Persona
14 Capítulo 7 - Sorvete
Notas iniciais
Espero que gostem!
Sorvete
Finalmente era sábado.
Alex estava sentando em um banco no shopping apenas constatando este delicioso fato. Sábado. Nada de escola, nada de curso, nada de compromissos ou responsabilidades. Sábado.
E que sábado era aquele! Estavam no meio de um outono especialmente frio e o sol aparecera em um enorme céu azul sem nuvem alguma. Esses dias gelados de céu limpo costumam ser mais frios que o normal, ao mesmo tempo em que sol cobria a todos com seu aconchegante manto de luz, criando a temperatura perfeita. Nem quente demais, nem frio demais, apenas perfeito. O clima ideal para se tomar picolé de chocolate. Porque, vamos admitir, o verão não é a melhor estação para picolé de chocolate. É quente demais, enquanto o chocolate é muito doce e te deixa com uma sede louca logo depois que acaba. Não, verão é a estação dos sorvetes e picolés de fruta, o chocolate, com toda a sua doçura e cremosidade, deve ser deixado para estes preciosos dias ensolarados das estações mais frias do ano.
Nada poderia estragar aquele dia abençoadamente perfeito. Era sábado, o dia estava lindo e sua mente estava ocupada demais pensando em coisas felizes como sorvete e chocolate para se preocupar com puta que pariu ele acabou de pensar naquilo.
A pior parte de tentar não pensar em alguma coisa é que quando você pensa que não vai pensar naquela coisa você já está pensando naquela coisa. E lá estava ele, pensando no problema com Leonardo e se odiando por isso. Como é que um único pensamento consegue ficar tanto tempo ocupando a mente de uma pessoa? Isso estava começando a ficar irritante.
Alex se levantou e pôs-se a andar sem rumo pelo shopping. Ele tinha esse costume de perambular por entre as lojas quando estava preocupado com algo. Nem era a melhor coisa para os seus nervos _encontrava gente conhecida demais por lá_ especialmente durante os finais de semana, mas ele nunca teve muitas opções de lugares para ir onde ele não acabasse esbarrando com alguém. Morar tantos anos em uma cidade pequena as vezes é muito problemático.
Porém, naquele dia em especial ele estava tendo sorte. Andava já fazia algum tempo e não encontrara nenhum rosto familiar. O shopping estava estranhamente vazio, talvez o clima agradável tenha atraído a população para o ar livre, fazendo-as deixar o habitual programa de final de semana de lado. Apenas isso já o fazia recobrar um pouco de seu ânimo. Todo o pequeno shopping local e seu ar climatizado gratuito era seu espaço de caminhada particular. Seu humor estava quase que atingindo níveis positivos quando na mera fração de segundo que ele levou para virar o rosto e olhar distraidamente o lado oposto do corredor, toda a sua sorte implodiu.
Ele sinceramente não se importaria tanto de encontrar um conhecido naquele lugar. Isso iria diminuir sua sensação de sorte, mas ele já estava acostumado. Mas por que, meu Deus, por que de todas as pessoas que ele conhecia naquela maldita cidade aquela que apareceria no meio daquele shopping deserto tinha que ser o Leonardo?
Lá estava ele, no estúdio de revelação de fotos, falando com o atendente. O homem do outro lado do balcão lhe entregava um envelope pardo e ai meu Deus ai meu Deus ele deve estar saindo da loja! Alex tinha que se esconder rápido. Sentia-se um pouco ridículo por estar pensando isso, mas ele sinceramente, abertamente, absolutamente não queria ter que falar com Leonardo. Apenas de imaginar o silêncio constrangedor que se faria no momento em que os dois cruzassem os olhos sentiu seu estômago gelar.
Sem nem pensar direito, Alex deu meia volta e procurou um lugar para se esconder. Do outro lado do corredor havia uma conveniente banca de jornal onde ele entrou, pegou a primeira revista que viu na sua frente, abriu-a e a levantou até a altura do rosto. Dando alguns passos mais para o interior da loja, ele espiou pelo canto do olho os seus arredores, verificando se existia algum ângulo no qual ele poderia ser visto do corredor. Ao se certificar de sua segurança soltou um suspiro de alívio. Tinha conseguido escapar de uma situação provavelmente muito desconfortável. Nota mental: lembrar de ficar em casa da próxima vez que tentasse relaxar.
