Pesadelo dos Dias Modernos
4 O pedido
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Amy abriu os olhos e deu de cara com um teto que não reconhecia. Piscando algumas vezes, sua mente procurava entender o que tinha acontecido noite passada. Ela tinha bebido bastante, claro, mas será que foi a ponto de ir até a casa de um desconhecido--
De repente todas as memórias do dia anterior atingiram a cabeça da menina como um tiro. Vampiro... Ele realmente era um vampiro? E pior, ele realmente havia sugado o sangue daquela mulher? A loira cobriu o rosto com os braços, desejando do fundo de seu coração que aquilo tudo fosse só a pior ressaca da sua vida, e não uma realidade.
Depois de um bom tempo naquela posição e pensando em todos os acontecimentos da noite passada, Amy começou a se lembrar dos diálogos que teve com o suposto vampiro. Ajuda... Ele queria ajuda. Ajuda pra quê? E por que ela? Bom, ele realmente disse que responderia a todas suas perguntas, e com tantas, seria melhor Amy fazer uma lista.
Levantando-se preguiçosamente, a americana foi até a enorme janela do quarto e abriu levemente a cortina para tentar adivinhar que horas eram. Pelo sol alto era mais tarde do que ela imaginava. Melhor levantar logo e mostrar para o inglês que ela ainda estava viva antes que ele fosse dormir, afinal vampiros dormem durante o dia, não é isso? Que seja, ela não teria nada melhor pra fazer dentro daquele quarto mesmo.
Assim que saiu, Amy atravessou aquele enorme corredor escuro e desceu uma escadaria que não parecia ser tão grande na noite anterior. Ali embaixo estava o seu sequestrador, sentado no sofá. Apesar de sua postura impecável — costas eretas, pescoço estendido, braços cruzados — o inglês tinha seus olhos fechados. Podia estar dormindo? Contudo, assim que Amy chegou ao último degrau, os olhos de Arthur se abriram, revelando dois brilhos esmeralda que contrastavam fortemente com a densa escuridão da sala, como os de um gato. Sim, era de dia, mas a luz solar queimava a pele do vampiro ao mais leve contato, por isso ele mantinha todas as janelas fechadas. Algumas velas estavam acendidas aqui e ali. Ele não precisava daquilo para enxergar no escuro, mas sabia que os humanos não eram capazes de tal proeza.
"Bom dia." O vampiro disse sem se mover. O sotaque britânico do loiro era notável.
"Dia." Resmungou Amy em resposta, engolindo seco.
Arthur se levantou do sofá com calma e andou até a moça. As roupas do cavalheiro eram outras, apesar de serem muito parecidas com as anteriores: ele vestia um colete cinza sobre uma camisa branca e calças sociais igualmente cinzas. As mangas da camisa estavam arregaçadas e os botões mais próximos do pescoço, desabotoados. Mesmo em casa, as roupas do britânico ainda eram de certa forma, chiques.
Enquanto ele se aproximava, Amy só podia pensar consigo mesmo como todos os movimentos que o vampiro executava pareciam demasiadamente perfeitos e ensaiados. Ele se movia como um gato, não um ser humano. Bom, não que ele realmente fosse um.
Ao chegar perto o suficiente da moça, Arthur ofereceu sua mão direita, mantendo a esquerda fechada nas suas costas enquanto se inclinava levemente em uma reverência. "O café está servido." Ele disse, olhando Amelia com seus olhos verdes penetrantes. Aquela pose, aquele sotaque e aquele rosto que parecia ter sido esculpido com o maior cuidado do mundo fizeram com que as bochechas da americana ficassem levemente coradas. Ela levantou a mão para aceitar a de Arthur, mas algo a impediu. Calma, Amy. Limpando a garganta e levantando o pescoço, como se para se mostrar superior a toda aquela pose desnecessária do britânico, ela seguiu em frente e respondeu: "Espero que tenha comida de humanos, e não um humano." Ela se virou assim que chegou à mesa. "Isso é, se você realmente for um vamp--" Arthur não estava mais ali. Ele já se encontrava atrás de Amy, puxando a cadeira para ela se sentar. "Não se preocupe. Peguei algo que sei que vocês adoram."
"Nós? Quer dizer os humanos?" Ela estava muito ocupada prestando atenção na conversa para poder recusar a gentileza de ter sua cadeira puxada. E além disso, todas as mulheres gostam de uma mordomia de vez em quando então por que não?
