Phaeleh I

22 Capítulo 22 - Tragédia


Notas iniciais
Miky: Olá meus amores *-* NÃO se assustem pelo título desse capítulo haha, mas já vou avisando, preparem seus coraçõezinhos... está TENSO! kkkk Tenham uma boa leitura ♥

Todo o caminho, Skoll tinha observado as nuvens ao longe se formarem, inclusive a noite. Os sons da floresta foram diferentes, os animais e insetos o avisando do que estava por vir. E claro, esta não atingiria apenas aquela região, mas sim todo o redor da floresta de Saranmir.

O caminho não tinha se alterado. A ultima vez que andou por essas bandas fora justo quando recebera uma missiva de Darius, o líder dos elfos de luz, dizendo-lhe sobre o que seu oráculo havia previsto.

Eles raramente se comunicavam uns com os outros. Havia um certo sentimento tenso entre eles cada vez que se encontravam, e entre centenas de anos foram inúmeras as guerras por questões de território e motivos fúteis do passado para fazer-lhes brigar.

Enquanto os Ulfhednar e os Berserker haviam sossegado, os elfos de Luz e das trevas ainda brigavam frequentemente por algum motivo que não compreendia.

Skoll não tinha a intenção de guerrear, a não ser que não obtivesse escolha. Svan provavelmente estava mentindo — ele sabia — ele era um lobo e cheirou a mentira em Svan, o medo ínfimo que ele sentiu com a pressão dos outros líderes dizendo-lhe sobre Phaeleh estar em suas terras.

Tinha certeza que os outros líderes não perceberam essa pequena falha em Svan, mas ele tinha reparado. E agora ele estava indo tirar satisfações. O seu povo havia sofrido absurdos nas ultimas duas semanas e ele não podia deixar que as coisas ficassem da forma como estavam. Ele tinha que tomar providências, encontrar a paz que eles precisavam, assim como foi durante tanto tempo desde a última guerra entre clãs.

Ele precisava cumprir a profecia. E tudo indicava que Phaeleh era para ser seu. Skoll não iria esperar que mais gente se ferisse, possivelmente morresse em meio as tempestades, ou pelo que viria depois, porque todas as suas plantações foram destruídas, e dezenas de desabrigados estavam sob tendas improvisadas.

A chuva cessava de dia, o que eles aproveitavam para tentar recontruir ou consertar aquilo que fora atingido, mas a noite misteriosamente a chuva se formava e derrubava sobre eles rios de água.

Não queria esperar para ver tufões destruir todo o seu vilarejo e deixar centenas de mortos para trás.

Não queria esperar que o inverno chegasse, seria muito pior, com certeza.

Precisava ter Phaeleh e acasalar com ele.

Pegou chuva logo que chegou a atravessar a linha que dividia o seu território com o dos Berserkers. E conforme tomava proximidade com sua corrida desenfreada pela floresta, subindo a montanha, sentia as gotas caírem tão rapidamente como se fossem perfurar sua pele como agulhas. Em um momento ele pensou que escorregaria com o granizo pelo caminho. O vento chicoteava violentamente as árvores, fazendo-o desviar quando várias delas foram derrubadas direto de suas raízes ou mesmo por descargas elétricas que praticamente torravam seus troncos.

Aquilo era assustador, nem se comparava com a chuva em seu clã. Aquilo era um inferno de muito pior.

Skoll subiu um barranco que levava até um penhasco gigantesco de rochedo, identificando que o mesmo ficava bem próximo ao vilarejo. Skoll, com suas patas ágeis e suas garras por demais afiadas, escalou pedra por pedra, subindo até estar no topo. E desde lá visualizou o vilarejo dos Berserkers, arregalando os olhos com toda a destruição que assolava o território de seus irmãos.

Como haveria fogo diante de tanta água? Skoll se assustou com quantos raios Thor estava permitindo alastrar-se por todo o vilarejo. As casas de pedra e madeira, os telhados de colmo, tudo devastado pelo fogo, e em certas partes o problema eram as enchentes. O pequeno córrego que abastecia o vilarejo havia se tornado um rio, e toda aquela água que não acabava nunca estava inundando a parte baixa da vila.