Sentindo-se mais confortável, finalmente baixou os olhos para a revista aberta em suas mãos, onde pôde ler em letras grandes e em cores pasteis: “5 hábitos de uma gestante saudável”.
Alex sentiu como se um pequeno pedaço de seu cérebro tivesse morrido naquele momento.
Olhou desesperadamente para os lados para saber se alguém o observava enquanto enfiava a maldita revista na prateleira com uma violência desnecessária. Se tinha uma coisa nesse mundo que ele queria menos do que ter de falar com Leonardo era ser visto com aquele tipo de material em suas mãos e uma coisa que não faltava naquela cidade eram conhecidos prontos para espalhar uma fofoca. Foi para a seção de revistas masculinas e procurou por algo mais próprio para esconder o rosto.
_ Alex?
A voz que chamara por seu nome era dolorosamente familiar. Virou-se lentamente já sabendo o que encontraria e para seu horror e não-surpresa, lá estava Leonardo com seu envelope de fotos em uma mão e o jornal do dia na outra.
Maldito, que tipo de garoto de 16 anos compra jornal na banca aos sábados?
_ Leo?! O-o que você está fazendo aqui? _ Ele não conseguiu deixar de perguntar.
_ Ahh... Bem, estou fazendo uns favores para o meu irmão. Comprando o jornal do dia e pegando as fotos que ele mandou revelar. _ Respondeu Leonardo um tanto quanto calmo enquanto levantava as mãos indicando os objetos que segurava.
Alex piscou em confusão, esquecendo seu constrangimento por um instante. _ Você... tem um irmão? _ Dês de quando Leonardo tinha um irmão? Ah, espera. Ele foi adotado, quase tinha se esquecido disso, agora ele tinha um pai, uma mãe e aparentemente um irmão (ou até mais) que ele nunca tinha visto na vida.
_ Ah! É, é o Igor, o meu irmão adotivo, acho que eu não te contei sobre ele não?
_ Não você não me contou... Na verdade, acho que você não me contou muita coisa sobre o que você veio fazer aqui. Você simplesmente brotou na minha frente durante um dia de aula e antes que eu pudesse me perguntar sobre de onde você veio... _ Alex pausou sua fala por um instante, tentando achar uma palavra ou frase que pudesse definir todos os acontecimentos súbitos e emocionalmente desgastantes que seguiram a chegada de Leonardo, mas apenas conseguia gesticular com as mãos em movimentos circulares desconexos. _ ....Coisas... começaram a ... acontecer. Muitas, muitas coisas.
“Como o fato de você ter me seguido depois da aula por estar de ciuminhos com Abel.” Pensou.
Pensou, mas não teve coragem de vocalizar esse pensamento. Apenas desviou os olhos de Leonardo e provavelmente ficou um pouco corado. Por algum motivo, relembrar aquele dia na frente de Leonardo o fazia se sentir ainda mais constrangido do que de costume. O que era algo idiota, pois ele não conseguia ler seus pensamentos. Mesmo assim, pesar que aquela pessoa a sua frente gostasse dele era simplesmente... Estranho? Nesse momento Alex percebeu que embora tivesse passado tanto tempo se remoendo sobre o passado, ele não tinha parado para pensar sobre o que fazer com aquela situação no futuro e contemplar as possibilidades era definitivamente estranho. Estranho e confuso e ele gostaria muito de poder forçar sua mente a parar de pensar nisso.
Mas para sua sorte, sua linha de pensamento foi cortada pela resposta de Leonardo.
_ Sério que eu ainda não te contei sobre isso? Bem, eu me mudei para cá junto do meu irmão. Ele veio estudar fotografia e eu vim mais por querer mesmo, rever a cidade e reencontrar todo mundo. Foi meio complicado convencer meus pais, mas no final eles deixaram.
_ Wow... Isso parece bem legal. Digo, morar sem os pais e ter um irmão que faz fotografia.
_ Não é algo tão glamoroso como parece. _ Disse Leonardo em tom de riso. _ Eu tenho que ajudar nos afazeres domésticos e o Igor não cozinha tão bem quanto a mamãe, mas até que tem suas partes legais. Morar sozinho é claro. O Igor pode tirar boas fotos, mas é um irmão mais velho tão chato quanto os outros, as vezes até mais. Bem que ultimamente ele tem parado com os ataques de artista em crise, mas ainda é um porre fazer ele tirar umas fotos para mim quando eu preciso.
_ Você diz isso, mas pelo jeito que você fala parece que vocês dois se dão bem.
