Perseguição
1 Capítulo Único
A menina corria. Tinha medo, muito medo. Não podiam pegá-la. Caso a alcançassem, estaria perdida. Não era mais a simples brincadeira de pega de alguns anos atrás. Seres mascarados a seguiam, cada qual mais coberto que o outro. Chamavam seu nome com vozes suaves, sombrias, tenebrosas, modificadas.
E ela corria. Apesar das dores em seus músculos. Apesar das feridas abertas. Apesar de não ter para onde correr sem encontrar mais desses seres.
Então ela avistou mais adiante, a entrada de um banheiro no canto à esquerda, "escondeu-se" no banheiro e trancou a porta. Respirou fundo e tentou se lembrar do que fizera para estar nessa situação, mas nada vinha à mente. O sangue escorria por suas costas e tingia a blusa de vermelho. Já estava em seu limite. Olhou no espelho, ofegante, recordando de como chegara ali.
Recebida com sorrisos, com brincadeiras, coisas nunca antes vistas e histórias nunca antes ouvidas. Tantos presentes ela recebia, tantas surpresas lhe faziam. E a menina, cada vez mais maravilhada com tudo e com todos, se esquecia de si.
Certo dia então, lhe chamaram para uma nova surpresa, e ela, contente, seguiu a todos. Ao chegar no local marcado, descobriu que surpresas também podem machucar. Arrancaram-lhe as asas enquanto riam e perguntavam "Divertido, não?". Ela ainda não sabia o que a esperava e continuou a sorrir, apesar da dor. Então eles lhe mostraram um vaso com a planta que ela tanto amava, mas esquecera de cuidar. Ela estava seca, frágil, mas firme e viva. Desfolharam a amada planta, quebraram os talos, arrancaram as raízes. A cada toque na planta, a menina se contorcia. Perder as asas não era nada em comparação.
Não só isso, mas a cada folha perdida, sua visão melhorava. Ela estava cega e não sabia que aqueles sorrisos nada mais eram do que máscaras, máscaras de olhos vazios que sorriam sadicamente, malignamente.
- Quem... quem são vocês? — uma pergunta estrangulada saiu de seus lábios.
Um dos mascarados afastou-se do grupo e aproximou-se da menina com seu rosto falso. Ele então começou a tirar a máscara, ou tentar, pois esta estava colada e, ao ser tirada, levava consigo pedaços de pele e deixava a face, com partes em carne viva, sangue, músculos e órgãos expostos, no formato exato da máscara. Só faltava o sorriso e os olhos.
- Quem somos nós? Você nos conhece tão bem, logo descobrirá por si só.
E enquanto ele colocava a máscara de volta, ela viu ali a deixa para fugir. E foi assim que a caça começou. Sem mais nem menos.
A menina inspirou fundo de novo e fechou os olhos, pensando num meio de fugir dali e se livrar dos perseguidores. Não tinha mais tempo. As batidas na porta se intensificaram. Imaginou prender os seres no banheiro, mergulhá-los na privada, cortá-los com cacos do espelho. Desistiu de tudo. Não podia fazer nada disso, pois deixaria de ser ela mesma.
Aceitando o fim inevitável e sentindo as lágrimas caírem, colocou a mão sobre o coração e sorriu. O batimento parara. Ela abriu os olhos e encarou no espelho, o vazio das órbitas.
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