Perfume De Anjo

2 Perume de Anjo - Capítulo 2


Notas iniciais
Demorei, mas estou postando mais um capítulo. Espero que gostem.

Noah se comportara muito bem durante a viagem até a casa de Laurence. Mas o seu pequeno estômago começara a reclamar assim que puseram os pés dentro da garagem.

— Sr. Laurence, precisamos comprar alguns suprimentos para alimentá-los. Leite e creme de arroz ou milho... Temos que comprar fraldas e algumas roupas... ele tem apenas duas ou três mudas de roupas... – Ela deu uma pausa ao olhar nos olhos da criança, aquela cor magnífica chamava bastante atenção. – E... eu preciso ir buscar algumas peças de roupas, e meus documentos que estão lá no Casarão...

— Eu vou acompanha-la até o Casarão... Algo me diz que se você voltar lá, sozinha, terá que enfrentar alguns problemas...

— Antes de ir buscar minhas coisas, precisamos alimentá-lo... – Nádia olhou-o, e logo a bolsa de suprimentos que a madre deixou. – Tem só mais uma mamadeira aqui... ele pode aguentar mais umas duas horas até pedir novamente...

O pequeno Noah se mexeu incomodo pela fome, resmungou apenas, mas não chorou com desespero.

Segundo o que a madre dissera, ele era um bebê bastante tranquilo, e dormia, na maioria do tempo.

Ao adentrar em casa, Laurence deixou as chaves em cima da mesinha, próximo ao telefone, e logo chamou Nádia para acompanha-lo a um dos quartos em que se referira.

O quarto era grande e havia muitas prateleiras com livros por todos três das quatro paredes. Havia também uma cama de solteiro ali, uma escrivaninha e uma cadeira.

— Este será o quarto dele. Era o meu quarto quando meus pais ainda eram vivos. Após eles falecerem, eu fiquei com o quarto deles e deixei esse para hóspedes. Vamos reforma-lo e deixa-lo mais infantil... deixo com você a decoração... – Nádia olhou-o, estava incrédula, mas aceitou a oferta.

— O Sr. Tem certeza de que quer que eu venha morar aqui? – Ela olhou-o, e ele apenas respondeu com um sorriso.

A Ruiva o acompanhou com os olhos quando ele saiu do quarto e parou na porta.

— Venha conhecer o quarto onde você vai ficar. – ele chamou ainda sorrindo.

Nádia olhou-o com ternura, acompanhando-o em seguida.

Ela adentrou o quarto, era muito bonito e tinha uma cama grande e uma colcha branca bordada com algumas flores azuis e folhas verdes... o travesseiro tinha um bordado inglês brancos, azuis, verdes e prateado acompanhando os desenhos a da colcha. Havia também uma escrivaninha e uma cadeira e no outro canto um pequeno closet. Havia também uma pequena penteadeira no canto próximo a um dos criados mudos, onde havia um porta retratos com a foto de um cachorro da raça Golden. Via-se que era o cachorro que o acompanhara as tardes para o passeio.

— É aparentemente um quarto de mulher... – Nádia identificou rapidamente e Laurence a olhou.

— Ah... – ele coçou o lado do rosto, e continuou. – Eu estava esperando que um dia Lilian viesse morar comigo... antes esse quarto era da minha irmã, ela se mudou para a África depois que nossos pais se foram. Ela faz parte de uma ONG que ajuda pessoas com HIV... é um trabalho árduo e difícil, ela é médica.

— Muito bonito... da parte dela... – Nádia fez uma pausa. – e o cachorro?

— Era dela, mas ela não teve escolha de leva-lo e deixou comigo... o nome dele é Tigo.

— Tigo? Que nome estranho...

— Bom... agora que você já conhece seu quarto, e o de Noah, vamos ao mais difícil! – ele falou com tom preocupado. – Vou pedir que faça uma lista do que precisa e eu vou até o mercado mais próximo para comprar... – Ele viu Nádia assentir com a cabeça, e logo olhou Noah em seu colo, ele dormia novamente depois de devorar a ultima mamadeira que a madre havia deixado.

Nádia era uma ex-prostituda, mas tinha uma índole sem duvida muito valiosa, sua lealdade a Lilian foi até o extremo. Ela deixou tudo para trás e recomeçou a vida do zero ao lado de Laurien, eles mantinham um relacionamento de amizade muito grande e foi assim até os primeiros cinco anos de Noah.