_ Bem... Acho que é uma relação entre irmãos bem normal. Nós irritamos um ao outro e as vezes brigamos, mas no final das contas nunca é nada sério. Mas e você? Você também não me contou nada sobre por onde você andou esses últimos anos.
Alex coçou a cabeça, sentindo-se um pouco acanhado com a pergunta.
_ Nesse ponto eu não tenho muito a dizer. Não aconteceu muita coisa dês de que você foi embora. Só para não dizer que não rolou nada, eu me mudei para o centro, mas só porque a minha antiga casa lá na Rua do Convento estava caindo aos pedaços.
_ Aww, não diga isso! Vou sentir saudades daquele lugar... Nós deveríamos dar uma passada por lá um dia desses. Encontrei a Ana Júlia outro dia e ela comentou que não te vê faz um tempão.
_ A Ana Júlia? Wow... Realmente, faz muito tempo.
_ Nós poderíamos tomar sorvete! Eu passei por lá e aquela sorveteria da esquina ainda estava aberta! _ A maneira empolgada com que Leonardo falava fez Alex se lembrar muito do Leonardo de sete anos atrás. Seus olhos brilhavam da mesma maneira viva e sagaz de quando ele estava maquinando alguma brincadeira especialmente divertida. _ Ei Alex, você ainda toma sorvete de chocolate especificamente nos dias de inverno com sol?
Aquela pergunta pegou Alex de surpresa.
_ Ahm? C-como você ainda se lembra disso?!
Leonardo riu. _ Como eu poderia não me lembrar? Você se esqueceu do numero de vezes em que você brigou comigo por eu querer tomar sorvete de chocolate ou de caramelo no verão? Você dizia que só de me ver tomando aquilo você já ficava com sede e não parava de me encher o saco sobre como eu era um idiota por estar comendo aquilo.
_ Eu não me lembro de nada disso.
_ Affff... Dessas partes você não lembra, né? De um jeito ou de outro, não sabemos se vai fazer quando esse tempo de novo. Por que a gente não vai tomar um sorvete agora? Eu vi um lugar vendendo naquele pátio aberto aqui no shopping mesmo.
_ Eu... Até que já estava pensando em ir tomar um sorvete hoje.
_ Então vamos! _ Disse Leonardo transpirando empolgação enquanto já sai em direção do corredor.
Sem hesitação, Alex o seguiu. Por algum motivo ele não sentia mais o constrangimento do começo da conversa. Talvez isso fosse devido ao fato de aquela situação parecer tão familiar a ele. De repente Leonardo não era mais aquela pessoa perfeita e distante que ele conhecera no inicio daquela mesma semana, mas o seu velho amigo da Rua do Convento. Tão facilmente animado por qualquer coisinha que capturasse seu interesse. Tão desinibido e aberto ao lidar com suas vontades e pensamentos. Alex não pode fazer outra coisa se não ir atrás dele, pois isso era o que ele sempre fez.
Os dois desceram as escadas rolantes e cruzaram o corredor que levava à praça central do shopping, um espaço circular centrado por um chafariz e cercado de várias lanchonetes e restaurantes, com mesas encimadas por grandes toldos espelhadas pela parte que ficava ao ar livre. Prontamente, os dois foram até um pequeno quiosque colorido que vendia vários tipos de sorvetes e picolés.
_ Huummm... Talvez hoje eu peça um de limão. _ Comentou Leonardo enquanto olhando a grande variedade de produtos pelo vidro do mostrador.
_ Você não ousaria! _ Disse Alex um pouco mais alto do que deveria. _ Limão é tipo... O mais gelado de todos os sorvetes gelados! E ele nem é tão bom assim, você só toma em situações de desespero, quando você tem certeza de que você está a beira de ter seus órgãos cozinhados nos líquidos internos do seu próprio corpo! Em um dia como hoje, um picolé de limão faria seu cérebro congelar.
Ao seu lado, Leonardo não conseguia conter-se de rir.
_ Eu sei, eu sei. _ Disse por entre as risadas. _ Estou dizendo isso só para te irritar. Não se preocupe, hoje eu vou lhe fazer a cortesia de respeitar o seu TOC.
_ Não é TOC, é apenas lógica comum. Quem toma sorvete de chocolate no verão e de limão no inverno só pode ser masoquista.
