Perspectiva
20 Laços de família
Notas iniciais
PDV Edward:
Fiz uma enorme besteira. Quando Carlisle me pediu que dissesse o que vi na mente de Alice, simplesmente descrevi, foi um ato reflexo. Carlisle e eu levamos muito tempo treinando, ele me ajudou a focar meu “talento”. Primeiro a “sintonizar” os pensamentos que desejava quando eu estava com mais de uma pessoa, ou num lugar público. Depois a achar uma linha de pensamentos, quando estes eram desconexos. Então a ler as imagens, prestar atenção nos detalhes importantes. “Saber onde olhar”, como ele dizia. Quando ele perguntou, eu agi como em um de nossos treinos, descrevi mecanicamente. Não imaginei o que isso representaria para Rose. Assim que abri a boca, eu me arrependi, mas já era tarde. Nunca tivemos um bom relacionamento, mas agora eu havia estragado tudo. Foi como se retrocedêssemos à Polônia. E com certeza não era um bom momento, não quando novos integrantes se juntavam à nossa família. Jasper logo se aproximou de Alice, (mesmo o conhecendo pouco) pude perceber que ele era muito protetor em relação a ela. E Esme prontamente a acalentou colocando sua mão sobre o ombro de sua nova filha. Em uma coisa Rose tinha razão, minha mãe já a amava como a uma filha.
Ela saiu tão rápido que ninguém teve tempo de alcançá-la, todos nós nos viramos em direção à porta. Ela estava confusa, seus pensamentos eram um misto de maldições contra mim, imagens de Alice com nossa família (especialmente Esme), Vergonha e Ciúme. Como sempre Carlisle, foi o primeiro a reagir. Mas ele apenas consolou Alice e infelizmente ela ouviu. Agora havia também magoa. Então cessou, ela realmente havia corrido com vontade, já estava fora de meu alcance.
Houve um momento de suspensão, como se ninguém estivesse preparado para reagir, e então uma enxurrada de pensamentos. Quando digo enxurrada, falo de cinco pessoas que são vampiros e podem ter várias linhas de pensamento. Usei o conhecimento que havia desenvolvido com Carlisle e foquei em cada um. Primeiro em Alice, ela estava preocupada com a reação de Rose e consequentemente com seu futuro ao nosso lado, ela começou a se concentrar em minha irmã, mas as imagens não passavam de borrões. Senti que sua angústia estava diminuindo e quando estava quase concluindo que ela era insensível ouvi um de seus pensamento:
- Isso é muito irritante no Jasper, que mania de me acalmar. Não é hora de me acalmar, é para se preocupa com ela, com eles. Devo ajudar, agora é nossa família. Como ele pode se concentrar em me acalmar com ela correndo a esmo?
Não entendi porque ela estava pensando na possibilidade dele poder manipular seus sentimentos, suas sensações. Então vasculhei a mente dele e vi que sua concentração em acalmá-la, era algo proposital. Ele estava alheio a minha observação e vendo seu esforço quase sem resultado disse:
- É inútil.
Ela o olhou pesarosa e ele insistiu:
- Deve estar correndo sem rumo, não tem destino certo. Ela não está em condições de decidir agora Alice.
Carlisle me apresentou rapidamente a teoria de Jasper para o poder de Alice. O futuro é baseado em decisões. Para ver o futuro de alguém, este alguém precisa tomar uma decisão.
Jasper se concentrou mais e eu o olhei inquisidor. Ele percebeu minha curiosidade sobre o fenômeno e entendeu que era com ele, pois pensou:
- Consigo perceber o que as pessoas estão sentindo e em alguns casos posso influenciar essas sensações. Achei melhor não revelar isto. Poderiam concluir que eu estava manipulando vocês para nos aceitar. Fazer parte deste clã é muito importante para Alice e eu jamais me perdoaria se ela não conseguisse por minha causa.
Resolvi encarar minha família, mas Alice se pronunciou:
- Acho que eu e Jasper devemos ir embora, pelo menos até ela aceitar melhor.
- Não. Eu e Esme dissemos ao mesmo tempo.