Os olhos de Skoll estavam vidrados no céu. Embora fosse noite, todos aqueles relampagos formavam clarões tão intensos que clareavam mais do que o sol.

De repente ele entendeu a urgência da situação. Ele precisava ajudar seus irmãos e não se preocupar primeiramente com Phaeleh.

Ele conheceu Svan em sua infância, ele o considerava muito e o que ele menos queria seria ter uma guerra com os ursos. Ursos e lobos eram para serem amigos ferozes que lutavam juntos em necessidade.

Ele resolveria o assunto de Phaeleh com Svan depois, quem sabe negociaria com ele por um bom preço.

Skoll voltou pelo mesmo caminho de pedras e se dirigiu para um caminho que sabia que o levaria direto ao clã dos berserkers. Suas patas pegaram toda a velocidade e ele uivou tão alto que sabia que seria ouvido desde o seu clã.

–*-*-

Quando Svan chegou ao vilarejo, seus olhos mal tiveram tempo de avaliar os estragos antes que ele se movesse instintivamente no intuito de salvar aqueles que eram sua família. E parecia que o problema era geral, ele teria uma noite e tanto.

Ele já estava tendo.

– Onde estão levando as pessoas? — Ele perguntou a um dos soldados assim que o avistou. A chuva não dava trégua e o barulho era ensurdecedor, tanto dos trovões que chegava a estremecerem a terra, como de toda a gritaria de terror e pânico das pessoas. Crianças choravam além dos idosos e mulheres que estavam histéricas.

– Montamos tendas no centro da vila, longe das residências em risco, senhor!

Svan segurou o ombro do rapaz e esfregou seu próprio rosto. Ele estava nervoso.

– Continue assim, leve todos os que não podem ajudar para a tenda. Peça para avaliarem os feridos e se há mortos.

– Sim, senhor!

Svan deixou o guerreiro ir e correu, procurando ao redor por Niels, Skylar, Alasd ou quaisquer dos guerreiros que tinha mais afinidade. Felizmente Niels apareceu a vista ao lado de seu escravo pessoal, ambos carregando crianças desacordadas para outros senhores que as recolheram apressadamente.

Niels olhou para ele em puro desespero, e Svan reconhecia bem quando ele olhava-o assim, as coisas realmente estavam feias.

– Svan, pelo amor de Odin, que bom que você veio! — Niels correu para encontrá-lo, abraçando Svan tão apertado quando podia.

Svan arregalou os olhos, ele devolveu o abraço ao seu irmão com alguns tapinhas em suas costas.

– Você está bem? — Perguntou à Niels.

Seu irmão segurou seus ombros olhando-o seriamente.

– Temos feridos...

– Eu sei.

– E já estamos recolhendo os mortos, Svan.

Houve silêncio entre eles.

Svan se afastou e colocou as mãos sobre o rosto, afastando seu cabelo da testa e olhando para o céu. A chuva lavando sua pele e disfarçando qualquer indício de que ele poderia querer chorar.

– Apenas algumas pessoas que não puderam ser resgatadas a tempo... Não por incidência dos incêndios, mas pelos escombros.

Svan engoliu em seco, olhou em seu irmão e em Rurik.

– Continuem a ajudar quem puderem, nós temos que socorrer todos. Espero que a chuva cesse o quanto antes.

Niels assentiu, ele estava prestes a ir com seu escravo, quando Svan agarrou seu braço.

– Niels...

– Sim, irmão.

Svan engoliu novamente. Ele nunca antes tinha passado por uma crise como essa. Os deuses pareciam estar tão furiosos com ele. Seria esse o pagamento pelo pecado em que cometeu tendo Phaeleh com ele?

– Por favor, cuide-se.

Niels sorriu tristemente para ele.

– Você também.

–*-*-

Longe de onde ocorria a parte mais tensa da tempestade, ainda dentro da floresta de Saranmir, Skylar estava começando a voltar aos seus sentidos. Embora seu corpo inteiro era um inferno em dor e seu estômago se rebelasse em uma nausea angustiante, ele ainda sim estava forçando sua visão para o que estava acontecendo ao seu redor.

