, seu rosto inteiro avermelhou-se, concentrando pior rubor em suas bochechas. Inclusive seus lábios rosados tremeram quando ele o encarou dessa vez.

— Você poderia... hum... conhecer? Eu poderia mostrar-lhe como meu povo vive e... poderia mostrar o meu trabalho... — Ele ofegou para dizer tudo isso. Alasd não entendeu aquela reação tão... diferente do que ele tinha visto em Hayliel até agora. O elfo sempre lhe pareceu orgulhoso e confiante ao dizer-lhe as coisas, mesmo quando estava tão vulnerável no período em que cuidou dele.

Engoliu em seco, porque oh se não era adorável.

— Eu não posso, Hayliel. Meu líder espera que eu volte. Estamos numa fase um pouco ruim. — Ele disse, mas de alguma forma se arrependeu, porque o olhar que o elfo mostrou a ele depois disso, foi como se ele tivesse recebido um tapa. Provavelmente o rejeitar do seu pedido magoou o loirinho.

Alasd queria poder trazer as suas palavras de volta, e ele verdadeiramente sentiu que deveria então acrescentar uma resposta positiva, praticamente aceitando o pedido do elfo e ir com ele. No entanto, o que disse era verdade, ele precisava voltar por Svan. Seu líder precisava de cada força disponível.

— Eu... — Alasd queria dizer algo, mas o que? O que aliviaria a tensão entre eles, ou ao menos não deixaria aquele garoto pesaroso?

Quando o olhar do guerreiro vacilou, notou que Darius estava observando-os discretamente. Com certeza que o líder elfo não estaria de acordo com uma amizade entre um Berserker e um de seus elfos. No entanto isso não intimidou Alasd. Ele se levantou e ofereceu uma mão a Hayliel.

— Venha.

Hayliel não disse nada, mesmo que parecesse curioso, ele foi com Alasd para um pouco mais longe de onde eles estavam ficando. Apenas alguns metros mais distante da fogueira, e embora estivesse escuro, ainda havia uma abertura sobre as copas das árvores, permitindo que ao menos a claridade da luz lhe deixasse notar as feições de Hayliel às escondidas.

O silêncio pairou entre eles. Alasd o trouxe pela privacidade, no entanto ele não tinha nada construído em sua mente para qualquer conversa que pudesse ter com o elfo agora, e ainda mesmo que não entendia como estava se preocupando com ele. Por que ele queria estar em torno dele? Por que sua presença lhe era importante? Seu coração apenas estava querendo aproximar-se ainda mais, seus lábios secavam quando ele reparava naquela feição bonita, naqueles olhos grandes e redondos, seu rosto pequeno e seus lábios bem desenhados.

Aquele sentimento estava pela primeira vez assombrando-o. Alasd nunca sequer gostou de alguém assim, era provavelmente a primeira vez que assolava o seu peito.

E aquele adorável elfo estava a frente dele. Era um elfo, pelo amor dos deuses! Se os céus desejassem que ele se apaixonasse, porque não por um se seus companheiros, ou melhor ainda, por uma mulher? Tinha que ser por... uma criatura tão linda e adorável.

Não importa como ele olhasse para Hayliel, ele sempre o veria tão bonito.

Com um suspiro, ele desistiu de controlar a si mesmo, a sua máscara que ele pensou ter se prendido a ele como uma característica física, finalmente caiu.

Não adiantava o quanto ele quisesse esconder o seu verdadeiro eu, aquele homem sentimental e atencioso, que amava, que sabia ser gentil e sorrir. Ele quis ser ele mesmo quando estava com este elfo, por tão pouco tempo uma criatura assim provocou isso nele.

— Sabe Alasd... — Hayliel quebrou o silêncio, seus olhos baixos enquanto ele parecia tímido. — Eu queria te ver de novo.

E Alasd teve certeza que viu os olhos do elfo brilharem molhados. Mas logo, ele os enxugou com as costas das mãos.

— Porque... eu gostaria de conhecê-lo melhor.

O guerreiro torceu suas sobrancelhas, incerto sobre isso.

— Eu não entendo.

— Como assim? — Hayliel se aproximou um pouco. — Não entende por que eu quero conhecê-lo?

