Perfídia
1 No noticiário estão falando mentiras
Um balão subiu pelo céu,sua cor era verde. Tudo o que sobe,dizem, tem de descer. Observei enquanto lá em cima,em meio as nuvens,o balão explodiu e seus fiapos choveram em meio aos arranhas-céus da capital.
Olho para a cidade por 5 segundos, e então não consigo mais. A fumaça é tamanha que preciso colocar a cabeça para dentro,fechar a janela e correr até pegar uma Bomba Purificadora de Ar. Como o mundo se tornou irrespirável,a saída daqueles que podem pagar é comprar um desses aparelhos modernos. E quem não consegue comprar,se vira com o ar venenoso.
Depois de retomar o ar,decido ligar a TV,sentar-me no sofá. É engraçado a forma que os noticiários mudaram. Hoje não mostram mortes nem fome. Mostram a falsa paz que alguns conseguiram. O que é paz,por falar nisso? Nunca saberei dar uma definição concreta. Acho que é poder correr e respirar todo ar puro que existe guardado nas florestas, mas é proibido sair da cidade. Lá fora é perigoso.
Quando você vive desde que nasceu em um apartamento pequeno como o meu, decide sonhar com algo maior. Eu nunca fiz nada além de trabalhar,voltar para casa,ver TV,dormir,comer,trabalhar,voltar para casa,ver TV,dormir,comer. É como se isso fosse o destino de todos na capital,por que então eu não consigo ver nisso como algo natural ?
No noticiário estão falando sobre o como o país melhorou depois que as pessoas passaram a fabricar mais. Não existe fome. Não existe insatisfação. São todos seres que se dizem felizes como nunca na história. Nenhuma mulher se sente mais escravizada pelos filhos e marido, a comida vem pronta,os robôs limpam a casa. A vida de todos é perfeita.
Por que isso não me convence?
Me levanto. Abro mais um pouco a janela. Na rua consigo ver pessoas com máscaras de ar. São poucas as que se arriscam. O ar é tão poluído que eles precisam de tubos com oxigênio. Quase ninguém decide sair de casa a passeios,saímos no máximo para o trabalho. Algo me chama a atenção,entre essas poucas pessoas um delas começa a correr. Corre como um bicho que decide fugir do cerco. É uma menina, ruiva. Ela ignora o aviso sonoro que diz que você não pode passar da linha que está riscada de azul envolta da margem da cidade.
Ela faz algo que me surpreende. Mas não consigo entender o porque de se fazer. A garota ruiva pula o muro alto que circula a capital — protegendo a cidade dos animais ferozes que existem no sertão.
Eu sei que a liberdade é muito atraente,mas fugir da cidade não é uma solução. Lá fora ela vai morrer,e isso me parece insano. O que há lá além de sertão,plantas acidas e animais do tamanho de prédios que devoram pessoas apenas com uma mordida?
Se você assiste TV,está bem alerto sobre os perigos de sair da sua cidade,fora a proibição. Que tipo de louca passaria por aquela barreira alta para morrer,assim de graça?
Fecho a janela com um baque. A noite cai na mesma velocidade. A TV na sala,como sempre acontece, me envia uma mensagem de alto-desligamento.
O DESCANSO FAZ O TRABALHO ROMPER. BOA NOITE.
Não que eu sempre obedeça ao comando — mas é estranho o quanto é impossível me manter acordado após ler a mensagem. O sono ganha o corpo,como se estivesse programado pra isso.
Me desliso para debaixo do cobertor,pronto para dormir. Antes que o sono me vença, em minha mente aparece a garota ruiva pulando o muro da cidade. Então o motivo se torna claro: deve haver uma vida além da cidade. Uma vila,onde tudo seja fácil e respirável. Em meio as nuvens de sono, começo a me convencer que um dia irei para lá.
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