Suas lembranças eram uma bagunça, demorou para ele crer quem realmente era.

Seus olhos tardaram em manter o foco, pareciam embaçar toda vez em que seu cerebro latejava com uma dor excruciante em pontadas, zonzeira e toda a confusão que estava lhe matando.

– Ele está acordando.

Alguém anunciou ao fundo, fora o zumbido no interior dos ouvidos de Skylar. Ele tentou dizer algo, mas sua voz simplesmente não saiu.

– Parece que a bebida realmente lhe afetou. — Outra pessoa zombou, desta vez a voz estava mais próxima.

Seus olhos finalmente conseguiram encontrar quais eram os donos das vozes. Ele focou em dois homens magros que cheiravam fedorentos como humanos.

Skylar era um berserker, um copo de cerveja não iria nem mesmo lhe afetar senão trazer-lhe um pouco de satisfação. Mas não, ele se lembrava agora, ele se inundou na mais imunda cevada e álcool que fez uma pequena transformação em seus neoronios, praticamente deixando seus parafusos soltos.

– Vamos rapaz, nós não vamos ferí-lo se nos disser sobre Phaeleh. — O homem estava cara a cara com ele. Foi então que Sky percebeu onde se encontrava, seus olhos arregalaram quando ele percebeu seus pulsos amarrados para o alto em correntes apertadas e dependuradas no arco que compunha o telhado do galpão. Seus pés mal tocavam o chão. Suas roupas estavam sujas com seu próprio sangue, o que o fez perceber que provavelmente estes homens lhe surraram enquanto estava desacordado. Que covardia. Provavelmente para tardarem sua inconsciência.

– Diga-nos onde ele está! — O outro homem magricela falou.

Estes humanos sujos. Skylar nunca antes tinha sido tão contra eles como agora.

– Seus vermes imundos... — Resmungou entre lábios feridos. — O que pensam que estão fazendo? — Sky se debateu nas correntes a fim de soltar-se, mas fora impossível, era aço e estava muito apertado.

Um dos homens riu e então desferiu um baita soco em seu estômago.

Sky grunhiu pela dor, era como se algo já estivesse quebrado em seu abdomen. Ele remueu na dor nauseante que o fez ter ânsias, porém ele não tinha mais nada que pudesse vomitar.

– Diga-nos onde Phaeleh está!

– Não sei... Do que falam...

– Larga de bobagem e fale logo essa merda! — Outro soco fora desferido, mas dessa vez em seu rosto. — Ou nós vamos matá-lo aqui mesmo!

– Bobagem... Vocês matar-me? — Skylar zombou, embora o seu rosto já fosse uma bagunça. Ele ainda não estava muito bem dos sentidos. — Vocês são apenas humanos, não podem sequer enfrentar um berserker.

Skylar viu estrelas com outro soco no lado oposto da face. Ele não queria perder um dente, droga!

– Nós podemos ser humanos, mas não há nada que você possa fazer agora para defender-se, maldito!

Ele pensou que fosse verdade. Ele estava acorrentado, dependurado como um boi abatido, seu corpo sangrava e latejava depois de uma surra que ele foi sentir somente agora.

Esses homens estavam tão ferrados. O que diabos eles planejavam fazer com ele? O que Sky poderia fornecer a eles senão dizer que Phaeleh estava na aldeia? Mas o que eles iriam fazer? Eles não seriam loucos de invadir para roubar alguém de seus aposentos e ser flagrado na porta.

Por outro lado, Svan também estava tão ferrado.

Skylar sabia muito bem de quem desconfiar. Era tão óbvio se as pessoas pensassem bem. A maioria das lendas diz que Phaeleh era uma criatura élfica. E o unico elfo que Skylar conhecia era Meine. O albino vinha de uma origem desconhecida, vendido como um escravo, era claro que podia ser ele. Mas também poderia muito bem estar enganado. Quem sabe este Phaeleh fosse outra criatura escondida em suas terras?

– Não adianta... Ele não vai dizer. — Um deles se afastou. O outro ainda fitava Skylar, mas um tanto hesitante. — O que vamos fazer?

– Hum. — O homem que o fitava coçou o queixo barbudo. — Apenas esperar pelo Jarl, ele saberá o que fazer dele.

