Perfeição Inalcançável
5 Desaparecimento Perturbador
Por Erick Nada é permanente nesse mundo cruel. Nem mesmo os nossos problemas.
Charles Chaplin
Acordei muito cedo. Me sentia incomodado e não conseguia ficar na cama. Algo me perturbava. Comi alguma coisa que encontrei nos armários da cozinha e fui até o jardim.
Eu podia ver a charneca ao longe, tudo estava verde pois a primavera estava chegando. Inesperadamente senti uma grande vontade de conhecer o lugar. Fiquei a tarde inteira fora da mansão. Conversei com jardineiros, observei os pássaros e sentei sob a sombra das árvores. Até que a primavera e as cores não são tão ruins assim, estou começando a me acostumar com o lugar. O ar fresco está me fazendo sentir bem. Minha pele já não parecia mais tão branca, o ato de caminhar de um lugar ao outro fez meu sangue movimentar-se mais rapidamente. Eu começava a me sentir mais vivo novamente.
Anoiteceu e fui chamado para jantar. Estava delicioso. Meu tio surpreendentemente queria falar comigo. Achei uma decisão diferente vindo dele, porque eu mal o conhecia.
Você está gostando de sua nova casa? — Me perguntou, enquanto esava sentado de costas para mim.
Err... Estou gostando — Respondi, engolindo seco — Mas é bem diferente de onde eu morava anteriormente.
Não acredito que você trará problemas.
Fiquei encarando-o, enquanto ele estava com uma expressão que não se alterava. Aqueles olhos azuis e frios...
Vou viajar amanhã, e só voltarei na próxima primavera. Faça o que quiser, desde que não incomode a ninguém. — Disse-me, com muita paciência — Agora vá embora, preciso descansar.
Achei muito estranha a atitude que ele tomou, já que nem queria me ver assim que cheguei. A empregada levou-me até meu quarto, onde eu logo deitei na cama só para descansar e acabei adormecendo.
Fui acordado durante a noite por trovoadas e gritos. Eu ouvia como se alguém lá na charneca me chamasse. Meu corpo arrepiou-se por inteiro. Era uma voz que dizia palavras em meu idioma junto com muitas outras palavras que não me faziam sentido. Aquilo não parava e não me deixava dormir. Resolvi descobrir o que estava provocando aquele som. Eu não conseguiria dormir mesmo.
Vesti-me como sempre, peguei meu cachecol e fui até a porta principal. Estava tudo escuro lá fora e eu conseguia enxergar muito mais do que eu imaginava. Ouvi as vozes novamente e sem pensar duas vezes saí de dentro da mansão e andei em direção à voz. Eu tinha o pressentimento de que havia andado muitos metros quando havia avançado tão pouco. O vento forte me impedia juntamente com a chuva fina e ligeira que deixava o solo escorregadio. Cheguei até uma pequena floresta. Era de lá que vinha a misteriosa voz. Entrei e vi ao longe algumas luzes azuladas e brancas em meio a escuridão. Eu podia ouvir as vozes mais nítidamente do que nunca. Tentei chamar a atenção do ser que estava ali, porém em meu primeiro movimento ela acabou percebendo minha presença, então calou-se. Ao meu ver parecia uma espécie de espírito ou fantasma. Era uma jovem moça que se aproximou como se não tivesse gostado de minha atitude, e começou a falar novamente. Eram muitas palavras que eu não conhecia e não sabia o que significavam. Algumas eram em meu idioma, então pude compreender as palavras arrepender, transparente e céu. Ela mostrava expressões faciais de dor e fúria, eu não conseguia compreender. Não descobri o que ela tentava me dizer e enquanto eu tentava decifrar, ela lançou um tipo de feitiço em mim. Senti uma dor terrível, e gritei o mais alto que pude. Ninguém me ouviu. Senti como se ela estivesse tentando arrancar um pedaço de mim sem piedade. Algo naquele momento me fez muito mal, fiquei tonto e já não conseguia ficar de pé enquanto eu senti uma dor imensa no meu corpo e caí no chão onde fiquei inconsciente.