***

Noah era uma criança bastante tranquila e obediente. Brincava o tempo todo e adorava desenhar, mas geralmente seus desenhos eram relacionados ao céu, nuvens e pássaros.

— Nádia não acha que deveríamos levar o pequeno no psicólogo? – Laurence comentou depois de pousar as chaves sob o aparador.

— Não tem nada de errado com o menino Laurence... ele está bem... – ela começou em tom de aviso, não gostava quando Laurence começava com aquela conversa.

— Os professores me ligaram essa manha, ele não segue as disciplinas impostas, eles pedem para que ele desenhe uma floresta, a família, ou seja lá qual for o motivo, ele só desenha coisas relacionadas a céu, pássaros, nuvens, sol... Deus isso é estranho demais... –ele parou de repente e olhou o menino no canto, Noah o observava e uma lágrima apenas estava escorrida em seu rosto, mas o menino não estava chorando naturalmente. Então veio aquela lembrança:

“(..,) essa criança é especial de alguma forma. – ela completou, deixando Laurence um pouco desperto.

— Mas ele tem alguma coisa diferente? – ele perguntou com um meio sorriso, um pouco incrédulo.

— Eu poderia muito bem dizer que ele é um anjo, mas eu sei que pela incredulidade de suas palavras, seria inútil. Ele tem uma marca de nascença, duas marcas na verdade, é como se fosse um vê de cabeça pra baixo nas costas, parece que arrancaram duas tiras de pele das costas dele, mas é só uma marca, não uma cicatriz...

— Anjo é? Claro, ele é um anjo, e será até ter maldades no coração, como qualquer ser humano.(...)

— O que foi? – Nádia olhou para Laurence e depois para Noah. – Seu estúpido, olha o que fez...

— Não mãe... – o menino a olhou, logo levantando-se e segundo caminhando normalmente para o quarto.

— Mas? – Laurence começou, mas se encolheu ao ver a expressão furiosa de Nádia.

— Sem jantar por três dias! – Ela saiu pisando duro, e foi em direção ao quarto do menino.

— O eu fiz dessa vez, Oh God! – Ele levantou as mão até a altura dos ombros deixando os braços caírem em um gesto de indignação.

Semanas após o acontecido, finalmente Nádia concordara em levar o menino ao psicólogo, que o avaliou, e como Nádia havia dito, não havia nada de errado, pelo menos nas primeiras seções.

O mês seguiu tranquilo depois do acontecimento, até uma sexta-feira à tardinha, quando Nádia voltava com o menino para casa.

— Mãe está vendo aquilo? – Noah apontava para um beco. Havia ali uma lixeira bem grande de ferro e um cão imundo saia do local, mas Nádia olhava para a indicação do dedinho de Noah e ele não apontava o cão sujo.

— O que meu amor? – ela abaixou para ficar quase da altura do menino, e observou o local.

— Ele está dando tchau para mim? – Noah sorriu e acenou de volta.

— Não tem ninguém ali Noah... – Nádia olhou para o menino e ele devolveu o olhar cessando o sorriso. E quando ele olhou novamente, realmente não havia mais ninguém.

— Ele foi embora... –disse, começando a andar novamente.

Nádia levantou-se, segurando a pequena mochila do menino. Olhou mais uma vez para o beco, e logo continuou, preocupada.

Quando chegou em casa, pegou Noah no colo em um abraço terno, e o sentou na bancada da cozinha, passou a olhá-lo nos olhos. Aqueles olhos em um tom de âmbar e muito brilhante. O menino apenas brincava com as mãos.

— Quero comer panquecas hoje... eu me comportei na escola... – a voz infantil fez Nádia tremer, em um misto de felicidade e emoção.

— Certo... – desmoronara ali qualquer que fosse o questionário que ela faria, por conta do que acontecera àquela tarde. – Vamos tomar um banho, depois vou preparar seu jantar.

Nádia o pôs no chão e o menino correu para o banheiro. Ela o seguiu e logo abaixou-se. Tirou primeiro a blusa que o menino vestia e quando ele começou a tirar o resto das roupas Nádia ficou parada um tempo, observando aquelas marcas nas costas dele. Nádia esticou a mão, e tocou.

Noah deu um pequeno gemido, e ela afastou a mão rapidamente.

— O que houve? Está doendo suas costas?

— Não... a senhora apertou... – as lágrimas brotaram nos olhos e ele começou a soluçar.

Era a segunda coisa estranha que acontecera em um só dia.