— Eu não sou alguém interessante, eu nem ao mesmo sei sorrir. O que diabos você vê em mim? Sou apenas um guerreiro, a única coisa que há em mim são músculos, nada que agrade um elfo.

Hayliel tocou em seu braço com sua mão gélida, sua mão de ferro.

— Eu não penso assim... não penso que seja apenas um monte de músculos e que não saiba sorrir. Eu sei que você esconde, eu posso sentir o seu coração... a sua aura. E eu sei, que você costumava ser uma pessoa completamente diferente do que é hoje.

Seus olhares se conectaram, e algo silenciosamente passou entre eles. Foi então que Alasd teve um súbito atrevimento.

As costas de Hayliel foram contra a árvore quando Alasd assaltou sua boca em um beijo completamente inesperado pelo loiro, seguido por um gemido estrangulado.

Alasd não se afastou, no entanto mesmo que Hayliel tentou afastá-lo de si, não demorou para que ele caísse completamente pelo Berserker, derretendo-se contra o seu corpo.

O beijo tinha se iniciado um pouco agressivo, porém gradativamente tornou-se lento. Alasd não tinha sentido isso por tanto tempo que mal se lembrava. A quentura de um corpo contra o seu, o prazer do contato, de um simples abraço à um beijo carinhoso como aquele. Sua língua pediu passagem entre os lábios trêmulos do elfo, e essa sendo concedida, ele aproveitou.

Os poucos gemidos de Hayliel fizeram o seu peito esquentar, aquela flor há muito tempo murcha dentro dele, de repente transformou-se em um lindo broto, pronto para desabrochar.

Suas respirações estavam descompassadas quando afastaram-se um do outro após o beijo delicioso. Entretanto Alasd não entendeu o olhar assustado do rapaz, Hayliel parecia tão... confuso. Foi então que notou como ele tremia, como suas pernas tremiam pior. E olhando abaixo entre eles, entendeu o que significava.

— Eu... desculpe-me. — Hayliel o empurrou e correu de volta para o acampamento.

Alasd apenas permaneceu olhando para onde ele tinha ido, ponderando sobre o que se passou. Seus dedos tocaram sobre seus lábios, ainda com o gosto fresco do elfo em sua boca. Ele não queria esquecer.

Hayliel tinha gozado apenas com um beijo seu. E este conhecimento apenas, fez com que a flor interior de seu peito, desabrochasse totalmente.

Foi como se por uma fração de segundo, ele realmente acreditasse que seu coração pudesse recriar novamente aqueles sentimentos que há muito haviam sido extinguidos. Aquelas lembranças de sua infância conturbada e sua juventude destruída por seus pais, poderiam ter um fim. Ele acreditou.

–*-*-

Wray parecia a beira dos nervos em preocupação, embora seu rosto estivesse sorridente para ele. Foi o que Meine notou depois de observá-lo bem. Naquele momento ele estava preparado um ensopado de carne e legumes para o jantar.

— Aricin deve estar faminto, apesar de não saber como dizer isso. Pobre dele, estar parado o dia inteiro naquela poltrona deve ser tão entediante. — Wray comentou para Meine ouvir enquanto trabalhava rapidamente em sua pequena cozinha. — Quando se está consciente. — Acrescentou com ênfase.

Meine o viu se mover rapidamente de um lado para o outro. Entretanto ele estava curioso para saber o que se passava no vilarejo, algo provavelmente não estava indo bem com eles. Podia sentir isso.

— Você vai querer comer comigo hoje? — Wray perguntou sem olhá-lo, experimentando o caldo. — Ual, realmente ficou bom!

— Eu gostaria. — Meine aceitou, se perguntando como diabos perguntaria a Wray. Mas a seu amigo, ele não tinha exatamente vergonha de conversar, na verdade de todos no clã, ele era mais aberto a Wray e a Svan, é claro. — Wray?

— Hum? — Ele respondeu, resgatando do armário uma porcelana.

Meine olhou para suas mãos, seus dedos brincando uns com os outros.

— Eu posso sentir sua preocupação... o que está acontecendo?

Wray travou em seus pés e não se moveu desde aquele segundo. Demorou para que ele respondesse algo à Meine.

