Phaeleh I
37 Capítulo 37 – Despedida
Notas iniciais
Skylar despertou com o cheiro maravilhoso de café. Nos primeiros dias naquela cabana perdida na floresta, ele não tinha tido qualquer apetite, apesar de estar se esforçando para reavivar o seu estômago depois de dias em seca. No entanto, hoje ele tinha acordado com fome e desejava usufruir de um bom alimento. Berserkers costumavam comer o triplo do que humanos normalmente comeriam, afinal eles eram feitos de músculos, tinham ossos muito fortes e uma inteligência além do comum.
Viver de ensopados, chás de ervas e mastigar folhas medicinais estava sendo como uma tortura diferente, mas ainda sim uma tortura.
Agora ele já conseguia se arrastar para sentar-se na cama, sem toda aquela dificuldade onde qualquer movimento lhe fazia desmaiar. De certa forma ele estava em um melhor humor, aqueles pensamentos inundados em uma essência de morte, agora eram substituidos por esperança.
Ele tinha esperança de se curar e voltar para casa.
Heike, aquele que elfo que se dizia ser um fada, afastou as cortinas da porta para adentrar no quarto pequeno. Ele carregava uma bandeja simples de porcelana, e a depositou sobre o criado mudo.
— Acordou com fome?
— Hum. — Skylar assentiu, espiando para ver o que estava na bandeja. Era um copo de bambu com chá de ervas fumegante, além de uma grande fatia de pão com geléia de alguma coisa que ele não soube identificar com o olfato. — Geleia de...?
— É doce de cidra. Você vai gostar. — Heike se sentou à beira da cama e era estudado por Skylar.
De certo aquele elfo/fada era realmente bonito, o que era estranho para alguém como ele viver solitário nesta parte da floresta.
— Escute... Por que um elfo está vivendo com humanos? — Skylar ainda estava com seus braços fraturados, embalados por talas e faixas até que estivessem bons o suficiente para usá-los. Então, Heike estava dando-lhe de comer.
O fae grunhiu em uma careta de irritação. — Eu já lhe disse, sou um fae. Pare de me chamar de elfo. Eu não gosto de elfos.
Skylar ergueu as sobrancelhas, Heike deu-lhe mais um grande pedaço de pão em sua boca, não lhe dando chance de retrucar.
— Eu não estou vivendo neste lugar há tanto tempo... Talvez algumas poucas dezenas de anos. — Os olhos de Sky se arregalaram. Heike continuou. — Mas faz cerca de alguns meses que encontrei estes humanos vagando por essa parte da floresta. E caso você não saiba, vou te dizer, quem entrar neste círculo, nunca mais sairá. — E de certa forma, os olhos de Heike se tornaram um pouco solitários com o que estava contando.
— O que quer dizer? — Skylar o indagou de boca cheia. Heike deu-lhe um gole do chá.
— Estou querendo dizer que esta parte da floresta é como um labirinto. Ou você sobrevive neste lugar, ou você morre sozinho. — Suas sobrancelhas entortaram com suas próprias palavras. — Acho que não expliquei bem... Irei te dar um exemplo. Você nos contou que humanos torturaram você por informações de seu clã, não foi? — Skylar anuiu. — Pois bem, há alguns dias encontramos um grupo de homens mortos há duas milhas daqui. Eles foram atacados pela noite por animais selvagens, e provavelmente eles estavam perdidos desde que entraram nesta parte da floresta apenas com o intuito de abandoná-lo.
Skylar nunca antes sentira um calafrio como aquele. O relato que Heike estava lhe contando era um absurdo. Não tinha forma de saber se era verdade ou apenas uma história para assustá-lo. Mas de alguma forma, os olhos do fae pareciam sinceros, o que foi para ele como uma fisgada dolorosa.
Oh deuses, ele jamais poderia sair daquele lugar.
Aquilo lhe bateu como uma dor tremenda, a dor de saber que ele não estaria voltando para casa e revendo seu Wray.
Heike deixou o copo de bambu ao lado e segurou uma das mãos de Skylar nas suas. Foi um gesto estranho para o Berserker, e ele pestanejou com aquele ato pessoal.
