Persona Gêmea

2 Por que gostar de psicopatas


Notas iniciais
Primeiro capítulo. Eu sempre fico muito ansiosa no período entre o prólogo e o primeiro capítulo, por isso sempre posto logo... Espero que gostem! n.n

A caneta deslizou pela ante-capa do livro, como fizera inúmeras vezes naquela tarde, e um sorriso brotou em seus lábios quando entregou o exemplar nas mãos de um homem magro, alto e de óculos de grau quase cômicos.

Este aceitou e sorriu afavelmente para ela de volta, virando-se para ir embora.

Então viu uma moça aproximar-se e sorriu, já com as bochechas doloridas, sabendo que seria o último livro que teria que assinar.

-Boa tarde- cumprimentou a mulher conhecida e aceitou o livro que ela estendeu, abrindo-o para autografá-lo.

-Creio que já seja “boa noite”- ela corrigiu, arqueando uma sobrancelha.

Trish era uma mulher alta e curvilínea, com seios avantajados escondidos pelo tailleur que o trabalho exigia e longas pernas à mostra por conta da saia que só cobria até pouco acima do joelho, encurtando ao se sentar.

A genética lhe fora gentil; tinha belos traços, longuíssimos cabelos loiros e pele com um recente bronzeado, que ressaltavam levemente seus olhos azuis elétricos.

-Se você diz... –a loira deu de ombros em concordância.

A mulher à sua frente era sua amiga, Mary, mas cujo nome costumava omitir por motivos pessoais.Tinha estatura baixa, pele alva e corpo um pouco menos delineado do que o de Trish, além de um rosto de traços suaves.

Os lábios pequenos e o nariz perfeitamente moldado a infantilizavam, o que costumava se atenuar quando estreitava perigosamente seus olhos bicolores; possuía heterocromia e, portanto, um de seus olhos era verde e o outro era peculiarmente avermelhado. Seus cabelos eram curtos, negros e repicados, dando-lhe um ar jovem.

-Acho que você está um pouco desregulada- Mary encolheu os ombros. –Talvez ande trabalhando demais.

-É, talvez... –concordou, devolvendo o livro e se levantando da cadeira, grata por ter sobrevivido a uma tarde inteira de autógrafos.

Toda aquela dramatização, aquela propaganda e joguete de confetes somente porque lançara um livro. Grande coisa. Já havia lançado outros, não já? Apesar de que, tinha que concordar com o editor, aquela edição havia sido sua obra-prima.

-Hey, Trish... –ouviu e olhou para a amiga, assim que pegaram suas coisas e avisaram ao editor que estavam de saída. –Eu juro que preciso ler esse livro... Que raios de título é esse?!

-É a verdade- a loira sorriu, satisfeita com sua ambição por colocar um título tão chamativo como aquele.

-“Por que gostar dos psicopatas”?!- a morena perguntou, arqueando uma sobrancelha e parecendo indignada.

Já era noite e ambas caminhavam lado a lado pela calçada, observando o movimento eventual de carros na rodovia. Não havia lua e as estrelas pareciam ofuscadas pelas luzes de San Francisco.

-É- Trish concordou. –A medicina é algo muito abrangente, sabe? Mas eu fiquei realmente satisfeita por ter escolhido a área da psiquiatria. Que também é incrivelmente extensiva e, quando fui estudar o comportamento dos pacientes do sanatório federal, descobri que simpatizo especialmente pelos psicopatas.

-E por que raios você simpatizou logo pelos mais perigosos...?- Mary fez uma careta.

-As pessoas costumam ter esse preconceito... Nem todo psicopata é assassino, Lady, e muita gente confunde isso. Eles podem não ser capazes de processar emoções, mas alguns conseguem compreendê-la e podem conviver tranquilamente com a sociedade.

-Eles podem não ser assassinos, mas continuam sendo perigosos... Você mesma me disse certa vez que os psicopatas eram mantidos em prisão de segurança máxima porque têm aquela habilidade de copiar comportamento...

-De fato- a loira fez um meneio de indiferença- Eles podem simular perfeitamente o que os outros fazem, como imitar um médico ou enfermeiro mesmo sem um conhecimento prévio.

-Então... –a morena reiterou, esperando que ela continuasse.

-Essa é a parte interessante. –Trish comentou, maravilhada- Como não processam emoções, tentam copiar outras... E fazem atuações perfeitas.

-...

-Além disso, eles não ligam para o que os outros pensam, pois não há algo como vergonha, culpa ou arrependimento a ser processado. –explicou vagamente- Por isso alguns não vivem conforme as regras da sociedade: fazem somente o que querem, quando querem.