— Estamos em uma situação bastante perigosa Meine. Sinto muito não ter te contado antes. — Agora Wray olhou seriamente para ele.

Meine engoliu em seco.

— Esta tarde recebemos uma missiva... — Ele se aproximou do elfo e encostou ao seu ouvido para sussurrar, o que fez Meine enrubescer com a aproximação. Wray cheirava bem. — Uma carta do Jarl dessas terras. Skoll não pode saber sobre isso. — Visto que o lobo estava permanecendo na sala de estar com Aricin, como seu protetor praticamente. Meine mesmo não entendia por que o Alfa dos lobos de Ulfhednar estaria tão preocupado com Aricin.

— Por que ele não pode saber? — Indagou em um sussurro, curioso.

Wray olhou em seus olhos, tão perto que Meine sentia a respiração dele contra a sua. Sentiu ganas de abraçá-lo, por que de alguma forma estava sentindo-se um tanto carente, e Wray era o seu melhor amigo, além de ser como um irmão mais velho para ele, talvez até mais além do que isso.

— Porque se soubesse que estas terras não são nossas, estaríamos vulneráveis à guerra. Qualquer clã poderia vir e nos expulsar. Eles não temem ao Jarl e aos seus exércitos humanos, mas nós Berserkers temos uma dívida com ele desde nossos antepassados. Essas terras tem um dono que não somos nós, entretanto pagamos um preço para continuar utilizando-a.

Meine estava de olhos arregalados, mas enfim suspirou. Não resistiu em que uma de suas mãos tocassem o queixo de Wray, sentindo um pouco áspero. Ele precisava fazer a barba.

— E por que vocês não se mudam daqui? A floresta é tão grande.

Wray deu-lhe um sorriso tão carinhoso, levando uma mão fora por cima da mão de Meine.

Parece que depois de que Wray adoeceu daquela forma, entrando em um coma, Meine desenvolveu sentimentos tão profundos pelo seu melhor amigo. Antes mesmo ele apenas o imaginava como seu "amigo", no entanto agora ele era o "melhor de todos" depois de Svan, é claro.

— Nós já pensamos isso Meine, mas nossos antepassados foram enterrados nessas terras. E o povo acredita que esse é o lar dos Berserkers, por que no passado, nós fomos muito abençoados por fartas colheitas, pela saúde e pela vitória nas batalhas. Muitos quiseram tomar essas terras, mas nós os expulsamos.

Ainda que Meine tentasse compreender aquilo que Wray estava lhe explicando a respeito do território, ainda não parecia muito convincente para ele que eles não pudessem sair dali e recomeçar em outro lugar sem dono. Afinal a floresta de Saranmir era enorme e havia muitas outras regiões também.

— Sei que não está muito convencido. Acho que Svan pode explicar-lhe melhor. — Wray olhou para os lados e então roubou um pequeno beijo na bochecha de Meine, que sentiu seu rosto corar. — Te olhando assim é meio irresistível não te tocar de alguma maneira. — Fora seu último sussurro.

Wray afastou-se e encheu a porcelana com o ensopado, entregando-a para Meine. Ele fez o mesmo para mais três pessoas, e ambos foram para a sala de estar. Skoll recebeu o jantar com um aceno de agradecimento, e assistiu Wray alimentar Aricin.

Meine também assistiu em silêncio, mas com um sorriso em seu rosto. Aricin parecia envergonhado com suas bochechas vermelhas. Ele estava bem o bastante para comer sozinho, no entanto ainda sim Wray insistia em mimá-lo da melhor forma possível, fazendo tudo por ele.

O escravo mudo já estava em uma poltrona, aconchegado a várias almofadas. Seu quadril estava melhor, tanto que ele já não sentia mais nada além de estar dolorido apenas, entretanto o curandeiro ainda deu ordens para mantê-lo quieto até que melhorasse completamente.

— Apenas mais alguns dias, até que possa se exercitar novamente, Aricin. — Wray disse-lhe gentilmente e usou um lenço para enxugar uma gota que escorreu para fora de seus lábios. — Mesmo agora, você está muito bonito. — Aricin corou mais e deu-lhe um sorriso tímido, enquanto Meine observou Skoll torcer as sobrancelhas prestes a reclamar, porém permaneceu quieto.

