No início eu ainda conseguia sentir cada osso meu estalando, cada lágrima se formando e escorrendo pelo meu rosto, cada grito meu que fazia a minha garganta arder até parar de emitir o som. O som que fazia eu me sentir livre, que libertava a minha dor e o meu sofrimento em poucos segundos até um ultimo soluço que calava meu corpo por inteiro até eu fechar os meus olhos e adormecer. Antes eu temia a morte agora, fiz dela o meu último desejo. A morte seria melhor, seria melhor do que ser salva, porque mesmo que eu fosse salva, eu nunca conseguiria sair do pesadelo que se formou na minha cabeça. Eu não conseguiria evitar as lembranças, os flashbacks nos meus sonhos, eu ia estar presa ao meu passado e não teria como eu sair dessa prisão, a não ser que eu morresse. A morte de qualquer forma me alcançaria, não havia motivos para adiá-la, se era só questão de tempo para eu ter o meu fim destinado.
A porta se abre e um homem entra em meu cativeiro, ele algema minhas mãos e me guia pelos corredores. Viramos a esquerda, depois a direita e depois a direita novamente. Estamos em um corredor sem janelas, totalmente isolado, com uma porta no final. Ele abre a porta e me empurra para dentro, dou algumas cambaleadas, pois não me alimento direito desde o dia que cheguei a esse lugar, onde sou torturada diariamente de forma tão cruel que me faz crer que estas pessoas não são humanas.
— Toda sua. — Diz o homem que me guiou.
Vejo a porta se fechar fazendo um barulho no final.
— Acomode-se Senhorita Madison.
Deito-me na plataforma de ferro e encaro o teto. É nesta sala que passo as minhas tardes, todos os dias, desde o dia que cheguei aqui. É nesta sala não sou tratada como uma garota de 17 anos indefesa que chora todas as noites, que abraça as pernas dobradas, que encosta a testa nos joelhos e chora até conseguir dormir. Aqui sou tratada como nada, na verdade menos que nada, sou tratada como um rato de laboratório. Foi nesta sala que eu entendi o que a palavra tortura realmente significa, foi aqui que eu realmente entendi o que é sentir dor e sofrimento.
Fecho os olhos e respiro fundo, preciso ser forte, tento me acalmar, conter a raiva e as lágrimas, os gritos e os soluços, tento fazer com que eu não demonstre sentimentos, como se eu não ligasse para nada que fizessem comigo. Eu não ligo, eu não me importo mais. Abro os olhos e faço uma expressão facial séria, composta por olhos vazios e sem esperança, então volto a encarar o teto.
— Fique calma Senhorita Madison, afinal você já conhece o processo e sabe que chorar não vai adiantar.
Gerald Muller, um maníaco, louco, um psicopata. Quando fui traga para este lugar logo fui levada para a sua sala, e quando o vi, meu corpo todo entrou em choque. Não apenas pela aparência de seu laboratório que era cercado de ossos humanos e objetos cortantes, mas sim porque eu o conhecia, o mundo inteiro sabia quem ele era. Um médico maluco pelos olhos e peles humanas, guardando-os em sua própria casa. Os olhos ficavam em um recipiente na mesa central de sua sala de estar e com a pele ele fazia diversas coisas, na maioria das vezes usando-a como decoração também. Tanto a pele como os olhos eram retirados das vítimas enquanto elas ainda estavam vivas. Ele dizia que não apreciava a arte morta, tanto que, apreciava mais os olhos e a pele quando eles estavam sendo retirados do corpo humano, do que quando os via em sua casa como objetos decorativos. Mas quando os via em sua casa, eles faziam ele se lembrar daquele seu momento de triunfo. Muitos falavam que ele era obcecado por cérebros também e que sua obsessão era tão grande que, além de ter uma prateleira específica para eles em seu quarto, ele ainda comia-os.
Eu me lembro de tê-lo visto nos jornais quando tinha treze anos, naquela época tinha ficado chocada com o seu caso, mas a minha curiosidade era maior, então procurei saber mais sobre ele e ao descobrir tudo fiquei noites sem dormir e semanas sem conseguir comer nenhum tipo de carne. Aquela realidade me assombrava, mas de uma forma diferente, pois ela me atraía mais do que me assustava.
Minha sessão de tortura é encerrada, não me lembro do que aconteceu exatamente, mas percebo que não consigo mexer meus dedos da mão. Estou tonta e não consigo enxergar com clareza, pisco algumas vezes e percebo que não estou mais na sala do Dr. Muller, estou no corredor sendo carregada por dois homens. Estou indo de volta ao meu cativeiro, o meu novo lar. Sinto os meus joelhos ralando no chão, sinto que as mãos dos homens que estão me carregando apertam meus braços, de maneira tão forte que parece que meus ossos estão sendo quebrados. Meu corpo é arremessado em direção ao chão e a porta é fechada, me deixando em uma total escuridão. Escuridão, eu já me acostumei a ela, me acostumei com sua presença, como se ela já fizesse parte de mim, de certa forma ela fazia, depois daquilo que eu fiz, aquilo que despertou o pior de mim. A minha maldade, aquilo que eu causei, não apenas eu, todas nós, e a culpa me acompanhou durante esses dois anos, mas agora eles estão se vingando, se vingando de todas nós, as culpadas, as culpadas pela morte de Lana Campbell.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor