Pesadelo De Natal

1 Pesadelo de Natal


Notas iniciais
Ora bem. Aqui têm outro conto de natal (embora que, tal como o conto anterior, não siga bem a estrutura de um conto), também escrito já há algum tempo. Espero que gostem, tal como o outro é pequeno e fácil de ler.

“A alegria e a dor não vêm por si; respondem ao chamamento dos homens.”, Provérbio Chinês.


O gélido chão negro congelava-lhe a desprotegida e húmida cara. Ao abrir lentamente os olhos deparou-se com a escuridão que a rodeada. Tudo o que a envolvia manchava-se de tons negros e cinzentos. Nada ali parecia seguro ou familiar. Todo o mundo à sua volta baseava-se em volumes disformes que não reconhecia. Onde estaria? O que acontecera? Como viera ali parar?

Levantava-se lenta e cuidadosamente. Começava agora a tremer compulsivamente. Não tinha, pelo menos até agora, reparado no descomunal frio que sentia em todo o corpo e não só na cara, outrora em contacto com o chão, que embora sentisse não via. Sentou-se, sentindo-se incapaz de continuar a árdua tarefa de enfrentar o que quer que a rodeasse. O terror, que já há muito se apoderará de sua mente, impedia-a agora de se levantar, deixando esta cega criatura neutralizada e desamparada, enquanto agarrava fortemente os joelhos com seus debilitados braços.

Um suave e distante som de crepitar irrompeu pelos seus ouvidos, anunciando uma lareira próxima ou uma fogueira pronta a devorá-la com suas latentes labaredas, que a lamberiam deleitadas pelo fácil manjar nocturno. Dentre todo o vazio envolvente surgiu uma pequena, brilhante e imponente névoa dourada. Seria fumo proveniente das chamas que ouvia? Nunca havia visto fumo de tão imaculada cor.

Um sentimento de aconchego invadiu a sua alma, aquecendo, milímetro a milímetro, cada pedaço de sua pálida e enregelada pele. Algo que a fizesse sentir assim tão desejada e feliz não poderia ser mau! As lágrimas, que apressadamente corriam desesperadas pela sua sardenta face, pararam de cair. Tinha de chegar àquela áurea nuvem e tocar-lhe! Deixá-la penetrar pelo seu pequeno corpo e alimentá-la do que há muito não sentia!

Levantou-se cambaleante, como se de um animal ferido se tratasse, e seguiu em direcção ao desconhecido motivador de sua humilde alegria. À medida que se aproximava tudo se tornava mais claro. Reconhecia agora algumas figuras dentre a obscuridade. Atravessava um comprido corredor pardacento que reflectia raios dourados pelos vidros das inúmeras molduras que sustentava firmemente, como marcadores de um história mórbida e sórdida, a sua história! Esta mistura de hipócritas imagens, vitrinas pelas quais se observava a fútil montra que era a sua vida, com os jubilosos e magníficos clarões de luz afortunada inundava-a de nojo. Tinha nojo de si própria e da sua vida. Nojo da untuosa mentira com que vivia constantemente. Nojo de ser infeliz e escondê-lo dos outros. Nojo de não ter sido capaz de por um momento ser verdadeiramente livre e amada.

Começou a andar mais depressa em direcção ao centro do nevoeiro, depois correu. Queria fugir do vómito que se aprisionara em sua garganta e chegar à doce melodia que se apoderara de seus ouvidos. Todo o seu corpo convulsava com o ódio e a repugnância que nutria por si próprio. Queria sentir-se bem. Queria chegar à origem desta incólume neblina. Queria livrar-se de si própria. Queria esconder-se das evidências de sua miserável existência.

Chegou finalmente ao fim do corredor e abriu desesperadamente a familiar porta que agora via com perfeição. Era a porta da sua sala de jantar. Encontrava-se afinal em casa. Estava então em segurança. Nada lhe poderia fazer mal ali. Aliás, nada lhe podia fazer o que quer que fosse ali. Nem uma carícia nem um safanão. Nem proferir-lhe algo amigável nem colocá-la no desgraçado lugar que merecia. Nada! Perguntava-se se seria este vazio melhor que o medo que há momentos sentira, mas não conseguia decidir-se.

Caiu agoniada de joelhos perante a porta aberta. Apertava com os dois braços o seu exaurido estômago que ainda se contorcia por libertar o que tinha dentro de si, mesmo que só de meros ácidos se tratasse. Sabia que tinha fugido dos sugestivos retratos da vida que detestava e que se encontrava próxima da génesis da névoa portadora dos sentimentos que cobiçava. Sentia-se mais quente que nunca. O calor emanado por aquele radiante aglomerado de algodão amarelo, suspenso sobre a sua cabeça, era intenso, mas em nada sufocante. Sentia as entranhas a acalmar com a sua saborosa ardência, afastando todas as recordações da sua insípida vida.

