Persona Non Grata
1 Rosas e Esmeraldas
Persona Non Grata
Único – Rosas e Esmeraldas
Sangue jovem, corra como um rio
Sangue jovem, nunca acorrentado
(…)
Sangue jovem, veio para começar uma revolta
Não me importa o que seu velho disser
Sangue jovem, o céu odeia um pecador
— Raise Hell, Dorothy
†
Os serviçais corriam para todos os lados ajeitando as coisas e cumprindo ordens, o restante do terceiro dia do festival era no reino e todos comiam a minha comida farta, isso me lembrava de como era minha vida antigamente. Eu andava pelo salão de festas e logo Katherine veio ao meu encontro, falando qualquer bobagem sobre a festa, que eu não deveria devido a ontem e etc.
— Sebastian! Olhe para mim — olhei para a mulher de cabelos loiros e cacheados, sem nenhum interesse no que ia dizer. — Tem certeza que deseja prolongar esse festival? Aquela maldita cigana ameaçou nosso reino, temos que caça-la e não festejar.
— Caso a lógica tenha lhe faltado, amada… — tirei sua mão de meu rosto, depois de sentir o toque de Rose eu não quero mais o toque da loira italiana, e sim o dela, somente o dela. — A festa clama por ciganos e se ela não vier… Bom, podemos concluir que ela finalmente fora embora.
Ela ia começar a falar novamente, chamei um serviçal qualquer para interromper-la e pedi papel, pena e tinta. Quando me deram o que eu pedi, procurei qualquer coisa para apoiar o papel e comecei a escrever para a moça vestida com um vestido de seda exuberante e com um lenço escondendo sua boca.
“Doce Rose Amunet,
Comece uma revolução, faça o que queres que eu ajudarei escondido sobre os panos. Porém, só peço uma coisa: que seja a pecadora que essa cidade precisa e que eu desejo
Rei Sebastian II”
Ameacei o empregado de morte caso houvesse rumores entre os empregados e logo ele foi entregar para a moça escondida entre as plantas. Peguei uma taça e fui bebericando do vinho, sorri quando me senti observado, olhei na direção e vi seus olhos esmeraldas confusos e sua mão delicada com o meu bilhete, sorri para ela e pude ver uma cena que não esperava de uma mulher com uma alma tão escaldante: seu rosto expressando a vergonha que sentia.
Falei, sem emitir realmente um som, para a mulher que tirava meu sono:
— Obrigado por tirar-me da santidade, Amunet— proferi e me virei bebendo mais um gole do vinho.
Mais tarde não a vi novamente. Logo eu havia inventado qualquer desculpa e ido para meu quarto, sentei no segundo trono que havia em frente a lareira e peguei mais vinho.
(…)
“– Ajudai os que não precisam e desprezam o que precisam, como a esse homem e ao meu povo.” — não entendo como tais palavras ainda podem perturbar minha mente, antes eu nem sequer ligava para isso.
Eu observava a fogueira, suas grandes chamas me encantavam, dançavam seduzentes como aquela pagã, Rose Amunet. Eu podia ver nas chamas seu lindo corpo dançar como dançaste a esta manhã, no festival dos tolos, não posso negar que ver aqueles olhos verdes como esmeraldas, os cabelos castanhos como castanhas e os lábios vermelhos como rosas se mexendo conforme a dança que planejara e ensaiara, me deixara em êxtase, inclusive quando tivera a audácia de se aproximar de meu trono enquanto eu vigiava o festival e jogara seu lenço sobre meu rosto.
Aquele maldito cheiro de rosas se impregnou em minha pele graças a aquele lenço. Anos atrás eu teria mandado queimar tal lenço, mas eu ainda guardava.
Alguns já me disseram que todos dariam o que for para serem rei como eu, mas no momento só consigo pensar como essas pessoas são tolas ao quererem algo assim. Antes eu zombava delas por eu ser o rei, mas eu hoje eu penso que elas são sortudas, olhe para elas: casam com quem querem, na maioria das vezes, não precisam resolver assuntos políticos extremamente fúteis ou causados por tolice, não precisam receber conselhos de sete conselheiros para tomar o rumo do destino do país e inclusive… podem se casar com pagãos por não precisarem ser um exemplo e o pilar junto a igreja.
Fui criado e praticamente concebido na igreja católica, sempre fui educado a me manter afastado dos ciganos, pois eles são bruxos, ladrões, ligados a Satã e outros, mas desde que vi a alma furiosa de Rose Amunet, a bela cigana que dança nas ruas por uns trocados, não posso negar que tudo que eu acreditava foi se questionando aos poucos e inclusive minha capacidade de ordenar sua morte.
Tomei mais um gole do líquido vermelho que estava na taça de ouro puro, ainda olhando a fogueira… Talvez eu esteja alucinando ou algo do tipo, pois ainda podia ver a graciosa silhueta de Rose formada por chamas laranjas a dançar com graça.
— Meu Rei, peço que vá dormir, amanhã teremos um dia cheio. — disse qualquer um dos meus empregados.
— Todos os dias para um Rei é um dia cheio — “Inclusive quando se apaixona por uma adorável pagã”. — Vá embora, faça o que sua Rainha ordenar e me deixe.
— Mas Majestade, amanhã é o quarto dia do festival, só poderá descansar dois dias após amanhã. — revirei os olhos antes de voltar a minha atenção para a jovem feita de fogo dançando.
— Já ouviste falar que não se pode questionar um rei? Ou queres ser como Rose Amunet e receber o título de Persona Non Grata e ser exilado desse país?
— Desculpe-me, farei como ordenar — o dispensei com a mão e voltei a refletir sobre minha querida Amunet.
