Perturbadores de Psicológico
1 Madrugada Enquadrada
Notas iniciais
Era umas 4h10 da manhã, a turminha tava se reunindo tudo na pracinha nova da cidade, lá na pistinha de skate.
O pessoal, conforme ia chegando, ia saudando a galera.
— Suave? – Jão perguntou.
— Tô tranquilo.
— É nois, então.
Um maluco chegou tocando rap num corsa prata. As luzes duns barracos acenderam, umas horas um vizinho abriu a janela, se apoiando no batente e acendendo um cigarro.
— “Fora da realidade louco vê até morpheu. Viajam pelo mundo de bike sem pneu. Psicodelia, é o que mantém a euforia. Bate cabeça é só mais um tipo de esquizofrenia. E os que dançam, são julgados noite e dia” – o sonzinho meio falhado do corsa gritava.
A galera gesticulava fechada nuns guetos cantando essa música, até eu mesmo tava fazendo dessas. É a naipe, é a distração.
Chegou umas minas mó nóias na pista. A Millena era a mais famosinha, ela é bem fora das ideias, às vezes me pergunto se a mãe dela não dá umas marteladas na cabeça de prego da guria.
Ela chegou na gente já com um cheiro do caralho, acho que traçou uns 4 baseados sozinha. Tava delirando quase, guria malucona.
— Daê, piasada – Ela gritou – Alguém aí tem fogo?
O pessoal dava umas cochichadas maldosas falando coisas do tipo: “Eu não tenho, mas a tua [...] deve ter bastante, tá ligada? – Risada idiota”.
Ela passava de grupo em grupo catando um avil, até que chegou nos “Brothers” dela e conseguiu até algo a mais. Aquela galera, nossa, são foras demais.
— Quem tem uma nota de 5 pila aí pra emprestar bem rapidinho? – Um cara de lá gritou, até pensei em emprestar, mas né?
Eles tavam cheirando cocaína, cataram um cartão de unimed e ajeitaram bem bonitinho, dava pra escutar os “snif, snif” depois. Se entregavam com isso. Mexendo no nariz e snifando, os caras se ligavam até nos mosquitos e borboletinhas que passam perto.
Tava tudo na paz, já tinha passado das 4h20, todo mundo morgado e pa! O pessoal fazendo os corres da madrugada.
Chegou os porcos. A negada ou ficava sossegada não querendo dar bandeira, ou ficava mais nos cantos escuros na ideia de que nenhum porco farejasse o cheiro de erva. Tinha os medrosos que saía mais além pros trilhos que passavam perto da pistinha, esses aí já tavam até enquadrados.
Eu fiquei de boa, tava limpo, mas tinha certeza que ia ser enquadrado com o grupinho. Talvez eu passasse em limpo, tenho meus contatos, meus amigos. Não deve ter um porco daqui que não seja subornável.
Os homens fizeram a gente ficar um do lado do outro, todos de costas para eles, encostados numa caixa d’água tudo pichada.
Abaixando a cabeça e dava pra ver a galera rindo, uns tremendo, outros já conformados com a surra que iam levar. É o risco que paga, tá ligado?
— De quem é essa ponta aqui? – Um fardado perguntou pra gente.
— Sei não, senhor. – Ele foi perguntando de um por um, enquanto o colega revistava a galera.
— Não sabe? O que você tá fazendo aqui, então, seu merda?
— Não tô fazendo nada, não, senhor...
O guri, uns 15 anos – por aí -, tava junto com os cheiradores. Tava mó ligadão na cena, os olhos estalados, naquela hora nem fungava mais o nariz. O cu deveria tar que não passa um fio.
— Espera aí, olha o que eu achei aqui. – O sorriso de um PM satisfeito.
O colega tinha achado 5 gramas de cocaína com um moleque. Começou o pesadelo aí. Conforme esse aí passava nos próximos 5 depois do flagrante só foi B.O.
— Sim, sim. Aprendemos aqui uns de menor: 5 gramas de cocaína, uma ponta e mais 3 cigarros de maconha.
***
Aquele dia marcou as fitas mais loucas das quais eu já passei. Apareceu mais uma viatura e levou uns 8. O resto eles desceram no cassetete. Depois daquela surra, a galera ficou uns meses sem andar por aquela pista naquele horário.
Mas não pararam, não, tá ligado? Eu mesmo fui fazer um corre num prédio abandonado lá pra cima da cidade. Era o “QG” dos maconheiros da cidade.
Quando eu era pirralhinho de escola, dava pra ver ele do pátio e geralmente dava pra ver gente nas sacadas de lá. Num intercolegial, subi com uns trutas lá pra fumar 1 pra dar uma relaxada antes da partida, a gente ia lançar um dez pra uma mulher aí, mas ela acabou bancando. Fazer o que, né?
As paredes de lá têm umas músicas e pa, umas declarações, uns xingamentos, até uns trecos nazistas, seja o que for, o prédio é totals pichado.
Eu boto fé demais naquele lugar.
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