Personal Soldier
25 A cura.
Notas iniciais
O solo irregular fazia os corpos dos ocupantes do carro chacoalharem com força. O calor era quase insuportável, com os olhos vendados o mutante sentia-se ainda mais abafado e o suor escorria abundantemente pelas suas têmporas. Ele sabia muito bem onde estava e para onde aquele caminho desértico o levaria, mas para todos os efeitos, era um local secreto.
Pouco mais de uma hora dentro daquele forno e sua garganta seca implorava por água. Quando finalmente o carro diminuiu a velocidade ele agradeceu mentalmente e até respirou mais fundo. Como se estivesse aliviado. Após uma freada brusca a venda em seus olhos foi tirada. Piscou várias vezes seguidas até que seus olhos se acostumassem com a claridade. Seus pensamentos bagunçados oscilavam entre a necessidade de beber água, o calor e as muitas perguntas que tinha para seu pai.
Longos corredores cinzentos muito iluminados e cheios de portas trancadas. Atentamente ele decorava quantos passos tinha dado e as direções que os soldados o fizeram tomar. Caso algo saísse do controle, uma fuga daquele labirinto não seria impossível. Sua ótima memória fotográfica seria extremamente útil.
Minutos intermináveis de espera em uma sala branca de interrogatório. Resolveu aproveitar o momento para pedir uma garrafa de água para o guarda perto da porta. Apesar da careta o soldado atendeu seu pedido. Em poucos goles a garrafa já estava vazia. Ele sabia que estava com sede mais só percebeu o tamanho dela quando a satisfez. Ele até poderia beber mais agua, entretanto, a que a figura nada impotente de seu pai apareceu na porta e interrompeu tais pensamentos.
O soldado assentiu para o velho homem, como se oferecesse proteção caso fosse necessário. De certo aqueles dois indivíduos dentro da pequena sala de interrogatório nunca foram compatíveis, entretanto, o sangue que corria em suas veias os mantinha ligados. Violência nunca fora uma opção para resolver suas muitas divergências. E não seria agora.
O real motivo daquele soldado na porta era impedir que qualquer um dos dois fugisse e com toda a certeza o encontro deles era monitorado. Embora o visitante ali nunca tivesse reparado em câmeras na sala, ele podia imaginar que elas existiam. Escondidas e sempre em vigilância, por isso, ele havia se preparado para elas.
Nem a minuciosa revista dos agentes do governo e nem toda a cautela envolvida naquele encontro poderiam estragar o que ele tinha planejado.
O mutante ajeitou-se melhor na cadeira desconfortável de metal e ensaiou um sorriso de canto que quase não apareceu, mas o homem a sua frente o conhecia o bastante para detectar aquela expressão discreta. Mesmo que as intenções do mutante ali não fossem puras, não era ruim rever aquele rosto.
— Olá Warren. É bom te ver, filho. – O homem falou diante do silêncio do mutante. – Faz um tempo que você não me visita.
— Eu sei. Estive ocupado. – Mentiu.
Por mais que ninguém do Instituto apoiasse a ideia do cientista que criou a cura estar sob custódia do governo e ainda trabalhar em pesquisas com mutantes, não era como se proibissem Warren de ver o pai. Pelo contrário, Ororo sempre o perguntava se tudo estava bem apesar de já saber através dos relatórios religiosos e minuciosos que Fera fazia sobre as pesquisas, e oferecia folgas dos treinamentos e aulas. Warren é que não fazia questão. O relacionamento com o Pai sempre fora complicado, e ainda restava certa mágoa pela criação da cura e pela tentativa de obrigá-lo a tomá-la. Por anos Warren sentiu-se sozinho e preso dentro do próprio corpo e condição. Só depois de iniciar sua jornada no Instituto começou a aceitar-se e até gostar de ser quem é.
Olhar para o pai tentando se redimir causava certa revolta e desconfiança. Ele ouvia da boca do cientista que aquele trabalho era uma forma de fazer as pazes com o mundo depois da grande bagunça da cura, entretanto, Warren sempre esperava o pior daquele homem. Era como se a qualquer momento algo fosse dar errado e ele teria a convicção de que o pai não estava ali para ajudar os outros e sim para fins próprios. O distanciamento era melhor para ambos.
