Perfect Life
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sabem quando nós achámos que temos o mundo nas nossas mãos e o tempo a nosso favor? Eu me sentia assim. Minha vida ia sobre rodas, cada amanhecer mais brilhante que o anterior. E um erro deitou tudo a perder. Minha vida virou um buraco escuro, de onde eu não tinha escapatória. Um simples movimento e perdi a vida que eu tinha.
Era meu último ano antes de entrar na faculdade. Eu não sabia exatamente o que eu queria fazer da vida mas minhas notas me garantiam lugar em qualquer faculdade que eu pudesse escolher. Não posso dizer que era um garoto certinho e atento. Eu não era. Mas não me era exigido grande esforço para entender as matérias. Meu QI era elevado. Para além disso eu também poderia entrar numa faculdade por mérito desportivo. Eu era veloz e sempre ficava bem qualificado nas maratonas interescolares.
Isso tudo era muito bom mas o que realmente iluminava meu dia era Beatrice. Ela era uma menina calada, amorosa, quieta, totalmente o meu oposto. A única coisa em comum era nosso currículo escolar. Mas era essas diferenças que me cativavam. Éramos o ying e o yang que se complementavam. Eu não sabia dizer o porquê de ela ter aceite meu convite para sairmos. Eu esperara uma resposta negativa mas ela me surpreendeu.
Seu sorriso era tímido, seus cabelos loiros comportados em perfeitas ondas nas pontas, seus olhos azuis cristalinos e pacíficos. Ela me pegou de jeito e eu estava completamente apaixonado.
– Tobias?
Acordei do transe e lá estava ela, caminhando a meu lado com sua mochila vermelha regular. Ela não desgrudava daquela mochila, até mesmo quando não combinava com a sua roupa.
– É especial para mim – Ela respondeu uma vez quando questionei sobre isso.
Mas hoje, nem destoava tanto assim do conjunto. Ela vestia um top cropped de manga curta, com um casaco de ganga por cima e uma saia de camadas ligeiramente esvoaçantes. Nos pés umas sabrinas rasas cor de pele. Usava também o conjunto de brincos e colar que eu lhe dera no seu aniversário. Entrançou o cabelo loiro numa trança perfeita e com um laço preso na mesma e terminou com uma maquilhagem subtil. Apenas eyeliner e batom rosa. Como sempre, estava em um estilo romântico.
– Bom dia Tris. Desculpa, estava um pouco alheio. – Digo em tom de desculpa mas ela limita-se a sorrir.
– Não há problema. Sempre vamos estudar hoje?
– Claro. Na minha casa?
– Combinado.
Ela me dá um selinho e começa a afastar-se em direção à sua sala. Nós não tínhamos todas as nossas aulas juntos. Isso devia-se ao facto de não termos escolhido as mesmas disciplinas integralmente. Por exemplo, eu escolhera química, Tris escolhera matemática.
Quando chego à minha sala, vejo Eric e Peter já instalados. Mal me vêm começam aos risinhos.
– E aí campeão? Onde está sua ursinha? – Eric pergunta maliciosamente, com um quê de ironia.
– Fica na sua cara! – Digo atirando minha mochila para cima dele que se protege com os braços.
Apesar de esses dois me tirarem do sério às vezes, eles eram meus camaradas. Eramos um time e apesar de suas provocações, se alguém se aproximasse de Tris com más intenções, eles mesmos tratavam do assunto e protegiam minha garota.
– Eu confesso que seus amigos me assustam – Tris falara um dia. – Mas eles são boas pessoas. Eles me ajudaram o outro dia.
Will estava dando em cima de Tris e ela ficando cada vez mais desconfortável. Peter percebera e se aproximou com toda sua pujança ameaçadora. Will nunca mais se aproximara ou olhara na direção dela e agradeceu a meu parceiro.
Tris não era ingénua ou algo parecido mas tinha dificuldade em dizer não a alguém ou recusar algo. Era parte da sua personalidade de bonequinha. Sua aparente fragilidade me fazia querer protege-la a toda a hora o que desencadeava várias ondas de gracinhas dos rapazes.
– Ei, Tobias. – Eric chamou – Está livre hoje?
– Já tenho planos com Beatrice. – Afirmo.
– Está de brincadeira, só pode! – Peter resmunga. – Cancele. Você tem que vir com a gente.
– Vocês conseguem fazer isso sozinhos.
– Acha mesmo? Aquela garota é difícil. – Eric fala com resignação.
– Eu verei se consigo escapulir-me mais cedo. – Anuo.