Skylar queria saber de que Jarl eles estavam falando. Estava tão ruim que inclusive seu peito doía ao respirar. Ele assistiu os dois homens deixarem o galpão, apenas para que Skylar permanecesse ali por tanto tempo que não se lembrava. Não havia janelas ou qualquer pequeno buraco lhe indicando se era dia ou noite. Ele gritou inumeras vezes para ver se alguém lhe ouvia, ele feriu sua garganta fazendo isso. Mas ninguém veio, ninguém lhe ouviu. E vencido pelo cansaço, Skylar foi engolido pela escuridão.

–*-*-

No momento em que Meine deixou a casa, a chuva se extinguiu. Inclusive o vento parou, e ele se sentiu confuso por isso, mas Wray não pareceu notar.

– Nós vamos para a vila?

Wray, parou um segundo para tomar o braço de Meine e faze-lo andar mais rápido.

– Sim, nós iremos. Aonde esperava que fossemos?

Meine observou suas costas com um beicinho. Wray estava um pouco vacilante enquanto o arrastava pelo caminho que os levaria até o vilarejo.

Gritou quando ouviu algo se destruindo atrás deles onde estava a cabana de Alasd. Seu novo amigo berserker entraria em colapso quando soubesse da bagunça em sua casa.

Meine queria poder fazer algo, mas sabia que aquele elfo que podia se transformar em corvo era mau. Antes ele sentia uma imensa curiosidade sobre ele, mas agora... Ele estava com medo. Ele queria fugir, embora estivesse receoso porque o trio de elfos de luz estavam sendo atacados.

Ele queria ser forte para ajudá-los, mas seria impossível com seu corpo fraco de agora.

Até uma certa altura do caminho, Wray caiu contra uma árvore, deixando-se escorregar para o chão molhado.

– Wray você está bem? — Meine se agachou, preocupado.

– Só um pouco cansado, Meine. — Ele olhava todo momento para o caminho que percorreram, olhos estatelados no sentimento de que aqueles elfos poderiam segui-los.

– Não se preocupe, Wray. Eles não estão por perto...

– Como você sabe?

– Uh? — Meine olhou para trás no caminho. — Eu simplesmente não sinto eles por perto.

Olhando em Wray, percebeu como os olhos de seu amigo lhe fitaram com um brilho bonito. Ele estava terno, grato. Havia algo em Wray naquele momento que Meine queria abraçar. Ele queria abraçar seu amigo em um gesto de conforto quando o que havia em seu coração era temor. Mas ele simplesmente fitou suas mãos sobre o colo, temendo fazer alguma bobagem e passar vergonha.

Por outro lado, Wray não pensou a mesma coisa, porque Meine surpreendeu-se quando seu amigo elfo-berserker simplesmente inclinou-se para frente e o puxou para um abraço demorado e carinhoso. Porque Wray alisou suas costas o tempo inteiro e enterrou o seu rosto na curva do pescoço de Meine.

– Eu sinto muito, meu amigo... Por favor não tenha raiva de mim por não ter lhe dito a verdade... Eu sinto tanto.

Meine suspirou. A voz de Wray estava tensa, e ele pensou que talvez seu amigo estivesse sentindo dor. Era provável desde que ele era sentimental agora e estivesse gravemente doente.

– Wray... Por que você não quis me contar?

O arqueiro não se afastou, mas abraçou Meine mais apertado.

– Se meu coração já não tivesse um dono, eu certamente me apaixonaria por você.

– Wray... — Meine enrubesceu completamente. — Não fuja do que eu te perguntei.

Desta vez Wray se afastou um pouco, mas sua face estava ainda muito próxima de um beijo.

– Eu sou uma vergonha para eles... Você mesmo ouviu eles me chamarem daqueles nomes... — Ele olhou de volta pelo caminho em que percorreram antes. — Os elfos não aceitam mestiços. Nem mesmo o meu pai, aquele com o sangue berserker me quis. Ele me culpou desde o nascimento pela morte de meu progenitor... E ainda por cima me amaldiçoou cada dia em que estivemos juntos, por eu estar doente. Os seus parentes, os meus avós... Todos eles me odiaram enquanto estiveram vivos. Eu não lamentei suas mortes depois da guerra.

