Persistente
1 Dê Tempo ao Tempo
BEATRICE PRIOR
Acordo com o som de vozes abafadas conversando perto de onde quer que eu esteja.
—Já se passaram seis meses...-Ouço alguém dizer.-...Ela precisa acordar...
Ainda estou grogue e com uma forte dor de cabeça, não consigo prestar atenção em mais do que algumas palavras entrecortadas.
—Dê mais algum tempo a ela.- Uma voz masculina estranhamente familiar responde.- Os finais vitais estão estáveis, só nos resta esperar que saia do coma.
Coma? O que teria acontecido comigo? Eu já não me lembro de nada além de flashs rápidos de memória.
—Não sabemos nem se ela vai conseguir andar se for mesmo sair desse estado.- A voz feminina retruca.
—Isso nós não temos nenhuma certeza.- A voz familiar diz.-Dê tempo ao tempo.
Já não aguento mais ficar apenas escutando, minha cabeça e minhas costas doem de mais. Eu preciso pedir pelo menos um analgésico à essas pessoas.
Aos poucos, abro os olhos e tento mover minha cabeça, apesar da dor excruciante que sinto.
—Eu...-tento dizer apesar da ardência na garganta.
Ao ouvirem minha voz, ainda que baixa, as duas figuras ao lado da minha cama viram-se para mim e posso vê-los melhor, assim como o lugar onde estou. Era tudo muito branco e sóbrio, simples e quieto como um quarto de hospital, havia uma janela alguns metros atrás dos dois me olhando, mas a luz era tão forte que não podia ver o que havia lá fora.
—Olá, Beatrice.-O garoto de cerca de 16 ou 17 anos cumprimenta com um sorriso. Ele vestia roupas azuis por baixo do jaleco branco, os cabelos eram castanhos e os olhos muito verdes na pele clara. Era a sua voz que eu havia reconhecido, eu só não sabia porquê.- Já fazia muito tempo que não ouvia sua voz.
—Quem é você?- Pergunto em uma voz baixa, mas eles ainda ouvem, aproximando-se mais de mim e permitindo que eu fale o pouco que preciso.
—Beatrice, você não se lembra?- Ele questiona.
Não respondo nada, apenas balanço a cabeça de um lado para o outro lentamente, negando que o conhecia.
—Sou eu, Caleb!- Ele diz, mas continuo negando.
Sei que o reconheço lá no fundo, mas não consigo me lembrar de quem ele é. Como uma voz que você já ouviu há muito tempo, mas não se lembra de onde.
—Está com amnésia.- A garota ao seu lado comenta.- Eu imaginava.
Caleb a olha com um olhar triste, mas ela não se vira para ele ou responde, apenas continua me olhando como se eu fosse um experimento científico.
Ela também usa um jaleco branco igual ao do garoto, mas sua beleza faz o garoto magro e não muito alto parecer muito mais um menino que a idade que realmente deve ter. Alta, magra, com corpo destacado mesmo sob o branco do jaleco. E, assim como suas roupas, ela tinha olhos e cabelos muito negros presos em um rabo de cavalo alto. A pele era também muito clara, com um bronzeado apagado de quem não vai muito no sol. Ela era indiscutivelmente bela com os olhos escuros destacados pelo tom de pele, mas eu não me lembro de já tê-la conhecido algum dia.
—Você imaginava que isso fosse acontecer?- O garoto pergunta.
—Sim, mas eu não quis falar nada até que ela acordasse e eu tivesse certeza.- Ela diz.
—Onde eu estou?- Repito.
—Está no Hospital de Nova York, Beatrice.- A mulher responde me olhando.- Parece que há muitas coisas que precisamos te dizer.
—Sim, há.- Caleb diz.- Mas primeiro: você pode levantar sozinha?
Tento fazer o que ele me pede, mas sinto muita dor em minhas costas assim que tento me movimentar. Os dois percebem minha careta de dor e me ajudam a sentar sobre a maca do hospital onde eu estou. Eles esperam que eu mova meu corpo para descer, mas não posso fazer isso.
