Pertenço a você
14 Capítulo 14 - A Noite o Céu é Perfeito
Notas iniciais
Depois de ter beijado Ruby de surpresa passei a noite em claro pensando em tudo que estava acontecendo, por tanto tempo lutei para apagar aquela mulher da minha mente e vez ou outra quando lembrava deixava que o ódio fosse dono das lembranças, assim, a esquecia no dia seguinte. Agora com sua presença era diferente, não era ódio e até a magoa parecia cada dia mais distante. Não queria nada com Ruby, mas deixa-la ir embora outra vez era tão doloroso quanto... Que nome poderia dar a isto? Masoquista? Confusa? Ingênua?....Otária!
Acordei com o celular tocando desesperadamente, era a quarta chamada perdida. Esfreguei os olhos rapidamente deixando nítido o nome de Zelena na tela, tratei de retornar imediatamente após notar que eram 11 horas e estava atrasada para iniciar um tediante dia...
Belle: Bom Dia Zelena! O que quer? – disse sonolenta ainda acostumando meus olhos com a luz do dia. –
Zelena: Que vozinha de sono boa... te acordei?
Belle: O que você acha?!
Zelena: Desculpe! Queria te convidar pra um almoço, topa? – sua voz soara doce e dotada de segundas intenções me fazendo respirar alto o suficiente para alerta-la. – Como amigas...prometo!
Belle: Sim, claro! É só o tempo de tomar um banho e ligar para a doméstica vir dar um jeito no meu apartamento, te encontro onde?
Zelena: Não quer que eu vá dar um jeito no seu apartamento com você?
Belle: Zelena... – revirei os olhos usando meu melhor tom de irritação, ela não tinha limites. –
Zelena: No café da vovó, tudo bem pra você? – a voz travou na garganta ao ouvir o lugar, sumi do telefonema pensando em tudo e nada, exatamente ao mesmo tempo. – Bel?
Belle: Estarei lá em uma hora!
Liguei para Ashley e pedi que organizasse meu apartamento, enquanto me arrumava fiquei a pensar se era uma boa ideia almoçar com Zelena na vovó, e se ela estivesse lá? Depois do que houve na biblioteca seria muito audacioso de nossa parte. Mas que mal tinha não é?! Fui convidada por uma amiga e mesmo que não fosse amiga isso não era da conta de ninguém, aliás, a vovó era o melhor ponto de encontro de Storybrooke!
Era um dia mais frio que os demais, vesti uma blusa de botões gola alta azul marinho com listras vermelhas e uma saia rosa em tom “goiaba” na altura dos joelhos. Estava faminta, então entrei no taxi já que meu carro havia sido levado para o mecânico, e pouco depois do meio dia já estava em frente ao café da vovó...outra vez. Adentrei o lugar com pressa temendo não ter coragem de o fazer e voltar pra casa sem uma desculpa boa o suficiente que convencesse Zelena. Mas quando dei por mim já estava lá e indo de encontro a mulher de olhos verdes flamejantes que me esperava calma enquanto ria para a tela do celular.
Belle: Demorei? – disse enquanto sentava de frente para Zelena e de costas para a entrada do restaurante, olhei para todos os lados involuntariamente e ao notar a ausência de Lucas e Ruby, sorri aliviada recebendo um sorriso grande e brilhante da mulher a minha frente. –
Zelena: Não, Não! Cheguei faz poucos minutos também. – a mulher guardou o celular e me olhou de uma maneira que não se olha para uma amiga. – Você está linda!
Belle: Seus olhos parecem mais verdes hoje, ou é impressão minha? – Desconversei. –
Zelena: Deve ser porque estou feliz... – a risada tímida de Zelena pela primeira vez me encantara. Devolvi o sorriso antes de me virar e ver que Lucas acabara de aparecer. –
Vovó veio nos cumprimentar com alegria, limitou-se a me tratar como uma cliente especial e em momento algum tocou no nome de Ruby, o que me fez não sentir a necessidade de explicar a Zelena de quem aquela senhora era avó ou qualquer outra coisa do tipo, grande erro!