Meine nunca antes havia visto Wray tão desolado. Tantos sentimentos brilharam nos olhos de seu amigo até que ele percebeu que o mesmo estava prestes a se derramar em lágrimas. Mas não, Wray se segurou.

– Todos eles se foram?

– Sim. Eu era um garoto... Não lembro de nada além do que era ruim.

– Oh... — Meine entendia isso. As pessoas tendiam a se lembrar mais das lembranças ruins do que das boas do passado. Isso o lembrou de que sua avó muitas vezes dizia a ele, que deveria sempre fazer o seu melhor e ser bom para os outros, assim, as pessoas teriam lembranças boas dele no futuro e depois que ele se fosse.

– Eu sinto muito não ter te contado. — Wray voltou a dizer. — Na verdade, eu nunca sequer pensei que diria a alguém novamente. Eu imaginei que ainda veria elfos no futuro, mas me surpreendi quando fui reconhecido tão rápido... Eu não queria que todos soubessem disso. Svan mesmo não sabe ou Skylar...

Meine notou quando a feição de Wray se contorceu ao dizer o nome de Skylar. Seu amigo parecia querer chorar, ele estava segurando as lágrimas, e a si próprio também queria chorar com ele.

– Eu não vou culpá-lo por me esconder, Wray.

– Eu sei... Me perdoe também por não ter te contado coisas que lhe seriam úteis. — Ele olhou profundamente nos olhos do albino. — Sobre você ser o Phaeleh... Eu gostaria de lhe contar sobre isso em um momento oportuno, onde estivessemos em conforto e tranquilos, e não quando estamos em meio a floresta, e angustiados com todo o terror nos rodeando. Nós temos agora é que encontrar um lugar que seja adequado para te proteger.

– Não tem que me proteger. — Meine lhe disse de repente. — Eu somente devo voltar para Svan.

– Eu temo que seja perigoso...

– Eu sei. Mas nós devemos tentar. Temos que avisar-lhe sobre os elfos.

– É mesmo... Mas depois teremos de levá-lo para um local seguro.

Meine assentiu, embora ele não queria ser a vítima a ser escondida dos predadores. Ele queria ficar e lutar com todos. Queria ser útil e mostrar a Svan sua capacidade.

Wray se levantou um pouco dificultoso e segurou a mão de Meine na sua. Ele parecia um pouco melhor e o arrastou dali a passos longos pela floresta úmida depois de tanta chuva.

Foram inúmeras vezes em que ambos escorregaram em lama e desviaram de gigantescas poças de água. Toda a selva cheirava incrivelmente fresco e algo da noite. Estava escuro, mas o brilho da aldeia iluminava o caminho, até que eles chegaram a parte mais alta de um barranco, cujo o mesmo os levaria a uma escada de pedras lascadas, até que chegassem ao primeiro bairro.

Wray travou no topo e Meine trombou contra suas costas. Ele se perguntou qual foi o choque, e em seguida seus olhos foram tão grandes como pratos quando ele fitou toda a tragédia que ali estava.

O céu havia acalmado. Não mais raios ou relâmpagos. Não se sabia se viria a chover novamente desde que era noite e nenhuma estrela surgia para iluminar, senão o fogo que se alastrava das residências dos berserkers.

Bem, o fogo não destruia as estruturas de pedras, mas o colmo e tudo o que era feito de madeira estava se trasformando em pedaços e cinzas. Meine assistiu com horror toda a comoção dos guerreiros para salvar as pessoas de suas casas, não elas sendo mais seguras para mantê-las da chuva. Ele notou diversas tendas improvisadas em um campo aberto, aonde antes era situada a feirinha comercial.

Ele procurou por sua casa, percebendo que a mesma havia estado intacta, e imediatamente pensou em Svan.

Ele não esperou por Wray, ele simplesmente correu para escalar as pedras.

Seu amigo arqueiro chamou-o diversas vezes, alertando-o para ter cuidado, para esperá-lo, mas Meine não podia. Ele não tinha tempo, ele tinha que encontrar Svan, ver com seus próprios olhos se ele estava bem. Se havia se ferido, se queria o seu cuidado.

