Tinham combinado de ler apenas um pergaminho por dia, pra não entediar, e pra poderem discutir algum assunto que ficasse pendente. Mas Xena estava muito curiosa para saber o que havia se passado na mente da sua amada por todo esse tempo. Queria saber o que ela pensava antes de ficarem juntas, o que ela pensou quando se amaram pela primeira vez, ela queria absorver tudo daquela porta que fora aberta.

Gabrielle não tinha grandes objeções quanto a isso, ela não tinha receios de ser conhecida por inteiro por Xena. Aqueles pergaminhos eram apenas um complemento, algo que ela sempre quis mostrar, mas esperou pelo momento certo. Agora elas tinham uma conexão e uma confiança tão forte, que nada, muito menos o passado poderia abalar.

-Tudo bem, Xena. Pode ler outro. Mas já vou avisando que nesse dia eu estava muito brava com você.

-Por que?

-Ah, lê que você vai saber.

[Pergaminho III]

Ahhh!! A Xena me irrita. Tá, não é sempre, mas hoje ela me irritou demais. Ela pensa que só porque é uma guerreira ela sabe tudo. Hoje ela simplesmente não ouviu nada do que eu disse (e eu sei que iria funcionar), e me deixou numa taverna, cheia de bêbados e pervetidos, enquanto ia “arrumar” as coisas. Não dá nem pra descrever as coisas que eu tive que aguentar enquanto esperava por ela. Aliás, quando ela voltou, fingiu que nada tinha acontecido. Veio toda boazinha. Nem pra perguntar se eu tava bem, se alguém tinha me incomodado. Começo a me perguntar se isso vai mesmo dar certo. Ela não quer me ensinar nada do que ela sabe, mas me deixa em qualquer lugar como se eu também andasse por aí com uma espada, uma rosquinha afiada, como se eu tivesse toda aquela flexibilidade com a minha perna, ou toda aquela força nos meus braços. Estou muito magoada, porque ela nem se preocupou comigo, pensei que ela ligasse pra mim, pelo menos um pouco.

— Gabrielle, você sabe que eu te deixei lá pra te proteger. Seria muito pior se você tivesse ido comigo.

— Amor, você não precisa se explicar agora. Isso é passado. Você acha que eu ainda me importo? Eu sei que você sempre fez isso pra cuidar de mim.

— Eu não percebia que te machucava naquela época, eu não tinha a mesma sensibilidade que tenho agora. Só sou assim hoje graças a você.

— E eu só sou quem sou, graças a você.

Se olharam e sorriram, se beijando docemente.

Ela foi pescar, mas já está voltando. Mas realmente não estou afim de falar com ela agora. De noite volto a escrever. [...] Estou morrendo de sono, mas eu disse que voltaria a escrever. Esfriei um pouco a cabeça. Ainda to brava, mas um pouco menos. Infelizmente ela já sabe como me ganhar (estou ficando muito previsível). Estavamos arrumando as coisas para dormir, eu estava esticando as peles e ela é encarregada de acender a fogueira. Percebi que ela estava demorando, eu tava ficando com frio e já ia virar pra brigar com ela, que me surpreendeu com uma flor branca linda, colocou no meu cabelo e ficou me olhando. Não sei porquê, mas fiquei sem saber o que fazer, senti que meu rosto estava corando, disfarcei e continuei a ajeitar as peles. Não entendi nada daquele momento, mas me fez ficar mais calma... Melhor eu dormir. Está frio hoje, melhor eu puxar minha pele um pouquinho mais perto da dela. Só pelo frio. É....só por isso....ou talvez seja melhor eu ficar aqui... Ops..ela acordou...

Gabrielle.

— Aí eu acordei e te chamei pra perto de mim. Acho que eu estava adivinhando.

— E qual foi a daquela flor, hein?! Você não sabe o dilema em que eu fiquei depois.

— Foi sem pensar. Eu vi a flor, vi você...Acho que eu já te amava sem saber.

[continua]