Mas foi o Emmet que a convenceu:
- Alice, Rose já sofreu muito. Ela tem dificuldade em se relacionar com as pessoas, ela já foi muito ferida. E isso aconteceu porque ela confiou em alguém. Logo, ela é muito resistente em confiar nas pessoas. Ela também perdeu coisas que amava muito e isso a leva a temer perder as coisas de que gosta, as pessoas de que gosta. Não vá embora, ela se acostumará. Apenas seja paciente e lhe dê um tempo.
Ela piscou algumas vezes chorando sem lágrimas e assentiu com a cabeça. Ia me concentrar em Carlisle, mas a intensidade dos pensamentos de meu irmão me chamou à atenção. Ele estava realmente muito preocupado com Rose e a repercussão disto em sua vida. Estava se preparando mentalmente para semanas de mau humor, mas estranhamente isto não parecia ser um fardo, ele apenas estava triste por saber que ela estava profundamente magoada e que isso lhe faria mal. Pela primeira vez pude ter noção do amor que ele sentia por ela. Era tão estranho não ver na mente do Emmet o pragmatismo e a descontração de sempre. Ele não tentou disfarçar seus pensamentos, ele jamais foi desse tipo que tenta se camuflar. Mas eu não estava preparado para lidar com a sinceridade de meu irmão:
- Pode não acreditar, mas ela tem sentimentos. E eu a amo, se ela sofre, eu sofro. Não consigo entender esse estranhamento entre vocês, mas tem que admitir que ela está se comportando muito bem ultimamente. Vou atrás dela, alguém precisa demonstrar que ela é bem vinda aqui. Só queria que se lembrasse que ela é tão parte de nosso clã como você. Ele disse com um tom muito severo, nem parecia Emmet.
- Desculpe-me Emmet, eu não queria magoá-la. Eu respondi a Carlisle de forma mecânica, não era minha intenção constrangê-la ou magoá-la. Tentei remediar as coisas.
- Nunca é sua intenção Edward. Mas isso não muda muita coisa. Ele disse com o semblante abatido.
- Diga a ela que peço desculpas, que estou profundamente arrependido. Insisti.
Quando ele ia passando pela porta Esme segurou sua mão:
- Por favor, traga ela de volta. Emmet, sabe que eu a amo, não é? Minha mãe enfatizou suas últimas palavras.
- Jamais poderei ser grato o suficiente por amá-la tanto. Ela não é exatamente a pessoa mais fácil de se conviver, mas ela te ama muito também. Sabe disso não é? Emmet ainda estava com o semblante abatido.
- Vai trazê-la? Minha mãe perguntou temerosa. Eu ainda não havia entendido o porquê da pergunta.
- Sim, o mais rápido possível. Ela precisa de você. Ele disse sem se virar para nos olhar e saiu.
Só quando se afastou um pouco é que pude entender a preocupação de Esme. Emmet ponderava sobre o melhor para Rose. Se ficar perto ou longe de nós.
Focalizei em meu pai. Uma parte dele sentia vergonha por estar tão maravilhado com a possibilidade do estudo empírico do poder de Alice, mesmo em circunstâncias tão adversas. Outra estava muito preocupada com Rose e sua reação, com a mudança no semblante de Emmet, e em como o aumento da nossa família aumentaria nossa visibilidade na comunidade. Mas a sua empatia com o sofrimento de Esme era o que se destacava em meio a tantos sentimentos. Por isso foi impossível ignorar que eu precisava encará-la.