Eles assentem e a aula começa. Tenho a cabeça a girar. Quando Tris me perguntou se podíamos estudar, eu não me lembrara que dia é hoje. A minha única falha da minha vida perfeita. Peter e Eric tinham razão. Não podia deixá-los na mão. Não agora. De início não havia problema algum mas agora tudo se tinha complicado. Começara com uma brincadeira de crianças mas isso evoluíra, não sabendo muito bem quando isso aconteceu.
Nós três eramos amigos de infância. Sempre juntos, fazendo planos mirabolantes para o futuro. Nós queríamos ser heróis. Bombeiros, policiais, paramédicos. Não importava, desde que estivéssemos a salvar pessoas. Chicago era uma cidade com uma estatística elevada de crime. Então decidimos simplesmente transformar os sonhos em algo mais. Vestidos de preto, com uma máscara também preta, começámos a correr atrás de criminosos. Primeiramente parecia ridículo, sairmos de casa às escondidas na calada da noite em busca de um ato heroico. Mas isso mudou quando apanhámos nosso primeiro ladrão de meia tigela. Confesso que foi mera coincidência encontrarmos ele. O apanhamos, amordaçamos e o deixamos na entrada do edifício policial. E esse passou a ser nosso método. Abandonarmos os criminosos em frente ao edifício. Com a ligeira frequência que isso passou a acontecer, os policiais começaram à ficar à coca para ver quem estava por trás dessa operação. Não para os punir ou prender mas guiados pela curiosidade. Então agora, sempre que deixávamos lá mais um culpado, já um polícia esperava por nós. Nunca tentaram descobrir nossa identidade. Só agradeciam por nossa ajuda. O caso começou a ficar conhecido e cheguei a ver-nos na televisão a pegar um bandido ou a despeja-los na delegacia. A questão mais pertinente era quem eram os três justiceiros. Era estranho ouvir os nossos colegas falando sobre isso e fazendo apostas
para descobrirem quem eram. Não queríamos mediatismo, mas isso foi uma consequência do que fazíamos. Mas esse mediatismo não foi apenas positivo.
E daí a urgência dos dois para sairmos para as ruas hoje. Um grupo igualmente de três indivíduos começou a deixar pistas pela cidade, provocações dirigidas a nós. Eles plantavam o caos pela cidade, esperando o momento que os cruzaríamos. Eles queriam um confronto. Os jornais e revistas falavam sobre isso: “O confronto de Titãs”. Eu achava tudo isso uma fantochada. Nós não queríamos nada disso. Apenas queríamos ajudar a cidade, não criar confrontos. Mas esses “Desafiadores”, como eram ridiculamente chamados, pareciam querer mesmo brincar connosco, como se provar o quão bons nós eramos afinal. Não posso negar que eles eram bem inteligentes, astutos e sempre um passo à nossa frente. Mas nunca os vira lutar. Só os vimos uma única vez de relance enquanto fugiam. Nunca nos encaramos de verdade e tal como nós, eles usavam máscaras para esconder suas identidades. Por isso era meio uma expetativa e um desafio pegar eles.
Eles costumam agir mais à terça-feira, não sabemos muito bem porquê. Por isso era melhor agirmos hoje e ver se conseguimos algum progresso. Já lá vão dois meses que os desafiadores apareceram mas nunca ninguém os vira realmente. Eles eram cautelosos.
No fim das aulas espero por Tris para irmos juntos para minha casa. Subimos direto para meu quarto pois a essa hora meus pais não estão em casa. Enquanto eu ligo meu Notebook, Beatrice se deita na minha cama, cabeça na almofada e uma perna por cima da outra. Ela fecha os olhos para descansar um pouco. Eu salto para cima da cama fazendo Tris saltar junto e soltar um gritinho assustada. Eu desato a rir e ela me puxa para baixo e se senta sobre mim.
– Você achou engraçado Eaton? – Ela pergunta, me desafiando.
– Bastante – Digo e sem dar tempo para ela começar a resmungar, segura a sua nuca e tomo seus lábios.
Beijar Tris é como ir ao paraíso e voltar. Eu já beijara bastantes garotas mas nenhuma me despertou como ela. Talvez isso seja porque nenhuma garota me tenha feito apaixonar como ela. Sua doçura parecia cativar quem estivesse por perto. O que ela vira em mim, isso já era um mistério. Eu não sou o tipo de cara para ela. Ela precisa de alguém estável, um porto de abrigo. Alguém em que ela possa confiar plenamente. Como ela poderia confiar em mim se ela nem desconfiava da minha vida paralela? Como eu poderia ser estável para ela se eu podia no dia seguinte ser apanhado pelos desafiadores e ser ferido ou no pior dos casos, ser morto? Tris não aguentaria isso. Iria quebrar ela.
– Tobias?
– Oi?
– É a segunda vez hoje que você parece estar com a cabeça noutro lugar. – Ela arqueia a sobrancelha, não irritada mas curiosa.