—Não consigo levantar.- Aviso.
—O que você tem, Prior?- A garota pergunta.
—Não sinto minhas pernas.- Admito.
Os dois se olham preocupados por alguns segundos. Sem nenhuma palavra, o menino me pega no colo e sai comigo porta à fora, a mulher o seguindo alguns passos atrás.
Os dois me levam até outra sala branca de hospital e me ajudam a deitar sobre uma cama móvel e me botam sob as luzes de uma enorme máquina barulhenta no centro da sala.
—Preciso que fique quieta agora, Beatrice.- Ele me diz.- A bala que te atingiu acertou sua coluna. Se você não sente suas pernas, precisamos saber se a paralisia tem relação à algum ferimento local ou é um dano neurológico, como sua amnésia.
—O que aconteceu para eu estar aqui agora?- Questiono.
—Vamos te explicar tudo, eu prometo.- Caleb responde.- Mas primeiro temos que ter certeza de suas condições físicas. Eu não vou me perdoar se você ficar com alguma sequela por minha causa.
—O que quer dizer com isso?
Ele não me responde, apenas me ajeita deitada no colchão e se junta à mulher do lado de fora da sala. Posso vê-los atrás de um vidro escuro conversando e mexendo nos computadores que controlam a máquina onde eu estou.
Ouço um tic tuc constante e a máquina sobre mim se ilumina mais e começa a se mover quase um metro acima do meu corpo. A cada parada da máquina sobre mim, ouço um clique como o de uma fotografia até que a máquina vá até meu pé e suba até minha cabeça mais uma vez.
Minha cabeça volta a doer. Tento me manter acordada enquanto eles parecem analisar as imagens coloridas que vejo refletidas na tela dos computadores, mas meus olhos começam a pesar como se eu não dormisse há dias, não consigo mais manter meus olhos abertos e caio no sono.
Quando acordo de novo, percebo que estou em um quarto novo. Ainda estou no hospital, mas a cama onde estou deitada é de melhor qualidade, há uma poltrona marrom ao lado da minha cama, a janela aberta expõe uma cidade iluminada, as cortinas balançando com o vento e permitindo a luz da lua entrar no quarto. Sobre a mesa ao lado do colchão, há uma bandeja com uma jarra de vidro com suco de laranja até a borda, um copo limpo ao lado e um prato de janta ainda fumegante, como se tivessem acabado de deixá-lo aqui.
Tento me levantar, mas ainda sinto dor. Quando enfim consigo alcançar a bandeja de comida, a porta do quarto se abre, revelando o mesmo garoto de antes, mas ele se limita a ficar me olhando.
Caleb, vendo que acordei, sorri ao se aproximar de mim.
Ele me ajuda a sentar no colchão e me entrega a bandeja, sentando na poltrona ao meu lado e permitindo que eu me alimente.
—Você dormiu por algumas horas, Beatrice.- Ele me explica enquanto como o espaguete da minha janta.- Os resultados dos seus exames já saíram. Sabemos o que você tem.
—E você vai me dizer por que não posso mover minhas pernas?- Pergunto.
—Sim, mas imagino que você esteja se perguntando como veio parar aqui, visto que não se lembra de nada.
Assinto.
—Até que ponto vai sua memória?- Ele me pergunta.- Qual a última coisa que se lembra?
—Eu me lembro das facções.- Explico-lhe.- Sei que me chamo Beatrice, lembro da minha infância também. Muito pouco, mas lembro. Sei que te conheço, Caleb, mas não me lembro de onde. Não sei o que é Nova York, mas lembro de Chicago e lembro da Cerimônia de Escolha, mas não sei qual foi minha decisão. Depois disso, mais nada.
Ele assente, apenas me ouvindo.
—O que aconteceu comigo, Caleb?
—Você parece ter amnésia retrógrada.- Ele parece murmurar para si mesmo.- Pode recuperar as memórias que esqueceu. Por enquanto, termine de comer, há muita coisa que preciso te contar.
Fale com o autor