Até seu nome me fazia ter um certo gosto de pronunciar.
Lembro de quando a conheci, no aniversário de minha esposa que tanto desgosto, ela fora convidada pela mesma para animar a festa. Não nego que fez com fervor e mereceu meus aplausos de pé, portanto não fora só isso que mereceu ao direcionar seus olhos verdes para mim, eu também lhe dei outra coisa que não fora somente algo como aplausos: meu coração. A partir do momento que a vi e os dias que se passaram, pareceu destino, a cada dia ela fazia algo que me fazia ir em tal lugar do ocorrido confronta-la ou prende-la, porém eu a via e era isso que importava.
Lembro-me quando eu ainda amava minha esposa, lembro-me de como antigamente eu odiava ciganos e os matava sem piedade, lembro-me de como eu me importava com meu povo e com o que eles pensam de mim, porém, acima de tudo, lembro-me de quando eu notei que simplesmente o chão que me faz ser são é ela.
O dia que foi onde eu assinei a minha ruína.
“Desci as escadas chegando no calabouço do reino, a cada passo eu podia não somente escutar o som de minhas botas, mas como também os gritos dos criminosos sendo torturados ou implorando misericórdia. Era um corredor reto, somente no final havia outros corredores onde havia outras celas, portanto a cela que eu queria ir era no final desse corredor com cheiro de carne podre e com poças de águas sujas de lama. Dei três batidas na porta e parei de escutar os gritos da doce cigana que vi dançar e lutar com tanto fervor por sua vida ou por trocados, o torturador abriu a porta e ao me ver fez uma reverência.
— Já estava acabando, Majestade.
Olhei o corpo acorrentado e sangrento da acastanhada que tanto amo, me doía vê-la assim, doía mais do que ver Katherine chorar por perder nosso filho. Era como minha avó dizia: o segundo amor vai ser mais intenso do que o primeiro.
— Na verdade, você já acabou. Agora saia. — tirei minhas luvas e andei em direção a morena, pude escutar o som da porta de metal barato se fechar. Eu já estava próximo o suficiente para sentir sua respiração tão lenta em meu rosto, peguei o rosto branco da morena e levantei, a fazendo olhar para mim.
— O próprio rei veio me torturar por defender uma criança cigana?
— Não gosto de torturas, senhorita, prefiro a manipulação. — Em meio a tanto sangue e magreza ela sorriu irônica, que belo sorriso.
Ainda sonho com ele todas as noites.
— E se caso sua manipulação fajuta não funcionar comigo, Vossa Majestade? — eu podia sentir a maldade em sua voz, ah! E isso me excitava, me deixava em êxtase.
— Então, minha querida…
— Rose Amunet. — completou.
— Rose Amunet, eu mesmo terei o prazer de fazer a tortura, seja mental ou física. — Eu olhava seus olhos e eu podia jurar, ainda posso, que ela me desafiava com eles, mas não tanto quanto a boca carnuda e vermelha.
— Então, faça logo isso, Majestade. Não tenho tempo.
Eu ri fraco e me aproximei mais de seu rosto.
— Lembre-se, lady Rose, você será sempre a primeira cigana e a última que irei salvar e caso conte a alguém... você será a última viva. — proferi em um sussurro enquanto roçava sua boca no canto da minha, pude escutar um baixo murmurio em surpresa.
Porém, eu não tinha muito tempo para enrolar e logo a soltei e fiz de tudo para tirar-la daquele castelo.”
Sorri com isso e vi a pequena mulher de chama sorrir também, tirei seu lenço arroxeado e o bilhete que havia me dado no dia após aquele ocorrido, o li novamente:
“Eu lembro do dia em que disse que prenderia todos os ciganos, mas sangue jovem nunca poderá ser acorrentado, ele correrá como o rio e iniciará a revolta que tanto evita.
Agradeço, mas nunca lhe aceitarei como rei.”
Aspirei o perfume dela que havia ficado no lenço e sorri de novo. Era tão estranho… Eu ria de como eu era antes dela, eu via tudo com tanta seriedade e encarava como ameaça os ciganos que encantavam tudo com sua magia negra, ameaçava a extinção de todos eles, mas agora…
Ri de novo ao aspirar o lenço roxo.
Não se passa de uma querida farsa, de uma máscara que tenho que usar por ser rei, depois que a conheci tudo se transformou em um jogo de conquista. Já tinha ouvido falar que ciganos não gostam de se misturar com não-ciganos, mas eu sou o rei! Faço o que quero e tenho o que quero.
E eu vou a ter.
Seja como inimiga, seja lado a lado para o resto da vida, seja como for…
Ainda escutarei a voz firme a cantar para mim, ainda escutarei seu timbre ao gritar por revolução em nome de seu povo, ainda assistirei e admirarei sua dança e ainda a amarei.
Independente de pelas circunstâncias ter se tornando uma Persona Non Grata, de ser odiada e de ter inciado, pouco a pouco, uma revolução, ainda a amarei e me recusarei a ser como era antes de conhece-la.
Me levantei do trono depois de tanto tempo encarando a fogueira e refletindo sobre Rose Amunet. Fui em direção a janela e olhei o nascer do sol, uma visão tão bela que eu adoraria ver ao lado de Rose, mas ainda tenho tempo, hoje era apenas o quarto dia de festival e com certeza ela estará lá para encantar a todos com sua dança e inclusive a mim, o Rei dessa cidade santa que odeia Rose como se fosse a pior das pecadoras.
Notas finais
E se tiver meio ruim, vamos começar do ruim pra ir pro bom. Se alguém gostou, obrigada boa noite
Bjs
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