Eram quase onze horas da noite quando Laurence chegou exausto. Banhou-se e seguiu para o quarto, mas parou na porta do quarto de Nádia encontrou-a chorando sem explicações.

— Mas o que...? – ele adentrou o quarto e sentou-se ao lado dela na cama.

— Tem alguma coisa muito errada com ele... – Ela o abraçou e ele retribuiu o abraço, acariciando as costas de Nádia.

— Calma, o que aconteceu? – ele segurou nos ombros de Nádia, forçando-a a olhá-lo.

— Ele está vendo coisas... vendo coisas que não existem. – Ela disse finalmente e Laurence deu uma risada seca.

— Ele é só uma criança Nádia, tem seus amigos imaginários, já que não associa-se com os coleguinhas da escola, lembra que o psicólogo dele comentou sobre isso conosco? – Ele explicou, olhando-a com um dos cantos da boca repuxados em um pequeno sorriso.

— Sim, isso eu já tinha pensado...

— Então doçura, porque está assim? – ele não esperou ela terminar.

— Eu fui dar banho nele hoje, e toquei nas marcas das costas dele... ele chorou e disse que eu tinha beliscado nele... – Laurence a olhou incrédulo. Ele a conhecia e sabia que ela jamais fizera nada para machucar Noah, ao contrário, o tratava com respeito e muito carinho.

— Ele poderia estar sensível, não se preocupe... – Laurence beijou a testa de Nádia e levantou-se. Seguiu para o quarto de Noah, e ele dormia profundamente. Seu quarto estava todo iluminado com um abajur giratório, que propagava desenhos de nuvens, um sol, e do outro lado lua e estrelas.

Laurence observou o menino na pequena cama, e sentou-se de vagar. Podia ver o peito da criança subindo e descendo em um ritmo tranquilo, e seu rosto estava tão pacifico. Com delicadeza, ele virou o menino de lado, e levantou de vagar o pijama. Olhou as marcas avermelhadas, não havia nada errado, estavam como sempre foram. Então ele baixou novamente o pijama e fez uma carícia nas costas do menino, que suspirou, virando-se depois. Continuou a dormir.

***

Era mais um domingo em família, Noah agora estava com oito anos. E como toda criança brincava com os balões da festa que acontecia em comemoração a volta de Laura, a irmã de Laurence.

— Nossa fico tão feliz que tenha se casado finalmente, quando eu recebi a notícia fiquei eufórica, não tinha certeza ainda, mas ao ver Nádia, vi que seu gosto é bastante aguçado! Ela é maravilhosa. – Laura dava leves tapinhas nas mãos de Nádia, que estavam sendo segurada. E o menino é... bom... diferente.

— Ele não é nosso... não de sangue. Nos o adotamos... – Laurence falou finalmente, um pouco impaciente.

— E ele sabe disso? – Laura perguntou olhando-o

— Sabe, não mentimos para ele, e um laço que temos, um... termo melhor explicando, nos não mentimos para ele e ele não mente para nós. – Nádia olhou-a.

—Ele é só uma...

— Criança... nos sabemos, mas ele entende perfeitamente todas as regras. É um menino com o qual não iremos nos preocupar, em nenhum aspecto. – Laurence comentou, gesticulando para enfatizar.

— Mas me conte – Laura mudou de assunto repentinamente. – como se conheceram, o que levou vocês a se casarem... nossa estou por fora da vida em família a muito tempo, não me deixem ansiosa...

— Bom... – Nádia começou, após ela e Laurence se entreolharem. – Nos conhecemos através de minha amiga Lilian... na verdade...

— Na verdade nos conhecemos em um convento... – Laurence interrompeu Nádia, pois sabia o que sua irmã diria se descobrisse que ela era uma ex-prostituta. — quando fui buscar o Noah... ele era filho de Lilian, uma mulher digna de ser chamada de uma grande amiga, de Nádia... ela faleceu após dar a luz ao pequeno e nós combinamos de cuidar do menino juntos, acabamos nos envolvendo... eu estava carente ela também... então...

— Então você se apaixonou pela babá do menino que adotou! – Laura comentou, feliz, mas um pouco decepcionada.

— Eu acho... – Nádia começou, olhando desapontada, para o agora marido.

— Nádia, pode pegar mais alguns salgadinhos... estou começando a ficar com fome... – Laurence pediu, a olhando com ternura, então ela levantou-se, suspirou fundo e logo seguiu para a cozinha.

— Ela está bem? – Laura observou.

