Pertenço a você
18 Capítulo 18 - Um dia...
Notas iniciais
A porta do quarto estava aberta, senti uma pontada no estômago enquanto entrava ali. Tudo estava diferente, não havia fotos ou pôsteres nas paredes, aliás agora elas eram compostas por cores claras e uma centena de livros acadêmicos na estante do canto, mas os móveis ainda eram os mesmos e as lembranças também.
Mirei as roupas espalhadas na cama de casal e algumas malas abertas ainda bagunçadas, me perdi em pensamentos que voltavam anos atrás, muitos anos aliás...
Ruby: O que você tá fazendo aqui?
Belle: Qual o seu problema? Sério, o que você tem nessa cabeça pra achar que tudo pode se resolver assim...fugindo!
Ruby: Achei que estava tudo bem claro, vai viver sua vida e pense sobre o que te propus em Harvard.
Belle: Cresça. – Disse grossa indo em direção de suas malas e tirando tudo que já estava dentro delas arremessando-as sem qualquer delicadeza por toda a cama. –
Ruby: Para, para com isso! – A mulher veio em minha direção depressa, me segurou pelos braços e me puxou para que ficasse de frente olhando em seus olhos – O que você quer de mim?
Belle: Nos resumimos a isso? Não tem nada mais? Apenas não damos certo e você vai largar um trabalho incrível, a vovó, seus amigos e voltar pra lá? Para o mesmo lugar que fugiu da primeira vez? – A tristeza me desarmara de tal modo que meus olhos apenas a olhava com carinho e até mesmo...arg...esperança. – Sua vida se resume a isso?
Ruby: Tô assustada Bel... Não me sinto pronta pra te perder de vez e continuar te vendo. – Ruby tirou as mãos de meus braços dando alguns passos para trás. – A presença da tua ausência vai acabar comigo.
Belle: Se sua vida se resumir a mim, tudo vai machucar você. Demorei a construir um futuro sem você nele, mas estou aqui e você está aqui também. Mas se.... sua volta se resume a mim, te ajudo a fazer as malas.
Ruby respirou fundo nitidamente tentando não chorar, virou-se de costas e permaneceu ali em total silêncio, achei melhor ficar quieta e deixar que ela tivesse o tempo que precisasse para assimilar as coisas. Sem dizer nenhuma palavra a mulher foi até a cama e começou a mexer em suas roupas, não podia acreditar que a única coisa que importava para ela era me ter, só me ter?! Balancei a cabeça em negativo e caminhei em direção a porta.
Ruby: Não vai me ajudar a.... colocar as roupas de volta no armário? – Estava um passo da porta quando me virei incrédula, seu sorriso envergonhado quase me fizera ceder, mas aquela infeliz tinha me causado um quase infarto, merecia sofrer um pouquinho. –
Belle: Vai arrumar essa bagunça toda sozinha. Enquanto isso pensa no quanto você é idiota.
Dei as costas largando-a ali mesmo, Ruby não podia ver, mas o sorriso em meu rosto era enorme e isso fazia com que me sentisse enjoada. Já estava perto das escadas quando um súbito de falta de senso guiara minha atitude...outra vez.
Voltei rapidamente a tomando em meus braços e apertando-a com toda a força que tinha, Ruby apenas correspondia com a mesma intensidade e silêncio, “vai ficar tudo bem”, sussurrei em sua orelha como quem dissesse que seja lá como fosse, sempre estaria ali.
Afastei de seu abraço e a olhei sentindo raiva por não conseguir continuar a ser cruel como achava que ela merecia, mas também sentia paz por cada dia que passava perdoa-la um pouco mais. Essa sensação me trazia uma energia boa e me libertava aos poucos.
Lucas: Agora estão prontas para me contar toda a verdade? – Empurrei Ruby para longe ao ouvir aquela voz soar da porta, corei ao ver a forma indecifrável com a qual a Vovó nos olhava, sentia minhas bochechas queimarem de vergonha. –
Ruby: Acho que não.
Belle: Com certeza não. – Sai em disparada rumo a saída enquanto ouvia as gargalhadas da senhora Lucas que me deixavam ainda mais perdida. –
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A sensação de chegar a universidade sabendo que iria vê-la era outra, e essa animação me deixava irritada. Não iria admitir que precisava dela, não mesmo! Tive meus pensamentos interrompidos pela própria vindo junto à Lilly no mesmo corredor que estava, lembrei do dia anterior e apressei o passo indo de encontro as duas...
Belle: Ahh..Bom Dia! – “Bom Dia Belle”, responderam juntas. – Lilly eu queria, digamos, me desculpar por ontem. Acho que não deixei uma boa impressão.
Lilly: Não se preocupe, acho que você conseguiu, olha ela aqui. – Rimos enquanto Ruby fizera uma expressão de desentendida. –
Belle: Ela não é idiota... na maior parte do tempo. – Lilly sorriu mirando Ruby de forma desconfiada, corei com o olhar de reprovação dela. –
Ruby: Certo, do que vocês estão falando mesmo?