— Como vão as missões com os X-men?
— Nada demais. – Encurtou a conversa mesmo que sua mente tivesse sido invadida pelas lembranças da última missão: O salvamento de Marie.
O coração de Warren palpitou descompassado no peito. Ainda doída aquela sensação de poder perder Marie para sempre, e depois descobrir que já havia a perdido de certa forma. Ela estava com Logan e não ligava para seus sentimentos.
— O Fera não vem muito aqui, mas quando vem sempre me conta o que vocês andam fazendo. – O homem ignorou a falta de ânimo do loiro para a conversa. – Eu gosto de saber. É bom ver como você se adaptou a esse estilo de vida.
A testa de Warren ficou mais tensa que o normal e seus olhos se fixaram na figura a sua frente.
— Estilo de vida? – Repetiu como se quisesse confirmar o que havia escutado. A outra parte do diálogo se manteve calada. – Você sabe muito bem que estar lá não é apenas um estilo de vida. É a minha vida em si. – Corrigiu o pai já sentindo todas aquelas velhas discussões vindo à toa. – Pelo menos era. Eu saí do Instituto.
O rosto surpreso do cientista encarou Warren por longos segundos estudando o que aquela revelação causava no anjo.
— O que aconteceu? – Resolveu perguntar mesmo que o filho não fosse dizer.
— Nada demais. – Repetiu a mesma resposta evasiva de antes, mesmo que todos soubessem que era uma mentira descarada. Tudo tinha acontecido.
Aquele era o momento certo para colocar plano em ação. A conversa não os levaria a lugar nenhum e Warren precisava das informações valiosas que havia vindo buscar.
Sem fazer movimentos bruscos ele mexeu as asas dentro do casado bege que as escondiam e deixou o dispositivo que trouxera cair em sua mão direita. Era algo tão pequeno e feito com uma liga leve de metal e plástico que o detector de metal não percebeu. Apertou o pequeno retângulo e então a luz de todo o complexo apagou.
Warren sabia que tinha apenas alguns segundos até que as luzes de emergência acendessem e as câmeras voltarem a gravar aquela conversa. Buscou a figura do pai na escuridão e agarrou seu colarinho puxando-o para mais perto.
— Preciso saber onde encontro uma amostra da cura. – Sussurrou indo direto ao ponto.
— Eu-eu não sei Warren. – O homem ficou assustado com a situação e a pergunta repentina. – Todo o projeto foi fechado. Você sabe.
— Tem que haver alguma coisa. Você não tinha um backup em algum lugar ou uma pessoa de confiança que soubesse da pesquisa. Qualquer coisa! – Esbravejou entre os dentes.
— Havia um pendrive. Eu salvava as pesquisas nele, mas aqueles mutantes me atacaram e eu não sei onde foi parar meu filho.
— Mais alguma coisa que eu deveria saber além da sua incompetência em guardar o trabalho da sua vida?
Warren não economizou veneno, fazendo seu pai sentir-se ainda mais humilhado do que o usual.
— Ouvi o Fera comentando sobre uma instalação secreta do governo americano fora do país. Segundo ele, tudo lá está fora dos registros e deveria permanecer assim. Pelo que eu entendi queriam trazer alguma coisa para cá e ele não autorizou, porque estou aqui. Suponho que seja relacionado a cura, mas não tenho certeza e nem sei mais para te dizer.
Do mesmo modo repentino que as luzes se foram, elas voltaram. Warren soltou o pai e olhou a redor. Um soldado entrou na sala.
— A visita acabou. – Anunciou já se posicionando ao lado de Warren.
Discretamente o mutante escondeu a prova da sua sabotagem novamente nas asas e acenou para o pai antes de sair.
Um leque de possibilidades estava à frente de Warren. Ele precisaria pesquisar muito sobre aquelas informações vagas que conseguira ali, mas já era alguma coisa. Encontrar a cura ou pelo menos algum meio de recriá-la seria sua nova missão pessoal. Um objetivo maior a ser alcançado. Ele precisava da cura. Não para si, mas para conseguir matar quem o impedia de ficar com o amor de sua vida. Warren estava determinado a matar a única coisa que atrapalhava seu caminho para a felicidade: Wolverine.
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