— Ah... ela fica assim as vezes...

— Pai...— Noah o chamou, e Laurence olhou, e também sua irmã Laura, que não gostou muito da expressão utilizada pelo menino. – Quando vamos ao parque com a Srta. Laura?

— Não disse que estava livre das mentiras Laurence? – Laura olhou para o menino feio.

— Sim Srta, Laura, eu não estou mentindo quando o chamo de pai, pois eu sei bem onde me encaixo nessa família, e é isso que vale... – Noah a respondeu, Laurence deixou um dos cantos da boca erguer-se. – Vou para meu quarto pai.

— Você não vai dizer nada Laurence? – protestou, furiosa.

— Ele não mentiu em nenhuma das palavras Laura. Você não o conhece então não o julgue. Não pode querer ser como nossa mãe quando não é. – Laurence falou tranquilamente e levantou-se, entrando em seguida atrás de Noah.

Nádia saia na hora, e não entendeu, colocou a bandeja com os salgadinhos sob a mesa e sentou-se.

— O que aconteceu? – ela olhou para onde o esposo foi, e logo para Laura, que ainda parecia furiosa com o acontecido.

— Aquele menino, ele muito mal educado! – Laura disse apontando — eu exijo que ele me peça desculpas pelo que disse!

— O que? Não estou entendendo... – Nádia começou, logo olhando para Laurence que havia acabado de chegar novamente no local. – Laurence sua irmã está magoada, o que Noah disse para ela?

— Não se preocupe Nádia, ela está aborrecida porque Noah apenas disse-lhe a verdade.

Não era mais que onze da noite quando todos se recolheram em suas camas quentes naquele dia. Laura havia acabado de chegar de viagem e acomodou-se no quarto que antes era de Nádia. E ele ficava de frente para o quarto de Noah.

Laura estava visivelmente revoltada ainda por causa da resposta do menino, e isso parecia render uma briga se continuasse. Durante todo o dia, Noah não mais falou com ela, e ficou o tempo inteiro no quarto, lendo.

Meia noite, e Laura finalmente tomou coragem para levantar-se. Caminhou devagar no quarto para não fazer as tábuas do assoalho rangerem. A porta do quarto de Noah estava entreaberta, e ela empurrou a porta de vagar. Noah abaixou o livro que lia e olhou para ela. Os olhos do menino brilhavam na semi luz do abajur.

— Estava aguardando sua visita, Srta. Laura. – Ele falou, fechando o livro e sentando-se ereto na cama. Passou a encará-la.

— Como assim? – Laura pareceu muito surpresa.

— Sei que não gosta de mim, e percebi isso quando olhou para mim lá na sala hoje, quando chegou.

— Não, isso não é verdade... – ela aproximou-se e o menino fechou os olhos.

— Não acredito em suas palavras. Eu respeito a senhorita, e vou continuar assim. Só acho que é inútil esse ressentimento, meus pais adotivos não vão me desamparar por um capricho seu. – Noah finalmente deitou e se cobriu e Laura ficou estática parada aos pés da cama do menino.

O que tinha sido aquilo, pensou ela, ele era apenas um menino de 8 anos. Como falava daquela forma.

Laura saiu do quarto, parecia bufar.

— Laura, o que estava fazendo no quarto de Noah? – Laurence a pegou de surpresa, quando ela acabava de fechar a porta do quarto do menino.

— Ah! Eu estava... bem... – Ela tentou explicar-se, mas acabou a falar a realidade. – Eu fui falar com ele sobre o acontecido de hoje à tarde, bem eu fiquei bem aborrecida com aquilo, e queria saber o motivo de tanta grosseria.

— Ele não foi indelicado com você a nenhum momento, apenas falou o que estava sentindo e...

— Ele... fala como um adulto... Não deveria se comportar assim. Eu o encontrei lendo e...

— Noah sempre foi muito inteligente, sempre gostou de ler e aprendeu cedo, com cinco anos ele já sabia escrever algumas palavras. – Ele falava com orgulho e Laura percebeu o carinho das palavras.

— Eu... vou deitar... amanha bem cedo tenho que ir à corretora, quero comprar uma casa por perto.

— E a ONG? – Laurence a olhou espantado.

— Estou cansada irmão, preciso de férias. Estou nessa há quase quinze anos. – ela comentou finalmente, e seguiu depois para seu quarto.

A manha não tardava a chegar, e uma chuva fina caia sob a cidade. O frio se intensificou.