Depois que Meine terminou sua refeição e ajudou Wray a limpar a cozinha, ele se despediu rapidamente dele e dos outros e voltou para casa. Bem, ele tinha que considerar a casa de Svan como sua, já que estava morando lá há alguns meses.

Chegando, ele teve sorte por ser noite e as escravas, depois de terminarem toda a limpeza após o jantar, já haviam se retirado para suas habitações. Assim, Meine estava livre de tormentos, por que nenhuma delas gostava dele.

As vezes se perguntava por que elas odiavam tanto ele, por que Meine nunca lhes fez qualquer mal, ele achava. No entanto, ele não julgava nenhuma delas, ou mesmo Niels, por não gostar dele. Meine não merecia exatamente qualquer amor dessas pessoas, talvez de ninguém em geral, afinal ele era a principal razão do desastre que estava ocorrendo naquela vila.

Estava muito frio, a neve da última tempestade tinha abaixado, no entanto o céu estava avermelhado, sem estrelas, além da brisa leve de mais cedo ter se tornado uma ventania para congelar os ossos. Esta noite haveria uma nevasca, e Meine torcia para que não fizesse qualquer estrago.

Ele passou pelo corredor sem problemas, antes notando que Svan estava em seu escritório. Niels também estava lá e eles conversavam tranquilamente, parecendo concentrados em algum assunto importante.

Meine queria ir direto para o quarto, mas seu coração não deixou, e ele permaneceu ali olhando em Svan desde a brecha na porta entreaberta, notando sua expressão séria e seu olhar analisador. Meine ignorou sua preocupação palpável e concentrou-se no desejo que se acendeu dentro de seu peito. Seu coração ficou quente e ele olhou para os lábios de Svan, umedecendo os seus próprios querendo um beijo. Ele amava beijar o Berserker.

— Eles provavelmente descobriram sobre o Phaeleh... por isso querem as terras de volta. — Niels comentou, e Svan amaldiçoou baixinho.

— Eles não terão Meine. Ninguém além de mim o terá. — Deixou bem claro.

Entretanto Niels não parecia convencido.

— É a forma como eles querem nos chantagear.

Foi então que Meine ouviu uma terceira voz no recinto e notou que se tratava de um velho senhor, muito velho. Ele nunca o tinha visto no vilarejo, mas sua voz antiga fez-lhe arrepiar de certo modo.

— Phaeleh é uma criatura que vive de amor, de carinho. Você deve dar-lhe sua escolha o quão pronto possível, para que a profecia dos elfos seja cumprida.

Meine não entendeu o que ele tinha querido dizer com "escolha". O que ele tinha que escolher? A expressão de Svan foi de confusão para raiva.

— Você diz um monte do que não podemos compreender, porque não nos explica com exatidão?

Niels repreendeu o irmão. — Deixe ele falar Svan, lembre-se que é o ancião mais antigo do vilarejo. Deve-se a ele respeito.

O líder bufou em desaprovação, recostando contra sua poltrona e cruzando os braços sobre o peito com uma carranca.

— O que estou querendo dizer-lhe, meu jovem, é que Phaeleh é suposto escolher com quem ele realmente gostaria de ficar. Esta é a escolha dos deuses, não importa o quanto os elfos digam que ele deve ir para seu Reino se não for a escolha verdadeira dele. — O ancião tossiu um pouco e olhou em direção a porta, o que fez Meine arrepiar-se. — Se ele escolher ficar... então Svan deve tomar a profecia em questão.

— A profecia? — Svan questionou com uma sobrancelha arqueada.

— Se recorde das palavras do Oráculo. — O olhar do ancião, tão pequeno e contornado por rugas pareceu ficar longe enquanto ele pensava, seu queixo sobre a bengala. — Copule com o Phaeleh e ele lhe trará prosperidade. Coma de sua carne e terá vida eterna. Devore sua alma e a luz findará.

Aquele mesmo arrepio pareceu transpassar o corpo de todos eles quando o ancião mencionou isso. Meine agarrou seu peito sobre o seu coração, quando aquela mesma quentura, transformou-se em gelo. Ele passou a tremer, por que sentiu muito medo.

