Pertenço a você
8 Capítulo 8 - Empatadas
Notas iniciais
Sai daquele banheiro completamente fora de mim, parei um instante e passei a respirar fundo como se a minha vida dependesse daquilo, não queria pensar e não podia pensar, devo ter ficado uns dez minutos naquele mesmo lugar até ter controle suficiente para chegar até Archie e puxa-lo pelo braço até a saída.
Belle: Apenas me leve pra casa, não diga nada Archie, só me leva para casa. – disse em um tom exigente virando-me em sua direção, estava transtornada. –
Archie: Tudo bem, vamos! – seu olhar denunciara toda a frustração que minha atitudes estavam causando-o. –
Sem trocar mais nenhuma palavra caminhamos em direção ao carro, o caminho fora de total silencio até pararmos na porta do meu apartamento.
Archie: Apesar de tudo foi uma noite muito boa, obrigada! – o homem virou-se em minha direção e sorriu doce me passando alguma calma que me permitiu ser forte por mais alguns minutos. -
Belle: Me desculpe Archie! Juro que não costumo agir dessa maneira, é que...
Archie: Ei não se preocupe, não tem que me contar o que houve se não quiser, só me prometa que ficará bem... – Archie interrompeu-me segurando minha mão esquerda e apertando-a com força. -
Belle: Pode ter certeza que irei ficar. Obrigada por tudo... – o abracei de uma maneira quase desesperada, precisava de alguém, de um abraço firme, infelizmente era só aquilo que poderia ter aquela noite, o soltei depressa. -
Desci do carro tranquilamente dando apenas o tempo de bater a porta e as lágrimas descerem incessantemente, a dor que eu sentia cortou o efeito da bebida quase que por completo, dormir era algo longe de minhas vontades, a cena do banheiro daquele evento vinha em minha mente o tempo inteiro causando fortes dores em meu peito. Talvez eu nunca perdoasse Ruby, mas isso não significava que eu tinha o direito de atormenta-la com esse passado. Ela estava linda e com Graham, porque aquilo me incomodou tanto? Eu deveria está feliz por ela, deixa-la ficar longe de mim e esperar os meses que faltam pra esse pesadelo acabar.
Belle: Droga! Porque eu falei dos pais dela? Não estamos empatadas. maintenant je suis le monstre cette histoire! (agora eu sou o monstro dessa história)
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Sábado acordei com fortes pontadas na cabeça devido aos copos de bebidas estranhas misturados ao choro da noite anterior, esfreguei meus olhos para ter certeza de que eu faria o que realmente estava a pensar. Sim, eu faria. Precisava conversar com alguém, e só tinha uma pessoa capaz de dizer algo confortante mesmo sem saber o que eu estava sentindo de fato.
Vesti uma saia preta com uma camisa branca de botões e um casaquinho azul escuro, prendi meus cabelos em coque deixando alguns fios soltos, tomei meu café depressa e respirei fundo antes de pegar meu carro, que finalmente havia sido concertado, e ir rumo ao Granny’s, pelo que lembrei Ruby deveria está em reunião na universidade, então não correria o risco de nos batermos, literalmente.
Abri a porta devagar, olhei para todos os lados sentindo a insegurança tomar conta do meu corpo, “se você fizer isso, pode fazer qualquer coisa”, repetia para mim mesma diversas vezes buscando coragem. Sentei no balcão com certa timidez, o lugar estava movimentado, as pessoas costumavam tomar seu café da manhã ali, pedi um suco de laranja.
Lucas: Pode deixar que eu sirvo, querida! – ouvi a voz dura da mulher, o que fez um arrepio subir por minha espinha, respirei fundo e a encarei doce e com medo. – O que a traz aqui Belle?
Belle: Queria pedir desculpas pelo outro dia e por não ter vindo vê-la antes vovó e...e...
Lucas: Ei Belle, tudo bem! Fiquei surpresa em vê-la aqui com Ruby, por isso falei aquelas coisas, mas você está aqui agora e isso que importa. Aliás, ela está lá em cima, pode subir.
Belle: Está? – de repente senti meu corpo gelar por inteiro, não queria vê-la, não queria que ela me visse, torci para que lá em cima ela continuasse até meu assunto com a vovó terminar. — É que na verdade em vim falar com a senhora.
Lucas: Olhe só pra você, é uma linda mulher e continua tão doce e tranquila.
Belle: Terei de discordar do doce... – forcei um sorriso que revelara a tristeza que sentia aquele momento, ficamos em silencio alguns segundos até que eu consegui iniciar uma tentativa de conversa....ou desabafo. – Lembra todas aquelas noites que passamos acordadas esperando Ruby voltar sabe lá de onde, todas as vezes que ela quase nos matou de preocupação... – a senhora apenas assentiu com tristeza – Todas aquelas coisas me machucaram muito vovó, Ruby era muito importante e quando percebi que não era recíproco, não consegui lhe dar com o tamanho da minha dor.