Nádia levantou-se sorrateira naquele dia. Foi certeira no aquecedor e o ligou. Logo seguiu para a cozinha e começou a preparar o café da manha. Eram quase seis da manha e ainda estava muito escuro.

— Mãe... está frio... será normal isso nessa época do ano? – Noah caminhou e sentou-se a mesa.

— Noah, porque não dorme um pouco mais, você vai para a escola só as sete!

— Perdi o sono... vou tomar um banho... faz para mim aqueles ovos na manteiga com bacon? – Noah desceu da cadeira e caminhou até o banheiro e Nádia o acompanhou com o olhar.

Ele estava acostumado a acordar cedo, mas havia algo de errado com ele naquele dia, ela não sabia o que, mas tinha.

Após o menino tomar seu banho e desjejuar, Laurence o levou para a escola, o dia correu tranquilo. Aparentemente aquela família não tinha nada para ser infeliz, e Laurence estava muito bem, pois sua irmã estava agora por perto. Ele pretendia conversar com ela sobre o passado de Nádia, pois havia um juramento entre todos os membros da família, nunca deveriam mentir. Ele só precisava de tempo para programar o que diria.

Tantas tardes se passaram, e o outono estava quase no fim, e o incrível inverno estava quase aflorando. E ainda assim, o frio era cortante.

A lareira estava acesa, já era noite e Noah estava sentado bem próximo, em suas mãos, um grosso livro, dois cadernos abertos no chão e alguns lápis e canetas também faziam parte do cenário. Os cabelos muito cinzas haviam sido cortados pela ultima vez aos 3 anos de idade, e naquela idade em que se encontrava, os cachos caiam pelas costas, uma touca marrom com cobertores de orelha esquentava.

— Não deveria ficar tão perto do fogo Noah... – Laura olhou-o de esguelha, não tirando os olhos de um livro de receita, onde pesquisava o jantar formal que daria dali a alguns dias.

— Eu sei, mas está bastante frio, e eu quero ficar mais perto do fogo para me aquecer, e esse calor me ajuda a me concentrar no meu dever de casa. – Respondeu ele, anotando depois algo no caderno e logo se voltando para os gráficos do livro.

— Eu acho também – ela fechou o livro e se endireitou no sofá. – que deveria fazer seu dever de casa em seu quarto... – ela disse olhando-o com um olhar cortante.

Noah apenas fechou o livro e voltou a rabiscar o caderno, sem prestar muita a atenção no que sua tia dissera.

— E está ficando tarde...

— Qual o seu problema comigo? – Noah soltou o lápis e a encarou frio e determinado. – Desde que chegou a única coisa que sabe fazer é implicar comigo, eu nunca fiz nada contra a Srta., e vive para me atormentar!

— Não estou implicando com você... eu só acho que...

— Sempre acha as coisas erradas, primeiro se meteu em como ou não devo chamar as pessoas da minha família, e logo veio a história que eu deveria ter o cabelo encurtado, pois: “Meninos devem ter os cabelos curtos, para que sejam mais parecidos com meninos!”— Ele fez que imitava ela falando, logo levantando as mãos, viradas com a palma para cima, mas logo as baixou e encarou feio Laura. – pare de se meter na minha vida, na vida da minha família...

— Está se esquecendo de uma coisinha mocinho – Laura o olhou com os olhos quase fechados em tom ameaçador. – estou nessa família a bem mais tempo que você! E não acho que tenha essa autoridade toda para falar comigo... mesmo porque, eu sou mais velha do que você...

Noah abriu a boca, mas preferiu ficar quieto. Começou a juntar seu material na mochila, calmamente. Ao terminar, olhou o fogo crepitando dentro da lareira. Levantou-se de vagar e seguiu, subindo as escadas à esquerda adentrou seu quarto e fechou a porta de vagar.

— Esse moleque me tira do sério! –Laura resmungou voltando-se para o livro.

Algum momento depois, Noah terminava finalmente seu dever de casa, e seguiu para o banho. Logo voltou e recostou-se em sua cama, cobriu-se com um cobertor e escolheu algum livro que ainda não havia lido. Precisava fazer uma redação para a aula no dia seguinte e precisava de alguma ideia.

Algumas suaves batidas na porta o fez endireitar-se na cama.

— Entre... – pediu com a voz arrastada.

— Trouxe um chocolate quente! – Era Laurence. – Deveria ficar lá embaixo... a lareira esta acesa.