Eu sabia que seria difícil, o mais difícil, o mais doloroso, por isso a deixei para o final. Acho que me encolhi antes de me focar em seu pensamento, certamente ela me repreenderia de forma dura. Mas ele sequer se deu ao trabalho de se virar em minha direção. Seus pensamentos estavam um pouco desconexos, em parte ela lembrava os bons momentos com Rose. As vezes que minha irmã lhe sorriu e lhe chamou de mãe, como na véspera de seu casamento. Ela pensava em Alice e sua triste história de abandono. Pensava em Emmet e em como seu semblante de repente ficou sombrio e triste. Em Carlisle e como ele era um marido compreensível, que a entendia sem a necessidade dela expressar-se com palavras. Pensava até em mim e em como eu parecia estar dizendo a verdade sobre ter sido involuntário. Mas sua linha de pensamento mais forte era Rose, ou melhor, a ausência dela. Esme repassava mentalmente as últimas horas, as horas que transcorreram desde a chegada de Alice tentando localizar a presença de Rose. Ela tentava se concentrar em lembrar onde ela estava enquanto arrumavam a garagem, ou conversavam sobre a dieta de Alice, mas nada. A culpa que minha mãe sentia me sufocava e então senti uma ardência esquisita nos olhos. Rapidamente me virei para o espelho, pois certamente deveria estar chorando, mas não. Era Esme que chorava, seus pensamentos com relação à Rose eram tão intensos que eu entrei em estado de simbiose com sua mente. Era o choro dela, de minha mãe, de nossa mãe. Só então entendi alguns de seus posicionamentos, para Esme éramos todos filhos, mas ela não nos amava igualmente. Não que ela amasse mais um que a outro, ela nos amava de acordo com nossas necessidades. A necessidade mais imediata de Rose era saber que ela tinha um lugar na vida de Esme, que era especial para ela. Mas mesmo sabendo que não encontraria nada, ela continuava a repassar as cenas, ela estava quase enlouquecendo de tanto remorso. A única coisa em que pensava racionalmente era:
- Como eu pude não perceber isso?É claro que ela se sentiu excluída. Eu praticamente a abandonei nesses últimos dias.
Não gostava de ver minha mãe se punir daquela forma. Rose podia ser mais sociável e ter desfrutado da companhia das duas.
Estava imerso no sofrimento de minha mãe quando uma visão da Alice tirou minha concentração. Rose e Emmet estavam nus, corpos entrelaçados e se acariciavam. Rose beijava o pescoço de Emmet que gemia e rosnava, ou uma mistura dos dois. Depois Rose entrelaçava as pernas no quadril de Emmet e sussurrava em seu ouvido que o queria. Então como surgiu acabou.
A cara que a pequena vampira fez foi impagável, seus olhos brilhavam de excitação (como seria natural para qualquer um que visse a cena), mas suas sobrancelhas estavam arqueadas numa expressão de susto e descrédito e sua boca se retorcia com nojo. Eu sorri muito e todos me olharam surpresos. Eu levantei a mão pedindo desculpas e a inocente criatura que tivera a visão perguntou:
- O que foi isso?
- Rose e Emmet decidindo usar seu tempo de forma diferente. Eu respondi querendo ser discreto.
Eu a olhei pedindo que esquecesse o assunto. Já havia colocado minha irmã em uma situação constrangedora, duas seria crueldade. Jasper nos olhava inquisidor, mas eu refreei Alice:
- Isto é o normal deles Alice. Não se assombre tanto. É melhor começar a filtrar as visões.
Esme me olhou ao ouvir o nome de sua fulha e eu me antecipei à bronca:
- Juro mãe, foi sem querer.
- Eu sei, mas ainda assim ela sofre.
Ela pensou como eu só a chamava de mãe nos momentos mais oportunos e questionou se meus sentimentos em relação à sua maternidade eram verdadeiros. Depois se lembrou do dia em que retornei para casa depois de deixá-los para viver como um vampiro regular, a primeira vez que a chamei de mãe. Ela se convenceu de que não importava o que eu sentia, ela me amava por nós dois. Eu seria amado como filho mesmo que não quisesse. Fiquei envergonhado com a dimensão do amor de Esme por mim e baixei a cabeça ao perceber que ela amava Rose e Emmet com a mesma intensidade. Ela realmente deveria estar sofrendo muito. Depois ela olhou a excêntrica vampira e suplicou:
- Poderia, por favor, tentar ver se ela vai voltar? Essa espera me angustia tanto.
Mal minha mãe pediu e outra visão de Alice invadiu minha mente, Emmet e Rose correndo para casa.
- Eles chegarão em poucos minutos. Alice avisou meio sorridente.
