Personal Soldier
22 Fica comigo.
Notas iniciais
Pude sentir meus poderes funcionando. O choque. Abri meus olhos e Pyro estava espantado. Nós dois estávamos surpresos, pra falar a verdade.
Percebi que ele tentava sair do meu domínio e segurei seu braço com mais força. Sua postura foi entortando enquanto o contato durava. Devia estar doendo. Tomara que estivesse, ele merecia sentir dor.
Tentando impedir que o contato continuasse, ele mexeu a mão direita para usar seus poderes. Manipulou uma labareda de fogo e me atingiu com ela no tronco. Senti minha barriga queimando. Gritei de dor. E gritei ainda mais alto buscando forçar meus poderes ao máximo possível. Eu estava exausta e muito machucada, mas devia continuar. Se aquilo não desse certo, pelo menos eu morreria com a consciência tranquila por ter tentado.
Pyro se ajoelhou com o rosto paralisado e suas chamas ficaram fracas até que se extinguiram. Sua pele foi ganhando um aspecto pálido e seco. Pequenas manchas negras se espalharam pelo seu corpo lentamente. Senti realmente que estava sugando sua vida e então o soltei. O barulho de seu corpo rígido caindo no chão me fez saltar ligeiramente da cadeira.
Ele estava morto? Não importava.
Apesar de minha respiração ofegante e minha visão embaralhada eu estava aliviada. Não me importava o que tinha acontecido com Pyro àquela altura. Só importava que eu tinha conseguido. Eu me salvei. Fui minha própria heroína. Não precisei de nenhum mocinho pra me resgatar. De uma vez por todas eu provei pra mim mesma que posso ser dona do meu destino. Pelo menos parcialmente, afinal, eu não estava em boas condições. A dor aguda em minha barriga me fez querer desmaiar. Eu estava no limite.
— Você não pode desmaiar Marie. – Repreendi a mim mesma.
Tracei três metas mentalmente: Livrar-me das amarras, sair daquele apartamento fétido e conseguir ajuda. Eu só precisava cumprir aquelas três coisas e então poderia descansar.
Testei meus novos poderes, mesmo que mal conseguisse me mexer ou me focar de verdade em algo. Queimei as cordas que me prendiam a cadeira e tentei me levantar. Falhei em sustentar meu peso. Com tanta dor eu não podia me erguer. Cai de joelhos ao lado do corpo de Pyro. Gemi já sentindo aquela velha vontade de apenas chorar. Aquilo tudo tinha sido demais pra mim, e não tinha acabado.
— Próxima meta Marie. – Sussurrei me incentivando e tentando não deixar a consciência escapar de mim.
Arrastei-me até a porta e usei os poderes novamente para arrebentar as trancas e ganhar o corredor. Olhei para os lados e ninguém a vista. Com muito custo me levantei e me apoiei nas paredes até encontrar uma porta de saída. Escadas. Um desafio e tanto para as minhas metas. Lamentei mentalmente já imaginando que estava em um andar bem alto e teria um longo caminho pela frente. Não sei quantos lances de escadas desci, mas sei que me custou muito tempo e esforço. Enquanto isso gritei por ajuda e não obtive resposta. Quando finalmente vi a rua meu coração bateu mais forte. Aquela tortura eterna estava acabando, e eu só precisava que alguém me notasse.
Parei na calçada suja, meus olhos aflitos buscaram por um rosto, uma sombra, alguém. Não avistei nada. Eu estava sozinha. O vento quente fez minhas queimaduras arderem ainda mais. O suor do meu rosto se misturou as lágrimas. Gritei mais uma vez. Eu não podia desistir novamente. Já tinha chegado até ali. Entretanto, por fim, não suportei mais as dores, e então deixei que meu corpo pendesse para frente e encontrasse o chão.
Todas as decisões da minha vida tinha me levado aquele momento e eu me sentia pronta para o impacto. Eu estava pronta para finalmente descansar.