Lilly: Digamos que, alguém por aqui se importa com o seu ótimo trabalho. – Disse enquanto apontava pra mim inúmeras vezes deixando-me ainda mais constrangida, a mulher se despediu e nos deixou ali, sozinhas. –
Ruby: Se importa com meu ótimo trabalho Bel?
Belle: Você é muito... boa. – Ruby sorriu de um jeito malicioso que eu conhecia bem, revirei os olhos ameaçando deixa-la sozinha ali a fazendo mudar de assunto. –
Ruby: Almoço na vovó?
Belle: Prometi a Zelena que almoçaríamos juntas hoje, vem com a gente?
Ruby: Prefiro ficar sem comer... ou ser atropelada por um ônibus. – Sua voz dotada de sarcasmo e ciúmes fizeram um sorriso gigante e ridículo se abrir em minha face, Ruby revirou os olhos e deu as costas sumindo pelos corredores. –
Os dias se passavam indiferentes, tudo estava um verdadeiro tédio. Ruby continuava a andar com Graham e não sabia decifrar se ainda estavam se...arg...relacionando. As investidas de Zelena eram cada dia mais diretas, e uma dúvida sobre ceder ou não começava a surgir em minha cabeça.
O sábado chegara e tínhamos reunião marcada, como de costume uma vez por mês todos os professores se reuniam junto a reitoria para discutir alguns projetos para os alunos e como o fim do semestre se aproximava, as reuniões eram mais intensas e extensas. O clima entre eu e Ruby era de tranquilidade. Tudo seguia bem, entretanto, algo ainda me incomodava, na verdade aquela indiferença me incomodava.
Após a pausa para o almoço voltamos para finalizar tudo e fomos liberados depois das quatro. Ruby desapareceu e Graham também, tenho que confessar que isso me deixara de algum modo bem mal, talvez ela não tivesse jeito mesmo e eu menos ainda por depois de tudo ainda me importar.
Aproveitei para passar na biblioteca e devolver alguns livros, acabei por ajudar outra professora a levar seu material para uma das cabines de estudo e já me dirigia à saída quando paralisei mirando as vidraças da última cabine. Ruby estava concentrada mirando um livro que não conseguia identificar. Fiquei ali sem ser notada, foi tempo suficiente para ter uma das minhas típicas atitudes insanas que cada dia se tornavam mais comuns.
Abri a porta devagar, mas o rangido da mesma a fez me olhar assustada...
Ruby: Bel?
Belle: Ah...Oi. Achei que já tinha ido embora, o que tá fazendo aqui sozinha?
Ruby: Lendo. – A mulher levantou o livro me permitindo ver a capa, senti um dos piores enjoos que já tive ao lembrar de forma nítida de onde conhecia aquilo. –
~ Flashback ~
Casa da vovó, há treze anos, 7 dias antes de Belle flagrar Ruby
Mesmo com todo o gelo que Ruby vinha me dando, continuava a acreditar que tudo isso passaria. Aquela menina era incrível e só ela sabia o tamanho da dor que vinha sentindo, então só me restava ter paciência, ama-la e fazer de tudo para tornar seus dias melhores.
Belle: Toc...Toc... Alguém aqui sentiu minha falta? – Sorri ao vê-la pular da cama me olhando sorrindo de sutiã e shortinho ao som de Beatles que tocava baixinho. –
Ruby: Amoooor! – Gritou me fazer correndo e largar a sacolinha prateada que tinha em mãos na mesinha de cabeceira. Ruby me arremessou na sua cama estreita jogando-se por cima de mim e me enchendo de beijinhos. – Quando estou sem você volto a sentir toda a tristeza outra vez.
Belle: Eu tô aqui bobona, como tem sido?
Ruby: Sinto tanta falta deles Bel. – Sentei sendo abraçada com força. Suas lágrimas vinham sendo presentes todos os dias desde o acidente com seus pais. Afaguei seus cabelos e lhe fiz carinho até vê-la parar de chorar. Doía não poder fazer nada de fato, mas com algum esforço buscava anima-la. –
Belle: Vai ficar chorando ou quer saber o presente que trouxe pra você? Em Red? Vai ficar sem seu presente? – Disse enchendo-a de cocegas, suas gargalhadas eram maravilhosas. Prontamente Ruby se ajeitou com os olhos brilhando de curiosidade. –
Peguei a sacola e ordenei que ela fechasse os olhos com força, tirei dois livros grossos com um casal apaixonado na capa, o nome era “Um dia” de David Nicholls, Ruby abriu os olhos e sorriu doce entreguei-a um deles que ela passou a folhear sem controle.
Belle: Vai com calma, você nem sabe a história ainda, como pode tá tão animada assim?
Ruby: Sabe que você me fez ter amor por livros, agora conta conta, do que ele fala?