– Me desculpa minha linda. Eu acho que hoje estou um pouco se cabeça. – Me desculpo.
– Que tal assim, — Ela começa e deita sua cabeça em meu peito, fazendo círculos no meu abdominal com o indicador. – Deixamos o estudo para outro dia e ficamos aqui os dois quietinhos por um tempo?
– Isso soa ótimo. – Respondo com um sorriso a desbrochar em meu rosto. – O que tem em mente?
– Eu já disse. – Ela respondeu com uma gargalhada subtil que fez meu peito vibrar – Ficarmos os dois quietinhos.
– Quietinhos? Como quer que eu fico quietinho com você a meu lado Beatrice? – questiono antes de beijar seus cabelos.
– Você é muito interesseiro não é? – Ela levanta a cabeça para me encarar. – Aposto que nunca esteve em seus planos estudar hoje não é mesmo?
– Me pegou! – Levanto os braços em rendição, rindo da cara boba da minha linda.
– Posso contar um segredo a você? – Pergunta agarrando o colarinho da minha camisa.
– É claro.
– Eu também não tinha planos de estudar hoje.
Eu a encaro e percebo um sorrisinho malicioso.
– E eu que sou o interesseiro, não é?
Eu rebolo trocando de posição com ela, ficando agora por cima dela. Ela fica corada, como sempre fica e acaricia meu rosto.
– Eu te amo Tobias. – Ela confessa, fazendo meu peito inflar de orgulho e de amor.
– Eu também te amo Beatrice.
~
Estou vendo meu email quando duas mãos percorrem meu peito e sinto um beijo na nuca antes de Tris se sentar no meu colo e depositar um beijo em meus lábios.
– Essa camisa é minha sabia? – Digo ao reparar que ela está só de roupa íntima e minha camisa que eu estava vestindo anteriormente.
– Eu sei, eu vim entregar ela para você.
Como se para salientar suas palavras, ela retira a camisa devagar e a segura para eu pegar. Mas eu estou mais atento à figura do seu corpo esbelto.
– Você está me provocando Tris? – Questiono com um sorriso malandro nos lábios.
– Calma aí campeão – Ela dá uma gargalhada. – Eu estou entregando sua camisa porque preciso que você me leve a casa.
Fingindo estar desiludido, faço beicinho.
– Sem segunda ronda? – Pergunto provocando.
– Não! – Ela forma uma expressão escandalizada mas não consegue esconder o rubor no seu rosto de porcelana.
Ainda sorrindo, visto a camisa enquanto ela veste suas roupas. Ela procura sua saia pelo quarto. Tris pode ser bem distraída às vezes, já que a saia está mesmo à sua frente. Eu pego na saia e faço sinal para ela meter os pés. Ela assim faz e eu subo a peça de vestuário até sua cintura, fecho o zíper e dou um nó no cinto incorporado.
– Prontinho – Falo ao afastar-me.
Ela fica quieta por um segundo e logo começa a pescar o casaco e as sabrinas do chão.
Deixo ela em casa e dirijo diretamente para a casa de Eric.
– Ei Tobias. Sempre chegou a tempo.
– Sim, Beatrice precisou ir para casa.
– Ok então – Eric começa. – Nós temos que encontrar os desafiadores hoje.
– Alguma ideia de onde eles estarão? – Peter interroga.
– Bem, eles estão deixando pistas por aí mas é difícil de decifrar. – Explico. – O que raio é suposto dizer “88-15”?
– Coordenadas? – Tenta Eric.
– Não. Demasiado óbvio para eles. Aliás eu tentei introduzir esses valores e não coincidiam com nada.
– E acho que sei – Peter fala, atraindo nossa atenção.
– Então desembucha.
– Fifteen Avenue.
– Pode ser – Concluo.
– Mas e o 88 refere-se a quê? – Eric expressa.
– Isso é o vamos tentar descobrir agora.
Uso o Laptop de Eric para pesquisar. Tento pesquisar algum café ou estabelecimento comercial que tenha “88” como nome ou parte dele mas não dá resultado algum. Números de caixas de correio também não dá nenhum resultado. Começo a ficar irritado quando tenho uma ideia e tento ela.
– BINGO! – Eu falo de mãos no ar.
Tanto Peter como Eric, que estavam sentados no sofá, correm para meu lado para descobrir o que eu achei.
– 1988. – Digo.
– O que raio isso significa? – Peter questiona.
– Em 1988 começaram a construir o edifício 4 de julho (fictício). Antes era usado como bloco de apartamentos, hoje é um edifício destinado a negócios.
– Eles vão assaltar um bando de escritórios? – Eric parece descrente.
– Segundo alguns blogs é dito que nem todos lá dentro têm negócios legais. – Peter fala usando o Notebook.
