Pertinente
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Desde pequena, a vida sempre me obrigou a conviver com perdas. Foi assim com meu pai, foi assim com Ayato, e agora, o Kaneki.
Depois que meu pai foi morto eu quis ficar mais forte, para proteger aqueles que eu amo. Nesse momento, passei pela minha fase de rebeldia, até me acalmar, com a ajuda do gerente, e começar uma nova vida com o pessoal da Anteiku.
Perdi Ayato no meio desse caminho.
Eu estava com a minha vida muito bem definida – e não esperava muita coisa dela – quando o Kaneki chegou com a sua presença irritantemente gentil e mudou todos os malditos detalhes que já eram fixos pra mim. De repente, ele estava em todo lugar e tinha se tornado importante demais pra mim. Mesmo que eu não quisesse.
E eu não queria.
Porque amar alguém – eu realmente usei a expressão amar – é criar uma fraqueza pra si mesmo. Uma brecha para que façam você sofrer.
Não sou capaz de dizer como aquele maldito despertou isso em mim. Posso dizer com certeza que a situação dele, no início, me chamou atenção. Um adolescente idiota, apaixonado por uma mulher, no café, que lia o mesmo livro que ele.
Motivo ridículo.
Ele era um idiota. E internamente eu ria do jovem que seria amorosamente iludido e depois devorado.
Nessas horas, eu entendia o apetite da Rize.
E me assustava por isso.
Quando o vi com o Nishiki, próximo a aquele corpo, naquela noite, fiquei realmente surpresa. Eu esperava de verdade que ele tivesse sido devorado. Ao ver seu único Kakugan eu fiquei paralisada por um segundo. Não entendia o que tinha acontecido, mas ele era um ghoul naquele momento eu podia sentir, à distância, seu corpo sofrendo com a fome, lutando para devorar o cadáver a sua frente.
Seu olho humano e seu kakugan mostravam o que acontecia com ele por dentro. Sua duas naturezas lutando pelo controle. Estava muito claro, que naquele momento, ele precisava comer.
Comer como um ghoul.
Mas seu lado humano não permitiria aquilo.
Ele me disse que não era um monstro, não comeria carne humana.
Aquilo me deixou puta.
Eu ouvia dele o que ouvi em todos os lugares enquanto tentava entender os humanos e conviver com eles. Toda a minha vida.
Mas ali era ridículo, ele não estava em condição de dizer aquilo, tampouco julgar os ghouls sem conhecê-los.
Tentei ajudá-lo, da minha maneira.
Forçando-o a comer.
Mais pra esfregar na cara dele o quanto ele queria aquilo do que qualquer outra coisa. Mas ele rejeitou a comida.
A pertinência dele me irritava. Eu queria matá-lo.
Mas até a sensação de querer matá-lo foi morrendo aos poucos. Pouco a pouco, ele foi se tornando importante pra mim. A passos pequenos, cada atitude idiotamente bondosa dele ia me conquistando. Como quando ele ensinou kanjis a Hinami. Descobri que ele podia ser corajoso quando ele despertou sua kagune para salvar o Hide. E que ele era inteligente e altruísta quando me deixou mordê-lo para enfrentar o Shuu.
Naquele momento, descobri, também, porque o Gourmet queria tanto comê-lo. É claro que o Kaneki nunca irá saber.
Ainda não tinha desistido de odiá-lo, manter distância. Ele parecia não notar e continuou se aproximando, demostrando carinho, e que se importava comigo.
“Touka-chan, se você morresse, eu ficaria devastado.”
Tsc.
A pertinência dele me irritava.
Era com esse tipo de atitude que ele me desarmava, e a cada dia ficava mais claro, pra mim e acho que pra ele também, que eu me importava demais com ele pra ignorar.
Não consegui ignorá-lo, jamais poderia fazer isso. Mesmo quando o gerente disse que poderíamos não ver mais o Kaneki e que era melhor nos prepararmos pra isso. Eu iria atrás dele. Que fosse pra encontrá-lo morto, ou para morrer tentando encontrá-lo, eu iria salvar o Kaneki.
E no fundo, eu sabia que ele estaria vivo. Ele não morreria tão fácil. Porque o Kaneki é idiota mas é pertinente.
E a pertinência dele é o que me irrita.
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