Pessoa
1 Um pequeno engano da natureza
Notas iniciais
|| Um pequeno engano da natureza ||
Um choro estridente voou pelo ar do sítio feito rojão, derramando suas fagulhas sobre o mundo de homens que se apinhavam na sala de estar.
“Nasceu!” gritaram todos. Os que estavam sentados levantaram-se, os que estavam levantados sentaram-se. Nenhum deles sabia bem o que fazer senão distribuir abraços entre si, como que fossem velhas comadres afeitas a costurar juntas. Trabalhadores trabalharam: um funcionário da prefeitura demarcou o número do nascimento para futuros impostos. Santos santificaram: o padre lançou-se a repetir o Pai Nosso muitas e muitas vezes. Festeiros festejaram: um trovador dedilhou bons acordes de sua viola. Seria um espetáculo só, não fosse o som agudo que ainda explodia no andar de cima.
Uma figura ergueu-se vitoriosa sobre os demais. Era Pedro Falcão.
“Ocês tão ouvindo, meus amigos?” Secou umas lágrimas. Pigarreou para recompor a voz, fazendo-a firme de novo. “Ocês tão ouvindo, meus amigos?!”
Todos bradaram.
“Chegô mais um Falcão pra atazaná ocês tudin! Achavam que só eu já tava de bom tamanho? Pois ocês tava tudo é errado, diacho!” Apontou para o alto da escadaria. “Essa criatura de Deus que tá chorando é meu fio! Meu fio nasceu! Meu fio nasceu!”
Punhos mil ergueram-se em concordância, ministrados por uma sinfonia selvagem de urros. As mulheres até abandonaram seu posto na cozinha para entrar de sopetão na balbúrdia da sala, preenchendo os vazios com suas saias rodadas e exclamações aos céus.
“Mas que choro forte!” uma delas disse. “Esse há de sê um varão daqueles!”
Pedro inflou de orgulho.
“Ocê tá muito é da certa, comadre! Meu fio há de tocá o terror por essas banda! Vai ficá no pé de ocês tudin feito o pai que tem!”
Como já previsto, gritos de comemoração mais uma vez irromperam. De certo, era um dia memorável para os habitantes de Santa Fé: finalmente um dos maiores proprietários de terra da região iniciara sua linhagem de herdeiros! Existia quem suspeitava da demora para que fato tal se concretizasse — corriam rumores de que Dona Tê não era das raparigas mais aptas a carregar um bebê. A isto tudo, Pedro apenas respondia que os invernos mais gélidos são sucedidos pelas primaveras mais frondosas, e que Deus estava cuidando para que tivesse um filho à altura de seu merecimento. Sua boca fez da criança uma lenda: dali a vinte anos, o menino seria roceiro e político destes de dar respeito ao nome da família. Já podia imaginá-lo na lida consigo. Já podia imaginá-lo em campanha consigo. Fariam tudo juntos, unha e carne, carne e unha!
Tudo juntos, sempre juntos, desde o início, simbiose recém-nascida, laço a atar. Decidiu que precisava confirmar se o filho realmente era um espelho de si próprio, como ele tanto desejava. Queria reconhecer seus cabelos ruivos, seus olhos castanhos, seu nariz torto, seu eu todo. Fez então sinal de retirar-se e galgou os degraus com ímpeto. Os amigos aplaudiram muitas e muitas vezes. Seria um momento tão especial!
O que ninguém esperava, contudo, era que aquele instante deixaria marcas. Muitas marcas. Marcas tão profundas que assolariam para sempre a formosa vidinha que acabara de começar.
Pedro Falcão entrou no quarto esperando conhecer um homem — pequeno e vulnerável, era verdade, mas ainda assim um homem.
Encontrou uma mulher. Grande e forte, era verdade, mas ainda assim uma mulher.
Mulher. Seu sonhado filho, na verdade, era filha.
Quando Pedro não retornou à sala para comemorar, ninguém entendeu muito bem o porquê.
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