Leonardo acabou por pedir um daqueles picolés enormes, deliciosos e excessivamente caros que vem em uns sabores muito tentadores, nesse caso, chocolate com doce de leite e uma cobertura de chocolate. Alex não tinha o costume de pedir esse tipo de coisa chique, mas o dia estava ótimo e ele não queria ficar só olhando Leonardo tomar aquela coisa deliciosa, então se deu o luxo de pedir um de chocolate trufado que ele tinha ouvido falar ser muito bom, mas que nunca tinha provado.
Com seus sorvetes à mão, os dois se sentaram em uma mesa ao céu aberto que se encontrava sem o toldo e por um longo momento não falaram nada, apenas se concentrando em apreciar a doçura gelada em suas bocas e o brando calor do sol em suas peles.
Isso fazia Alex se sentir extremamente nostálgico, mas de um jeito diferente.
Era como se nada tivesse mudado nesses sete anos, ao mesmo tempo em que tudo estava tão diferente. Eles não estavam mais na mesma rua que cheirava a erva-doce, nem tomavam os mesmos sorvetes de chocolate baratos, também não estavam acompanhados de seus amigos e nem mesmo eram as mesmas pessoas de antes. Mesmo assim lá estavam eles naquele dia quente de inverno, como tantos outros, tomando sorvete de chocolate, como já fizeram tantas outras vezes. Tudo havia mudado, mas o sentimento se mantinha o mesmo. Aquele silêncio confortável que só pode ser feito entre duas pessoas quando elas já se conhecem muito bem, o pouco caso feito do tempo que passava sem ser usado, a íntegra e efêmera felicidade que ele sentia dentro de si.
Foi ai que Alex (mais uma vez) percebeu que ele era um idiota. Pois se ele tivesse parado de se remoer enquanto especulava possibilidades sendo levado por seu pessimismo e tivesse parado por cinco minutos para se lembrar dos tempos que passara com Leonardo naquela rua, ele teria logo percebido que sim, eles eram amigos. Se Leonardo nunca tinha dito isso em voz alta pouco importava, aquilo estava lá, em suas brincadeiras, em seus sorrisos, até mesmo nas brigas e nos momentos de silêncio, se mostrando para quem quisesse ver. Alex é que não tinha visto, cego por toda sua desconfiança.
E assim como o sol ameno que o banhava, aquele pensamento era muito reconfortante.
_ Isso é tão nostálgico. _ Disse Leonardo baixinho, como que temeroso por quebrar o silêncio.
Alex apenas concordou com a cabeça.
_ Naquele tempo tudo era tão mais simples. _ Continuou Leonardo. _ Quando a gente brigava era só voltar a se falar no dia seguinte que tudo estava certo de novo.
Briga? Do que será que ele estava fal... Ah não.
Ah não.
Ele vai tocar naquele assunto.
_ Se estivéssemos naquela época era só não falar mais no assunto e inventar uma nova brincadeira para esquecer as magoas.
“Isso! Não vamos nunca mais falar sobre isso! Nunca!!”
_ ... Mas nós não estamos mais naquela época.
“NÃO!!! Nós podemos voltar àqueles tempos! Vamos fazer isso acontecer!”
_ O que acontece que... Eu gosto de você Alex.
Ele disse.
Com todas as letras, sem gaguejar ou abaixar o tom de voz. Alex nem poderia dizer que não tinha ouvido.
Sentiu o sangue subir para sua cabeça, enrubescendo suas orelhas e as maçãs do rosto. Levou os dedos rapidamente à boca, mas não sabia o que fazer com eles. Tampouco sabia o que fazer de seus olhos e de sua boca ou das palavras que ainda estavam embaralhadas em sua garganta. Esse não era o tipo de situação para qual alguém é preparado. Lembrava de ter sido ensinado na escola a dividir suas coisas e a não bater nos amiguinhos, mas ela nunca o ensinou o que fazer quando um amigo de infância se confessa para você. Nem mesmo seus pais o prepararam minimamente para a situação. Mas a situação estava lá e continuaria lá estando ele pronto ou não, ignorando completamente se ele poderia lidar com ela, como os sentimentos costumam fazer.
_ Eu...Eu...
_ Você não tem que responder se não quiser. _ Interrompeu Leonardo. _ Não é como se eu estivesse esperando algo de você, eu apenas sentia que eu tinha que dizer isso. Eu não podia deixar a situação continuar toda enrolada e desentendida como estava então...