Esme suspirou de alívio e o momento em que eles retornariam foi esperado em um silêncio clerical. Quando sentimos a aproximação, Alice começou a divagar sobre sua visão:
- Meu Deus! Como eu vou olhar para eles? Eles estavam acasalando como os bichos? O que é que ela queria dele? Porque eles se mexiam tanto e ficavam fazendo aqueles barulhos? Será que os vampiros acasalam? Será que Esme acasala? Ah! Meu Deus Esme acasala com Carlisle.
Meu Deus! Eu vi Emmet nu. Eu vi a bunda dele e a bunda de Rose.
Rose entrou na sala com cara de poucos amigos e eu ainda sorria. Era impossível não sorrir com os pensamentos dela. Se a tal Alice fosse humana, estaria corada, ela não conseguiu encará-los. Esme me olhou severa, mas na verdade ela sentia uma enorme tristeza, por isso pensou:
- Não acha que deve dizer alguma coisa Edward? Sua irmã se faz de durona, mas ela é tão sensível como eu.
Eu olhei para Rose e disse:
- Me desculpe, eu agi sem pensar. Não era minha intenção te envergonhar. Eu realmente sinto muito.
Ela deu de ombros, mas vi em sua mente como minha atitude tinha ferido-a. Naquele momento prometi a mim mesmo que jamais seria leviano com os sentimentos dela. Eu fiquei olhando o chão sem coragem para encará-la. Minha mãe estava apenas esperando que eu me desculpasse e assim que o fiz ela levou Rose para seu quarto. Todos pudemos ouvir a conversa das duas. Foi tocante.
Emmet já não pensava em levá-la, estava agradecido pela atitude de Esme. Lhe pouparia o trabalho de convencer a minha voluntariosa irmã que era desejada em nosso clã.
Nossa vida parecia ter entrado nos eixos, não fosse o mau humor de Rose e a irritante personalidade de Alice. E eu que sempre considerei minha irmã fútil e mimada, acabei “pagando minha língua”. Eu achava um absurdo Rose sentir inveja da atenção que Esme dispensava a Alice, e até reclamei um pouco de seu distanciamento com relação a nossa nova irmã. Mas então Carlisle começou a estudar o “talento” de Alice e quase não havia tempo para nossas conversas. Tenho que confessar que também senti um pouco de ciúmes.
Rose no entanto sofria mais a cada dia, mas ao invés de se aproximar e reconquistar a atenção de Esme, foi se afastando. Ela tinha pleno conhecimento que não era intencional, mas sofria mesmo assim. Descobri outra coisa de minha irmã, nem sempre ela me deixa ver o que sente, por isso eu a acho tão distante e fria. Ela ficou muito irritada quando Alice achou uma caixinha de música que ela procurava há anos para presentear Esme. Mas Jasper me disse que ela não estava com inveja, estava magoada e com medo de perder Esme de vez. Com isso ela se afastou ainda mais e Alice foi ganhando espaço na rotina de nossa família. Ela me ajudou a triplicar a fortuna de meus pais em apenas algumas semanas. E Rose resolveu seu problema de se preocupar em pedir dinheiro para Emmet e Carlisle, ela também lhe rendeu uma pequena fortuna.
Emmet logo estava adaptado a todos. Coisa que fez Jasper ficar ainda mais surpreso. Aliás, Jasper era um vampiro assustador, seu corpo era coberto de cicatrizes e sua mente era incrivelmente rápida na percepção do ambiente e na elaboração de estratégias defensivas. Se um dia eu precisasse enfrentar uma guerra, jamais o desejaria como oponente.