As palavras do oráculo eram palavras dos deuses, e lhe diziam que Svan poderia fazer o que quisesse com ele se ficasse, mas que era uma escolha sua ficar ou não. No entanto, ele tinha que escolher um lugar ou alguém, mas sabia muito bem, que mesmo que tentasse, ele seria sequestrado antes e sabe-se lá o que fariam com ele.

Copule com o Phaeleh e ele lhe trará prosperidade. Coma de sua carne e terá vida eterna. Devore sua alma e a luz findará.

Meine não queria nada disso... não queria ser devorado. Não queria que sua alma fosse arrancada de seu corpo. Ele queria viver. A não ser... copular? O que era isso?

Ele olhou assustado quando Svan notou que estava espionando.

Svan não precisava ter vida eterna, a não ser que fosse um desejo secreto do qual Meine nunca soube, e muito menos ele precisava devorar a sua alma para apagar a luz. Mas, prosperidade? Isso poderia ser a salvação do clã. Entretanto, Meine ainda estava se perguntando o que copular significava!

— Líder... — O ancião voltou a falar. — Isso significa que deve desposar o Phaeleh se o desejo dele for ficar em sua companhia.

Os olhos de Svan se arregalaram e ele olhou perdido quando o reconhecimento entrou nele. O líder ainda olhou para a porta, e Meine olhou diretamente em seus olhos, com o medo desmensurado saindo em ondas de dentro dele.

Niels bateu suas mãos com violência sobre a mesa de carvalho, e Meine não podia ver a expressão dele, no entanto a raiva e a revolta fora maior do que ele já tinha notado alguma vez. Ele parecia prestes a matar Svan.

— Como você pode Svan?! — Ele gritou e sua voz ecoou pela casa. Meine olhou pelos corredores vazios e o silêncio em torno do que Niels dizia. — Eu lhe dei de presente para ser o seu escravo sexual e você nem ao menos o usou?! Deve ser por isso que os Berserkers estão ruindo.

Svan permaneceu quieto como se estivesse pensando a respeito, seu olhar não mais encontrou o de Meine, o que de alguma forma doeu dentro dele.

O ancião apenas observava sem quaisquer preocupações.

— Então Svan realmente não tomou o Phaeleh como seu? — Ele perguntou curioso. — Por quê?

Dessa vez, o líder Berserker parecia visivelmente decepcionado consigo mesmo, senão, ponderando sobre sua própria situação.

— Eu sei que você deu ele a mim com esse intuito, apenas alguém para me satisfazer, para esquentar a minha cama. Eu tentei, eu juro... mas, fora inevitável desenvolver sentimentos por ele, e a partir disso, eu não pude mais vê-lo como um objeto. — Ele ergueu o seu olhar e encontrou o de Niels, de forma que Meine sentiu quando o irmão mais novo abrandou a sua raiva e quase compreendeu aquilo que Svan dizia por ele mesmo se tomar como exemplo. — Eu queria preservar a pureza de Meine... ele sempre foi inocente para mim. Não queria corrompê-lo como aos outros escravos.

Niels caiu de volta contra a cadeira com a cabeça entre as mãos e resmungando contra si mesmo. Svan também acalmou-se em sua poltrona.

Meine não quis mais ouvir da conversa deles e caminhou como se estivesse nas nuvens para o quarto.

Svan queria preservá-lo? Como assim?

Ele gostaria de entender exatamente do que eles estavam falando.

Uma mão se fechou em seu ombro e puxou-o delicadamente, embora todos os pelos de Meine se arrepiaram. Foi um alivio notar que Oleg estava ali.

— Nós seguimos você. — Disse ele, o que não fora novidade. Ele sentiu assim que saiu da casa de Wray, que estava sendo perseguido por olhos observadores. No entanto ele não teve qualquer dúvida de que fossem os elfos protetores, seus guarda costas. Embora fosse legal pensar assim, estava sendo muito chato não ter mais sua privacidade. — Não é certo espionar.

Agora ele definitivamente perdeu a paciência.

— O que te importa? — Cuspiu de volta.

Oleg ergueu suas mãos em rendição, sem uma gota de medo da reação de Meine, o que apenas provou ao albino de que realmente era impossível temê-lo em qualquer hipótese.

— Apenas foi um comentário tolo, desculpe.

