Por Sophia
\"\" A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinícius de Moraes

Meu nome é Sophia Kamer e eu moro na única padaria existente na Rua das Pedras nos Bosques Assombrados. Minha mãe faleceu há alguns meses como consequência de uma cólera muito forte. Desde então eu estou vivendo com meu pai. Não tenho irmãos e somos pobres. O nosso único modo de garantir algo para comer é com o que conseguimos aqui na padaria. Infelizmente ela nunca rendeu tanto quanto o esperado.
Estudei somente alguns anos enquanto vivia em minha antiga casa. Já agora não tenho mais condições de estudar.
Sou rejeitada somente pelo fato de ser mais pobre do que a maioria, o que para mim não faz o menor sentido. Por que pobres não podem ter amigos?
Todos os dias de trabalho eram sempre praticamente iguais. Eu somente ajudava meu pai quase o dia inteiro, vendendo e fazendo pães. Era muito tedioso. Eu só trabalhava ali há alguns meses, só espero que não tenha de ficar ali a vida inteira.
Em um dia qualquer de trabalho, percebi que um jovem havia reparado em mim, um que eu nunca havia visto. Era alto e usava roupas chiques. Tinha o cabelo repicado na altura do ombro e olhos verdes.
Ao que meu pai viu ele se aproximar, educadamente lhe perguntou o que desejava. O jovem apenas observou ao redor e não disse uma palavra sequer por alguns instantes. Calmamente, suspirou que queria apenas algumas guloseimas. Explicando quais ele gostaria, eu fui buscar o que ele me pediu.
Obrigado — Foi a única palavra que ele disse, tocando levemente em minha mão e dando um leve sorriso. Imediatamente removi minha mão e voltei ao trabalho. O jovem lentamente moveu-se em direção a porta, olhando para mim uma última vez antes de ir embora. Algo me fez descobrir que aquele garoto voltaria em breve.
Alguns dias depois do aparecimento daquele rapaz, inesperadamente eu recebi uma carta. Surpreendentemente era daquele jovem que havia aparecido aqui alguns dias atrás. Meu coração acelerou.
Na carta ele apenas se apresentou, e disse que gostaria de me conhecer melhor. Eu jamais havia recebido uma carta de qualquer pessoa, e este era o primeiro rapaz que havia demonstrado interesse em mim desde que eu me recordo. De qualquer maneria, terei de recusar seu convite, não faço idéia de quem ele seja.
Levantei bem cedo. Comi qualquer coisa e fui me preparar para trabalhar. Aquele jovem apareceu novamente. Desta vez não me parecia que ele havia vindo para comprar algo. Caminhou lentamente até o balcão e quando meu pai se ausentou ele aproximou-se ainda mais de mim, perguntando se ele poderia conversar comigo, insinuando que gostaria de me conhecer melhor. Não respondi. Apenas pela minha expressão ele conseguiu entender qual seria a minha resposta à sua proposta. Continuei meu trabalho observando disfarçadamente ele ir embora com uma aparência não muito boa de se ver. Quem ele pensa que é para subitamente aparecer aqui e já querer saber quem eu sou?
Mesmo com minha atitude de ignorá-lo, fiquei a pensar neste acontecimento vários dias depois. Ele não voltou. Devia ter ficado frustrado ou quem sabe com vergonha do que aconteceu. Não consegui parar de pensar nele, e pelo fato de eu sempre precisar de alguém para conversar, começava a me parecer uma boa oportunidade para fazer amizade. Algo me pareceu diferente em seu modo de agir, enquanto sua face que permanecia calada apenas a observar-me. Talvez ele seja como eu, uma pessoa que está triste e sozinha...
Trabalhei muito na semana seguinte, com a ansiedade de meu pai sentir orgulho de mim e me dar algumas férias. Acabou funcionando como eu esperava e ele me deu três dias de descanso. Agora eu podia passear por aí e me divertir um pouco.
No próximo dia sem obrigações eu caminhei até o parque. Deitei na pouca grama que ainda existia e fiquei um bom tempo ali, somente observando as nuvens no céu. Fui surpreendida por aquele garoto que se dizia se chamar Erick, que subitamente apareceu ao meu lado sem eu perceber. Ao notar sua presença, rapidamente levantei-me.
Quem você pensa que é para ficar subitamente aparecendo perto de mim?
Me desculpe, não era minha intenção assustar-lhe. — Respondeu calmamente, desculpando-se.
Observei-o por alguns instantes e sua expressão facial permaneceu intacta. Observei ao redor e avistei um banco. Caminhei até ele e sentei-me, enquanto Erick lentamente se levantou do chão, caminhando em minha direção e sentando-se ao meu lado. Começou a tentar conversar comigo e mesmo sem muito interesse resolvi dar-lhe uma chance de ele mostrar-me que poderia ser um bom amigo.