Na mesa à sua frente, havia um prato coberto por uma enorme tampa, daquelas que Amy acreditava só existir em filmes. Os talheres ao lado estavam devidamente espaçados, parecia até que havia sido utilizada uma régua para fazê-lo. Tudo era feito de prata.
"É... Mas em especial os americanos." Arthur disse, puxando a tampa para cima e revelando naquele prato tão reluzente uma caixinha do McDonald's e um café do Starbucks.
Amelia piscou algumas vezes para a comida. "...É isso?" O vampiro antes tinha um sorriso de canto, ele estava meio orgulhoso de si mesmo por ter conseguido pensar em comidas humanas! Mas essa expressão logo foi embora com a reação da menina.
"V-Você não gosta?" Ele perguntou, tentando manter a pose.
"Ah, sabe como é né," Ela começou, abrindo o pacote do McDonald's e vendo aquelas deliciosas panquecas. Começou a temperá-las com maple syrup e manteiga enquanto falava sem olhar para o homem. "com toda essa preparação de prata, e com esse cenário de filme de terror eu achei que ia ter uma coisa mais..." Ela fincou um garfo nas panquecas e encarou-as. "...chique." Finalmente ela enfiou a comida na boca e mastigou, agora olhando para Arthur.
Aquela menina entendia em que posição estava? Ela não tinha o direito de reclamar! Ele devia logo ter acabado com ela, aquela americana mal agradecida, mal sabia o trabalho que foi sair com os primeiros raios de sol da manhã caçando alguma coisa que ela pudesse comer! As grossas sobrancelhas de Arthur estavam franzidas em desgosto, mas a sua boa educação o proibia de falar tudo o que ele realmente pensava. "Me desculpe se isso não lhe agrada." Ele disse por entre os dentes.
"Tá tudo bem." O sotaque americano fazia o interior de Arthur revirar. Como eles puderam estragar uma língua tão linda? Por que abreviar tudo?! "Eu gosto." Ela respondeu enquanto comia.
"Ótimo. Então, se me permite, vou para os meus aposentos." E com uma última reverência, ele se virou. Estava exausto, cuidar de humanos dá trabalho.
"Peraí. Onde é que cê pensa que vai?" Amy exclamou mais alto do que pretendia. A casa grande fez sua voz ecoar por um bom tempo.
Arthur se virou para ela com uma cara de eu-acabei-de-te-falar-come-e-não-enche-o-saco, mas a americana ignorou. "Você disse que ia responder todas as minhas perguntas. Pois bem," Amy deu uns tapinhas na cadeira vazia ao seu lado com um sorriso irritante em seu rosto. "senta aqui."
Ele não podia acreditar no que estava ouvindo. Ela não podia estar falando sério. A vontade de suspirar foi maior que seu desejo de suprimí-lo, então ele soltou-o em alto e bom som enquanto dirigia-se de volta à mesa. Ele sentou onde Amy indicou, sua postura, como sempre, impecável.
"O que quer saber?" Arthur perguntou, torcendo o nariz para aquela comida mole e nojenta que ela parecia comer com tanto afinco.
"Tudo." Amy respondeu.
"São mais de 100 anos para serem lembrados. Prefiro que você pergunte o que quer saber e eu apenas respondo."
"Tá." Depois de mastigar por um tempo em silêncio, Amy começou de novo. "Por que você virou um vampiro?"
"Porque fui mordido por outro."
"Tá, mas quem?"
"Isso realmente importa para você? Mesmo que eu fale o nome, duvido que você conheça. E além disso, essa informação é completamente irrelevante para você."
Amy não queria admitir que ele estava certo, então ela apenas tentou vencer a discussão, como sempre. "Você disse que ia responder todas as minhas perguntas."
Suspirando de novo e rolando os olhos, Arthur respondeu: "William Doggett." Na verdade, esse é um homem famoso, mas de novo, ele era famoso no país e na época de Arthur. Uma menina como ela com certeza não saberia quem é. E pela cara dela, realmente não sabia, pois tudo que ela fez foi tomar seu café em silêncio.
"Você tem super poderes?" Ela perguntou de novo, continuando a comer e encarando Arthur como uma criança curiosa.