POV LOGAN
Ouvi gritos a poucos metros de onde eu estava. Talvez eu estivesse sendo enganado pela minha mente preocupada. Ou talvez fosse realmente ela. Concentrei todos os meus sentidos em seguir de onde aquele som tinha vindo. Senti um traço do cheiro do desgraçado. Corri contornando um prédio velho e então eu a avistei. Meu coração parou de bater por alguns instantes. Feliz por tê-la finalmente ao meu alcance, e triste pela figura machucada que eu enxergava.
Apressei-me e a segurei em meus braços antes que ela caísse na calçada.
— Eu te peguei. Eu te peguei. Está tudo bem. – Tentei tranquiliza-la e ao mesmo tempo me acalmar.
— Eu não estou mais sozinha? – Indagou num fio de voz.
— Não Marie. Você não está sozinha. Eu estou com você. – Senti uma pontada enorme de culpa. Ela tinha ficado sozinha aquele tempo todo. Eu não estava lá com ela e por ela.
— Logan... – Só então ela pareceu me reconhecer de verdade. Seus olhos castanhos que sempre foram cheios de vida estavam sem brilho, apagados e mal ficavam abertos.
Ouvi Warren, Bobby e Colossus falando comigo pelo radio, porém não me concentrei em realmente entender o que queriam. Minha mente estava focada em Marie.
— Eu estou aqui minha pequena. – Ajoelhei-me e deitei-a com delicadeza para que sua cabeça pousasse em meu colo. Olhando os machucados mais de perto eu não sabia o que pensar. – Deus, o que fizeram com você?! – A dor que ela devia estar sentindo. Eu já tive experiências com fogo e sei como é terrível, entretanto, com meus poderes de cura as sensações ruins só duravam alguns segundos.
Era isso. Ela precisava dos meus poderes ou claramente não resistiria por muito tempo.
Pela minha visão periférica percebi os outros se aproximando. Bobby foi o único que chegou realmente perto, e sua cara de espanto foi evidente.
— Marie, eu sinto muito. – Lamentou se agachando no campo de visão dela. – Onde Pyro está?
— Lá em cima. Eu dei um jeito nele. – Ela tentou rir, não pôde. Mal conseguia falar, quanto mais mover os músculos do rosto queimado. – Eu consegui escapar.
— Você deu um jeito nele? – Repeti não entendendo.
— Peguei os poderes dele e o fiz desmaiar. – Explicou breve. – Pelo menos eu acho que ele só desmaiou.
Havia serenidade e certa felicidade no tom de voz fraco dela. Marie parecia orgulhosa por ter conseguido fazer tudo sozinha. Por um lado isso também me deixou orgulhoso, mas por outro, me senti o pior dos homens por não tê-la protegido de tudo aquilo.
Mesmo um pouco confuso Bobby entrou no prédio. Ele poderia achar Pyro e acabar com a raça dele sozinho. Eu não me importaria. Minha prioridade era outra.
— Você está muito machucada. Precisa se curar. Pegue meus poderes Marie. – Retirei um pouco dos cabelos grudados em sua testa suada e a beijei ali. Esperando por aquela sensação estranha e dolorosa de ter seus poderes e força vital roubados. Esperei e nada. – Vamos Marie. Pegue meus poderes. – Incentivei voltando a encará-la de perto.
— Eu não consigo. – Lamentou e uma tímida lágrima rolou através de seu rosto. – Estou cansada demais.
— Não diga isso Marie. – Pedi já começando a ficar desesperado. – Você precisa conseguir. Você precisa.
— Está tudo bem. – Sua boca se curvou num discreto sorriso e seus olhos doces me fitaram. – Está tudo bem meu amor.
— Vamos Marie. Tente, por favor. Tente! Não me deixe assim. – Implorei apertando-a contra meu peito.
Encostei nossas testas e esperei impacientemente.
— Eu não consigo. Por mais que eu me concentre. Não tenho forças. Eu só quero descansar.
A voz padecida e fraca dela cortava meu coração. Vê-la daquele jeito me fez perceber que, talvez, Marie seja a única pessoa que me faça sentir empatia de uma maneira tão forte. Eu queria poder trocar de lugar com ela. Tomar sua dor para mim. Queria que aquilo estivesse acontecendo comigo e nunca com ela.
— Pegue meus poderes e aí você poderá descansar. Por favor. – Continuei insistindo.