Erick me falou muito sobre sua vida e onde morava, enquanto eu permaneci só a observar sem fazer uma pergunta sequer. Ele não parecia feliz pelo tom de voz que utilizava, porém eu podia perceber que ele estava muito feliz em estar ali ao meu lado. Subitamente Erick calou-se, enquanto me observava. - Me conte algo sobre você... — Disse ele, interrompendo meus pensamentos.
- Ahn... Tudo bem.
Enquanto conversá-vamos, resolvemos ir até o parque de diversões, onde caminhamos um pouco pelos arredores e sentamos em um banco perto dali, onde permanecemos conversando durante muitas horas. Erick me contou que mora em uma mansão junto com seus pais e prometeu que algum dia me levaria até sua casa, mesmo em meus pensamentos eu lhe recusando a proposta. Também me falou que sempre ficava sozinho e não tinha amigos.
Eu não compreendia seus sentimentos, e porque ele havia gostado tanto de mim. Mal nos conhecíamos, e mesmo ele talvez me considerando amiga dele, eu não o considerava amigo meu. Devia estar desesperado à encontrar alguém com a qual poderia compartilhar seus sentimentos.
De tanto conversar, percebi a noite chegar, quando finalmente a lâmpada de um poste próximo acendeu. Levantei-me assustada, olhando em volta. Rapidamente me despedi de Erick, lhe dizendo que precisava urgentemente voltar para casa. Ao dar alguns passos recuando de Erick, ele rapidamente segurou em meu braço.
- Por favor, não vá. Se você for, eu vou pensar que tudo foi só um sonho...
Olhei fixamente em seus olhos e então tive uma idéia. Avistei uma roseira, onde ali existia uma linda rosa vermelha. Lhe dei um suave beijo e entreguei-a à Erick, sussurrando em seu ouvido.
- Agora você jamais vai pensar que foi um sonho — Suspirei, lhe dando um beijo em seu rosto.
Caminhei em direção a minha casa, enquanto ele ficou paralizado com a flor na mão a me observar até eu desaparecer na esquina. Foi um dia diferente de qualquer outro, me sinto muito feliz por isto.
Eu sabia que Erick jamais iria me deixar em paz. Já no dia seguinte ele apareceu novamente em minha casa, me convidando para sair com ele. Sem outra opção, tive de negar seu convite.
Me desculpe, mas eu não posso. Estou muito ocupada hoje.
Tudo bem — Suspirou ele, baixando a cabeça — Quem sabe outro dia...
Sem dizer mais uma só palavra, lentamente pegou o número do telefone de minha casa que se encontrava escrito em vários papéis sob o balcão e foi embora.
Ele telefonou para mim mais de cinco vezes durante o dia e eu não atendi uma sequer. Eu estava muito ocupada para ficar atendendo chamadas dele e só percebi que ele estava a me ligar quando durante a noite resolvi ir olhar se havia alguma ligação perdida. Me senti culpada.
Tocar piano era meu passatempo favorito e eu só tinha tempo para ele durante a noite e a madrugada. Nem sempre era bom me ocupar com o piano durante essas horas já que poderia alterar meu rendimento no trabalho. Tocava músicas suaves para relaxar algumas vezes. Tão suaves que eu chegava a dormir no meio da música, sentada em frente ao piano.
De vez em quando eu tentava ligar para o número que supostamente seria o da casa de Erick. Chamava muitas vezes e ninguém atendia. Tentei muitas vezes, por vários dias. A única vez que ele resolveu atender o telefone foi quando eu passei a ligar para ele uma vez depois da outra, forçando-o a atender o telefone.
Conversei pouco com ele. Poucas palavras me disse. Eu só sabia que algum dia ele apareceria em minha casa novamente, porém não sabia quando.
Telefonávamos um para o outro algumas vezes durante o dia, enquanto Erick chegava a me ligar até mesmo durante a madrugada. Ele parecia muito animado em me ter como amiga, a ponto de ter fugido de casa várias vezes para vir me ajudar no trabalho. Era gentil, com certeza, de uma forma tão diferente de qualquer outra pessoa que eu já conheci.
Finalmente o domingo chegou, é o único dia da semana que meu pai não me pedia ajuda. Caminhar por Neovia acabou se tornando um passatempo meu.Como a livraria estava aberta eu fiquei ali mais de duas horas lendo até quando fui surpreendida por Erick.
- O que você faz aqui!?
- Desculpe-me, eu não queria te assustar. Porém, não resisti a tentação de seguir-te. — Justificou ele.
Fiquei parada observando por alguns segundos. Sua justificativa não me convenceu e ele percebeu.
- O que você acha de caminharmos por Neovia enquanto conversamos? — Erick sugeriu-me, e eu acabei aceitando sua proposta já que não mais eu tinha vontade de ler. Conversamos muito enquanto fomos até a doçaria, depois ao supermercado, lan house...
