Pesadelo | Amor Imortal 01
45 Capítulo 46
Ellylan não gostou nem um pouco de ter acordado sozinha dentro daquele quarto tão grande e ficou ainda mais aborrecida com o fato de Maximus ter tirado sua asa de baixo dela sem ao menos perceber que o arcanjo estava se movendo. Se um demônio estivesse invadido o quarto em quanto ela dormia, Elly provavelmente estaria morta já que o seu sono era tão profundo quanto um poço de água sem fundo.
Era revoltante, mas esse sentimento não a predominou por muito tempo. Naquele momento, Elly entrou no salão em que existiam os tronos dos arcanjos, o lugar onde ela havia recebido um julgamente surreal. Seus pensamentos sobre como Maximus havia movido sua asa se dissipou em sua cabeça quando lembraças invadiram sua mente.
Era tão ironico que a pessoa que a desejou matar antes carregasse seu coração agora que Ellylan não conseguia pensar em mais nada além disso.
Meses atrás ela estava tão apovarada em apenas ficar próxima ou em pensar naquele homem com asas enormes que era ridículo imaginar que Elly ficava assustada quando esse anjo estava longe dela. Tantas coisas haviam mudado, até mesmo Maximus havia se transformado em algo melhor para o seu reino. Ele ainda conseguia ser bem assustador quando queria, até mesmo a deixava com medo algumas vezes, mas a bipolaridade desse arcanjo que governava o inferno era algo que a encantava.
Tudo em Maximus a encantava, o inferno não parecia tão ruim quando ela pensava nesse anjo que era tão bom com ela. Era realmente uma pena saber que alguma hora tudo isso acabaria.
Ellylan não iria se iludir, não iria ser uma tola em acreditar que estaria ficando por toda a eternidade ao lado de Maximus. Ela era uma humana, não possuía a eternidade. E se a eternidade fosse lhe oferecido, Elly não tinha certeza se aceitaria.
Os sentimentos que possuía por Maximus talvez não fossem o suficiente para ter que aceitar essa vida em que a morte era apenas uma brincadeira. Uma brincadeira em que faziam disputas de quem seria o mais original sujando suas mãos de sangue.
O arcanjo podia ser uma pessoa maravilhosa com ela, mas Elly nunca havia visto o seu lado realmente ruim. Maximus já havia sido cruel com ela diversas vezes e mesmo que odiasse aquele lado dele, ela sabia muito bem que aquilo não era como um imperador tratava pessoas que mereciam a morte.
E Ellylan não tinha certeza se suportaria ver Maximus agindo como a sua fama dizia. Todos o temiam, todos o respeitavam e isso não nasceu com a sua tamanha bondade.
— Ellylan.— O coração de Elly deu um pulo a menos quando uma voz bem familiar invadiu o silencio dos seus pensamentos. Ela se virou para encontrar os olhos de Maximus e o anjo loiro sorriu quando isso aconteceu.
Mas algo estava errado.
O arcanjo do inferno estava sustentando em seu rosto uma expressão muito serena. Isso era novidade para Elly, pois nunca havia visto isso nele. Maximus sempre mostrava expressões marcantes e fortes, calma não combinava com ele.
— O que aconteceu?— Ela perguntou, não sabendo se essa foi uma pergunta correta de se fazer já que o anjo loiro em sua frente estava fazendo com que temesse a resposta.
— Venha, sente-se comigo.— Maximus disse, estendendo sua mão na direção de Ellylan quando ela continuou imóvel. Sua única reação foi levar a sua mão até a do arcanjo para que ele a cobrisse com a dele. Seu toque era tão quente que a fazia se sentir confortável, mesmo que a situação dissesse para ficar incomoda.
O arcanjo caminhou em direção dos três tronos que existiam naquele lugar, mas quando Ellylan pensou que ele estaria sentando naquele que lhe pertencia, Maximus se deteve no último degrau daquele meio circulo onde estavam as cadeiras reais dos arcanjos. Ele se sentou, abrindo suas asas completamente para colocar ao redor de Elly quando o anjo fez com que ela sentasse no degrau a baixo dele no meio de suas pernas.
Essa posição parecia intima demais para uma mortal e um imortal, mas era tão agradável que Elly não se importou com as consequencias que isso traria um dia. Ela usou o corpo de Maximus atrás dela como um apoio para suas costas, seus cotovelos apoiados nas coxas do arcanjo enquanto ele colocava seus braços o mais próximo que podia em volta dela.
Ellylan se sentiu protegida e seu coração passou a bater mais rápido com o pensamento de que era a primeira vez que ela se sentia importante para alguém. E algo dizia que isso inclúia até mesmo as memórias de uma vida que ela não se lembrava.