— Eu salvei aqueles humanos de morrerem de fome por essas bandas. Desde então eles tem vivido comigo e eu já não me sinto tão solitário. Mona me contou que perdeu toda a sua gente de um vilarejo para os vikings do além-mar. Inclusive ela tinha um filho que não era de seu mesmo sangue, mas que o amava muito... Infelizmente os vikings o levaram também e ela nunca mais o viu.
Skylar engoliu em seco com o que Heike lhe contou. O fae lançou-lhe um olhar mais simpático e apertou sua mão.
— É uma história triste, mas esqueça isso. Cada um de nós temos algum lado triste. Portanto apenas curta viver conosco, você irá se acostumar com o tempo. Não se preocupe.
O Berserker assistiu o fae sair, caminhando para a porta e sendo atingido por um raio de sol que penetrava através do vidro da janela. Por um momento pensou em realmente ver parte de uma asa de fada brilhar em suas costas, mas sacudiu a cabeça notando que era besteira sua.
— Não me preocupar... — Ele abaixou seus olhos com a dor do reconhecimento lhe penetrando. — Eu não posso crer numa coisa dessas. — Recostou sua cabeça contra a cabeceira de carvalho da cama. Skylar quis chorar com todos os sentimentos de raiva e revolta dentro dele. Mas ele não o fez, lembrando-se que na honra de ser um homem, esse não era um motivo aceito para derramar lágrimas. Depois de tantas as que ele deixou escapar pela tortura dos humanos. Porém ele queria mesmo que isso não fosse verdade, as palavras de Heike. Então, pela primeira vez em um longo tempo de sua vida, ele sentiu aquele desespero que o fez clamar aos deuses, aos céus por ajuda. Ele fechou os seus olhos e fez uma oração a Odin, rogando-lhe que lhe desse uma luz, que não invertesse os seus caminhos e que o deixasse voltar para casa e se confessar para Wray.
E este foi o seu pedido mais humilde, resgatado do fundo de seu coração.
–*-*-
Se sentindo muito melhor e mais disposto, Hayliel acordou naquela manhã com um desejo oculto. Ele mesmo não soube decifrar qual era esse desejo, mas soube dizer a si mesmo que se tratava de Alasd.
O guerreiro tinha dormido em uma das poltronas de frente a lareira. Como não haviam divisórias, além da que separava o banheiro da casa, Hayliel se levantou em seus pijamas — roupas muito largas e que pertenciam a Alasd — e fora até onde o guerreiro ainda dormia.
Era bem cedo, o sol tinha acabado de surgir. O clima estava um tanto frio, porque as chamas da lareira já tinham se extinguido. No entanto Hayliel tinha um cobertor sobre seus ombros e estendeu uma pele para cobrir o grande homem que ronquejava baixo em um sono pesado.
Hayliel pensou que Alasd devia ter estado muito cansado no dia anterior para dormir tão bem em um sofá como aquele. E o homem lhe tinha oferecido sua cama para o conforto de um elfo, do qual não era uma raça muito amiga dos Berserkers.
De certa forma, pensar assim aqueceu um pouco seu peito, desde que Hayliel sempre se sentia tão solitário e carente. Ele nunca diria isso a ninguém, até mesmo admitir esses sentimentos lhe doíam, porque era lamentável.
Ele iria se afastar e voltar para a cama, no entanto uma mão envolveu o seu braço de ferro e o puxou para perto. Seus olhos se arregalaram para Alasd que o olhava sonolento, mas tinha um certo brilho de apreciação nele.
Hayliel não entendeu esse olhar no homem que rapidamente fora mascarado por indiferença. Ainda não conseguia entende-lo, mas de uma coisa ele tinha ideia, de que Alasd escondia os seus verdadeiros sentimentos. E Hayliel desejava que pudesse ter a chance de desvendar o verdadeiro homem por trás dessa armadura de pedra.
— O que pensa que está fazendo? — Alasd segurou firme o seu pulso de ferro, puxando-o para perto.
— Apenas... Pensei que estivesse sentindo frio.
— Eu sempre estou com frio. — Seu olhar foi penetrante, fitando dentro dos olhos de Hayliel com um sentimento que não fora compreensível.
— Sempre?
— Sempre. — Afiançou.
Hayliel mordeu seu próprio lábio inferior ponderando sobre aquelas simples palavras. Um guerreiro Berserker normalmente não tinha que sentir frio. Ele tinha naturalmente sua pele quente e músculos duros como uma armadura que evitava que eles sentissem na pele o clima incrivelmente frio do inverno da Escandinávia. Porém, este frio que Alasd sentia, poderia ter outro significado.