-E você gosta deles por isso...?- Mary arqueou uma sobrancelha.

-Acho que sim- a psiquiatra deu um risinho- Havia um psicopata especialmente interessante no sanatório em que eu fiz estágio... Ele não gostava de usar roupas. Dizia que não eram necessárias, já que as câmaras de isolamento tinham aquecedor... E não havia quem o convencesse do contrário.

-Juro que não te entendo... –a morena disse, com um suspiro derrotado. Então as duas pararam em uma esquina e se olharam. –Eu vou para cá... Te vejo amanhã, não é?

-Claro- a loira concordou, tomando o caminho contrário depois de se despedir brevemente da amiga.

Admitia que tinha medo de caminhar sozinha depois que escurecia e tornava-se um pouco paranóica, mas não se tratava de covardia. Mulheres sensatas evitariam sair à noite em San Francisco, onde os índices de violência cresciam regularmente.

Eventualmente, Trish olhava para os lados e tinha a incômoda sensação de estar sendo seguida.

Meio quarteirão depois, suas suspeitas haviam sido confirmadas.

Haviam dois homens que a seguiam. Não conseguiu vê-los direito por sua visão periférica, mas sabia que estavam ali e apressou o passo, evitando passar por esquinas e becos onde houvesse pouca luz e mais pessoas suspeitas.

Pouco a pouco, foi guiada para uma armadilha.

Então notou que já havia passado e muito de onde deveria ter virado para conseguir um rumo para sua casa. Mas não importava naquele momento. Logo chegava a um parque industrial e suas chances de escapar se esvaíam consideravelmente.

-A moça parece perdida... –ouviu e franziu o cenho para um dos homens que se aproximou, vendo-a hesitar.

Sentiu-se acuada e tentou memorizar os traços característicos.

Tinha pele moreno-jambo, não era muito alto e deveria estar na casa dos vinte anos; usava cavanhaque e não era feio, embora houvesse algo de desagradável em seu olhar. Talvez fossem as sobrancelhas e a forma indecente como a desejava.

-Talvez queira uma ajuda- o outro se aproximou.

Tinha cabelos oxigenados e presos em um rabo frouxo, com olhos claros e a pele alva, além de uma cicatriz de queimadura em um de seus braços, desnudos pela regata larga dos Lakers que usava.

-Estou muito bem, obrigada- Trish forçou-se a responder, temendo a aproximação inevitável. –Sei o caminho de casa.

-Não é muito seguro caminhar sozinha por aí, sabe... –o homem moreno se aproximou e a loira tentou se afastar, desejando que não estivesse de saltos para que pudesse correr.

-Eu sei disso- reiterou, arisca. Em uma situação tão angustiante, sabia que não conseguiria agir racionalmente.

Fora só questão de tempo para que começasse a se desesperar.

-Sabe que você fica uma gracinha quando está se sentindo ameaçada...? –o loiro se aproximou e Trish tentou se afastar em vão, recostando-se em uma grade para constatar que não tinha chance de escapar.

Quando foi que acreditou que conseguiria escapar? Desde que começara a ser perseguida, deveria ter previsto essa situação.

-Não me toque- avisou, se desvencilhando com um tapa quando ele tentou segurar seu braço e estreitou os olhos perigosamente.

-Então você é do tipo difícil... –o moreno constatou, investindo agilmente e segurando-a pelos pulsos para firmá-la contra a parede. -... Mas dizem que, quanto mais se resiste, mais dói.

-Já ouvi- Trish sibilou com ferocidade- Mas eu prefiro sentir a dor física a aturar a dor de ter o orgulho ferido depois.

-Justo- o moreno concordou, obrigando-a a ir mais contra a grade quando ele curvou-se para beijá-la no pescoço.

A língua quente e úmida lhe causou arrepios desconfortáveis, sentindo nojo daquele toque. Ele mordeu-a de leve na curva do pescoço e roçou seu corpo no da mulher, sentindo os seios macios contra seu peito. Trish pôde sentir membro rijo de excitação rente às suas pernas, obrigando-a a se mover para aliviar relativamente o desconforto.

-Eu conheço você... É aquela psicóloga que escreveu aquele livro sobre psicopatas- o loiro comentou vagamente, segurando-a pelo queixo enquanto esta tentava se livrar do assédio pelo outro. –Que usa palavras bonitas e que acha que escreve sobre a realidade... Me diga: em qual dos níveis de psicopatia nós nos encaixamos...?

-Eu sou uma psiquiatra- corrigiu-o, sendo calada momentaneamente quando o moreno apertou seu seio com força e a obrigou a morder o lábio inferior para conter um gemido de dor. –E, por mais repugnante que seja esse comportamento... Não creio que apresentem um perfil de psicopata...