— Você está me assustando.— Elly disse com um sorriso em seus lábios, todo o seu medo se esvaziando de seu corpo.
Como ela podia sentir medo com Maximus a protegendo tão bem?
— Estou mimando meu bichinho.— O arcanjo disse, suas mãos a segurando com força contra o seu corpo grande e quente.— Até mesmo selvagens merecem carinho.—
— Eu não sou uma selvagem.— Ellylan murmurio com raiva.— E não sou seu bichinho.—
— Você não vencerá essa guerra, Elly, mas no momento irei deixá-la de lado.— O arcanjo disse sério, mas não friamente.— Eu preciso lhe contar algo sobre Patrick.—
— O quê?— Ela perguntou curiosa.— Se você deseja matá-lo nos próximos dias, faça com que Gate tome o mesmo caminho.—
— Eu me lembrarei disso quando o dia chegar.— Maximus falou, mas não existia nenhum tom de brincadeira em sua voz.
— Então, fale.— Elly pediu para acabar com enrolações.
O arcanjo atrás dela suspirou e isso não era algo comum vindo dele, isso a deixou preocupada e sua curiosidade era uma faca afiada que estava começando matá-la lentamente. No entanto, em nenhum momento Elly se afastou de Maximus para encará-lo, mesmo que desejasse isso.
— O que você pensou sobre os olhos de Patrick quando os viu pela primeira vez?— O anjo loiro perguntou em uma calma assutadora.
— Bonitos, mas anormais.— Ela não se negou em responder essa pergunta estranha, mas também não conseguiu ver o ponto inicial nesse assunto.
— Quando ele era humano, seus olhos não eram dessa cor. Eles eram tão verdes quanto um olho humano pode ser e nem mesmo imortais possuem tons desse verde água. Os olhos de Patrick se tornaram único quando ele se tornou um demônio.— Maximus explicou.— Algo em seu DNA se modificou em sua transformação, o fazendo ganhar aqueles olhos diferente e um dom.—
— Um dom?— Elly escutava em silencio, atenta a cada palavra do arcanjo atrás dela.
— Ou uma maldição.— O anjo disse.— Nós não sabemos ao certo do que chamar isso.—
— Que dom é esse?—
Maximus permaneceu em silêncio durante vários segundos, para Ellylan isso foi o mesmo que conhecer uma vida eterna. Ela não entendia por que o anjo estava enrolando tanto quando sua maneira de agir nessas situações eram diferentes.
Ellylan não o pressionou, ela deu o tempo que o arcanjo do inferno precisava para falar.
— Patrick pode ver os maiores arrependimentos que existem em uma mente.— Maximus conseguiu deixar Ellylan surpresa.— Quando alguém encontra seus olhos, independete da raça que pertença, ele verá segredos que nunca deveriam ser expostos.—
— Isso deve ser horrivel.— Elly sussurrou.
— No começo Patrick odiava, nós até mesmo achamos que ele imploraria pela morte definitiva. Mas ele acabou se acostumando e hoje em dia isso não o afeta de maneira alguma, Patrick apenas evita estar em lugares muito cheios devido ao fato de que irá receber várias visões conforme seus olhos encontram com o de uma pessoa.— Maximus disse.— Morgan e eu o ensinamos vários truques para manter seus olhos afastados dos de outras pessoas, mas as vezes suas visões é algo inevitável.—
— Ele sofre muito com o que vê?— Elly perguntou, não por curisiodade, mas sim por causa do tenente viver em meio de imortais. Imortais que eram insensiveis.
— Patrick é um demônio do nível 2, Elly, ele conhece muito bem a maldade, mas algumas vezes existem visões que mexem com os seus sentimentos.— Maximus movimentou um lado de suas asas, suas penas brancas e macias esbarrando em Ellylan sem ao menos se importar com o significado desse movimento.— No entanto, esse não é o ponto importante da nossa conversa.—
Dessa vez, Ellylan se movimentou para que pudesse encontrar os olhos do arcanjo que governava o inferno. Se livrando das mãos dele ao seu redor, Elly se levantou em seus joelhos em quanto se virava para ficar de frente com Maximus. O anjo não desviou seus olhos dos dela, também não escondeu os sentimentos que ali existiam.
Toda aquela situação estava a incomodando, pois se Patrick não era o ponto dessa conversa, o que era?
— O que aconteceu, Maximus?— Elly falou de maneira doce, colocando suas mãos nas coxas do anjo quando notou que tocá-lo naquele momento havia se tornado uma necessidade.