Leonardo parou de falar como se ele tivesse simplesmente ficado vazio de palavras. Isso foi seguido por um silêncio pesado que só foi quebrado quando Alex finalmente conseguiu arranjar o que dizer:
_ Eu... Só queria dizer que eu não te odeio nem nada. Posso ter exagerado no começo e... Não, com certeza eu exagerei no começo, mas agora que eu estou pensando direito está tudo bem. Não a parte de você me perseguir depois da aula, se eu souber que você fez isso de novo eu ligo para a polícia, mas a parte de... você sabe.
Leonardo soltou um suspiro.
_ Obrigada por dizer isso. De verdade, você não sabe como isso me fez sentir melhor.
Houve outro breve momento de silêncio.
_ Acho que eu deveria ir agora _ Disse Leonardo. _ Já demorei mais do que eu deveria para só ir buscar as fotos e pegar o jornal, Igor já deve estar preocupado.
_ Então nos vemos segunda. _ Respondeu Alex, se odiando um pouco pela frieza das palavras que saíram de sua boca. Não era para elas terem soado desse jeito! Mas então, o que ele deveria ter dito?
Leonardo se levantou e Alex instintivamente virou o rosto em sua direção. Acidentalmente seus olhares se cruzaram, mas logo que Alex percebeu aqueles olhos verdes baixou novamente o rosto, mirando intensamente o palito de picolé entre seus dedos. Por algum motivo, estabelecer contato visual era impossível para ele naquele momento. Sentiu um tapa de leve em seu ombro e a voz de Leonardo se despedindo.
Aquela conversa toda tinha sido bem difícil e constrangedora, mas estranhamente Alex se sentia melhor agora.
X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X
Leonardo freqüentemente se perguntava como a maioria da população conseguia sobreviver sem aulas de teatro. Sinceramente, ele não conseguiria.
“A vida é uma peça que não permite ensaios” disse Chaplin em mais um de seus dias inspirados. E como uma peça improvisada no calor do momento, cada erro de interpretação que você comete nela não pode ser ignorado e refeito mais tarde. Se ele fosse posto na mesma situação de hoje cedo onde ele inesperadamente encontrara Alex na banca de jornal, ele não saberia o que fazer se não fossem as aulas de teatro. Para sua própria admiração, ele conseguiu passar por toda aquela conversa sem tropeçar em uma única palavra. Como isso teria sido possível se ele não tivesse tido aulas práticas de vocalização, construção de autoconfiança e habito em parecer mais seguro do que realmente está?
Acredite gente, aulas de atuação é o segredo.
Ainda assim, elas não conseguem resolver tudo. A confissão de Leonardo foi resultado de pura coragem mesmo. É claro que autoconfiança também ajuda nessas horas, mas naquele momento seu coração parecia tão anormalmente enorme em seu peito enquanto batendo freneticamente contra seu pescoço que chegava a ser desconcentraste. E pensar que mesmo seu ego leonino se encolheria e abaixaria as orelhas como um gatinho quando posto em uma situação tão normal como uma confissão. Essa nem era a primeira vez que ele expressava seus sentimentos para alguém, geralmente ele até era bem mais ambicioso em suas empreitadas amorosas, incluindo flores, entradas estratégicas e até algumas frases de efeito previamente ensaiadas na frente do espelho. Só que dessa vez era Alex e isso deixava tudo mais complicado.
Por exemplo, essa era a primeira vez que ele se sentia tão nervoso depois de uma confissão. Sentado no banco do ônibus, ele tentava relembrar exatamente cada palavra dita, cada gesto e cada olhar tentando achar alguma gafe cometida que possa ter escapado de sua percepção. Por enquanto o saldo ainda lhe parecia positivo, afinal, o próprio Alex disse que não o odiava e se despediu com a implícita promessa de eles se falarem novamente outro dia. O problema era aquela última troca de olhares bem no final da conversa. Por algum motivo ela lhe trazia uma especial quantidade de agonia. Afinal o que tinha sido aquilo? Uma amostra de desconforto ou apenas um cálido exemplo de timidez? As vezes é tão inoportuno o fato de que não se pode simplesmente abrir a cabeça das pessoas sem ocasionar nelas morrendo no meio do processo.
Esse é o problema do Teatro da Vida. O clímax é justamente o momento onde você sempre se esquece do roteiro.
Notas finais
Espero que também tenham gostado e estejam se sentindo particularmente abertos e solidários no dia de hoje para dividirem seus sentimentos, impressões e críticas comigo pelos reviews ♥
Até o próximo capítulo que eu espero que não atrase!
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