Jasper passou as primeiras semanas encantado com a variedade de sentimentos que havia em nossa família. Sentimentos que ele desconhecia quase que por completo. Ele não entendia como havia a possibilidade do sentimento de disputa sem que isso significasse o desejo de ferir ou prejudicar. Isso o aproximou de Emmet, pois meu irmão lhe apresentou o mundo dos jogos e apostas. Ele ficava estarrecido ao ver o envolvimento de Emmet em um jogo, ao perceber sua vontade de ganhar, mas sem que isso significasse o desejo de prejudicar ou ferir o outro. Jasper desconhecia os sentimentos mais saudáveis. Esme era outra que o encantava, assim como Emmet ele era muito grato pelo amor que ela demonstrava por sua companheira. Ele ficou absolutamente chocado com o desprendimento de minha mãe conosco. Em mais de um século ele nunca viu alguém disposto a morrer por outra pessoa que não fosse seu parceiro e eu sabia que Esme se sacrificaria por qualquer um de nós, por todos os seus filhos. Depois de transformado ele nunca havia se aproximado o suficiente dos humanos para sentir o amor incondicional de uma mãe.
Mas eram minhas brigas com Alice que mais o atordoavam, nós implicávamos com o outro por segundo, mas não conseguíamos nos odiar. Alice era uma criaturinha pequena e irritante que vivia se metendo na vida dos outros e dando pitaco em tudo e isso me irritava. Rose nunca tentou mandar na roupa que eu vestia, no lugar em que eu caçaria, na cor do meu quarto (da minha garagem), ou das notas da música que eu estava compondo. Mas ao mesmo tempo bastava um olhar para que entendêssemos o que o outro queria o que sentia ou o que estava sentindo.
Foi quando ela achou um de meus diários dos anos em que estive longe de Carlisle e Esme e achou que poderia ler que eu entendi aquilo tudo. Rose sempre foi muito intuitiva, ela parecia perceber antes de nós, antes que os pensamentos fossem formados, dos sentimentos terem tempo de amadurecer. Ela me viu em meio a mais uma discussão com Alice, mais uma bronca de Esme, mais um divertimento para o Jasper e tudo veio como uma enxurrada. Ela, o irmão, brigas, implicâncias, a mãe, broncas, castigos, dor, perda, saudade. Ela se repreendeu por pensar naquelas coisas em minha presença. E se surpreendeu tanto quanto eu ao perceber que ela sentia muito aquilo. O fato de eu ter me tornado irmão de Alice de fato em tão pouco tempo e jamais termos conseguido uma aproximação em tantas décadas. Nunca tinha pensado daquela forma em Rose, eu sempre a considerei egoísta, jamais imaginaria que ela sentisse tanta falta da família. Eu não deixei ninguém, não havia nenhum laço meu no mundo humano. Carlisle havia perdido esse contato há muitos anos. Esme sofreu tanto enquanto humana e Emmet havia se convencido de que nossa família era sua família. Mas Rose...
Rose ansiava pelo dia que sua mãe a abraçaria, a defenderia do irmão. Que o pai lhe mimasse com presentes e elogios, que o irmão mais velho (o tal Rick) implicaria com ela, que o mais novo mexeria em suas coisas. Era quase uma dor física o sentimento de perda e ausência. Só então pude perceber porque ela temia tanto a presença de Alice, ela já havia perdido uma família. Ela já havia perdido uma mãe.
E por mais triste que fosse, ela sabia que Alice já havia conquistado seu lugar no coração de Esme, em nossa família. E agora me ver incluí-la como irmã, era um pouco devastador. Eu simpatizei com sua dor, mas não sabia como agir, o que dizer, ou o que fazer.
Fiquei pensando um pouco sobre essas coisas e nem percebi a noite cair. Só notei que já havia anoitecido quando Jasper passou por mim bufando de frustração de novo. Eu tinha uma vantagem sobre Alice, ela até podia saber o que eu faria antes de mim, mas só eu sabia o que ele pensava. Desde que chegou, as noites são verdadeiras tentações para Jasper. Eu descobri que ele não só pode influenciar os sentimentos alheios, as sensações dos outros de certa forma o atingem. Então quando quatro vampiros fechavam as portas dos quartos cheios de desejos, ele podia sentir a excitação de cada um e isso potencializava a sua própria libido. Tudo que ele mais desejava era invadir o quarto de Alice e arrebatá-la em um beijo lascivo. Mas ele não tinha certeza do que ela queria. Ele sabia que ela era feliz ao seu lado, mas parecia que isso lhe bastava. Como de costume, quando a sinfonia de gemidos começou, eu saí de casa e o encontrei olhando para uma queda d’água próxima à nossa casa.