— Não tem jeito Logan. – Constatou tentando me convencer. – Deixe-me ir meu amor... – Marie sussurrou.
— Não, não, não posso. Por favor, tente Marie. Não faça isso comigo.
Eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Eu não podia crer que aquilo estava se repetindo. Alguém que precisou de mim e eu não pude ajudar. Alguém simplesmente morrendo em meus braços e completamente conformado por isso. Não. Eu não poderia passar por essa dor novamente. Perder a mulher que amo. E pior, dessa vez perder a única mulher que me amou de volta com tanta intensidade. Eu não suportaria. Não superaria.
Respirar estava cada vez mais difícil para Marie. Seus olhos se fechavam e demoravam para abrir novamente. Eu podia ouvir seu coração batendo vagarosamente dentro do peito. Eu estava perdendo ela.
— Já disse que está tudo bem. – Reafirmou. – Eu tentei o máximo que pude Logan. E valeu a pena, pois você me encontrou. Saiba que eu sempre vou amar você.
— Não, por favor. Não diga isso. Eu não posso te deixar partir. Não posso Marie. – Continuei tentando fazê-la reagir. Ela não podia desistir assim de mim. De nós.
— Diga que me ama também. – Pediu.
— É claro que eu te amo. Eu te amo muito Marie. E é por isso que eu te quero comigo, pra sempre. Eu preciso de você.
— E eu só precisava ouvir isso. Obrigada Logan.
Depois de um sorriso fraco seus olhos se fecharam, e como eu temia não se abriram novamente. Abracei seu corpo imóvel com mais força. Aquilo não podia ser verdade. Minha Marie não podia estar morta.
— Marie, acorde. Marie, por favor. Não me deixe assim. Volte pra mim Marie. – Continuei pedindo. Continuei implorando. Talvez ela ainda pudesse me ouvir e lutar. – Fica comigo Marie.
Percebi meus olhos molhados. Eu estava chorando. Não sei ao certo quanto tempo havia que eu não chorava, mas sabia que era muito tempo. Eu não me permitia ser fraco o bastante para chorar, mas naquele momento, eu não tinha outra vontade. Ela havia partido e eu não tinha mais nada além das lágrimas.
Bobby voltou ofegante para a fachada do prédio e se sobressaltou assim que encarou a cena a sua frente. Com os olhos marejados imediatamente ele entendeu o que havia acontecido.
Fiz um leve carinho nos cabelos de Marie. Observei-a atentamente. Os traços delicados e a beleza inocente. Ela não merecia o que aquele desgraçado tinha feito com seu rosto angelical. Se Bobby não tivesse intenção de matá-lo, eu mataria. De mim ele não escaparia. Nem que eu tivesse que procurá-lo até os confins da Terra.
Beijei os lábios doces de Marie pela ultima vez. Já imaginando o quanto sentiria falta daquele beijo. Eu sentiria falta dela pelo resto dos meus miseráveis dias dessa interminável vida. Aquele beijo seria nossa despedida. Senti os olhares aflitos e pesarosos de Bobby, Warren e Colossus em mim. Eles seriam testemunhas de que eu a amei e que foi real. Não me importava que eles soubessem da nossa relação. Agora, eu queria que eles soubessem. Eu queria gritar pro mundo o quanto a amo. Queria que todos tomassem conhecimento de que fui capaz de amar novamente e que aquela mulher havia me mudado para sempre.
Nos longos segundos em que nossos lábios ficaram grudados imagens dela passaram em minha mente num filme bonito e doloroso de se ver. O sorriso maravilhoso dela. Os toques tímidos, porém decididos. Nossos momentos de intimidade. As brigas que sempre revelavam mais o que sentíamos. Os abraços... Eu não estava pronto para terminar aquele beijo de adeus. Eu não estava pronto para soltá-la.
E então senti um choque.
Eu conhecia aquela sensação, estava um pouco diferente, mas continuava estranha e nada confortável. A corrente elétrica emanava dela e me atingia. Finalmente entendi o que estava acontecendo: Marie estava roubando meus poderes. Minha pequena não tinha partido. Marie ainda estava viva e lutando para ficar comigo.
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