Pesadelo
1 Acordar
Notas iniciais
O ônibus lhe acertou, e Hibiya julgava que aquele seria o seu fim, mas não foi o que aconteceu. Acordou na rua, na escuridão tão infinita quanto seu alívio — ao ver a diferença nos dias iguais e infelizes de sol. Mas o calor persistia, deixando o tempo abafado. Não havia nenhuma estrela no céu, além da lua solitária.
Mas ele próprio não estava sozinho: um grupo de pessoas se amontoava ao seu redor, sendo que nenhuma delas tinha rosto. Eram todas brancas, em contraste com o negro. Não tinham nem forma humana. Custava-lhe a acreditar que seriam reais, pareciam apenas bonecos de tamanho humano. Eles o levantaram e o colocaram em uma maca. Onde estariam o levando, aqueles seres?
Sentiu um mau pressentimento. Quis sair, mas não conseguia se mexer, pois estava imobilizado de dor. Sua perna tinha um ângulo estranho, e sua testa estava quente — devia ser sangue. As criaturas esbranquiçadas como névoa começaram a movê-lo. Com a cabeça dolorosamente virada para um lado, Hibiya conseguiu ver: dois veículos em choque que pareciam ter esmagado alguma coisa com intenção. Estavam cobertos de chamas; Algo estava bem esmagado — o que dificultava a identificação, mas parecia ser feito de carne, feito por um trator desgovernado; Um corpo jogado ao chão — esse estava inteiro, os olhos sem esperança ou vida fixos no céu; segurava um celular, que na pequena tela mostrava a palavra “win”; No chão ao seu redor, meio que completando o sentido da palavra, alguém havia escrito com as mãos “the death”.
Hibiya até poderia ter fechado os olhos, mas o que prendia a sua atenção era o choque com que observava aquela garota se mover. Hiyori... Hiyori estava viva, se arrastava até ele com uma pressa sobre-humana, a perna direita inútil sendo puxada enquanto um ombro ferido era segurado com a mão boa. A cabeça inclinada — apenas um olho a mostra, que era vermelho e cansado; tinha um puxar de lábios que revelava um sorriso forçado no rosto. A garota o acompanhava desesperadamente — parecia querer devorá-lo...
Como se ele fosse se perguntar na hora como Hiyori ficou assim! Hibiya só sentia um suor frio escorrer pela sua face — um tremor de se ver cada vez mais próximo da amiga. O grupo do cinco seres sem rosto, um conduzindo enquanto quatro levavam a maca, pararam quando a jovem estava terrivelmente próxima, o suficiente para ouvir os seus risos.
– Hahaha...
Ao ver Hibiya nitidamente, Hiyori parou de rir. Mortalmente séria, os olhos cansados e secos pousados no garoto, disse:
– Por que você está aqui?
– Hein?
Foi o que disse, mas a garota insistiu. Sem dar tempo, Hiyori colou o rosto ao dele — estava suado e sujo de poeira e sangue.
– O que está fazendo aqui... Volte agora. Volte agora mesmo. Eu vou te salvar. Eu vou te salvar Hibiya. Nem que eu tenha que te matar agora...
As criaturas começaram a correr com a maca. Virando uma esquina, depois outra, e Hibiya agradeceu mentalmente ao grupo. Comemorou cedo demais. Tendo despistado a garota, Hibiya se viu em uma construção familiar... Sua casa. Mas estava diferente. A pintura descascava, e o jardim há tempos não era cuidado.
Não chamaram por ninguém, entraram como se fossem seus próprios lares. O grupo o deixou em uma sala que não reconhecia como parte da casa. O espaço era amplo, sujo e mal iluminado. Não sabia o que estaria em cima das mesas — além de que seriam muitos vidros e caixas e aparelhos... Ouviu passos. Seriam aqueles seres outra vez? Não. Era apenas uma pessoa, que se aproximava com passos ruidosos, com pressa.
Talvez fosse Hiyori. Com esse pensamento, Hibiya se atirou com tudo no chão — mesmo que o movimento piorasse seu ferimento. Queria evitar o encontro, receou do que sucederia. Estava desesperado, o passo cada vez mais alto e próximo. Encontrou um armário com chave, e com esforço se arrastou até ele. Jogou-se lá dentro onde teve de se segurar a um cadáver que lá havia.
Até que notou que o corpo, que fedia pela decomposição, era idêntico a ele. A pessoa começava a adentrar o cômodo, e Hibiya rapidamente se escondeu atrás do corpo, sem tempo para indagações; o sujeito chegou e pegou o corpo do armário — sem notar Hibiya aparentemente, e o arrastou até uma mesa no centro do cômodo que estava vazia.
Pela porta do armário entre aberta, Hibiya observou o espetáculo macabro: A pessoa, que estava vestindo um jaleco, tinha o rosto e as roupas manchadas de sangue seco, manchando-se ainda mais pelo sangue da pobre criatura sem vida. O rosto da pessoa se transfigurava — ficava retorcido por um sorriso cruel, para então voltar a sua antiga condição de indiferença, como se não houvesse mais sentimento naquela casca insana.
Foi quando entendeu tudo. O que via era uma versão de si próprio cortando, separando, dividindo um cadáver com a sua face. Por aquele ônibus, sua pele se tornou fria. Para salvá-la. Ou para se salvar? Entretanto a sala escura e pegajosa lhe dizia o contrário. Aqueles dedos do cientista a avaliar sua caçada. Eram seus, os do corpo que estava a ser desmembrado, e a do motorista. A da névoa que observava suas desgraças... Eram todas obras daquele lunático que queria viver mais tempo que o devido.
Quem era Hibiya? O que despedaçou a cabeça da garota que amava? Que lhe perfurou o corpo, a fez implorar pelo fim? Era o seu fim. Sabia que era questão de tempo até que aquele Hibiya notasse sua presença — isso se já não o soubesse, e estava cruelmente brincando com sua angústia. Era um mero clone como tantos outros, um fantoche, substituto para o prolongamento de vida do outro. Hibiya não era ele mesmo. Claro, como seria possível viver em um pesadelo sem fim? Tudo termina. Aquelas memórias lhe foram dadas pelos outros clones. Era uma mentira. Hiyori também. Assim como aquele mundo... Alguém poderia salvá-lo?
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