Voltou a levantar-se lentamente. Toda a sala encontrava-se dignamente decorada para uma graciosa ceia de Natal. À sua frente tinha uma mesa coberta de doces e decorações relacionadas com a época festiva. Encontrava-se perfeita e rica, como sempre a fazia, ostentando a luxúria e o desaperto com que conseguia viver. Podia ver-se de tudo. Havia desde sonhos a coscorões, desde o bolo-rei ao tronco de Natal. Longos e belos castiçais prateados, enfeitados com folhas de azevinho, suportavam pequenas velas vermelhas, que criavam, com a luz irradiada, movimento por toda a mesa. Quase que se oferecia por si própria, mesmo não tendo boca. Chamava a atenção de todos os que se encontrassem na ampla sala, como deveria fazer uma verdadeira anfitriã. As cadeiras encontravam-se todas encostadas às paredes, ao lado das poltronas brancas, permitindo a passagem de quem pretendesse ir a outro lado ou o descanso de quem já demais comera.

No canto esquerdo desta divisão avistou a árvore de Natal. Também esta se apresentava irrepreensível, com as suas perfeitas bolas vermelhas e douradas, de vários tamanhos, colocadas dispersamente com uma acuidade digna de veneração. Vários laços escarlates ligavam os espaços não ocupados pelas bolas e no topo do pinheiro de plástico afigurava-se, magnífica e poderosa, uma estrela áurea. As pequenas luzes amarelas, que fluíam pela árvore como um rio de pequenos pirilampos, eram reflectidas pelas vítreas bolas. Um aconchegante brilho espalhava-se por todo aquele canto da sala, transformando-o num harmonioso refúgio.

Planando sobre tudo isto encontrava-se a fonte da nuvem, pela qual procurara. O seu esplendor era arrebatador. Era magnífica, livre, poderosa, indomável e, acima de tudo, feliz! Parecia que tal admirável fenómeno ocorria graças ao ambiente envolvente. Todo o significado por detrás de tão arranjada sala parecia condensar-se naquela névoa palpável. Todo o êxtase que sentia quando era a ceia de Natal e podia juntar numa só sala todos os que gostava que a amassem, e que por momentos até parecia que o faziam, reunia-se ali, naquela sopa amarela de algodão doce e quente. Ali aglutinavam-se alegremente todos os cheiros e sabores, todas as texturas e todo o brilho próprio do que recordava do seu Natal. Natal que era oportunidade única de não se sentir deplorável e isolada por uma noite, mesmo ficando rodeada de pessoas mais falsificadas que ela própria, se é que isso podia ser possível. Mas algo estava errado.

De um momento para o outro todo o louvável dourado na névoa escureceu. “Onde está toda a gente? Porque só estão os meus presentes debaixo da árvore? Porque é que estou sozinha se é véspera de Natal?”. A névoa era agora de um verde vómito e começava a sufocá-la à medida que entrava nos seus pulmões. “Será que descobriram que a minha fútil existência não passa disso mesmo? Será que repararam na minha hipócrita e néscia tentativa de não passar um Natal sozinha? Será que repararam que este é o único momento em todo o ano em que me sinto verdadeiramente, embora que devido a artificialidades, feliz? Será que repararam que uso o Natal, e uso-os a eles, como fútil desculpa a não aceitar permanecer, durante todo um ano, plangente?”

Todo o algodão, outrora delicioso e revitalizador, apodrecera. Encontrava-se de um castanho pantanoso e nojento. Irrompia pelas suas narinas cruel e brutamente não a deixando respirar. Sentia-o de volta de sua garganta apertando-a, matando-a! Caiu novamente. Não conseguia fazer nada. Estava sozinha e a morrer e não podia fazer nada contra isso. Tinha as pernas presas pelo choque da verdade eminente. Múltiplos olhos vermelhos e acusadores surgiram nas paredes da sala, tingidos de sangue e ódio. Haviam descoberto toda a sua herege vida e iriam castiga-la por isso. O seu batimento cardíaco aumentava rápida e pesadamente. O medo e a constatação do óbvio apavoravam-na, não deixando que se mexesse. Ouvia o seu coração bater estridentemente em sua cabeça num ritmo macabro. Fechou, cansada, os seus delicados olhos verdes e acreditou morrer.


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O temporizador berrava irritantemente, ecoando por todas as paredes da pequena cozinha. Aurora acordou sobressaltada. Despregou o seu rosto da mesa e afastou os seus afogueados cabelos encaracolados da frente dos olhos. O peru estava pronto.


Notas finais
O que acharam deste conto? Comentem! Até breve.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!