- O que faz aqui? Ele perguntou
- O mesmo que você. Esclareci.
- Sente também? Ele quis saber.
- Pior, vejo tudo.
- Ah! Pelo menos não tem que se controlar para não atacar alguém. Eu também tenho meus desejos. Ele confessou.
- Peça ela em casamento. Disse simplesmente.
- Ela me viu em seu futuro, nos viu. Mas ela se sente satisfeita só em estar ao meu lado. E ela é tão inocente, nem sei se sabe o que o amor entre um homem e uma mulher representa. Ela nem tem noção do que seja um casamento. Não estou falando apenas da parte física.
- Sei. Vocês gostem de ficar na companhia do outro?
- Sim. Eu gosto e sinto que ela fica feliz. Ele respondeu.
- Acharia chato passar um dia só na companhia dela, só ela para conversar, para se distrair?
- Passaria a eternidade só admirando-a. Ele disse com os olhos fitando a água e projetando imagens de Alice sorrindo de sua memória.
- Peça ela em casamento. Você subestima a Alice.
- Ela se afastou completamente dos humanos para resistir ao apelo do sangue e não se lembra de seu tempo como humana. Quando nos conhecemos ela se trocava em minha frente como se fosse uma coisa normal.
Eu sorri da cena que ele se lembrou, como ele ficou constrangido. Jasper era realmente um homem do sul, tão conservador. Ele deslizou e se lembrou de um dia em que quase beijou Alice.
- Nunca se beijaram? Quis saber.
- Não tive coragem, não senti a excitação que ela deveria sentir se também quisesse. Achei que iria forçá-la a uma situação que ela não entenderia.
- Acho que agora ela entende. Ele arregalou os olhos.
- Como?
- Ela andou fazendo perguntas a Esme e tem pensado insistentemente no motivo de não beijá-la.
- Sério?
- Sim.
Senti que ele estava confuso e angustiado e só havia uma pessoa de quem me lembrava que eu procuraria se me sentisse assim. Mas antes de sugerir qualquer coisa, ele disse convicto.
- Acho que devo me aconselhar com Carlisle.
No outro dia ele chamou a mim e a Emmet para irmos à cidade. Vi em sua mente uma enorme aliança de ouro com um diamante. Ele havia se decidido. Não fosse minha “facilidade” em saber o que os outros pensam o enorme sorriso estampado no rosto de Alice não deixava dúvidas de que ela já havia visto sua decisão.
Quando voltamos Alice me olhou discretamente e soltou a bomba:
- Vi Rose deixando nosso clã. Emmet vai com ela. Não reconheço o lugar, talvez você saiba.Veja.
Ela me mostrou o lugar, mas não reconheci. Mas a julgar pela paisagem era outro país, na verdade me parecia outro continente: A África.
Emmet subiu as escadas assim que percebeu minha preocupação. Foquei nos pensamentos de Rose, mas ela apenas admirava sua imagem no espelho e pensava no que levaria na mala. E assim que viu o marido levantou-se e saiu com ele.
Alice estava convencida de que era culpada pela decisão de Rose, pois ela tomou a decisão de forma abrupta depois de vê-la com Esme. Por isso até esqueceu momentaneamente de nossa saída para a cidade e o motivo dela. Ela estava nervosa e olhava muito em direção ao ateliê de Esme, ela sabia que isso a entristeceria. Minha mãe estava alheia a tudo concentrada num quadro que pintava para pôr no quarto de minha nova irmã. Jasper também percebeu a inquietação de Alice e me olhava pedindo explicações:
- Ela já sabe? É claro que ela sabe. O que ela está pensando? Ela vai aceitar? Ela não quer?
Eu inspirei fundo e com as mãos pedi que fizesse o mesmo, que se acalmasse.
- Porque não é você que vai pedir a mulher que ama em casamento.