Como não acordei durante a noite, tive alguns sonhos muito estranhos, nos quais eu via seres flutuando para todos os lados, e Sophia era um deles. Eu corria até ela e acabava atravessando seu corpo, fazendo-a desaparecer.
Meu sonho foi interrompido pela empregada que estava a balançar meu corpo, em uma tentativa de me fazer acordar. Me fazia várias perguntas de como eu estava ali, o que havia acontecido, enquanto eu só murmurei que queria voltar para meu quarto. Comi uma sopa deliciosa o que me fez muito bem. Logo começou a chover novamente e eu já não tinha o que fazer. Eu estava conversando com a empregada quando ela percebeu que eu estava observando ao redor e prcurando algo a fazer.
Porque você não vai olhar ou quem sabe contar os quadros? — Perguntou-me ela — Só não fique bisbilhotando onde não deve, seu tio não gosta...
Não era uma má idéia e de qualquer maneira nada mais havia para se fazer. Fui andando pelo corredor só olhando. Havia muitos quadros nas paredes, os quais todos eram muito misteriosos. Todos pareciam ficar me observando só esperando meu próximo movimento como se não gostassem de mim ou simplesmente não terem gostado de terem sido pendurados nas paredes dos corredores.
Encontrei uma biblioteca então resolvi dar uma olhada. Acabei recordando-me da noite anterior. Resolvi pesquisar e tentar encontrar algo que pudesse esclarecer o que havia acontecido. Procurei em computadores, livros novos e antigos, porém nada consegui descobrir. Deixei a biblioteca e continuei minha caminhada pelos corredores.
Depois de andar muito, acabei me perdendo pelos corredores. Desci uma escada de pedra e mármore onde acabei chegando em um pequeno corredor com onze portas de aço. A curiosidade me obrigou a ver o que teria atrás daquelas portas, mesmo com algo, na verdade alguém, tentando impedir-me. Abri uma após a outra, e sete delas estavam totalmente vazias. Três estavam trancadas, e a última no final do corredor estava aberta. Aramaiko ainda me forçava a recuar e voltar para meu quarto, porém esta força não me impediria, pelo menos não desta vez.
Empurrei vagarosamente. Havia algo parecido com neblina atrás da porta. Eu não conseguia ver abaixo de minha cintura por causa da espessa neblina. Andei pelo quarto quase inteiro, até tropeçar em algo e cair no chão. Demorei algum tempo para me levantar, e quando o fiz percebi que havia uma pequena porta aberta no chão. Eu havia tropeçado na porta e ela abriu-se. Não consegui ver o que havia atrás da porta, estava totalmente escuro lá dentro.
Observei a neblina sumir vagarosamente, que acabou por me mostrar uma longa fileira de degraus. Resolvi descer. Dando um passo de cada vez, fui descendo e acabei sendo surpreendido. Alguma parte da minha roupa acabou ficando presa na porta fechando-a. Não consegui mais abrí-la. Engoli seco e continuei a descer vagarosamente as escadas em direção ao subsolo. Desci muitos degraus, tantos que até perdi a conta de quantos eram. Assim que cheguei ao chão, eu só conseguia enxergar um pouco da neblina e a escuridão. Esperei, porém nada vi ou mesmo ouvi. Andei vagarosamente, tentando não esbarrar. Acabei tropeçando em algo e percebi que eram ferramentas de jardinagem. Olhei em volta e vi vasos com flores murchas, mortas e alguns outros, vazios. Deveria ser uma espécie de depósito, pelo menos foi o que pensei até ver um caixão. Assustei-me. Sentei-me no chão até parar de tremer. Percebi de acordo com algumas escritas que era o caixão de minha falecida tia, esposa de meu tio que mora atualmente nesta casa. Mas, porque existem tantas flores, equipamentos de jardinagem e vasos por aqui? Talvez ela gostasse de flores, quem sabe. Mas porque neste lugar? Por que ela não foi enterrada? Bem, de qualquer maneira se eu tivesse respostas para estas perguntas, não mudariam nada em minha vida. O que importava agora era eu encontrar alguma maneira de sair daqui. Não consegui ver qualquer meio de fuga. Sentei e esperei. Talvez alguém fosse notar minha falta, mas, como vão me encontrar em uma casa com mais de cem quartos? O último lugar que pensariam em me procurar seria aqui.