O almoço ocorrera tranquilamente, comíamos e brincávamos fazendo daquele um momento muito divertido. As risadas recebiam atenção das pessoas ao redor que aos poucos levantavam-se pra ir embora. Havia 3 ou 4 no lugar e Lucas havia sumido cozinha adentro, uma ótima deixa para Zelena trocar o assunto para algo como: “Vamos pro seu apartamento!”, “Poderíamos ir para um lugar mais tranquilo” e por aí ia fazendo-me lutar para não aceitar ou rejeitar em desespero. A tirei de tempo o quanto pude até sua mão vir de encontro a minha me desconcertando por inteira, e como se não bastasse as maçãs de meu rosto vermelhas...
XxXx: O que faz aqui? – olhei assustada para o lado buscando de onde vinha aquele tom grosseiro, sem perceber puxar a mão depressa ao reparar que Ruby estava ali. –
Belle: Ah... Oi Ruby! – tentei disfarçar com um tom de voz normal e um sorriso torto. –
Zelena: Oi reitora, estamos almoçando. – a mulher sorriu ajeitando-se na cadeira com uma expressão confusa que por mais que tentasse era indisfarçável. –
Ruby: Você não é bem vinda aqui! – Ruby ignorara Zelena de forma brusca virando-se novamente em minha direção e me acertando em cheio com palavras que não estava pronta para ouvir. –
Belle: Ruby... – encarei-a com os dentes trincados tentando faze-la perceber a loucura que estava cometendo. –
Ruby: Você não faz tanta questão de me pedir pra ficar longe? Então que diabos está fazendo aqui no restaurante da minha avó? – sua voz soara mais irritada e mais alta causando um tremor em minhas pernas. –
Zelena: Quê?
Belle: É um local público, vim a convite de Zelena. – levantei sem paciência mirando seus olhos com desdém. – Não posso te proibir de estar onde trabalho, porque deixaria de vir aqui? – Arqueei a sobrancelha irônica esquecendo por um segundo a presença de Zelena. –
Zelena: Poso saber o que tá havendo entre vocês duas? – a mulher levantou junto com seu tom de voz. –
Ruby: Conta pra ela Bel, explica que...
Lucas: Suba agora Ruby! – vovó interrompeu bruscamente a neta com um tom que não ouvia há tantos anos... – Está gerando desconforto para minhas clientes! – disse grossa fazendo a neta silenciar. – Suba e deixe-as em paz, não seja uma garotinha mimada, essa sua fase já passou.
As palavras de Lucas surtiram efeito imediato, Ruby respirava ofegante como nunca havia visto antes, olhou-me com ódio fazendo meu estomago embrulhar e por pouco a comida não voltou para a boca. Zelena começou a buscar a bolsa o que me deixara ainda mais apavorada, vovó me olhou com indiferença, como se realmente sua neta houvesse incomodado apenas uma de suas clientes.
Lucas: Sinto muito pelo transtorno, minha neta não costuma ser assim. Por favor, escolham o que quiser por minha conta. – sua voz fria fizera meus olhos encherem de lágrimas. –
Belle: Vovó... – sussurrei com uma voz mimada da criança que era naquela época, a olhei como quem pedia perdão e ajuda recebendo nada mais que um olhar frio. –
Zelena: Quando parar de ser tão coitadinha me procura e me explica que merda é essa que tem entre vocês duas. – seu sussurro em minha orelha dotado de ódio fez despencar o que havia me restado de forças naquele momento. –
Encarei Zelena saindo e batendo a porta do restaurante, pensei que o certo era ir atrás dela e abraça-la, beija-la, implorar por desculpas, qualquer coisa. Entretanto meus olhos voltaram a vovó que me avaliava séria, mirei a porta no fim das escadas onde Ruby estava e senti meu coração parar.
Lucas: Você não está pensando em subir...não é Bel?
Naquele minuto ir embora passou a ser tudo que queria, sair dali correndo e me esconder no fundo da minha cama para não sair de lá o resto da semana, ou da vida. Mas pra quê ter o mínimo de dignidade se já havia jogado-a fora quando beijei Ruby mais vezes do que o normal para uma pessoa que bate no peito e afirma que a odeia.