— Quanto tempo o senhor chegou? – Noah aceitou a caneca com o chocolate e Laurence sentou-se aos pés da cama.

— Meia hora... – ele respondeu observando os olhos de Noah. – Aconteceu alguma coisa?

— Hum... – ele resmungou. – Prefiro não falar sobre, tenho que amadurecer a idéia.

— O que? – Laurence olhou-o, achando engraçado o jeito que ele havia falado. – Você está falando de um jeito muito adulto! Acho que está precisando de férias desses livros, desse quarto, Noah! Vai brincar, vai jogar vídeo-game...

— Pai... Eu quero ser assim, eu gosto de ser assim...

— Eu me orgulho de você filho. Só quero que seja feliz. – Laurence deu um sorriso, e Noah correspondeu. – Vou deixar você ler seu livro. – ele levantou-se e depois de dar um beijo na cabeça do menino saiu do quarto, fechando a porta de vagar.

Na sala de estar, Laura conversava com Nádia, discutiam sobre o jantar que dariam. Algo especial estava para acontecer.

Alguns flocos de neve começavam a cair naquela manha de sexta feira, o inverno havia chego com força total, mas nada impedia o esforço de um certo menino para estudar.

Levantou ainda não eram seis da manha. O aquecedor estava ligado, mas ainda assim o frio era cortante. Despiu-se de seu pijama azul, com várias nuvens desenhadas e correu para o banho mais quente que pode colocar. Ao terminar, escovou os dentinhos, e correu para o quarto. Pegou seu uniforme, uma blusa branca com botões na frente, e uma calça social azul marinho. Habilmente fez o nó da gravata da mesma cor da calça. Calçou as meias e depois os sapatos e tratou de pentear os cabelos, os deixando soltos para aquecer suas costas. Vestiu por fim uma jaqueta preta muito volumosa e quente. Pegou também luvas e uma touca com cobertores de orelha, mas essa era marrom de couro de ovelhas por dentro, tipo de aviador. Ajeitou todo seu material e pegou apenas o necessário para aquela manha, ele faria uma prova importante que o levaria para a próxima série.

Seria apenas uma prova, essa com 80 questões e uma redação sobre o tema de algum livro que a professora de português indicara.

Finalmente, Noah desceu as escadas, e encontrou Nádia e Laura na cozinha, Laurence ainda estava no banho.

— Bom dia... – cumprimentou sem muito entusiasmo.

— Bom dia amor. – Laura aproximou-se e deu um beijo na cabeça do menino. – Está desanimado?

— Não, estou um pouco tenso, minha prova de avaliação vai ser hoje.

— Oh! E você não me contou... Ah... agora entendo porque ficou a semana toda enfurnado naquele quarto, estava estudando.

— Sim – comentou, servindo-se de um pouco de chocolate quente. E pegando alguns biscoitos com gotas de chocolate.

— Se sente preparado para fazer essa prova? – Laura o olhou diretamente, e ele parou com o biscoito no meio do caminho, mas logo mordeu um pedaço, e fez que sim com a cabeça.

— Noah! – Laurence chamou do banheiro.

— Sim pai? – Noah fez que ia levantar-se, mas parou ao ouvir o restante.

— Quero no mínimo um 9,5 nessa prova! Se conseguir terá uma recompensa, aquela recompensa que espera por tanto tempo!

— Não sabe o que mais quero...

— Sei sim filho... – Laurence saiu do banheiro, com a barba feita e com cheiro da loção de barbear. Ele abaixou e cochichou no ouvido do menino. – Um Macbook novinho! E eu deixo você escolher a cor.

— Pai...— ele olhou sério, mas podia se ver o brilho nos olhos âmbar do menino. – Vamos logo se não eu vou me atrasar...

— Laurence, deveria de guardar dinheiro, sabe o que está vindo por aí, deveria reservar alguma coisa.

— Começou... – Noah resmungou.

— Não se preocupe com isso Laura, ainda está muito cedo para pensarmos... – Laurence olhou a irmã, não gostando do que ela dissera. – Vamos Noah.

Nádia observou Laura fulminar o irmão pelas costas, Noah apenas deu uma pequena olhada de esguelha para ela, podia se ver o sorriso nos olhos do menino.

— Está acontecendo alguma coisa que eu não sei? – Noah perguntou, após sentar-se no banco do carona de um Neon verde escuro, que no momento estava com um pouco de neve. Calçou as luvas finalmente.

— Sim filho, mas na hora certa vai saber, O.K.?