Quando finalmente ia pedir para que ele fosse comigo atrás de Rose e Emmet, Carlisle chegou. Obviamente meu pai percebeu que havia algo errado e sem se preocupar com a repercussão de sua pergunta nos inquiriu:
- Qual o problema?
- Problema? Esme perguntou assim que ouviu Carlisle e se juntou a nós.
- Nada demais. Tentei acalmá-la.
- Edward. não minta para mim.
Mas foi Alice quem acabou entregando os pontos.
- Não sei o que fiz. Só sei que depois que chegamos hoje pela tarde, Rose decidiu ir embora.
- Tenho certeza que não foi sua culpa. Jasper tentou consolar a futura noiva.
- Ir embora? Como assim. Esme perguntou aflita.
- Alice viu Emmet e Rose na África. Deve ter sido uma reação em cadeia. “Certas pessoas” tomou uma decisão, Rose deverá ficar com inveja e exigir que “outras certas pessoas” tome a mesma decisão. Então teremos duas viagens em que membros do clã irão desacompanhados do resto da família.
- Explique-se melhor. Carlisle pediu confuso.
Mas Rose e Emmet chegaram e entraram na sala como se prestes a anunciar o fim do mundo. O timming de Jasper estava mesmo muito bom, pois ele percebeu a urgência de se antecipar ao anúncio deles.
- Ótimo, agora que estamos todos reunidos posso finalmente falar com o senhor. Ele disse olhando para Carlisle. E muito formalmente começou:
- Dr. Cullen...
- Carlisle, por favor. Meu pai o interrompeu.
- Sr. Carlisle, Alice escolheu esse clã como sua família. E todos reconhecem que é líder desse clã, pai dessa família. Assim sendo, gostaria de pedir que me concedesse a honra de me dar à mão de sua filha em casamento.
Esme estava emocionada com o fato de Alice estar prestes a se casar, e mais ainda pelo fato de Jasper ter dito que Alice era filha deles. Rose estava mesmo surpresa, e ficou esperando a resposta de Carlisle. Mas meu pai fez suspense e fechou a maior carranca para Jasper. O pobrezinho ficou tão triste, ele sabia que a aprovação de nossa família seria muito apreciada por nossa pequenina vidente. Depois de passar um tempo fingindo refletir, Carlisle sorriu divertido ao estilo Emmet de ser e disse:
- Bom, fiquei com medo que quisesse casar comigo. Porque começou fazendo o pedido para mim. Mas acho que entendi.
Ele se dirigiu a Alice, pegou seu rosto delicado nas mãos e perguntou:
- E então filha? O que eu devo responder? Você quer ou não casar com esse rapaz?
Os olhos de Alice marejaram em seu choro incontido. Ela estava ganhando uma família. Agora tinha pai e mãe e irmão e finalmente “seu futuro” havia se tornado um presente. Ela e Jasper estariam unidos para sempre, eternamente de fato.
- O senhor me leva ao altar?
- Sim, com prazer.
Ela abriu seu maior sorriso e sussurrou em seu ouvido como se não pudéssemos ouvir:
- Diga que sim, que eu aceito pai.
Carlisle pigarreou e disse:
- Tudo bem, pode pedir a mãe dela a ela mesma.
Jasper foi pego de surpresa, em seu tempo eram os pais que resolviam tudo, à revelia da noiva. Mas ele se controlou e disse:
- Alice, você é minha salvação. Durante toda a minha vida como vampiro eu sempre soube que estava condenado, tudo que conheci foi violência, guerra, vingança, ódio, desconfiança. Quando você se levantou no restaurante na Filadélfia e veio ao meu encontro com seu sorriso sincero, eu sequer conseguia nomear os sentimentos que transmitia. Você me apresentou um novo mundo. E neste mundo você é minha terra, não importa onde esteja, se com os Cullen, ou se sozinha no deserto, você é o meu lugar, meu destino, o lugar onde sempre me sentirei em casa. Aceita se casar comigo?
- Sim. Ela disse pulando no pescoço de um Jasper aliviado e agora constrangido. Mas se que pudéssemos reagir Rose pigarreou:
- Bom, já que estamos todos reunidos eu também gostaria de comunicar uma coisa.
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