Perfeito Acaso
1 Até as cortinas se fecharem...
Notas iniciais
O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.
—
Rubem Alves.
Virou clichê. Já souberam da novidade? Agora sentir virou clichê. Não podemos mais nos declarar, nos expressar, não podemos escrever, virou clichê.
Não se pode mais amar, não pode ficar triste, não pode ser feliz, não pode nem se perder, é tudo clichê.
Não podemos dizer eu te amo, nem casa comigo, nem vamos conversar, ou então vamos terminar. Não podemos nos relacionar. Porque é clichê. Fico imaginando onde o mundo vai parar…
Daqui a pouco vai ser clichê dizer bom dia, vai ser clichê agradecer, vai ter clichê todo dia, até viver, vai ser clichê. Então vamos morrer. Mas também não podemos, porque morrer também é clichê.
Sinto em lhe informar,mas de todas as histórias de amor que conheço,todas se tornaram clichês para mim.
Todas elas terminam com seus tristes fins.Não existem precações,nem placas de segurança.Elas te abalam sem você estar preparado para isto.
O final de todas elas é a morte, de um protagonista,um figurante,ou até mesmo do sentimento que ali existiu.
Estamos dentro de um filme que juramos ser um dos mais aplaudidos por todos,enquanto no final dele só restam lagrimas para todos nós.
Em todos os espetáculos,eu e Thayler sempre trocamos olhares profundos,como uma forma de garantir um ao outro que tudo dará certo.
É uma forma de nos enganarmos,entende?Porque a final sempre algo dá errado.
Seja lá as vezes que tropeçamos,erramos a letra,ou apenas nos estressamos quando juntamos o pessoal com profissional.
Ele demorou três anos para me conquistar.
Na verdade ele me teve desde o nosso primeiro encontro,mas até hoje não quis assumir isto a ele.
Não quero que ele saia por ai convencido.
Não quero que ele saia daqui...Nem de mim.
Thayler escolheu a pior época da vida para se apaixonar por mim.
Lembro como se fosse ontem,quando recebemos a ligação de uma voz rouca nos dizendo “Sinto muito” Ele não sentia.
Era Natal,a data de um nascimento,tornou se morte para mim.
A morte da pessoa mais importante de minha vida,aquela que mostrou ser quem eu sou hoje.
Minha mãe...
Aquela que me acordava aos gritos,um dia se silenciou.
Enquanto as lagrimas escorriam pelo caixão,e se camuflavam aos pingos de chuva caindo sobre a terra seca,e lama.
E foi então ali que a deixei,junto com outros que suspiraram pela ultima vez.
Voltamos para casa,em silencio e assim permanecemos por dias,meses,até que decidimos pintá-la.
Queríamos cor e novas lembranças.
Meu pai sempre foi pintor,de telas,seus quadros eram magníficos,por mais que nem sempre fossem tão bem vendidos quanto mereciam.
Em meio a sujeira de nossos rostos e roupas,a casa estava nova,e por algumas horas esqueci daquilo.
Fiquei alguns dias fora da escola,não tinha amigos então ninguém ali sentiria falta minha.
Meu pai desde o nascer do dia até o anoitecer passava dentro do porão empoeirado,que gostava de chamar de atelier.
E eu passava o dia sozinha com meus pensamentos.
Eles me sufocavam.
Foi ai então que troquei as lagrimas por gotas de sangue.
Respiro fundo.
Eram apenas lágrimas,
mas em cada uma delas havia uma decepção diferente.
As laminas naquela época eram minhas únicas amigas,e meus pulsos cortados eram dores sublimes para as que sentia dentro de meu peito.
Nos primeiros dias de aula permaneci em silencio,evitava olhar para os lados.As pessoas causam decepções e eu não queria mais uma em minha vida.
Conheci pessoas que não desistiram de mim,E que lutaram para ouvir a minha voz.
Midge e Chelsea,aquela que nos acompanham em todos nossos espetáculos sempre sentadas nas primeira fileiras.
Elas demoraram a me entender,mas quando finalmente compreenderam-me elas me aceitaram da forma que era.
E não importava se nossos dias começavam em sorrisos,e terminam em lagrimas.Elas estavam lá segurando me para que não cedesse a tentação,de me cortar.
E foi assim por meses até minhas marcas cicatrizarem.