Talvez eu conseguisse arrombar a pequena porta por onde entrei. Pequei uma pá, e comecei a bater contra a porta, com a intenção de abri-la. Depois de muitas tentativas e esforço em vão, finalmente ela se abriu quando acidentalmente o cabo bateu perto de onde se encontrava a trava. De tanto impulso que eu havia feito, eu tropecei no degrau e caí no chão do outro quarto.
Joguei as ferramentas de volta, fechei a porta e saí correndo daquele lugar. Eu não queria voltar ali nunca mais. Imagina se fico trancado novamente e não consigo sair? Tentei voltar para meu quarto, porém eu me perdia cada vez maiss. Sem perceber, acabei indo até uma parte totalmente vasia da casa. Não havia móveis, nem quadros, estátuas ou qualquer tipo de enfeite. Estava tudo completamente vazio.
Tem alguém aqui!?
Só ouvi o eco, mais nada. Andei muito, até não conseguir mais ficar em pé. Já fazia mais de cinco horas que eu estava perdido nos corredores. Acabei dormindo ali, e só voltei ao meu quarto quando uma fazineira me encontrou e levou-me de volta. Quando acordei estava no meu quarto deitado na cama com a faxineira me encarando. Já era a manhã do dia seguinte.
O que você foi bisbilhotar lá no outro lado da mansão garoto!? — Me perguntou ela, indignada.
Eu só estava caminhando, quando acabei me perdendo...
Pois então fique no seu aposento — Ordenou ela — Pelo menos aqui você não se perde.
Ela deu meia volta, saiu do meu quarto e trancou a porta. Não sei por que. Eu entendi muito bem quando ela disse-me para ficar aqui. Ou quase...
Mandei um homem de uma empresa de mudanças buscar alguns pertences meus há dois dias atrás. Hoje ele me ligou, falando que Sophia viria consigo. Meu sorriso logo apareceu, não consigo mais aguentar de tanta ansiedade.
Eu estava muito entediado, e já faziam mais de quatro horas que eu estava trancado em meu quarto, sem nada a fazer. Era por volta de três horas da tarde e eu não aguentava mais. Peguei vários lençóis que eu encontrei pelo quarto e fui amarrando-os uns nos outros até formar uma corda para eu jogar pela janela e descer os dois andares inferiores. Encontrei lençóis de sobra. Amarrei uma ponta na maçaneta da porta e no pé da cama, atirei pela janela. Coloquei minha roupa de sempre e desci pelo lençol.
Lá fora andei por tudo quando é lugar até resolver sentar-me na sombra de uma árvore e observar ao redor.
Melhor do que ficar com tédio — Suspirei.
Depois de algum tempo ali sentado, acabei adormecendo. O melhor de tudo, é que ninguém sabia que eu estava ali. Tive uns sonhos muito esquisitos. Eu conseguia ver muitos dragões a voar e brigar. Alguns apenas observavam, em silêncio, enquanto uns matavam aos outros. Nada me fazia sentido.
Quando acordei a lua já estava alta no céu. Devia ser oito horas da noite ou mais tarde. O lençol ainda estava dependurado na janela por onde desci e eu estava tonto e com muita fome. Mal conseguia sentar, muito menos ficar de pé.
Senti dores muito fortes, como se estivessem a me esfaquear, porém consegui resistir e não dei um só grito. Naquela hora eu só sentia vontade de me jogar no chão e gritar. Uma dor tão diferente de qualquer outra que já senti. Parecia que eu sabia que a qualquer momento o mundo desabaria sob meus pés e depois se fecharia. Tentei levantar-me e logo depois de conseguir ficar em pé senti uma imensa dor, como se alguém estivesse a enviar lentamente uma faca em minhas costas. Dei um gemido e caí desacordado ao chão coberto de grama.
A noite passava e eu continuava no mesmo lugar. A faxineira só lembrou que eu estava trancado no meu quarto três dias depois, quando Sophia estava prestes a chegar. Aquela jovem fantasma que encontrei muitas noites atrás, acabou fazendo com que minha alma se separasse de meu corpo, me tornando simplesmente um espírito.
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