Lucas: Sinto muito pela forma que falei com você aquela manhã minha menina! Eu sei o quanto você sofreu por ela, eu vi. Imagino como deve ter sido difícil vê-la de repente depois de tantos anos, e pela forma como ela apareceu em casa com certeza não deve ter sido nada fácil. – Assenti que sim lutando contra as lembranças, Lucas segurou minha mão direita apertando-a com força. – Se passaram muitos anos Belle, minha pequena aprendeu a lição, e tenho certeza que grande parte deve-se a você... foi muito difícil pra ela perder os pais e então a sua amizade, cheguei a achar que ela não iria sobreviver, foi uma época devastadora para nós todos... mas passou, passou Belle!
Belle: Ontem eu disse algumas coisas cruéis a ela.
Lucas: Você se arrepende, de verdade?
Belle: Muito! Mas as coisas são um pouco mais complicadas do que você sabe vovó...
Lucas: Acha que não percebi? Ela nunca me contou o que houve, mas tenho certeza que as duas me escondem algo e quando estiverem prontas, adorarei saber. – Vovó piscou o olho sorrindo tentando passar-me alguma confiança, retribui o sorriso me sentindo minimamente mais leve. – Mas pense no agora, no que disse a ela ontem, se você se arrependeu então diga isso a ela, não se trata de serem amigas como antes minha menina, mas apenas de admitirem os erros e entenderem que passou. – A senhora segurou meu queixo fazendo-me olha-la nos olhos, sorriu de uma maneira que só as avós sabem sorrir e disse autoritária. – Suba, isso é uma ordem garotinha!
Eu tinha certeza que as palavras da vovó me encheriam de sensações novas e mais sutis, mas suas palavras também haviam me trazido algo que me enchera de medo, aquelas malditas borboletas que assassinei há 13 anos estavam voando livres em meu estômago, queria correr dali e como queria, mas o que fiz? O que fiz por muitos anos. Obedeci aquela senhora e apenas com um sorriso de despedida corri em direção as escadas antes que me arrependesse. Subi devagar como se minhas pernas não quisessem obedecer-me, havia uma única sala, era o escritório como avisava a plaquinha decorada grudada na porta, apertei a maçaneta com força e adentrei a sala sem ao menos bater.
Belle: Logo antes de o sol nascer há um momento em que o céu ganha uma cor pálida, não é bem cinza, mas um pouco branca, de que sempre gostei porque me faz lembrar de esperar que alguma coisa boa aconteça... – sussurrei um trecho de “Delírio”, a sala era bem pequena, tinha apenas um armário cheio de pastas, uma mesinha com retratos e objetos de decoração, Ruby estava sentada em uma pequena mesa de madeira, seus longos cabelos cobrindo o rosto, senti um imenso frio na barriga que me fez parar ainda na porta semiaberta. — Você disse que leu. – Completei de forma doce e nervosa fechando a porta e mirando-a. –
Ruby: E eu li. – a mulher continuava a encarar os papéis, fez uma pausa e de forma seca continuou. – O que você está fazendo aqui?
Belle: Você não me contou o que achou do livro. – Me aproximei da mesa devagar, deslizando a mão direita sob alguns dos papéis. –
Ruby: Todas as partes em que citam o amor como uma doença grave e que deve ser exterminada, eu concordo. Mais alguma coisa? – Ruby puxou todo o ar possível finalmente levantando o rosto, mas ainda sem virar-se para mim, seu tom de voz denunciara o quanto ela estava magoada e isso doeu mais do que podia imaginar. –
Belle: Não. – quis tanto que aquela mulher me deixasse em paz e consegui isso da pior maneira, mas talvez fosse melhor assim. Ou não, a queria longe juro que queria, mas não dessa maneira, não por minha culpa. Caminhei em direção à saída com pressa, girei a maçaneta devagar e pensei em tudo ou melhor em nada, virei-me para a mulher que estava novamente de cabeça baixa. – Quer saber, tem sim. Você é insistente, exageradamente fofa, todos adoram você e não sabem o monstro que você foi. Você me machucou de uma maneira que por muito tempo achei que fosse morrer, você matou todas as borboletas que havia no meu estômago e... e...
Ruby: Se você veio aqui... – Ruby levantou-se grosseira fazendo com que sua cadeira fosse praticamente arremessada para trás, fiz sinal de “pare” e sem que eu percebesse estava com lágrimas nos olhos o que a fez silenciar. –
Belle: Ainda sim, não tenho o direito de agredi-la verbalmente, muito menos o direito de falar dos seus pais, eles foram muito importantes pra mim e também sinto muito a falta deles... é difícil tê-la perto... – minha ultima frase saiu mais embargada do que esperava, não me importei, permaneci de cabeça baixa. –
Ruby: Por quê?