Em um jantar na casa de Midge,finalmente iríamos conhecer seu irmão.
Era Thayler,e enquanto descia as escadas,trocamos nossos primeiros olhares,eu o fiz tropeçar,mas o ajudei a se levantar.
Ele não assume, mas eu sei que ele estava encantado com minha beleza.
Eu o conhecia desde muito antes disso,e sabia que de nada ele valia,só não imaginava que ele era irmão de uma de minhas melhores amigas.
E foi ali que nossos destinos foram traçados.
Ele me causou,dores,tristezas,decepções,e cortes.Mas amou cada corte meu,que tinha o seu nome estampado.
Tornamos-nos amigos,E em meu aniversario,ele me entregou o melhor de todos os presentes,uma vaga no clube de teatro.
Todas as vezes que passava a tarde em minha casa,parecíamos crianças a sós com suas criatividade sem tamanho.
Criávamos coreografias,dançávamos ballet sem sapatilha,o que fazia nossos pés arderem,bolávamos peças de teatro para aquele momento,e ele sempre era a mocinha indefesa.
E eu sempre o salvava,mas o que ele não sabe...É que na verdade ele me salvou.
Um ano se passou,e já estávamos acostumados andarmos de mão dadas,Nos tornamos próximos.
Até que um dia ao final de uma de uma de nossas peças ele segurou o microfone e me chamou ao palco e disse:
–Deixe me curar suas dores,da mesma forma que você cura minha solidão.Amy quer namorar comigo?
E sendo forçada por toda uma platéia que gritava para mim aceitar.Eu aceitei.
Abraçamos-nos e fomos aos beijos para casa.
Contamos a novidade,e todos pareciam saber menos nós.
E mesmo depois de muitas discussões permanecemos juntos.
Midge viajou durante dois anos,e havia sobrado eu e Chelsea.
Mas não por muito tempo,logo ela se apaixonou por Scott e me esqueceu.
Quando Midge voltou de Dinamarca,era o dia de nossa formatura.
Eu em meu belo vestido azul marinho, Chelsea com seu vestido laranja e Midge com uma cor que demoramos a definir.
Até Scott a comparar com um sorvete de pistache.
Depois dos chapéus serem levados ao vento percebemos então que havia acabado.
Agora era a hora de escolher o que definiria nosso futuro.
Estávamos indo para a faculdade e isto me assustava,tudo mudou quando conheci pessoas novas,perdi a vontade de morrer a cada dia.
Eu e Thayler não largamos o teatro,o canto e a dança,criamos nosso musical e com apoio da companhia o apresentamos.
E fizemos um enorme sucesso.
Um dia quando voltei para casa,tudo estava em silencio não ouvia as pinceladas sobre a tela.
Desci até o porão e encontrei meu pai e como suas ultimas palavras ele disse:
–Sua mãe se orgulharia de você assim como eu me orgulho.
Ele fechou seus olhos,e eu pude ouvir seu ultimo suspiro.
Eu o perdi e agora estava sozinha.
O enterramos ao lado de minha mãe e o amor deles foi deixado ali,e levado dentro de mim.
Em seu atelier os quadros mostraram suas dores,e todos os espetaculos meus que ele pode ver...
Me mudei para a casa de Thayler mesmo jovem,não queria ficar sozinha,foi difícil largar minhas lembranças.
Começamos a morar juntos,e aos poucos tudo ali era nosso,tinha nossa cara,e lembrava a nós,e os quadros de meu pai?Bem foram emoldurados e decoravam meu novo lar.
Um dia na frente de um lago,joguei aquelas que me causaram dor as laminas.Senti dor,e quase pulei para busca-las de volta.
Mas todos que me amavam estavam ali e não deixariam que eu fizesse isso.
Eu havia me libertado.
Depois de alguns meses estava pronta ao ataque.
Voltamos com nosso musical.
Chelsea Midge e Scott estão sempre sentados nas primeiras fileiras os primeiros a levantarem e aplaudirem e os últimos a se sentarem.
E desde então estamos nele o palco,causando lagrimas e sorrisos a aqueles que nos assistem.
E por fim,percebemos que não importa o que aconteça,nada nos separa nossos laços estão fortes,somos os protagonistas de nossas vidas.E a morte só virá aos dois...
Quando as cortinas se fecharem.
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