Meine precisava urgentemente encontrá-lo. E enquanto antes ele parecia ter conhecimento de todo o vilarejo, agora parecia mais uma cidade estranha e incrivelmente extensa, porque ele nunca encontrava o seu objetivo.

Ele trombou em pessoas, ele foi jogado e também tropeçou muitas vezes. Meine tapou os ouvidos com as mãos com o choro angustiado de mulheres, crianças gritando e o desespero das pessoas.

Ele viu o fogo crepitar como descargas eletricas sobre madeira molhada, o que fora tão malditamente perturbador. Isso só podia ser um castigo direto dos deuses. Mas por quê? Por que queriam tanto destruir os Berserkers? Que mal eles haviam feito aos céus?

Meine trombou uma última vez com alguém e dessa vez caiu para trás em seu traseiro. Ele resmungou, mas reluziu ao perceber que trombara em Rurik, que estava incrivelmente de um modo que Meine nunca pensou vê-lo antes.

Rurik parecia um peixinho fora d'água. Seu cabelo, antes que era uma bagunça tremenda, estava lambido contra as orelhas. Seu rosto e corpo sujos com fuligem, além de suas botas repletas de lama. A unica coisa que realmente fez Meine reconhece-lo, eram os seus grandes olhos verde-brilhantes, que eram uma marca de Rurik, que o fazia ser tão lindo e peculiar. Mesmo com essa aparência de agora.

– Ruriku! — Ele gritou de alivio, se levantando rapidamente e puxando o seu amigo sujo para um abraço.

– Mei! — O ruivo o apertou forte em seus braços, balançando-o. — Graças aos deuses você está bem! Onde diabos se meteu?!

– Eu estava... Bem, estava fora do vilarejo com Wray. — Explicou um pouco sem jeito, Wray logo os alcançou e parecia tão exausto como se fosse cair em um desmaio. Mas ele apenas se sentou em algum monte de entulho e tossiu um pouco.

– Onde está Svan? — Mais importante.

– Ele está ajudando a resgatar as pessoas que ainda estão dentro das casas...

Meine notou os olhos de Rurik entristecerem. Ele quis saber do que se tratava, mas apenas calou-se e esperou que ele lhe dissesse.

– Foi tão sobrenatural, Mei. De repente acordei com a tempestade... Tivemos mortos, ambora sejam apenas três pessoas até agora. Dois escravos e um idoso.

– Oh. — Aquilo era tão lamentável. Meine olhou sob seus cílios, sentindo um nó em sua garganta.

– Porém tivemos um monte de feridos que foram levados para tratamento. Não sei o quanto é grave, mas sei que Niels foi ajudá-los.

– Entendo... — Disse Wray interrompendo-os. — Svan com certeza deve ser o mais abalado nisso tudo. Não posso crer eu em tudo o que acabou de acontecer... Nós simplesmente perdemos tudo se formos pensar bem. Apenas uma noite e os deuses acabaram conosco.

Rurik abaixou a face, e Meine fitou suas botas lamacentas.

– Escute. — Disse Wray ainda. — Meine, não importa o que aconteça, Svan vai precisar de você... Este é o momento em que ele mais irá precisar de sua ajuda. Não digo para correr e reconstruir a vila ou curar todos os feridos, mas para consolá-lo. Rurik, não diga isso que estou falando a ninguém.

Rurik assentiu.

O olhar de Meine apenas encontrou o de seu amigo ruivo. O mesmo deu-lhe um triste sorriso e em seguida seus olhos mudaram misteriosamente. Eles perderam o brilho enquanto o corpo de Rurik endureceu. Ele parecia estar sendo controlado por uma alma fora desde mundo. Suas palavras fizeram Meine e Wray arrepiarem-se.

Nada será mudado enquanto Phaeleh não for escolhido.– A voz de Rurik era surreal. — Aquele quem o desposar primeiro receberá o perdão divino. Mas se os corações não forem de acordo, não haverá chance.

Então Rurik entortou uma sobrancelha e o brilho em seu olhar voltou.