"Depende. Talvez o que você entenda por super poderes sejam meus sentidos mais apurados." Arthur pausou, esperando que ela fosse interropê-lo, porém, olhando para ela, ele viu que ela realmente estava interessada no que ele tinha a dizer, e então o loiro prosseguiu. "Por causa deles consigo enxergar melhor do que vocês humanos, ouvir e até meu paladar é mais sensível. O tato também."
"Mas você tem uma super velocidade louca e uma força absurda, cara!" Realmente, parecia uma criancinha que acabara de conhecer seu super-herói favorito.
"Sim. Essas também são qualidades de vampiro." Juntamente com a falta de um coração que bate. Mas isso ele não precisava adicionar, ela não perguntou mesmo.
"Então você tem super poderes." Amelia respondeu, de novo com aquele sorrisinho irritante de quem tinha vencido uma luta.
"Se você quer chamá-los assim." Arthur deu de ombros. Estava aos poucos aprendendo a lidar com aquela garota. Regra número um: deixa-a ganhar ou terá uma dor de cabeça.
O resto do café foi em silêncio, com Amy comendo e Arthur observando-a de braços cruzados. Por fim, quando ela estava satisfeita, o vampiro fez menção de que ia se retirar novamente, mas antes que ele realmente o fizesse, a americana interviu; "Ei..."
Arthur olhou-a. Amy brincava com o copo do café, agora vazio, em suas mãos e não retribuia o olhar. Seu rosto agora parecia mais sério e até preocupado. "Por que eu tô aqui?"
"Eu te disse isso ontem. Preciso de sua ajuda." Ele respondeu calmamente.
"Tá, mas por que eu?!" A voz da menina aumentou de novo. Agora seus olhos azuis estavam fixos no britânico e Arthur podia jurar que eles pareciam estar carregados de lágrimas.
"...Porque eu demorei demais pra te matar." O rosto de Amy perdeu a cor. Isso, Arthur. Ela já estava quase chorando e ele ainda resolve falar isso. Bom, tarde demais, melhor continuar. "Ontem," Cada palavra era dita devagar e com cuidado. "eu não planejava ser visto por ninguém. Mas você apareceu. E eu tentei te matar também — você sabe disso -, mas a polícia estava muito perto e isso acabou me atrapalhando. Se eu te deixasse lá, você iria me entregar. Se eu te matasse, a polícia me alcançaria. Não, não daria tempo de te matar antes de a polícia chegar. Você tem cerca de 5 litros de sangue no seu corpo, sabe quanto tempo eu demoraria para sugar tudo utilizando só a minha boca? Um bom tempo. Então a única escolha que eu tive foi te trazer comigo."
Amy engoliu em seco, os dedos dela apertando cada vezs mais forte o copinho de café. "...E-Então quer dizer que você pode me matar a hora que quiser aqui...?" A voz dela estava trêmula, mas ela tentava o máximo possível não demonstrar. Nunca demonstre ao animal que você está com medo, é o que o seus pais sempre diziam.
Arthur sabia que ela estava com medo, e não era isso que ele queria. Mas ao mesmo tempo ele não podia deixá-la no controle da situação. "Teoricamente, sim." Para surpresa do homem, a expressão de Amy não mudou. "Mas não vou fazê-lo. Porque preciso de sua ajuda, já disse."
"Por que precisa da ajuda de uma humana?" Ela franziu o cenho, aos poucos voltando a ser a Amy cabeça dura e respondona de antes.
"Eu estou procurando um resposta para o meu problema há mais de 100 anos... Certamente devo estar fazendo alguma coisa errada. Então achei que uma ajuda me serviria muito bem, afinal, você pode olhar por outros pontos de vista que eu não soube ver. Sem contar que você é uma humana dos tempos atuais, deve ter acesso a mais informações do que eu sobre as atualidades e os avanços da medicina e--"
"Opa, opa, peraí..." Avanços da medicina? Ele estava doente? Ou será que algum ente querido estava doente? Será que tinha a ver com a dona do vestido? "Pra que exatamente você quer a minha ajuda?"
Arthur olhou-a por um tempo e depois baixou seu olhar para suas próprias mãos. Após um período em silêncio, ele levantou novamente a cabeça e olhou para a americana para respondê-la.
"Quero que você me ajude a deixar de ser um vampiro."
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