Não devia satisfação, mas sentia algo totalmente contrário a isso. Respirei fundo antes de me lançar a caminho das escadas e segurar a maçaneta com força, dei-me alguns segundos que pudessem me convencer a correr dali e quando dei por mim a porta já estava aberta e Ruby de perfil encostada a pequena mesinha com as mãos no rosto como quem se condenasse por ter voltado a Storybrooke.
Belle: Soul Love é um romance de adolescente que chega a ser meio vergonhoso confessar que li, mas ele diz assim: Essa é uma das coisas que as pessoas não nos ensinam quando falam de crescer: como lidar com as dores que não passam com um beijo. – sussurrei encostando-me na lateral da porta. Não queria brigar, não conseguia. –
Ruby: Me poupe de sua biblioteca mental agora Bel.
Belle: Desculpe. – não sabia se estava me desculpando por falar besteira ou por tê-la beijando devolvendo uma esperança inexistente. – Porque fez aquilo? Zelena é sua subordinada assim como eu, pode te prejudicar.
Ruby: Essa é a última coisa com a qual me importo, Belle French. – sua voz séria saiu embargada, sem me olhar Ruby limpava o rosto compulsivamente enquanto eu me aproximava sem perceber. –
Belle: Não foi pra provocar você, dessa vez não foi.
Ruby: Nunca deveria ter voltado, nunca deveria ter tentado reconquistar você. Somos diferentes, sempre fomos... Me penalizei todos os dias da minha vida durante todos esses anos, mas não sou o único monstro dessa história.
Lucas: Acho melhor você ir Belle. – antes de pensar se quer em alguma resposta a voz decepcionada da vovó atrás de nós ganhou a atenção de nossos olhares assustados. – você sabe o que fez pra ela Ruby, a vi chorar por você inúmeras noites e embora seja minha neta e eu te ame, isso não lhe dar nenhum direito de cobrar algo dela.
Ruby: Você não entende vovó... essa garota que chorou por mim era o amor da minha vida, eu sei que a machuquei EU SEI QUE A MACHUQUEI TRANSANDO COM UM BABACA! – sua voz passou a ser desesperadora, engoli a seco ao ouvi-la falar aquilo abertamente, e para alguém que até então nos via como amigas. – Mas não podem me condenar o resto da vida pelo que fiz quando tinha a porra de 16 anos...
Lucas: Encare as consequências e a deixe em paz, mas também não provoque Belle.
Ruby: Ela foi o amor da minha vida e ainda é... Assim como também é pra mim uma decepção tão grande quanto fui pra vocês! – seus olhos cobertos de lágrimas encaravam a mim e Lucas fazendo as lágrimas saírem de meus olhos sem controle, tinha quase 30 anos e estava com medo do que aquela senhora poderia fazer sabendo da verdade. –
Lucas: Você não sabia o que era amor, nenhuma das duas sabiam. Ponham-se nos seus devidos lugares e cresçam. Seja lá que tipo de amor tenha sido, está ferindo mais as duas do que qualquer outra coisa. – vovó pareceu encarar a situação melhor do que esperava, entretanto suas palavras esfaquearam meu peito. – Vá embora Bel!
Belle: Sou consequência do que você foi. – sussurrei friamente para Ruby. –
Ruby: VAI EMBORA! Foi um erro amar você, é um erro ainda sentir isso!
Belle: EU QUASE MORRI POR SUA CULPA! – gritei uma verdade que prometi enterrar comigo mesma pela tamanha vergonha que sentia dessa história. –
Sai em disparada cega pela raiva, pela dor, pela angustia de vê-la nitidamente sofrendo e por saber que a vovó agora sabia de tudo e descobriu da pior maneira possível. Cada momento desde sua volta havia sido um desastre que finalmente havia nos dado conta. Vovó tinha razão: Seja lá o que tenha sido feriu mais do que qualquer outra coisa.