Ele não sabia o que dizer. Sua mente não formava palavras que fizessem coerência umas com as outras. Mas sinceramente, seu coração queria responder algo a Alasd.
Queria dizer que ele também sentia esse mesmo frio.
— Você está com fome? — Ele perguntou, aliviando o aperto em seu pulso, mas não o deixando.
— Um pouco. — Voltou a morder seu lábio inferior, pois de alguma forma se sentia nervoso. Não um sentimento ruim, entretanto... Uma expectativa de que algo fosse acontecer.
Alasd se levantou e soltou o seu braço com uma certa relutância, contudo ele ainda estava muito perto e aqueles olhos penetrantes fitavam o rosto de Hayliel com certo apreço. Foi um sentimento estranho a partir do elfo, porque ele gostou, no entanto ainda se perguntava o que Alasd pensava quando olhava para ele.
Um elfo, um tanto comum como os outros, louro apagado, sem quaisquer detalhes que fossem radiantes em seu parecer, além do mais, amaldiçoado com uma mão que se transformava em uma arma de ferro. Parecendo notar que seus olhos haviam se abaixado, depreciando a si mesmo como alguém para ser admirado, uma mão veio por debaixo do queixo de seu queixo e delicadamente o forçou a encará-lo.
Seus olhares novamente se encontraram e dessa vez Hayliel sentiu uma fisgada de algo bom em seu coração. Foi uma dor que atingiu-o como uma flecha divina e ele corou envergonhado.
— Farei café para nós. — Alasd disse unicamente e se afastou, indo até o pequeno ambiente naquele chalé que ele chamava de cozinha.
Hayliel de repente detestou a ideia de ter que voltar para casa.
Sua doninha fujona apareceu e escalou sobre suas roupas, provocando-lhe risos. Ela envolveu o seu pescoço e fungou em sua orelha. Hayliel a acariciou, mas não resistiu voltar a olhar em Alasd que igualmente o observou, para voltar-se a tarefa.
–*-*-
Niels não tinha um grande humor àquela manhã, porém não era pior do que no dia anterior. Já havia verificado seus guerreiros mais jovens que recentemente voltaram do treinamento fora para finalmente aprenderem a servir seus semelhantes, os Berserkers.
Ele nem precisava dizer que realmente nunca concordou com essa obrigação de enviar suas crianças para um maldito velho bastardo como preço por dívidas passadas. Odiava cada vez mais o seu falecido pai por isso, além de seu avô que era aquele que deu inicio ao tratado. Entre tantas terras nesse mundo que eles poderiam ter dado entrada a um clã, seus descendentes tiveram que escolher um maldito pedaço de terra que já pertencia a alguém. E não era como se um dia o homem cederia a uma compra, não importa o quanto fosse oferecido pela compra da propriedade.
Se os outros clãs se inteirassem disso, provavelmente seria uma deixa para eles iniciarem uma guerra. Ou seja, seria o verdadeiro extermínio de sua raça.
Quando finalmente tivera um hiato de seu trabalho no clã, Niels voltou para casa e ingeriu rapidamente uma xícara cheia com café e petiscou alguns biscoitos. Fora suficiente por agora, mas ele sentia que tinha de ver o seu escravo pessoal. Embora lhe fizesse nervoso por algum motivo que ele gostaria de não admitir a si mesmo.
Ele só não esperava que ao entrar em seu quarto, se encontrasse com Rurik organizando uma trouxa com suas poucas coisas.
— Rurik? O que está fazendo? — Se fez de desentendido. Na verdade Niels não gostaria de acreditar naquilo.
Seu escravo ruivo se levantou com suas coisas prontas e em seu ombro. Ele parecia tão nervoso quanto a si mesmo, e suas mãos tremiam enquanto ele lutava para lhe dizer seus motivos.
— Estou indo por um tempo para o clã dos elfos de luz, aprender sobre meus poderes loucos. Svan permitiu ao líder Darius me levar.
Os punhos de Niels se apertavam enquanto o seu rosto foi preenchido por um vermelho de ódio.
— Svan fez isso sem me consultar?! Você não vai!
— Niels! — Rurik chamou-lhe a atenção. Seu olhar enfrentava-o de uma forma corajosa que ele nunca tinha feito antes. — Eu estou cansado. Eu aceitei isso e não fora a pedido de Svan, ele apenas permitiu.