– É a melhor pista que temos, então o melhor é tentar. – Digo a Eric que ainda não está totalmente convencido.
– Bem, vamos nessa.
Colocamos nossas roupas pretas e pegamos as máscaras. Vamos todos no meu carro e o estaciono a três quarteirões de distância. Era demasiado arriscado estar perto demais. Se associarem o carro aos justiceiros, vão descobrir quem somos.
Colocamos as máscaras e seguimos por esquinas e becos escuros para não chamar atenções indesejadas. Ao chegarmos ao lado de fora do edifício, todas as luzes estão apagadas mas vemos uma sombra se mover velozmente perto da janela. Nos entreolhamos, pensando que hoje poderemos pegar eles finalmente. Ao entrar, decidimos separar-nos. Seria mais fácil pegá-los um a um. Eu fiquei com o segundo andar. Subo as escadas silenciosamente para pegar quem quer que lá esteja de flagrante.
Dou passos pequenos e firmes ao entrar na sala. Mas isso não me adianta. Eles já estavam à nossa espera. Sinto algo bater em meu peito e me dobro com falta de ar.
– Ora ora! Estava começando a achar que nunca nos encontraríamos.
A única coisa que vejo à minha frente é um par de saltos altos. Espera, Saltos altos? Olho para cima para confirmar que é uma garota que está ali. Ela coloca seu pé no meu ombro para me manter ali. Dou uma olhada mais detalhada e vejo que ela está com uma saia cor de vinho em cabedal e um corpete castanho que faz a silhueta dela parecer bem atraente. Por baixo da saia ela tem umas leggins em napa preta. Reparo que sobre seu peito ela tem um pendente em forma de chave. Seu cabelo é preto e liso que cai até sua cintura. Seus lábios estão num vermelho vivo e seus olhos cobertos por uma máscara de renda, de modo a salvaguardar a sua pessoa.
– Apreciando a visão Cowboy? – Ela pergunta visivelmente divertida com a situação.
– Vá se danar! – Eu resmungo e a atiro para trás, fazendo-a cambalear.
– Faz isso de novo e teremos problemas – Ela replica com veneno na voz enquanto retira duas armas da parte de trás da saia. – Isto não são brinquedos.
– Você é louca garota!
– Na verdade eu não sou. Mas você não entenderia. – Ela divaga mas não parece disposta a me fazer entender.
Ela se aproxima, guardando uma arma e continuando com a outra em punho. Ela anda à minha volta, talvez ganhando tempo para os seus parceiros chegarem até nós.
– Você até que parece bonitinho – Ela confessa. – Para quê esconder seu rosto então?
Ela faz menção de retirar minha máscara. Aproveito o momento de distração e seguro seu pulso, virando-o para cima. Ela dispara mas em vão. Agarro a arma com a mão livre enquanto ela saca da arma de reserva. Ficamos os dois quietos, encarando o outro, desvendando o próximo movimento. Qual de nós poderia disparar mais rápido? Honestamente, eu não queria descobrir. Eu nunca usara uma arma e não queria que houvesse uma primeira vez. Nós eramos mais de luta corpo a corpo mas pelos vistos os Desafiadores não pareciam pensar da mesma forma.
A garota acabou por suspirar farta do joguinho.
– Ao três, ambos pousamos as armas. – Ela explica e eu acabo por assentir. – Um… Dois… Três.
Ela deixa a arma cair no chão enquanto eu continuo segurando a minha. Qual é! Ela deveria ser mais esperta do que isso. Ela semicerra o olhar com uma expressão furiosa.
– Você me trapaceou!
– Isso não é um jogo! — Retruco de volta.
Antes que pudesse fazer alguma coisa, ouço um bip e a garota correr em direção à janela e saltar, deixando um rasto de cacos de vidro para trás.
Ao voltar ao térreo, encontro Eric e Peter que também perderam os oponentes de vista. Porém nenhum deles era uma garota. Apenas aquela que enfrentei era. Nenhum deles pareceu certo de que era mesmo uma garota. Porém, eu sei o que vi.
Mais de duas semanas se passaram e apesar das contínuas provocações dos desafiadores pela cidade, nós decidimos dar um tempo antes de irmos atrás deles. Eles eram audazes então nós teríamos que ir bem preparados no próximo confronto. Nós tivéramos sorte dessa vez. Eles não procuraram exatamente uma briga, concluí. Eles queriam apenas avaliar-nos. Ver do que poderíamos ser capazes, nos conhecer um pouco. Foi como que um teste. E não tenho a certeza se passamos ou não nele.
Então eu aproveitara todo meu tempo com Tris. Hoje combinámos de ir até ao parque. Tinha lá um lago onde podíamos nadar e o tempo estava tão quente que nadar no lago era algo bem-vindo. Nos afastamos de olhares curiosos e ficámos num canto mais privado para desfrutar deste tempo.