Belle: Eles vão se formar e tomar rumos diferentes, mas meio que passam uma noite juntos e se apaixonam.... nisso tudo se passam 20 anos... E sempre estão pensando um no outro... o resto vou saber quando ler, quando você mocinha, ler comigo. Agora abre a capa!
Havia deixado uma dedicatória que em resumo queria dizê-la que não importa quanto tempo passasse, sempre cuidaria e pensaria nela e de um jeito ou de outro voltaria, sempre voltaria. Ruby leu tudo em voz baixa enquanto acariciava cada palavra escrita até que a última frase em letras maiores a fez me olhar fundo...
“Eu pertenço a você”, sussurramos juntas antes de nossos lábios se encontrarem em um beijo longo e doce.
Ruby: Nunca vou te deixar, nunca Bel... e se um dia afastarem a gente, vou atrás de você seja lá onde estiver e prometo não desistir nunca... Seja nessa vida ou em outra.
Belle: Me promete?
Ruby: Eu prometo!
Belle: Confio em você Red...
~ Dias Atuais~
Ruby: Ei, Belle, acorda! – Seus estalos de dedos fizeram-me cortar aquela lembrança dolorosa e buscar o mundo real outra vez, seus olhares me deram a certeza de que ela sabia tanto quanto eu de como aquele livro havia chegado em suas mãos. – Entra.
Belle: Porque está lendo isso? – Disse tentando não ser grosseira fechando a porta e sentando na cadeira ao lado. –
Ruby: Lembra? – Semicerrei os lábios me recusando a responde-la. – Nunca o li, mas o mantive guardado junto a todas as lembranças que tenho de meus pais, não tive coragem antes e agora quero matar o Dexter.
Belle: Também tive algumas graves crises de raiva dele quando li. – Rimos em concordância. –
Ruby: Leu todo?
Belle: Li as últimas páginas na mesma noite em que... bom, você sabe. Não tenho que repetir toda aquela história outra vez.
O desconforto se instaurara, Ruby ajeitou-se na cadeira e pigarreou antes de fechar o livro e abrir onde estava escrito minha dedicatória, senti minhas pernas cambalearem quando a mulher começou a lê-la, palavra por palavra e promessa por promessa. Mantive a postura não demonstrando qualquer reação.
Belle: Porque você se tornou aquela garota cruel? – “Bel por fav...” tentou me parar sendo interrompida. – Me deixa te entender. – Implorei, sim, abri meu coração e implorei para entender algo que jurei sempre ver somente o lado ruim. –
Ruby: Tinha dezesseis anos, qualquer merda faz sentindo aos dezesseis. Aquelas malditas amizades cheias de conselhos e soluções, eu acreditei Bel, acreditei que sem meus pais podia fazer tudo e achei que aquele era o único lado bom naquele momento. Só queria tirar a dor do meu peito a qualquer custo. A bebida e as festas tinham sentido por alguns minutos, me afastei de você porque sentia vergonha, te tratava mal porque sentia culpa, mas não conseguia parar. Não beijei outra pessoa, não fui pra cama com mais ninguém. Foi só àquela noite Bel, aquela noite... Fugi achando que seria divertido ser uma rebelde por mais um dia e eles começaram a me dar bebidas e mais bebidas, eu não lembro Belle, eu não lembro!
Senti um nó se formar em minha garganta, via nos seus olhos a dor de tentar relembrar daquela noite, toquei sua mão por cima da mesa e a apertei forte dando-a folego para continuar.
Ruby: Ele me tocava, falava coisas enquanto a Úrsula enchia os copos e...dizia que estava na hora de virar mulher. Apaguei no sofá e acordei no quarto. Tudo acontecia tão rápido, estava fora de mim, era completamente carnal e então a porta abriu e...
Seu choro era desesperador, vendo as coisas daquele ponto de vista a angustia tomava conta de mim. Ruby levou as mãos à cabeça encostando-a na mesa, não pensei duas vezes antes de me aproximar e toma-la em meus braços com toda a força que tinha. Nosso presente era consequência de sua imaturidade e insensatez, ainda sim parecia diferente agora, mas não mudava os fatos, não mudava o que aconteceu e não mudava o que aconteceu comigo por culpa dessa história. Mirando a capa do livro, pensei: Quem sabe um dia...
Afastei-me com calma deixando-a se recompor, respirei fundo tentando não desabar. Nada mudaria o passado, mas ouvir aquilo poderia mudar o futuro. A olhei com o sorriso mais natural que podia...
Belle: Sou Belle French. – Estendi a mão rindo de sua expressão desentendida até que finalmente ela entendeu. Era um recomeço, seja lá como iria ser, estava aceitando um recomeço. – Não vai se apresentar moça?
Ruby: Ruby Lucas, prazer em conhecê-la. – Ela secou o rosto depressa apertando minha mão estendida com força, a puxei inclinando-me até sua orelha e sussurrei com os lábios tocando a mesma, “O prazer é todo meu!”, dei-lhe um beijo lento na bochecha e sai depressa ainda dividida entre a tristeza daquele passado e a ansiedade do nosso...futuro? –
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