Niels engoliu um caroço do tamanho de um limão pela garganta. Suas mãos deslizaram por seu rosto em um gesto nervoso e revoltante.
— Pensei que estivesse feliz sendo meu escravo.
O silêncio pairou por um certo tempo, até Rurik pronunciar algo.
— Eu nunca fui feliz sendo um escravo. — Seus olhos caíram em tristeza, ao que Niels sentiu o formigar em suas mãos na ânsia de tocá-lo. Ele não podia. Sua mente malditamente contradizia o seu coração de forma que ele não fizesse besteira. Mas estava ele mesmo certo? Seria mesmo as palavras imundas de seu pai, verdadeiras para ele seguir?
Niels questionou-se completamente, desde todas as lições morais que ele tivera até o presente momento. Questionou-se até mesmo sua forma de pensar e de agir, buscando encontrar suas falhas, aonde ele tinha errado, o que de fato ele deveria fazer ou agir?
— Eu pensei que estar com você, seria diferente do que estar com os outros donos que tive. Não me importei em ser um escravo para você... Por que tudo o que eu queria era o seu bem. Agora você sabe dos meus sentimentos... Eu mostrei a você. — Rurik teve seus olhos inundados com lágrimas, mas ele parecia forte em dizer aquilo que parecia estar resgatando desde o seu mais profundo.
Niels lembrou-se do beijo, da sensação assombrosa que o fez acordar de uma paixão avassaladora e agarrar-se àquele toque que trouxe a ele seus desejos mais profundos sobre o escravo, sobre ter ele em sua vida, encantá-lo e trancafiá-lo em seus braços.
Mas ele não queria admitir isso. Sua mente continuava a contrariá-lo do que verdadeiramente sentia.
— Eu pensei que você seria amável... Que você, se percebesse o quanto eu o amo, pudesse sentir o mesmo... Por alguém tão lamentável como eu. Um mero escravo. — Rurik quebrou em meio as suas palavras. Toda aquela força que ele parecia ter reunido para enfrentá-lo, simplesmente se foi no momento em que ele lhe disse que o amava.
Niels estava de boca aberta e seus próprios olhos brilharam com aquelas palavras. Ele se manteve imóvel quando seu maior desejo era se aproximar de Rurik e tomá-lo em um abraço carinhoso, esquecendo-se de cada maldito alfinete que segurava todas as lições de seu pai em seu cérebro.
— Me perdoe, Niels. Eu não queria amar você, eu nunca desejei que fizesse por alguém tão superior, não apenas pela hierarquia, mas pela raça... Eu deveria ter tido em mente que nunca daria certo. Eu deveria ter continuado como antes... Sem aceitar ser o seu escravo pessoal e apenas te observar desde a janela da cozinha. — As mãos de Rurik tremiam enquanto ele as usava para afastar as lágrimas da face. Até mesmo seus lábios estavam trêmulos enquanto ele falava. — Você deixou bem claro como detesta pessoas como eu, como não há qualquer chance entre nós, não apenas por ser um inferior, mas por ser o Rurik. Você aceitou outros em sua cama...
Niels nunca sequer imaginou que um dia sentiria uma dor tão aterradora em seu peito. Fora pior do que qualquer outro sentimento angustiante que ele já sentira antes.
Estava prestes a perder algo tão importante quanto a si mesmo.
Alguém tão importante.
Ele estava prestes a desistir de tudo aquilo que construiu sua personalidade, suas bases e a estrutura do que lhe fazia um líder superior entre os Berserkers. Mas Rurik veio até ele, olhou-o e então se dirigiu para a porta.
— Eu não voltarei mais. Sinto muito. — E deixou o quarto.
Seu mundo desabou, suas pernas perderam a base e se tornaram fracas. Sentou-se em sua cama e olhou para suas mãos trêmulas entre os joelhos. Que maldições ele tinha feito a si mesmo? O que seu pai o tinha tornado? Ele nem mesmo tivera a coragem de contar a Rurik, que naquela noite em que o expulsou do quarto, ele não tinha nem ao menos conseguido uma ereção com aquele outro escravo.
O único por qual ele seria capaz de tomar em sua cama seria Rurik.
Ele não queria corrompê-lo, destruí-lo como os outros escravos haviam sido.