Belle: Por que ainda há uma misera parte de mim que... que ainda sente algo quando lembra da Red, minha Red... – minha voz revelara que eu já chorava, fechei as mãos em punho buscando forças para ter alguma atitude, qualquer uma. –
Ruby: Não lhe pedirei mais desculpas Belle, você pode negar o quanto quiser, mas no fundo sei que acredita no quanto me arrependo de tudo que fiz, e você também já me machucou o suficiente.
Belle: Você tem razão, são treze anos, mas a sensação que tenho desde que você voltou é de que não se passou um dia desde que a vi na cama com ele. – finalmente levantei a cabeça, os azuis dos olhos de Ruby encararam os meus sem pudor, pude ver a dor neles, ou seria apenas o reflexo do que eu sentia? –
Ruby: Belle, por que agiu daquele jeito quando me viu com Graham? – sua voz parecera sumir no instante em que reparei a enorme mancha vermelha em seu rosto, lembrei do tapa da noite anterior e a dor que já não era pequena aumentara mais ainda, fui tomada pelos meus instintos que assumiram total controle a partir dali. –
Belle: Meu Deus o seu rosto. – acariciei a face de Ruby ignorando o fato de meu corpo estar simplesmente colado ao dela. – Je suis désolé. – Pedi desculpas e quando dei por mim já acariciava seu rosto com carinho, as lágrimas desciam silenciosas sentindo total vergonha de minha atitude. – Eu sinto muito, não sou assim! – Sussurrei –
Ruby abriu os olhos fazendo com que nos encarássemos sem pudor, minha mão esquerda acariciando sua face, nossos corpos colados, era uma situação extremamente desconfortável, mas naquele momento isso era o que menos me importava. Sorri doce desfazendo o sorriso ao ouvir suas palavras...
Ruby: Eu sei, agora saia, por favor.
Percebi que Ruby tinha de fato chegado ao seu limite de paciência, a mulher fechou os olhos apertando-os até que as ultimas lágrimas em seus olhos caíssem, me afastei devagar engolindo a seco, “melhor assim” repetia para mim mesma várias vezes mesmo que meus sentimentos dissessem totalmente o contrario, caminhei até a porta decidida a deixar as coisas como estavam. Nós humanos muitas vezes agimos por instinto, e naquela momento foi exatamente essa minha atitude.
Voltei com pressa arremessando o corpo de Ruby contra a mesa, minha mão direita segurou sua nuca com força enquanto a esquerda prendeu-a pela cintura colando seu corpo ao meu, agi apenas por instinto e antes que uma de nós pudesse desistir nossos lábios já se encontravam unidos em um beijo feroz... A sensação era de que fogos de artificio estouravam dentro do meu peito, minhas pernas entre as daquela mulher que eu tanto odiava faziam um movimento que me deixara cada segundo mais excitada, Ruby apertava meus ombros com força cravando suas unhas no mesmo, aos poucos o corpo da morena foi debruçando sobre a mesa levando-me consigo quando senti seus dentes pressionarem meu lábio inferior com força fazendo-me empurra-la.
Belle: Caramba Ruby! – afastei-me depressa passando a ponta dos dedos em meus lábios doloridos. –
Ruby: O que isso significa? – a mulher que ria da minha expressão, passou a ajeitar os cabelos, ficando séria ao fazer tal pergunta. –
Belle: Nada. Você não merecia esse beijo e nem mais nada. – falei seca buscando me recompor. –
Ruby: Primeiro, foi VOCÊ que me beijou. Segundo, você também não merecia.
Belle: Estamos empatadas então. – a mulher apenas assentiu concordando, nos encaramos por mais alguns segundos e como se eu fosse outra pessoa apenas sorrimos até a morena dessa vez tomar a atitude e me puxar para si com força iniciando outro beijo cheio de conotações, suas mãos apalpavam minhas costas até começarem a descer e antes que chegassem a um nível, digamos perigoso, as fortes batidas na porta nos despertaram em um susto, foi quando finalmente dei por conta do que havia acontecido ali me trazendo uma expressão apavorada, nos ajeitamos com pressa. –
Belle: Tenho que ir, licença. – disse sem ao menos olha-la abrindo a porta depressa esbarrando com a vovó que tentou dizer algo do qual não ouvi já que sai correndo, entrei no meu carro ofegante, assustada, ou melhor, apavorada, respirei fundo e como se não bastasse tudo que havia acontecido, algo me surpreendera ainda mais, o sorriso em meu rosto era indisfarçável.'
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