Tris estava linda com o seu vestido ou saída de praia, não sabia o que era ao exato, em estampado exótico. Parte do seu cabelo estava puxado numa trança enquanto o restante estava solto sob o chapéu-de-sol bege. Nos pés usava umas simples sandálias brancas rasas. Quando ela tirou o vestido exibiu um maiô cor de vinho com babados na cintura. Estava perfeita.
– Quer que eu passe protetor em você? – Pergunto. Sua Pele é tão branca que tenho medo que o sol queime sua pele delicada.
– Sim, pode passar. Nada de gracinhas!
Ela se deita de bruços e eu começo a espalhar o creme nos seus ombros e parte descoberta das costas. Quando termino me deito ao lado dela, simplesmente a olhando enquanto ela lê uma revista. Ela me olha pelo canto do olho.
– Você precisa de protetor? – Ela pergunta me olhando diretamente e virando seu corpo para o meu.
– Não minha linda. Eu estou bem.
Eu estava até aquele momento em que olhei por cima dos ombros de Tris. Eu vi um relance de cabelos negros que me chamou a atenção. Uma menina de cabelos pretos até à cintura se aproxima passando por nós e lançando um olhar malicioso sobre mim. Sinto meu corpo enrijecer na hora. Não pode ser a desafiadora, pode? Ela continua desfilando até parar junto de um grupo de amigos. Ela veste um maio preto provocante, todo às tiras. Por cima tem uma saída de praia em tons de branco e vinho. Seu cabelo está ondulado e preso parcialmente no topo. Porém, não consigo ver novamente seus olhos. Eles estão escondidos por baixo de uns óculos de sol. O que mais me confunde são os olhares que ela manda. Será que ela me reconheceu como eu a reconheci? Dominado pelo receio, me levanto.
– Tobias, está tudo bem?
Tris se senta me olhando confusa. Eu desvio o olhar da garota e me concentro na minha namorada.
– Está tudo bem, mas acho que esse sol me está dando tonturas. – Minto. – Não se importa de voltarmos para casa mais cedo?
– Não… — Ela começa a juntar suas coisas – Tem certeza que está bem?
Eu ficara agitado e agora estava preocupando Beatrice. Eu não queria preocupar ela. Só a queria manter longe da desafiadora. Eu pego sua mão e sorrio para que ela fique calma. Ela entrelaça seus braços à volta de meu pescoço e me beija. Quando ela se separa de mim para recolher sua bolsa, a garota de cabelos negros me olha com despeito. Definitivamente tenho que tirar Beatrice daqui.
Ao voltar para casa, passamos o resto do dia vendo filmes bem agarradinhos um no outro, com muita comida de plástico à mistura. Eu cada vez tinha mais certeza que ela a garota que eu queria para o resto da minha vida. Eu amava tudo nela. Até seus defeitos. Amava quando ela se concentrava em alguma coisa e começava a morder seu lábio. Ou quando ficava irritada e simplesmente me ignorava até que eu pedisse desculpas. Ela era muito orgulhosa. Mas eu não mudaria nada nela.
Quando nos encontramos no dia seguinte na escola, ela vinha distraída conversando com suas amigas Christina e Marlene, sussurrando algo que provavelmente não queriam que fosse de conhecimento geral. Peter me cotovelou e acenou para Tris que não o viu.
– Olha só! A ursinha está ignorando você… — Ele insinua.
– Deixa de ser otário! Ela só está alheia com as amigas. – Digo, não dando azo para ele continuar a fazer insinuações.
Ele levanta as mãos em rendição e me acompanha ao meu cacifo. Penso em perguntar onde está Eric mas considerando de quem estamos a falar, provavelmente está por aí escondido com mais uma garota. É serio, ele gosta de colecionar meninas à lista de conquistas.
– Oi Tobias! – Beatrice aparece atrás de mim abraçando meu torso.
– Oi pequena. – Cumprimento com um beijo rápido.
– Olá ursinha. – Peter provoca ela.
– Olá para você também Peter – Ela ignora a provocação sabendo que isso o deixava irritado.
– É, eu vou nessa – Ela se despede.
Eu fecho meu cacifo e caminha com Tris sob meu braço. Agora temos Inglês junto o que é bastante agradável. Eu adoro tirar impressões de livros com ela. Agora estávamos lendo Romeu e Julieta e o professor nos juntou em pares para tirarmos nossas conclusões sobre o final.
– Eu acho isso muito romântico e tal – Ela falou enquanto mordiscava a tampa da caneta. – Mas eu acho que isso foi coincidência a mais.
– O que quer dizer? – Perguntei.