Ele desejou muitas vezes protegê-lo. No entanto, agora era tarde demais para fazê-lo.
–*-*-
Svan estranhou naquela manhã não ver o seu irmão. Imaginou que Niels viria tirar satisfações com ele à respeito da saída de Rurik, ou ao menos se informar quando seu escravo voltaria das mãos do elfos de luz.
Por um lado ele estava preocupado com o humano ruivo. Certamente ele o tinha considerado por ter se tornado um bom amigo de Meine. E de certa forma, aqueles que tinham alguma importância para o elfo, instantaneamente se tornavam bons ao ver de Svan.
Era bizarro a forma como Meine havia mudado o seu interior. Ele mesmo sentia que havia sido em parte transformado. Seria isso algo do poder divino de seu pequeno escravo?
Svan era conhecido por ser o mais forte dos Berserkers. O Líder soberano dessa espécie de guerreiros que viviam à base de força. Realmente sentiu-se tocado por um ser tão puro como Meine, que foi capaz de conquistá-lo sem muito esforço. Esse era o poder do Phaeleh.
Esta noite Meine também dormiu na casa de Wray, garantindo-lhe bem estar até que estivesse muito melhor para se virar sozinho. Embora Svan suspeitava que Wray estivesse meio que se aproveitando um pouco dos cuidados exagerados do albino e conseguindo algum conforto. Seu amigo parecia estar quase curado, ele tossia apenas ocasionalmente.
A casa estava silenciosa. Skoll veio em sua forma animal cumprimentá-lo, mas Svan não ousou tocá-lo, apenas fez um menear de cabeça. Aricin continuava naquela mesma posição, sobre o tapete, porém estava acordado e olhava desde onde estava para Svan.
O líder ao notá-lo, se aproximou lentamente. Ele cheirou o medo no jovem escravo e o resfolegar de Skoll em sua perna.
Descobri que ele é mudo, Svan. A voz poderosa retumbou na mente do Berserker.
— Sim, ele é. — Svan sentou-se sobre uma poltrona e inclinou-se para frente, olhando para o escravo que Wray tanto gostava. Antes ele não acreditava como Wray poderia sentir afeto por um ser que não tinha liberdade, mas pior ainda era por ser mudo. No entanto, hoje ele compreendia esse amor, da mesma forma como ele compreendia o que sentia por Meine. — Wray me contou uma vez, que quando encontrou Aricin, ele tinha marcas de estrangulamento. Ele nunca disse uma palavra a ninguém.
Skoll sentou-se sobre suas patas traseiras e olhou fixamente para o escravo que parecia um tanto envergonhado por saber que eles estavam falando dele.
— Wray o compreende e gosta muito dele. Ele nunca o tratou como um escravo costuma ser tratado. É mais como uma ajuda em casa.
Ele me perguntou muitas vezes sobre Wray, com o olhar. Skoll disse ao Líder Berserker.
— Skoll, o que o curandeiro disse sobre Aricin da última vez em que veio examiná-lo?
O líder de Ulfhednar metarmofoseou-se em sua forma humana.
— Disse que Aricin está quase bom, mas necessita mais alguns dias para poder andar.
— Então acho que já pode movê-lo para uma poltrona. — Olhou para o escravo que desviou o olhar intimidado. Svan as vezes perdia a noção de seu tamanho e o quão ameaçador parecia. Isso tudo porque Meine não costumava teme-lo mais.
Skoll deu-lhe um olhar agradecido, ao que Svan levantou-se e deu-lhe um aperto de ombro, antes de seguir pelo curto corredor até o quarto de Wray.
No momento em que Svan abrira a porta, Meine estava ali prestes a fazer o mesmo. Svan sorriu de leve e Meine deu-lhe um sorriso amplo, imediatamente se aproximando e ficando nas pontas dos pés, fechando seus olhos e pedindo silenciosamente para ser beijado.
Svan envolveu sua cintura em seus fortes braços e o trouxe para fora do quarto, então encostou a porta silenciosamente. Ele o beijou tão ternamente que sentiu Meine derreter em seus braços. Foi uma sensação tão gostosa, que aqueceu o seu coração instantaneamente. Apenas ver Meine já parecia o suficiente para fazer o seu dia mais feliz, para dar-lhe animo para realmente trabalhar. Como ele queria um momento de paz com seu pequeno elfo albino, curti-lo por mais tempo, toca-lo em um lugar privado e fazê-lo gemer. Sabia que aqui não seria apropriado. Não com Skoll e Aricin na sala, certamente o cheiro de excitação os incomodaria.