— Será nesse jantar que a Srta. Laura vai dar não é?

— Sim... – Laurence suspirou fundo, e ligou o limpa vidros. A neve se espalhou para todo o lado e ele finalmente deu partida no motor. – Vamos para a escola? – Laurence sorriu e logo engatou a marcha, e seguiu.

***

— Laurence, preciso falar com você! – Nádia começou aflita.

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim! Tem uma Margarida na nossa sala, e neste momento está conversando com Laura!

— Isso é sério. Mas agora... não posso sair daqui, estamos em reunião aqui no quartel... tente contornar a situação enquanto puder. Vou tentar sair daqui, o mais tardar em uma hora estarei em casa. Se cuide amor!

— Certo. –Nádia desligou o telefone, no mesmo momento em que Noah adentrou pela porta da cozinha.

— Boa tarde mãe! – o menino caminhou de vagar, e parou frente à ela e mexeu na bolsa, entregando depois o boletim escolar. – Vou subir e tomar meu banho!

— Desça logo para almoçar!

— O.K.!

— Nádia, venha conversar com sua amiga Laura... – A irmã de Laurence chamou-a, feliz por ela ter o mesmo nome.

— Eu vou indo, um minuto para eu preparar o almoço do Noah...- Nádia começou, mas foi interrompida por sua cunhada, que praticamente a arrastou da cozinha pelo braço.

— Não tinha um momento melhor para que você viesse... – Nádia comentou em tom sarcástico.

— Eu sei, mas eu não vim aqui para saber mais de sua vida, quero realmente saber o que aconteceu com Lilian, muitas das meninas de onde você trabalhava ficaram preocupadas com o sumiço de vocês duas.

— Interessante, eu gostaria de saber mais... – Laura interveio, e Nádia olhou feio para a cunhada.

— Não acho que foi uma boa ideia você ter vindo até minha casa. Está sendo inconveniente, não percebeu?

— Ah! Bem, me desculpe. Então você não contou ao resto de sua família em que trabalhava antes de fisgar Laurence?

— Laura... – Nádia avisou.

— Oh, claro que eu não vou estragar a imagem da família perfeita! – Laura levantou-se e depois de puxar o vestido para cobrir mais as pernas, pegou a bolsa. A irmã de Laurence ficou intrigada, e observou a moça de pés.

— Não tenho o que esconder deles... – Ela parou ao ver Noah adentrar a sala.

— Está acontecendo alguma coisa mãe? Laura olhou para o menino, depois para a irmã de Laurence, logo para Nádia e estreitou o olhar.

— Mãe? Esse menino... – Ela olhou mais atenta, e os cabelos cinza a fez lembrar. – Como assim? Lilian...

— Lilian? Porque lembrar dela agora, você a odiava.

— Meninas, não é de bom tom discutir na frente de uma criança.

— Não sou mais tão criança, e depois, o nome Lilian também tem haver comigo. Ela era minha mãe biológica não é? – Noah sentou-se no sofá, e Laura observou suas atitudes.

— Entendi tudo – ela sorriu maliciosa. – só não entendo o eu aconteceu com Lilian.

— Ela morreu logo que Noah nasceu... – Nádia começou.

— E você muito esperta, se fez de boazinha e adotou o menino, aproveitando para ficar com tudo isso que o Laurence oferecia. Certo, e ela dizia que não sabia quem era o pai do menino.

— Noah, suba para seu quarto! – Nádia começou.

— Sim! Mas só para ela saber, — Noah apontou para a mulher a sua frente, e a Irmã de Laurence apreciava tudo da poltrona. – Meu pai não é o Laurence...

Um silêncio absoluto tomou o lugar, e um intenso arrepio desceu pela espinha de Laura, a outra mulher observou Nádia pelo canto dos olhos, comentando seguidamente.

— Lilian saiu devendo a casa, cinco mil dólares, ela usou o dinheiro para fugir e conseguir parir ... essa aberração!

— Não fale assim! Ele é só uma criança!

— O que está acontecendo aqui?! – Laurence chegou encontrando Nádia exaltada. – Você... fora daqui! – ele apontou para a loura e para a porta.

— Laurence o que é isso?

— Cale-se Laura, se não quiser ir embora também!

— Porque trouxe essa puta ao invés de mim? – Laura esbravejou.

— Sempre foi muito invejosa não é, sempre atormentou Lilian, mas não pense que vai atormentar minha família com suas atitudes putres, suma antes que eu mesmo lhe jogue na rua.