-Ouviu ela...?- o loiro zombou- Ela acha que não somos cruéis o suficiente para sermos psicopatas...

-Uma pena- o outro comentou, apertando com força seus braços com uma mão e apalpando-a em sua coxa, onde provavelmente restaria um hematoma. –Vou te fazer gemer igual a uma vadia e veremos se manterá essa opinião...

-...!- Trish tentou se livrar, mas foi igualmente vão.

O que poderia fazer naquela situação? Gritar? Quem a ouviria?

Sentiu o desespero ir tomando conta de suas ações lentamente, tentando se livrar mais freneticamente e tomando consciência do peso do que estava acontecendo. Somente um milagre a livraria.

Então, quando abriu a boca para gritar por uma ajuda que, sabia ela, não viria, o homem se afastou bruscamente e ela pôde vê-lo tombar no chão a cerca de um metro de distância de si.

O outro estava com o nariz sujo de sangue, caído logo à frente.

Ergueu os olhos e fitou sem assimilar a imagem do seu suposto milagre. O homem passou a mão pelos cabelos e deu um muxoxo impaciente, caminhando até o moreno antes de parar.

Ele esboçou um sorrisinho cruel que não veio.

Mordeu o lábio inferior quando este ameaçou se formar em seus lábios, pisando no membro ainda duro entre as pernas do homem, que urrou com a dor.

-Eu não aprecio pessoas da sua laia, que forçam outras pessoas a fazer o que não querem- falou e sua voz era baixa como um sussurro, mas imponente como um brado. –Talvez eu deva extorquir seu modo de opressão de forma que possa extinguir o mal da raiz, não concorda?

-Ca... Chorro... Maldi... To- o moreno balbuciou, ainda contorcendo-se com a dor.

-Uma lástima- ouviu o misterioso homem dizer, mas o loiro o impediu de fazer o que quer que pretendesse com um empurrão.

Então ajudou o outro a se levantar e se afastou apressadamente, abandonando os dois no meio do parque industrial deserto. Trish ergueu os olhos, finalmente dando-se conta do que havia acontecido, e mirou seu salvador.

Era um homem alto, de pele alva e traços másculos.

Era atlético, como pôde constatar, e suas roupas indicavam que se tratava de uma pessoa da classe burguesa. Seus olhos tinham um tom gélido de azul, seus cabelos pareciam brancos e refulgiam em prateado quando expostos à luz.

Parecia jovem, provavelmente com a mesma idade que ela, como gostava de observar; sempre fora muito boa em identificar coisas imperceptíveis para a maioria.

-Obrigada- disse quando ele tencionou virar-se e a olhou.

-Não foi por você- ele falou, passando a mão pelos cabelos arrepiados e tirando alguns fios da testa que insistiam em cair. –Foi por minha mãe.

-Por sua... Mãe...?- repetiu, tentando entender o que interligava as situações.

-Sim- o homem anuiu. –Você se parece com ela... E essa semelhança me incomodou quando aqueles dois a estavam molestando.

-Compreendo –comentou, se desencostando da grade- Algum trauma na infância ou uma situação que vivenciou foi semelhante a esta.

-Não me venha com essas tolices psicológicas- retrucou, sério, e a loira temeu que pudesse ter sido incisiva e que o tivesse irritado.

-Sinto muito- pediu sinceramente- Posso saber o seu nome, já que o senhor foi quem me salvou...?

-Meu nome...?- ele estreitou os olhos para algum ponto, então a olhou sem se incomodar em se aproximar da mulher com quem dialogava. Isso normalmente indicava o individualismo ou o egocentrismo em uma pessoa de personalidade fria. –Trata-se de uma troca equivalente, suponho.

-Hm? -arqueou as sobrancelhas sem compreender.

-Uma vez que eu lhe disser como me chamo, espero saber seu nome- entoou e Trish constatou que se tratava também de uma pessoa com transtorno paranoide, juntando o individualismo, o egocentrismo, a frieza e a paranóia.

-Parece justo- concordou. Então decidiu tomar a iniciativa e mostrar que confiava nele de forma que isso o deixasse confortável. –Se preferir, posso começar: meu nome é Trish Williams.

-... –ele a examinou calmamente, então falou: -Eu me chamo Vergil Sparda.

Notas finais
Bom, e essta foi a aparição repentina do nosso anti-herói. Espero que tenham gostado.
-Se sim, mandem uma review elogiando (n.n)d
-Se não, mandem uma review criticando (-.-')d