– Ugh... Eu fiz de novo?

– Fez. — Wray respondeu de queixo caído. — Ual, você é mesmo um oráculo.

– Shh... — Rurik levou o dedo indicador contra seus lábios. — Niels disse-me para não espalhar por ai.

– Eu não entendi o que você quis dizer. — Meine estava com um beicinho enquanto ponderava sobre o que o Rurik mágico lhe disse. — O que é desposar alguém?

Wray quase riu, mas não era momento para isso. — Acho que ele quis dizer algo sobre matrimônio, Meine. Foi um pouco confuso.

– Não olhem para mim. — Rurik ergueu as mãos a sua frente. — Eu já não lembro de nada do que lhes disse.

Meine sorriu para ele, até o momento em que se sentiu curioso com o furioso Niels que andava a passos largos na direção deles.

– Oh... Aquele não é...

Niels empurrou Rurik para o lado e tomou Meine pelo colarinho, erguendo-o próximo a sua altura. Meine pendeu, seus pés não tocando o chão e sua expressão horrorizada.

– O-O que foi que eu fiz...?

– Seu maldito elfo insolente! Toda esta tragédia foi sua responsabilidade! Tudo por sua culpa! — Niels gritou em seu rosto, sua própria face vermelha em ódio. Meine abriu a boca para responder-lhe, sabe se lá o que, porém, Niels acertou-o em cheio no rosto, o que o jogou nos próximos dois metros a frente, sobre uma poça de lama.

– Niels! — Wray gritou em horror, assim como Rurik tomou a frente do grandalhão.

– O que pensa que está fazendo?!

– Saia da frente escravo! Este elfo maldito não merece a vida que tem, eu vou muito ensinar-lhe o que é lidar com a fúria de um berserker. — Ele empurrou Rurik da frente brutalmente, mas fora atingido em cheio por um soco direto em seu lado direito da face que o pegara da surpresa. Niels caiu longe com o impacto da pancada.

Wray estava com o punho erguido e sentia o mesmo queimar. Seu olhar era furioso.

– Nunca ouse tocar um dedo nele de novo ou eu irei quebrá-lo em pedaços, Niels!

Os olhos do grandalhão eram gigantescos.

– Você não pode estar falando sério! Está protegendo este pigmeu que foi o principal responsável por toda esta tragédia em nossa vila? Onde está com a cabeça Wray?!

Wray sacudiu seu rosto raivoso e se impulsionou para atacar Niels, o mesmo olhou-o com pavor, se levantando rapidamente, porém Rurik se agarrou ao braço de Wray, impedindo-o com todas as forças.

– Me largue Rurik, eu não quero machucá-lo!

– Por favor, Wray! Não machuque Niels! Por favor!

O arqueiro respirou fundo antes de soltar as mãos do escravo ruivo de si.

– Como quiser. — Bufou.

Meine até então tinha se levantado. Ele tentou olhar em Wray, mas apenas um de seus olhos se abria. Algo quente estava escorrendo pelo lado esquerdo de seu rosto e seu olho doía tanto que o fazia sentir-se zonzo.

Ele estava ferido tanto fisicamente quanto emocionalmente. Ele se virou em seus pés afim de correr para longe, mas tão desnorteado como estava, apenas tropeçou e caiu de joelhos.

Ele se xingou mentalmente, destruiu todas as suas esperanças e quebrou o seu coração com um machado. Se sentia tão fraco e inútil, ele nunca antes pensou que sentiria a força de um Berserker contra si, mas dentro de instantes ele experimentou o inferno em dor. Era como se Niels houvesse esmagado seu olho completamente, embora ele ainda sentisse que o mesmo estava ali. Doía tão malditamente.

Meine temeu tanto estar ali, sentia-se desesperado para fugir, queria socorro, ele queria ver tudo com facilidade como antes, mas até mesmo isto lhe foi tirado.

Ele sentiu braços quentes em torno de si e pelo cheiro que ele sempre reconheceu ser familiar, era Wray junto a Rurik, ambos olhando por ele e o erguendo do chão lamacento.

– Meine, você... — Wray começou a dizer, até olhar em seu rosto quando Meine se esforçou para olhá-lo. — Oh santo.