— Wray está dormindo?
— Não, ele já acordou. Eu o ajudei a se banhar e ele está lendo agora. — Respondeu Meine. Seus braços finos continuavam enrolando-se ao pescoço de Svan, seu rosto estava tão perto, seus lábios acariciando o rosto de Svan. — Senti sua falta, Van.
— Eu também, meu Meine. — Svan o apertou mais em seus braços e imaginando que Meine iria reclamar por esmagá-lo em um abraço que para ele foi tão reconfortante, seu elfo riu e o abraçou de volta, pedindo silenciosamente por mais um beijo.
— Eu gosto... — Disse Meine ao afastar-se um pouco de seus lábios. — Gosto quando me aperta assim. É tão bom! — Esfregou sua bochecha contra a lateral do rosto de Svan, beijando sobre a orelha do Berserker.
Seu pequeno escravo era tão carinhoso.
Svan notou que estava de costas para a parede, praticamente dobrado sobre Meine que se empinava para poder beijá-lo. Foi uma sensação tão boa que o fez sorrir. Svan usou apenas uma mão para segurar aquele rostinho delicado, para então se aproximar e selar um beijo, onde ousou aprofundar sua lingua para um beijo molhado e mais quente. Meine não soube evitar um gemido, e Svan sentiu-se reagir para algo mais.
Houve uma tosse.
Svan afastou-se do beijo lentamente, agraciado pela expressão de Meine que então corou envergonhado e enterrou seu rosto em seu peito. Olhou em Wray com uma profunda carranca.
— Você tinha que interromper?
Wray deu de ombros e sorriu-lhe amplamente.
— Vocês estão em frente do meu quarto, o que você queria?
Svan grunhiu e Meine tentou acalmá-lo.
— Ei, Svan, sem querer atrapalhar mais do que já estou fazendo, você... Sabe do Skylar?
Meine se afastou um pouco de Svan e ficou entre eles, não se cabendo de vergonha.
— A última notícia que tive dele, foi de que tinha saído para beber fora do vilarejo. Por que eu não sei, mas estou sem noticias dele desde então.— Svan beijou a têmpora de Meine e então saiu em direção a sala de estar. Wray foi atrás dele.
— Isso faz quanto tempo?
— Quase duas semanas. – Respondeu, então cruzou os braços sobre o peito, seu rosto se fechando em uma expressão de preocupação. — Wray, foram tantas dificuldades nos últimos dias. Você sabe, ainda estamos reconstruindo o vilarejo, tivemos tantas tempestades e agora é a neve que nos preocupa. Fomos ameaçados de guerra e estamos em um ímpasse. Você quer que eu continue listando os problemas do vilarejo?
Wray suspirou, jogando seus cabelos para trás. Seu olhar foi desafiador.
— Nós temos guerreiros suficientes?
Meine surgiu ao lago de Wray, olhando para eles com curiosidade.
— Apenas dois quintos do que costumávamos ter para a segurança. Os outros três quintos estão cuidando de reconstruir o vilarejo e arranjar o alimento. — Svan respondeu, tentando entender o que Wray estava pensando à respeito daquelas informações. Ele tinha feito o melhor que pode para ajudar a todos no vilarejo. — Temos uma grande quantidade de feridos, apenas tivemos sorte por não perder muitos dos nossos.
Wray deu-lhe um singelo sorriso.
— Mas pense bem Svan, você perdeu poucos, ainda há muitas pessoas para trabalhar. Seus escravos com certeza estão todos dispostos...
Svan o cortou, nervoso.
— Ninguém está disposto! Não com tantos problemas. Se você caminhar lá fora, entenderá o que estou te querendo dizer.
O arqueiro não ousou contradizê-lo.
— Então eu irei. Leve-me para ver o que precisa ser trabalhado, Svan. Depois me liste todos os problemas além dos que são visíveis. — Disse-lhe calmamente. Aquele era o Wray que Svan conhecia, o mais inteligente entre os seus guerreiros, aquele que o ajudava da melhor forma a solucionar os problemas e o aconselhava da melhor maneira possível. Wray era um poço de conhecimento do qual Svan sentiu tanta falta.