— Margoth vai saber de tudo isso, vou infernizar sua vida e destruir isso que chama de lar... isso aqui foi construído sob muita mentira, ela sabe que sua amada esposa era uma prostituta? E que deitava com dúzias de homens por noite! E a mãe daquele pirralho...

— Você se casou com uma... prostituta? Laurence!

O homem pegou Laura pelo braço e a levou até a porta, ela ainda tentou se esguelhar, mas ele a jogou para fora sem piedade! Logo voltou até a sala.

— Sim, ela era sim, mas não mais! – Laurence abraçou Nádia, ela estava tremula e chorava. – vá para o quarto Nádia, vou ter uma conversa com minha irmã.

Logo, Nádia saiu, e os deixou a sós.

— Não tem vergonha? A cidade inteira sabe disso, e você, uma pessoa culta, medianamente rica, isso é uma vergonha!

— Tem vergonha? – Laurence a encarou sério. E logo apontou para a porta. – Ali está a solução para sua vergonha.

— Sou sua irmã... vai preferir uma...mulher da vida a mim?

— Quando eu mais precisei de você, onde estava, ao meu lado? Quando nossos pais morreram você me abandonou sozinho aqui nessa casa cheia de lembranças e fugiu.

— Era o meu trabalho... – ela calou-se e observou as próprias palavras.

—Ótimo ter entendido... – ele virou-se e encontrou Noah, observava tudo com os olhos arregalados. – Noah?

— O que mais eu deveria saber?

— Saber? – Laura olhou-o com malícia. — Você não sabia que suas duas mães eram prostitutas!

— Laura!

— Não, eu já sabia disso... não sabia que...

— Como sabia disso Noah? – Laurence o interrompeu e abaixou-se segurando os ombros do menino.

— Sei de muito mais do que imagina pai... mas isso não vem a caso. Estou falando da menina que minha mãe está esperando!

— Hã? – Laurence e Laura olharam e responderam em coro.

— Nádia! – Chamou ainda olhando interrogativamente para o menino. – Você contou ao Noah sobre sua gravidez?

— Não... estávamos esperando o jantar lembra-se!? – Nádia apareceu perplexa, os olhos um pouco inchados de chorar.

— Noah, como descobriu isso?

— Não descobri, eu apenas sabia. Isso é estranho às vezes. As coisas aparecem na minha cabeça e eu as sei. – Laurence olhou para Nádia, e eles se encararam por um momento.

— Não estão vendo que ele está só querendo chamar a atenção? Ele deve ter ouvido alguma conversa nossa e está falando essas coisas...

— Tia Laura... eu não costumo fazer como a Srta. Já vi várias vezes ouvindo atrás da porta do quarto dos meus pais, e é sempre no mesmo horário, quando eles estão transando!

— Noah! – Nádia sentiu o rosto quente, e Laurence levantou-se e olhou sério para a irmã.

— Isso é verdade? Fala... – Laurence ameaçou.

— Olha, foi só algumas vezes e...

— Não ouse dizer que eu estou mentindo... eu não minto! – Noah observou-a frio, e saiu de onde estava e foi para a bancada da cozinha.

— Não está vendo que ele quer me por contra vocês...

— Está mais fácil ser o contrário, e depois eu sei que desconfiava de Nádia. Sim e dai o passado dela ter sido turbulento... e depois... quero você fora da minha casa amanha de manhã bem cedo.

— Mas? – Laura olhou para os dois, e depois para Noah, que ficou impassível às reações exasperadas que Laura apresentou depois. – Eu vou embora sim, mas vocês vão precisar de mim para cuidar desse bebê que vai nascer.

— Não se preocupe Srta. Laura, eu ajudo a cuidar da minha irmã.— Noah aproximou-se e segurou na mão de Nádia.

— Maldito seja, você deveria ter morrido junto com a sua mãe...

— Laura, não encurte sua estadia aqui, seu prazo pode reduzir de amanha de manha para agora... – Laurence avisou sem dar muita escolha à irmã a não ser ficar quieta.

—Tudo bem, eu vou arrumar minhas malas. – Laura respirou fundo, e saiu da sala.

Nádia abraçou o marido.

— Ela será tão amada quanto eu sou. – ele comentou e Nádia se afastou do abraço. Noah tocou no ventre dela, e a olhou sorrindo.

Uma lágrima caiu do olho esquerdo do menino.

***

Continua...

Notas finais
Obrigada por lerem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.