– Uh, isso deve doer tanto. — A voz de Rurik era angustiante.

Meine ouviu Niels resmungar ao longe, o que o fez tremer instintivamente. — E-Ele...

– Ele se foi, Mei. — Rurik afagou-lhe o ombro. — Nós vamos levá-lo para casa e tratá-lo. Venha conosco Wray.

– Eu irei.

A próxima coisa que Meine viu foi ser levantado ao ar. Ele mantinha os olhos firmemente fechados com a dor que abalava seu lado esquerdo da face. Ele queria tanto chorar, ele sentia as lágrimas á borda, mas ardia, doía pior quando fazia. Rurik e Wray sussurraram-lhe palavras de conforto enquanto ele soluçava.

Sentia-se pior que um bebê.

Ele não soube por qual caminho eles foram, mas soube que fora levado rapidamente. Ele mesmo se perguntou como Wray possuía tanta força quando sempre lhe parecia tão fraco. Oh, afinal ele tinha mesmo sangue de um berserker.

Meine ouviu a casa vazia, a porta se fechar, em seguida outra porta abrir e fechar, então ser colocado a cama macia que tinha o cheiro viciante de Svan. Suas roupas se foram e ele foi coberto por peles quentes e macias como veludo.

– Suvan...

– Shh. — Wray afagou-lhe o ombro. — Rurik vai cuidar de você enquanto eu procurarei Svan e o chamarei. Fique calmo, está bem? Você não perdeu o olho, caso pense nisso.

Meine choramingou.

Wray se levantou, mas o albino agarrou-lhe a manga da camisa.

– Dói...

– Eu sei. — Wray beijou-lhe ternamente a face. — Vai passar. Rurik sabe o que fazer.

Meine não moveu a cabeça, mas deixou Wray ir. Embora ele estivesse de olhos fechados e sentindo-se tremendamente vulnerável, apenas permaneceu quieto, prestando atenção em sua audição. Rurik entrou no quarto levando uma porção de coisas, imaginou.

– Fique calmo, não é nada grave Meine. Mas ficará alguns dias doendo.

Sabia muito bem que aquela dor demoraria em passar, afinal Niels esmagou-lhe o rosto. Aquele homem era tão grande como Svan.

Svan nunca iria lhe bater... Não é?

Meine soltou um alto gemido quando algo gelado tocou sobre sua palpebra dolorida. Ele sentiu Rurik limpá-lo com lenços e água gelada. Em seguida ele foi instruido a se deitar e Rurik colocou sobre seu olho uma pequena bolsa com gelo. Foi um pequeno alívio que Meine desfrutou.

– Não se mova até eu trocá-la mais tarde. Aproveite e tente descansar. Eu... Acho que Niels ficará uma fera comigo quando me ver de novo.

– Você não pode voltar... — Meine resmungou. — Ele vai te bater!

– Não! — Rurik retrucou, encabulado. — Ele não faria isso!

– Mas ele me socou! — Meine quase chorou de novo.

– Eu sei... Mas ele tinha motivos, Mei. Ele estava querendo culpar alguém e... — Ele ficou sem palavras.

As horas se passaram tão lentamente depois daquele momento. O olho de Meine não parou de doer, muito menos o seu coração com as palavras que Niels dirigiu a ele. Elas ficavam martelando em sua mente, se repetindo a todo momento, e mesmo assim, Meine ainda não entendia. Ele queria gritar de raiva de si mesmo por não entender as coisas, pequeno elfo inútil.

Meine não dormiu ou cochilou, ele apenas ficou ali remoendo a dor de um músculo dolorido. Mas o que mais lhe doeu, fora que ele estava esperando por Svan. Ele tinha certeza que seu guerreiro amável viria por ele e passaria o resto da noite cuidando dele. Bem... Não o resto da noite, mas sim que ao menos lhe confortaria com um beijo ou um carinho.

Mas Svan não veio por ele, e Meine acabou por apenas permanecer de olhos fechados, mas perfeitamente acordado por um longo tempo.

Continua...

Notas finais
Miky: Obrigada por ler ♥ Espero que tenha gostado! Até a próxima! o/