Erick é uma pessoa tão alegre quando está junto de mim. Percebo que ele fica diferente quando fico quieta ou ele se afasta de mim. Estou começando a ficar mais confortável com a sua companhia, eu já podia, digamos, considerá-lo como um amigo, e eu me sentia feliz por isto. Aquela tarde passou muito rápido e várias horas pareciam cinco minutos. Quando percebi já eram sete horas da noite.
O tempo passou muito rápido.
- Dizem que o tempo passa rápido, quando se está com quem gosta... — Disse Erick me olhando disfarçadamente enquanto caminhávamos em direção à minha casa.
- Minha casa fica mais perto do que a sua, no máximo daqui a vinte minutos chegamos lá. — Disse-me Erick, parando no meio do caminho — Você não quer dormir lá esta noite?
Parei, e pensei. Não sei se era uma boa idéia, mas... Eu sentia uma tentação muito grande de aceitar, porém eu sabia que não devia.
- Acho melhor hoje não... Melhor ficar para outro dia.
- Se você quer assim... Boa noite, então. — Disse Erick enquanto me daa um leve abraço.
- Boa noite... — Suspirei.
Caminheilentamente na direção oposta de Erick. Eu senti que o deixei magoado mas eu sabia que havia tentado evitar.
A semana seguinte foi muito cansativa, me fazendo perceber que foi uma ótima idéia não ter aceitado o convite de Erick. Fomos assaltados por um malandro que acabou por distrair-nos, forçando-os a trabalhar mais ainda para recuperar o que foi perdido. Uma grande sorte que tivemos foi a notícia de que não haverá mais padarias dentro de supermercados aqui nos Bosques. Desta forma teremos menos concorrência e mais lucros.
Erick me ligou apenas cinco vezes durante a semana e não veio até aqui um dia sequer. Agora eu tinha certeza que ele havia ficado magoado por eu ter rejeitado um convite seu mais uma vez...
- Pai, hoje não há muito movimento — Suspirei — Posso dar uma saída, só hoje?
Ele me fez um olhar atravessado, não querendo me deixar ir.
- Por favor?
- Tudo bem! Vai logo... — Respondeu-me. Eu sabia que ele não queria deixar mas percebeu que eu estava sempre a ajudá-lo e acabou deixando. Foi um alívio para mim.
Caminhei até Neovia, na esperança de encontrar Erick por lá. Porém, a única coisa que encontrei foi neblina. Caminhei até o parque de diversões mal assombrado, até o tiro com rolhas, acampamento cigano e nada. Ele deveria estar em casa, no mesmo lugar que ele quase sempre permanecia. Eu gostaria de ir até ele, mas... Não faço idéia de onde ele mora.
Andei, andei e andei até resolveri voltar para casa. No trajeto, acabei avistando um jovem que estava indo na direção da padaria. Era ele, Erick.
- Onde você estava?
- Para que você quer saber? — Perguntou-me — Você nem se importa comigo, porque me pergunta tal coisa!?
- Mas é claro que eu me importo com você, seu bobinho
Ele levantou a cabeça e olhou fundo em meus olhos. Pude perceber que ele não havia acreditado em mim.
- Eu poderia... Ficar na sua casa durante esta noite, se você quiser e se meu pai permitir. O que você acha?
- Se acontecer algum imprevisto... — Disse-me Erick, dando alguns passos além de mim com a cabeça baixa — Você tem o meu número...
- Então até logo.
- Venho te buscar antes do anoitecer. — Disse ele indo embora. Voltei para casa.
Chegando lá, informei ao meu pai. Ele não se importou, já que ele raramente se importa comigo. Sinto muita falta da minha mãe nessas horas. Me faz lembrar de como era bom tocar piano na sua companhia.
Aquela tarde passou muito rápida. Arrumei uma pequena maleta somente com coisas realmente necessárias para levar comigo. Eu estava a imaginar como seria a casa dele, quando fui interrompida por meu pai.
- Sophia! — Chamou ele — Seu amigo chegou!
Não demorou muito e eu já estava junto dele. Era por volta de sete horas pois ele havia se atrasado um pouco. Veio com seu motorista já que andar de noite por aí nem sempre é seguro. Tivemos que passar em alguns lugares antes de ir até a casa de Erick. Não me importei, pois eu poderia conversar com ele durante a viagem.
Depois de muito conversar e esperar, finalmente estávamos indo até a casa de Erick. Já era por volta de onze horas da noite e todas as ruas por onde passamos estavam vazias. A única coisa que se podia ver eram restos de árvores, muros e casas totalmente no escuro.
Logo na porta de entrada, fomos recebidos por um homem que se ofereceu para levar minhas coisas até o quarto onde eu dormiria naquela noite. O primeiro lugar que Erick me levou foi até o quarto dele. Eu estava empolgada pois era a primeira vez que eu ficaria na casa de um amigo. Eu nunca imaginei que poderia ser uma casa tão... Chique?