Perversão
2 Capítulo 2
Costumava ser certinha. Fui criada no evangelho. Meus pais são doces e carinhosos, mas rígidos. Não me obrigavam a ir aos cultos, no entanto deixavam claro sua satisfação quando eu me dedicava à igreja.
E eu gostava. Frequentava assiduamente a EBD e era membro ativo em vários grupos. Tinha muitos amigos. Participava do grupo do coral infantil. Sabia que ali era o meu lugar.
Aos doze anos me batizei. Entrei para o grupo de coreografia. Viagens missionárias. Eventos na rua. Sinto falta do meu fervor naquela época.
Não tive namorados na adolescência. Papai permitia apenas que namorasse cristãos. De preferência da mesma congregação. Eu enxergava os meus amigos da igreja como irmãos em comunhão.
Joffrey era apaixonado por mim. Era sonho do meu pai que casássemos. Filho do melhor amigo dele, fomos criados juntos.
Não posso negar que Joffrey era uma graça. Certa vez tivemos um "encontro oficial". Ele me levou ao cinema e depois comemos uma pizza. Tínhamos catorze anos.
Aos domingos, ora almoçávamos na casa deles, ora eles vinham à nossa.
Enquanto nossas mães cozinhavam, trocavam receitas e conversavam sobre os filhos, os maridos e o grupo de oração do qual ambas pertenciam; os homens liam o jornal, discutiam sobre a igreja, os hinos e louvores, as missões, os trabalhos, assistiam ao football. Criaram um time na igreja que competia com as demais e cobravam como ingresso um kilo de alimento não perecível.
Cansei de ir aos jogos. Papai era alto e tinha as pernas e os braços compridos. Era o goleiro do time. Defendia bem. Sempre chegavam às finais. Durante a época em que ele era ativo no time, se tornarão bicampeões.
Joffrey e eu brincávamos. Brincadeiras de criança. Nada ofensivo. No quintal, se não nos quartos. Jogávamos vídeo game no apartamento dos pais dele. Na minha casa, twister, pique-esconde, desse nível.
E foi de um jeito totalmente bobo que começamos a experimentar. Primeiro, um beijo. Com o tempo, foi ficando mais quente. Engraçado como nunca flagraram a gente. Apenas uma vez. Minha mãe foi nos chamar para almoçar. Encontrou nós nos beijando. Selinho. O suficiente pra ela surtar.
Agarrou-me pelo braço. Berrava comigo. Queria saber o que eu tinha na cabeça. Meu pai correu. Achou que tinha acontecido algo muito sério. Ela acrescentou a realidade.
Estabeleceu-se a discussão. Ficamos desnorteados. Saí de lá arrastada em meio a confusão. Não voltamos à igreja naquele domingo.
Me deixaram de castigo por um tempo. Esperei a "poeira abaixar" e conversei com meu pai. Expliquei-lhe que estávamos jogando vídeo game como sempre. Apostamos um beijo se eu perdesse.
"E se você ganhasse?"
" Traria o PlayStation pra casa."
Ele se empenhou mais pelo brinquedo do que pelo beijo. Papai achou graça. Fez algumas perguntas baseando-se no relatório da mamãe. Neguei. Percebi que ficou furioso. Tentou não demonstrar.
Ao deitar-me, ouvi meus pais discutindo.
" Catelyn, você tem noção do que você fez? Brigamos com nossos amigos. O pastor Arryn me ligou. Eu disse que se tratava de um assunto sério. Agendei uma reunião. Solicitei a presença do Robert e da Cersei. Agora terei que explicar que não passou de um mal-entendido."
"Eddard, ela só tem 13 anos." argumentava mamãe em meio aos soluços
"Era só uma brincadeira de criança. Na idade deles a curiosidade brota. Precisamos orientá-la e não deixar a curiosidade fugir do controle. Foi bom termos esse alerta. Não percebíamos que nossa garotinha está crescendo. E agradeço por ter sido com o Joffrey. Conhecemos a família e a educação que dão ao filho. Um rapaz de boa índole e que será um esposo magnífico para nossa filha."
Esposo? Quase surtei. Nem namorávamos e já pensavam em casamento. Não queria compromisso. Queria me descobrir. Brincar. Compreender meus impulsos. Deixar rolar era a melhor opção.
No domingo após o culto matutino, reuniram-se com o pastor. Oração. Perdão. Reconciliação. Depois a rotina segue-se. Fomos almoçar na nossa casa.
Os pais empolgados começaram a planejar nosso futuro (bem distante). Depois que concluíssemos os estudos. Depois que arranjássemos empregos. Depois que nos estabilizássemos.
Agora, adulta, percebo o quanto nossas atitudes eram bobas e infantis. No entanto, as experimentações entravam em conflito com a doutrina em que fomos criados. Um misto de culpa e ansiedade, curiosidade e vício.
Combinávamos de continuar somente com os beijos. Mas quando nos encontrávamos, ia pouco além disso.
Na primeira vez, jogávamos monopólio no meu quarto. Senti o ímpeto de beijá-lo na bochecha. Surpreendeu-se com minha iniciativa. Sorriso sem-graça. Pouco depois, retribuiu ao gesto. Pressionou levemente os lábios contra a pele do meu rosto. Uma situação imensa para duas crianças. Na verdade, queríamos sentir o toque um do outro.
Evoluímos para selinho. Cheiro.
Um dia, nos inspiramos nos atores enquanto assistíamos a um filme. Beijo de língua. A primeira tentativa foi desastrosa. Não sabíamos como encaixar as línguas. Dentes bateram. Lambidas no nariz. Persistimos até acertarmos. Foi ficando bom. Gostoso.
Avançamos para o pescoço. Orelha. Mãos percorrendo o corpo. Adrenalina de sermos pegos em flagrante.
Assistir aos filmes. Ouvir música. Jogar vídeo game. Brincadeiras no quintal. Desculpas para conhecermos o prazer.
Costumava deitar em cima de mim. Ou sentava no colo dele. Vestidos. Simulávamos o ato sexual. Sem ter noção do que fazíamos.
Twister foi um grande aliado. Abríamos o tapete. Eu deitava ora de costas para o chão ora de bruços. Joffrey vinha por cima de mim. Beijos. Carícias. O pênis endurecia sob a roupa. Eu ficava molhada. Se ouvíamos alguém se aproximando, nos posicionávamos no jogo.
O esquema durou pouco. Após a situação constrangedora, nossos pais optaram por brincadeiras de menor "contato". Não foi o suficiente para nos impedir.
Após o incidente, Joffrey passou a frequentar minha casa mais vezes. Encorajavam-nos ao namoro. No entanto, possibilitou-nos a praticar mais vezes.
Íamos para o meu quarto. Ligávamos a televisão. O rádio. Ou montávamos o jogo no chão afim de acreditarem que estávamos entretidos na brincadeira. Escondíamos nos pés da cama. Estrategicamente. E dávamos início a nossas experiências.
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