– Qual é, Tobias! Não acha que é muita coincidência uma criança doente atrasar o Frei João e o primo de Romeu, Benvólio, chegar a ele mais depressa e dar a notícia “errada”? E o Frei Lourenço chegar poucos segundos após ambos estarem mortos? Quer dizer, a peça é uma contínua de consequências e mal entendidos. As brigas, as lutas, Romeu e Julieta se conhecerem…
– Mas Tris, a vida é realmente isso. Uma sucessão de mal-entendidos, consequências e um empurrãozinho do destino.
– Você está dizendo que é uma coincidência estarmos juntos? – Ela fala um pouco irritada embora tentasse não transparecer.
– De certo modo, sim – Confirmei. – Eu poderia estar em outro colégio, viver noutra cidade… Foi uma coincidência termos achado um ao outro. Uma coincidência boa, eu digo.
Ela assente, embora levemente magoada com minhas palavras, e começa a passar para o papel nossas conclusões.
– Não existem coincidências – Ela acaba por murmurar – mas sim peças do destino.
Durante o resto da aula, quanto mais penso sobre o assunto, mais acho que estou errado. Não por não querer deixar Tris irritada e desse modo concordar com ela. Mas existem coisas que não são coincidência.
Na aula seguinte, Tris não está comigo. Está na sua aula de matemática e eu na de química. Olho distraído pela porta da sala e vejo uns cabelos negros. Não pode ser. Não aqui. Uma mão arranha silenciosamente a porta. Eu olho em volta para e meus colegas mas nenhum deles parece notar. Então o vulto começa a afastar-se. Num impulso, me levanto e corro para fora da sala.
– Meu jovem, onde pensa que vai? – Ouço a professora chamar mas ignoro.
Ao fundo do corredor vejo a garota toda vestida de preto e cabelos lisos soltos.
– Hey! – Eu grito e ela se vira assustada. Seus olhos estão tapados por uns óculos de sol escuros. Ela se vira novamente para a frente e desata a correr o mais rápido que consegue.
Eu estou disposto a segui-la quando mãos fortes agarram meus braços.
– Onde pensas que vais? – Eric pergunta.
– Vocês não viram? – Pergunto tentando sair do aperto que Peter fazia. – Era a garota! A Desafiadora!
– Você está ficando obcecado com isso Tobias – Peter bufa.
– Eu vi ela. Ela acabou de fugir! – Exclamo.
– Ele tem razão. – Eric diz. – Olhem a parede.
Peter me larga e ambos olhamos na direção que Eric aponta. Estava em letras enormes em tinta vermelha na parede.
“ Se são os justiceiros ou sabem quem eles são, avisem eles que estamos à espera deles. Não tenham medo. Só queremos uma conversinha entre amigos.(DS-34)
Com amor, Os Desafiadores.”
Toda a gente sabia que os Desafiadores eram tudo menos amigos dos Justiceiros. Aquilo era uma chamada para uma briga. E fizeram questão de colocar isso bem público. Eu percebi a jogada. Se não aparecemos, eles pediriam uma nova chamada e todo o mundo perderia a confiança nos Justiceiros. Perderíamos a credibilidade. Se fossemos, poderíamos perder e perder na mesma a credibilidade. Era uma faca de dois gumes e eles nos colocaram entre a espada e a parede.
– Mas porquê escreverem isso aqui? Será que descobriram quem somos? – Peter perguntou num sussurro, ainda que não houvesse ninguém por perto.
– Não. – Eric fala enquanto mexe no celular. – Está por toda a parte. Por toda a cidade. Eles nos cercaram.
– Malditos! – Eu digo irritado e soco a parede para libertar a adrenalina.
– Não podemos ignorar isso. Vamos acabar com eles de uma vez por todas.
– Eu concordo com Eric. – Digo. – Não posso deixar eles por aí e deixar Tris em perigo.
– Dessa vez eu acho que está certo. – Peter manifesta. – É uma questão de tempo até eles seguirem nossos rastos e usar quem amamos para nos atingir.
– Então precisaremos de armas. Facas, pistolas… O que conseguirmos. – Os dois olham para mim desconfiados e tenho de explicar. – Eles jogam sujo então teremos que entrar no jogo deles.
Faltamos o dia inteiro de aulas para preparar tudo. Envio um torpedo a Beatrice dizendo que matei aula com os garotos e para ela ir direto para casa e esperar lá por mim. Ela não fez perguntas e falou que esperaria por mim.
Ao fim da tarde já tínhamos o que precisávamos e desvendado o “DS-34”: Dalton Street, number 34” (Fictício). Decidimos não correr quaisquer riscos e percorremos o longo caminho a pé. Antes de entrar, nos entreolhamos e damos um abraço desleixado de boa sorte.