~Ruby narrando~
Ver Belle saindo por aquela porta pela segunda vez já não estava doendo tanto assim. Estava cansada, exausta de lutar por algo que não tinha história. Vovó me olhou sem julgamentos, ainda não tinha caído a ficha do que tinha falado para ela, apenas desabei em lagrimas indo ao chão como uma pobre criatura indefesa sendo acolhida pelos braços daquela senhora que fez de um tudo para me dar o melhor de uma vida que por algum tempo tratei de estragar. Agora sabia quem era e o que havia me tornado, vovó também sabia e por isso estava ali acariciando meus cabelos dizendo em minha orelha que tudo ficaria bem e que encontraria alguém especial. A verdade é que não queria alguém especial, queria apenas esquecer Belle, de uma vez por todas.
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Era segunda e meu rosto ainda mostrava sinais de um fim de semana regado à lágrimas e rancor. O dia estava frio, uma calça de couro preta com botas até os joelhos e um casaco marrom com um gorro vermelho compunham meu look de quem queria ser invisível por mais alguns meses. Desconversei Graham que entendeu o recado e me deixou em paz o resto do dia e dos dias que vieram a seguir. Era quarta-feira e já não estava tão frio assim, Zelena me ignorava com um ódio assustador e Belle... Bom, essa era uma que só via quando precisava ir à sala dos professores ditar algum recado, não fazíamos contato visual, éramos invisíveis uma a outra, doía ao mesmo tempo que era um alivio.
Fim de tarde estava a conferir os últimos e-mails até ser interrompida pela correspondência da Universidade que chegara com alguns envelopes, entre eles um branco com laço dourado e um carimbo conhecido. Abri imediatamente e senti um frio na espinha ao ler as claras frases que diziam do que se tratava: Um convite para a convenção de educação superior que reunia 3 dos professores com melhor desempenho da Universidade principal de cada cidade dos EUA. Debrucei em minha cadeira implorando apenas uma coisa: Belle não podia estar entre esses três, não podia!
Outro pensamento invadira minha mente deixando-me ainda pior: Porque ela havia dito que quase morreu por minha culpa? Teria eu provocado um estrago maior? Não seria possível...ou seria? Se não voltasse acabasse meu trabalho na Universidade logo, ficaria louca.
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Sexta-feira, dia dos professores que receberam o convite da CPD (Convenção de pesquisas e discussões sobre o futuro da educação no País) se apresentarem a minha sala para que as instruções fossem dadas. Archie fora o primeiro a chegar, um alivio instaurara em meu peito por alguns minutos, August que era o melhor professor geometria analítica chegara em seguida e o terceiro que estava 20 minutos atrasado não dava nenhum sinal de vida... Pensei que o último convite não havia sido entregue e senti um alivio tomar conta de meu corpo, relaxei na cadeira e cumprimentei os dois pelo destaque, ia iniciar as instruções até ser interrompida por uma maldita voz...
XxXx: Desculpe o atraso, tive alguns contratempos na sala de aula.
Ruby: Sente-se. – disse seca escondendo a frustração e o pavor ao ter certeza de que Belle era a terceira pessoa, claro que era, encobri meus sentimentos continuando com indiferença. – Esse ano a CPD acontecerá em Stanford University, como sabem, esse é um evento para os melhores professores contribuintes para a educação do País, meus parabéns. Ficaremos no The Clement Hotel por 3 dias do fim de semana que vem, dois dias para nos dedicar a convenção e um que vocês ganham de premiação. Semana que vem lhes entrego as passagens, o cartão de acesso a convenção e qualquer dúvida se dirijam a mim. É só isso! – encurtei uma reunião de meia hora em frases simples e diretas querendo correr dali. –
Belle: Pode haver desistência, reitora? – sua voz embargada fazia parecer que Bel estava tão despedaçada quanto eu, mas considerando o quanto ela me odiava, aquilo não devia passar de ego atingido. E sim, poderia haver desistência caso a reitoria aprovasse o pedido, mas para quê? Pra deixar ainda mais claro que ficarmos perto era terrível? NÃO! Poderia ser fria tanto quanto ela, e assim seria....por três longos dias. –
Ruby: Não Belle. Nos vemos na Califórnia.
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