— Qualquer raça pode ser vitima das visões de Patrick.— Maximus falou a ela, colocando suas mãos em cima das dela.— Até mesmo humanos, Elly.—
Ellylan encarou Maximus em silêncio por vários segundos quando todo o seu corpo se paralisou com a interpretação que obteve das palavras que sairam da boca do anjo em sua frente. Ela não era tola, não precisava de outra explicação para entender qual era o ponto do arcanjo.
— Você está dizendo que Patrick teve acesso a minha mente?—
— Sim.— O arcanjo falou calmamente.— Imagino que a barreira que se partiu em sua mente foi o suficiente para o dom dele.—
— O que ele viu?— Ellylan perguntou com certo medo... Talvez ela não estivesse preparada para saber dessa misteriosa vida que esqueceu completamente. Ainda mais quando estava obvio que Maximus estava tentando não esconder os sentimentos que existiam em seus olhos quando ele já teria o feito.
— Patrick teve três visões, o que é uma novidade para todos nós.— Maximus disse.— E em uma de suas visões ele viu o que aconteceu em seus braços para ter essas cicatrizes.—
— Eu as fiz?— Elly perguntou sem pensar duas vezes e não pode deixar de notar a surpresa que apareceu nos olhos do anjo em sua frente.
Talvez o arcanjo do inferno estivesse esperando que ela quebrasse por causa dessas cicatrizes, mas não tinha como isso acontecer quando estava obvio o que aconteceu. Ellylan não precisava de Patrick e suas visões para ter conhecimento do motivo dessas marcas.
— Sim, você as fez.— Maximus respondeu sua pergunta.— Com uma tesoura antiga em quanto estava sentada em um lugar escuro.—
— Que forma criativa para se morrer.— Ellylan segurou o seu risso devido ao fato de Maximus estar completamente sério. Ele provavelmente iria estrangulá-la se começasse a rir em sua frente. No entanto, ela já havia tido tempo suficiente para se conformar que algum dia havia tentado se matar, pois sabia muito bem que nenhuma brincadeira de criança causa aquele tipo de cicatriz. Naquele momento, ela concordava plenamente com a frase “Rir para não chorar”.— O que mais Patrick viu?—
— Escuridão.—Maximus levou uma das suas mãos até o rosto de Elly e acariciou sua bochecha com seus dedos quentes em quanto falava.— A escuridão invadiu sua visão como se toda a sua vida fosse um grande arrependimento.—
Isso deveria ter chocado Ellylan, principalmente quando ninguém desejava que sua vida fosse um caos total a ponto de odiar tudo. Mas como ela poderia ficar infeliz com essa visão de Patrick quando sabia que havia tantado se matar?
— Se eu tentei me matar é por que existiam motivos, não é mesmo?— Ela perguntou com sinceridade para o anjo e ele concordou com um movimento de sua cabeça.— Eu tenho uma pergunta para você, Maximus.—
— Vá em frente.— O anjo parou com suas caricias, fazendo com que Elly as desejasse ainda mais.
— Por que você veio até mim como se eu fosse ficar mal por essas coisas?— Elly fez sua pergunta.— Você sabia que eu já imaginava o que havia acontecido para essas cicatrizes existirem.—
— Eu ainda não terminei, Elly.— A resposta foi dura, mas não surpreendeu Ellylan. Assim era o arcanjo que ela conhecia e não podia julgá-lo.
— Eu não sei se quero escutá-lo.— Ela foi sincera, tentando se afastar do anjo em sua frente, mas falhando completamente quando ele a segurou para ficar exatamente onde estava.— Você deixou o pior por último.— Elly adivinhou.
— Você precisa saber.—
— Eu preciso?— Ellylan sussurrou, desviando seus olhos de Maximus quando abaixou sua cabeça.— Eu realmente preciso?—
— Sim, Elly.— Maximus falou.— É sobre uma vida que sua mente preferiu esconder, mas que ainda a pertence. Você não pode evitar saber o que aconteceu.—
— Tudo bem.— Ela concordou com o anjo, pois ele tinha razão. Elly não podia fugir de quem realmente era. Além do mais, suas memórias podiam voltar a qualquer momento e ela deveria estar preparada quando isso acontecesse.
—Você...— Maximus vacilou na primeira palavra de sua frase, algo completamente anormal vindo dele. Ellylan levantou seus olhos para encontrar os seus e tudo o que viu foi pura agonia. Olhar aqueles azuis piscinas fez com que Elly percebesse que o arcanjo do inferno não sabia o que fazer naquele momento e isso estava fazendo com que ele... Sofresse.
— Apenas diga, Maximus.— Ellylan o incentivou, mesmo que não desejasse saber a verdade.
— Você era uma meretriz antes de vir para o inferno, Elly.— O anjo disse de forma calma, mas tudo o que ela sentiu foi uma bofetada em seu rosto.
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