Entrando vimos os três á nossa espera. Os garotos, vestidos de preto e máscaras como nós, mas com uma tira de pano vermelho na cintura, estavam em pé dos lados da garota. Ela era a cabecilha! Não sei se isso me chocou ou assustou. Como ela conseguira ter poder sobre dois caras? Provavelmente muita manipulação e sedução. Mas ela estava diferente. Seu cabelo. Ele estava ligeiramente mais curto, escadeado e ruivo. Se da primeira vez que a vi ela era atraente, ela agora parecia uma Afrodite na terra. Seu corpete tomara que caia preto e verde contrastava com seus fios brilhantes e as calças de cabedal pretas mostravam as curvas que a saia escondera da primeira vez. A mascara não é mais de renda mas de um tecido similar ao cetim em um laranja avermelhado e preto. A única coisa que permanecia exatamente era o pendente com a chave repousando no seu peito.
– De novo apreciando a visão? Você é um verdadeiro Cowboy, não é mesmo? – Ela ronrona, sentada confortavelmente.
– Vamos parar de brincadeiras! – Eric censura. – Vamos acabar com isso.
Ao ouvir Eric, o rosto da beldade se transforma numa expressão de indiferença e se levanta.
– Vocês são uns tolos. – Ela fala. – Vocês se dispõe a arriscar suas vidas para apanhar um punhado de ladrõezinhos e receber os louros como se fossem grandes heróis. Mas vocês não são nada e não conseguiriam pegar peixe graúdo mesmo que quisessem.
– E qual é o seu problema? – Pergunto e ela me olha.
– Meu problema é o vosso grupinho justiceiro. – Ela vocifera. Ela caminha em nossa direção, mas deixando uma distância favorável. – Vocês não podem simplesmente lembrar-se e resolver o que não vos compete. Vocês não podem mudar o rumo das coisas!
– É por isso que você se deu a tanto trabalho? – Peter questiona cético.
– Isso e porque estava a fim de um bom desafio. – Ela dá de ombros. – Entendam, eu não sou uma pessoa má.
– Ah não?
– Não! – Ela fala um tom de voz mais alto.
– Deixe de dar explicações tolas a esses caras, DIV. – Um dos caras a alerta. DIV? Esse é seu nome?
– Cala a boca garoto! – Ela grunhe.
– Qual é! Você está fazendo isso porque seu pai quer eles fora de cena. Pronto, é tão difícil assumir que faz tudo o que o papá quer?
Ela lhe lança um olhar mortal mas logo trata de se recompor.
– Bom, isso não interessa. – Ela fala com toda a sua confiança de volta. – O facto é que não podemos deixar vocês saírem daqui. Vivos, pelo menos.
Como se para salientar o que dissera, ela toca seu cinto com a sua arma e uma navalha. Ela caminha até sua poltrona, onde outrora estava sentada e pega um taco de basebol.
– Então Cowboy? Quer morte lenta ou rápida? Como eu gostei de você, deixarei você escolher.
Eu pego os bastões que trouxe comigo, pronto a dar luta. Ela podia ser uma garota mas nesse momento não importava. Era uma questão de sobrevivência. Ela assentiu como se respondesse a uma pergunta silenciosa ou convencendo-se a si mesma de algo e avançou sobre mim.
Ela tentou deferir o taco em meu estomago mas eu girei sobre mim mesmo e ao mesmo tempo atingi o bastão em suas costas fazendo-a cair de joelhos e resfolegar por ar. Agarrei seu pescoço e o segurei. Os outros à minha volta combatiam sua própria batalha.
– Eu realmente não queria magoar você mas eu preciso me manter vivo.
– É realmente uma pena – Ela ofegou.
No segundo seguinte senti sua navalha perfurar a pele do meu tornozelo, o único lugar que ela conseguia alcançar. Por instinto a largo e ela logo se levanta em posição de defesa.
– Você não precisa fazer isso – Eu digo a ela.
– Eu lamento. – Ela pára por um segundo e me olha com pesar. Ela abana a cabeça e volta ao ataque.
Sem outra opção eu revido seus golpes. Ela sabe bem como usar o taco e meus próprios golpes a seu favor. Ela não era uma amadora como nós éramos e logo percebi como estaríamos em desvantagem. Ela se move agilmente. Eu tento atingir ela com o bastão mas ela defende o golpe e me acerta com o bastão na cara me fazendo cair de costas no chão. Num movimento só me levanto e movimento de novo o bastão contra seu peito mas só consigo acertar o candeeiro já que ela se aninha se esquivando. Quando ela retorna a ficar de pé, lanço meu pé contra seu tornozelo e o puxo, fazendo- a cair. Eu lanço meu pé contra seu estomago mas ela rebola para longe, se protegendo das minhas investidas. Numa tentativa de atacar, ela lança sua adaga contra mim mas facilmente a desvio. A pego pelo pescoço e a lanço com todas as minhas forças contra o tampo de uma mesa que se desfaz em pedaços. A “Div” tem dificuldades em respirar mas não se dá por vencida. Ela saca da arma e me mira.