Meine perdoou imediatamente. Ele olhou em Oleg sentindo certa simpatia apesar de tudo. Não sabia se o elfo sentia o mesmo por ele, mas pelo menos o respeitava.

— Onde estão os outros? — Notando que o homem maior estava sozinho.

— Estão vigando em torno da casa. Nós vigiaremos em turnos.

Meine assentiu, deu-lhe um sorriso e uma pequena batidinha ao braço de Oleg.

— Obrigado por tudo.

Ele deixou o elfo corpulento em frente da porta do quarto e a fechou, sem realmente trancá-la já que Svan ainda viria. Ele precisava de uma decisão, certamente precisava. E a única coisa que veio em sua mente fora mais uma vez pedir socorro aos deuses, embora ele não fosse religioso o bastante, sua última experiência falando com Frigga deu-lhe a sensação de que ele poderia novamente tentar.

Meine ajoelhou-se sobre o tapete e iniciou a sua prece. Ele não soube exatamente o que dizer, mas no momento em que começou, as lágrimas já vieram aos seus olhos imediatamente e suas palavras saíram aos tropeços.

— Eu não sei o que fazer... dê-me uma resposta, por favor...

E embora sua oração continuasse, ele não recebia uma resposta, e isto estava acabando consigo enquanto ele se humilhava para ter ao menos uma dica do que fazer. O que Meine não esperava era que braços fortes enrolassem em torno dele e tivesse suas costas abraçadas firmemente, lábios quentes e suaves tocaram seu pescoço, provocando-lhe pequenos espasmos em sua pele.

Meine enxugou suas lágrimas com a manga de sua camisa, sentindo-se tão maldito vulnerável, que parecia um tolo. Svan estava ali, dando-lhe um carinho tão sincero, seu mesmo coração de elfo era capaz de sentir como o amor daquele gigante Berserker era puro em relação a ele, e ainda imaginou que Svan poderia ter a capacidade de maltratá-lo, de comer de sua carne ou destruir sua alma.

Svan nunca faria isso, Meine tinha a prova concreta.

— Sinto tanto Suvan... eu destruí seu vilarejo, eu lhe trouxe tantos problemas... sou um inútil, um tolo... eu não mereço você. — Meine estava quebrado, aqueles braços fortes agarram-lhe tão apertado para querer fundi-lo em seu corpo. — E ainda sim eu não quero ir... eu não quero deixá-lo.

Svan levantou Meine e então virou-o em seus braços, para abraçá-lo como se é devido, beijando seu rosto choroso, sem se importar com tantas lágrimas pelo caminho.

— Não diga essas coisas de si mesmo, Meine. — Ele beijou-o mais uma vez em sua testa. Suas mãos grandes desciam e subiam em suas costas carinhosamente, enquanto o albino soluçava. — Nunca foi sua culpa...

— Me desculpe Van. — Meine soltou um grande suspiro, tentando a todo custo amenizar o seu choro desenfreado. — Eu juro... eu... eu não queria ter feito nada disso... eu nunca quis o mal de ninguém.

— Eu sei... eu sei, Meine. — Svan ainda continuou abraçando-o, até o elfo se acalmar. — Você estava em uma oração?

— Sim. — Ele respondeu baixinho. — Os deuses não quiseram me responder. — Ele olhou em Svan com seu coração inchado pela forma carinhosa em que o Berserker retornou o seu olhar. Ele parecia não se importar que Meine chorasse tanto, que fosse um bobo ou tolo, ou que fosse um bebê inútil. — Você me perdoa?

— Te perdoar pelo que? Você nunca fez nada. — Ele beijou o rosto do garoto e voltou a abraçá-lo fortemente em seu peito. — Mas se isto te fizer melhor, eu perdoo você.

E foi a gota d'água para Meine, porque desenrolou-o ainda mais de um mar de lágrimas.

— Eu te amo Van! Amo... amo tanto... — Abraçou-o tão forte e tão apertado. Meine nunca chorou tanto em sua vida. — Te amo Van...

Os beijos de Svan em seu pescoço, sua orelha e em sua cabeça continuou, até que ele acrescentou baixinho:

— Eu também sinto o mesmo.

Continua...

Notas finais
Miky: Obrigada por ler ♥ Até a próxima!