— Então venha comigo.
— E quanto a mim? — Meine olhou em Svan com uma expressão que dizia você não faria isso comigo, não é? Me deixar tão sozinho. Por que Svan estava pensando algo assim?
— Meine, você deve se despedir de Rurik. Ele vai passar um tempo com os elfos de luz. — Svan respondeu-lhe assim que se lembrou. Ele deveria ter contado antes.
— O quê?! — Tanto Meine quanto Wray gritaram juntos, acompanhados de um grunhido de Skoll do outro lado da sala.
–*-*-
Meine segurou muito para não chorar, mas fora uma de suas tarefas mais difíceis de serem feitas. Tinha momentos que ele simplesmente não se aguentava. Não sabia se ele tinha algum problema em seus olhos por produzirem tantas lágrimas, ou porque ele realmente era um bebê chorão.
Ele, Svan, Wray e Alasd, além dos elfos de luz com seu líder e Rurik estavam reunidos na entrada do vilarejo onde se despediriam. Suas montarias estavam prontas para a partida, apenas que Svan teve suas últimas formalidades com o líder dos elfos de luz, além de Meine e Wray se despedindo de Rurik.
— Use isto. — Alguém ofereceu a Meine um lenço bonito, branco e com rendas prateadas. Ele pegou com cuidado e olhou para quem se tratava. Darius tinha um sorriso singelo quando lhe entregou o lenço. Meine percebeu que era um tipo de homem que raramente mostrava alguma fraqueza, ou o seu lado pessoal para outras pessoas observarem.
— O-Obrigado.
— Svan, certifique-se de viajar com o Phaeleh para minhas terras em uma visita mais futuramente. Nós iremos recebê-los como nossos convidados. — Darius se dirigiu a Svan que assentiu sem muita certeza. — Quanto a Rurik, não se preocupe com ele, estará em ótimas mãos.
Meine abraçou Rurik pela terceira vez.
— Queria poder ter mais tempo para conversar... Se eu soubesse que iria antes, eu teria passado mais tempo contigo. — Meine estava cabisbaixo.
Rurik deu-lhe um aperto em seu ombro.
— Vai ficar tudo bem, Mei. Eu virei visitá-lo, sabe o quanto eu gosto de você.
E Meine sabia, ele poderia sentir isso agora apenas ao abraçar Rurik, ou mesmo olhando em seus olhos. Aquele olhar de carinho e simpatia realmente conquistaram Meine, o que lhe faria sentir muitas saudades.
— Quanto tempo se ausentará? — Wray perguntou ao ruivo que lhe dera atenção de imediato. Wray não tinha sido muito amigo de Rurik, por falta de se verem mais, porém Meine tinha certeza que seu amigo ruivo sabia o quão bondoso Wray era, por tanto falar de um para o outro.
— Ainda não se é certo se será apenas semanas ou quem sabe meses. — Ele se inclinou para o albino e murmurou. — Você sabe que eles querem você, assim que eu terminar minhas lições, não sabe?
Meine assentiu. Mas ele não sabia.
Olhou em Svan que parecia sério e não muito feliz, porém estava sendo educado e cortês.
— Olhe Mei... — Rurik entregou algo em sua mão, que Meine olhou com curiosidade. Era uma pequena medalha de bronze antiga, mas bem cuidada. Nela estava um simbolo que nunca antes o vira. — Eu não sei o que significa, mas é muito importante para mim e agora será para você. Eu não me lembro onde o encontrei ou se alguém me deu quando era uma criança, mas sempre me ajudou a passar pelos problemas. Acredito que seja um simbolo divino.
Meine o escondeu em seu bolso sem ninguém mais notar. Ele olhou em Wray que tinha um sorriso tranquilo, e voltou-se para Rurik, já tendo enxugado suas lágrimas com o lenço que conseguira emprestado de Darius.
— Obrigado por ser meu amigo, Mei. Eu não vou esquece-lo jamais. — Rurik pegou as mãos de Meine nas suas e as apertou. — Eu sempre lembrarei de você em minhas orações.
O albino sorriu. Ele estava triste e sentiu novas lágrimas se formando, no entanto ele assistiu Rurik ir embora com um sorriso.
Foi então que ele descobriu algo sobre seu amigo ruivo, que na verdade, ele era uma pessoa religiosa.
Continua...
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