– Que feliz coincidência que ainda tenho minha arma comigo não é? – Ela força-se a dizer, enquanto se coloca em pé. Eu levanto meus braços rendido e ela desfere um pontapé em mim, me fazendo deslizar pelo chão.
Eu olho com ela com escárnio e revolta.
– Minha namorada diz que não existem coincidências mas sim peças do destino. – Eu falo lembrando de Beatrice. Minha Tris. Eu não poderia morrer, não podia fazer isso com ela. E se eu tivesse que matar esta garota, era isso que eu faria.
Ela me olha vacilando um pouco. Ela nunca pensara que havia uma namorada na equação, uma qual poderia vingar meu legado e continuar meu trabalho. Eu aproveito sua hesitação e pego a navalha que guardei para último recurso no cós da calça e a lanço mirando seu peito.
Ela arregala os olhos e deixa a arma cair no chão propositadamente.
– Não, espera! – Ela grita apavorada antes da lamina atravessar em seu peito.
Ela olha para seu peito que jorra sangue e depois para mim.
– Tobias… — Ela balbucia e eu enrijeço.
Ela chamou meu nome. Ela me conhece. Sem pensar eu me debruço a seu lado e logo ela agarrou minha mão. Lágrimas brotaram por baixo da mascara.
– E-eu não sabia que era você – Ela continua. – M-me perdoa.
Ela choraminga mais alto enquanto tenta respirar. Seus olhos pairam nos meus. Seus olhos… Olhos azuis.
– Não… — Murmuro ao puxar a máscara fora e comprovar o que eu temia. – Não!
Era Beatrice por baixo daquela máscara. Agarro a cabeleira e a puxo, deixando aparecer seus cabelos loiros por baixo.
– E-eu lamento muito – Ela se desculpa.
– Não, não… — Eu choro desesperado tentando em vão parar a hemorragia. – Não me abandone Tris! Porque você fez isso?
– Eu sou divergente – Ela fala pensativamente. – Não posso ser controlada.
Divergente… DIV! Foi isso que o cara queria dizer quando a chamou por DIV.
– Não! Você não é assim. – Eu nego. – Você é a minha garota! A minha doce e amável garota.
– Eu lamento ter deixado você entrar em minha vida – Ela chora – Eu nunca poderia ficar com você.
– Você poderia sim! Eu te amaria de qualquer jeito. Eu te amo!
Ela esboça um sorriso fraco.
– Eu também te amo.
Beatrice parecia fazer menção de dizer algo mas ela não tem mais forças. Eu a puxo para meu colo e a abraço com força a embalando. Minhas lágrimas correm até seus cabelos enquanto a vida se esvaí da minha menina. Eu matei aquela com quem eu queria passar toda a minha vida. Agora eu compreendo como Romeu se sentiu ao ver Julieta sem vida. É uma dor tão sufocante que parece esvair nossa própria vida. Passamos a ser uma carcaça vazia.
– Tobias? – Ouço Eric chamar – Você está bem?
– Ele está ali. – A voz de Peter ecoa atrás de mim.
Em pouco tempo eles me alcançam.
– Tobias o que…. TRIS? – Eric cai ao meu lado incrédulo levando as mãos à cabeça.
– Ohhh. Tobias, eu lamento muito. – Peter acaricia meu ombro.
Ficámos em silêncio, a perceber tudo o que havia acontecido. Tris não sabia que era eu. Só percebera quando citei suas palavras mas fora tarde demais. Ela era duas pessoas completamente diferentes. E eu nunca percebera. Mas eu sabia que seu amor por mim não fora uma mentira. E ela seria sempre recordada por mim como minha menina, minha ursinha, como Peter fazia questão de a chamar. Eu limparia da mente a memória dela como DIV, a garota que me tentara matar e que acabou morrendo em meus braços.
– Fica aqui a promessa de que terminamos isso aqui e agora e nunca mais tocamos no assunto. – Eric falou. – Os justiceiros e os Desafiadores sairão de cena para sempre.
Peter assente mas eu só olho minha Beatrice, desfalecida em meu colo, sua pele que nunca mais ruborizará, seus olhos que nunca mais brilharão de alegria, seus lábios que nunca mais adquirirão seu tom rosado. Ela se fora e a culpa era minha. Não poderia nem aguentaria passar por isso novamente ou relembrar este momento.
– Eu prometo.
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