Perfect

1 Prólogo


Melanie

Eu nunca me esquecerei daquele dia, até porque minha cabeça me leva todos os dias para aquele exato dia e momento, onde tudo mudou em minha vida.

Eu estava em nossa casa, cuidando dos preparativos para contar a Cristian a grande novidade: estava grávida e de uma menina, como sempre sonhávamos. Ele entrou pela porta de casa inquieto e veio com uns papos de que iria pra Gramado, olhei pela janela e vi que o dia não estava dos melhores, chovia e os ventos eram constantes. Pedi para que deixasse para outro dia e ele não quis, então decidi me arriscar e ir junto dele. Nada poderia nos acontecer, pelo menos eu achava que não.

As lembrança já me levavam para aquele exato momento de colisão, estava difícil enxergar o outro lado da rua, e numa exata curva veio um caminhão, fazendo com que batêssemos de frente a ele. Eu não lembro exatamente como aquilo tudo aconteceu, as lembranças são vagas. Lembro de acordar desnorteada e vê-lo deitado numa maca sangrando muito, seus olhos estavam abertos e encaravam o nada, não sabia se ele estava acordado ou não. Assim como acordei eu rapidamente fechei meus olhos e adormeci.
A próxima lembrança que vem é de acordar no hospital dois dias depois e receber a notícia que eu havia perdido meu marido e meu bebê. Cristian morreu na hora, não teve nem uma segunda chance que os médicos poderiam dá-lo. Foi um dor terrível, eu não sabia o que era pior. Meu coração se despedaçou, minha cabeça girava e faltava ar, e então me sedaram pela segunda vez.

Sai do hospital já com as minhas férias, teria três meses para me recuperar. O choque era grande, a dor maior ainda, e o vazio nem se fala. Passei a primeira semana muda, calada, sem vida. Mamãe foi morar comigo uns tempos e tentar me ajudar. Em vão. Aquela casa era uma terrível lembrança, a cada canto que eu olhava eu lembrava daquele dia. Os pesadelos eram constantes, a falta de vontade de comer também. E lá estava eu, apenas sobrevivendo.

Eduardo

As lembranças daquele ano já eram quase que esquecidas, eu tentava ao máximo esquecer aquele ano, tentava ao máximo viver e tentar ser feliz, assim como ela me fez prometer. Não que eu não sofre todos os dias, não que eu não sinta dor, isso é constante, mas ela me deixou uma linda menina em minhas mãos, e eu teria que aprender a viver, por ELAS.

O dia estava lindo, Bárbara já havia completado seus 9 meses de gestação a uma semana e estávamos apenas esperando nossa Liz chegar ao mundo. E foi naquele dia, dia 7 de maio em que tudo aconteceu. Bárbara começou com as contrações, a dilatação já estava suficiente para começar o processo. Estávamos em casa, como ela queria, ela ali sentada na banheira e eu atrás a segurando. Tínhamos toda uma equipe, doula, enfermeiras, nossas mães e amigos. Tudo conspirava ao nosso favor, iria dar certo. Até que ouve complicações, Liz estava toda virada, o cordão umbilical já a sufocava e poderíamos perder nossa bebê. Até que um milagre aconteceu e Liz nasceu, ela era linda, igual a mãe. Estávamos radiantes, nossa família finalmente estava completa... Até que Bárbara começou a perder muito sangue, ficou branca e desmaiou. Foi ali que eu, um homem sem fé alguma, comecei a rezar para que ela ficasse bem e fosse apenas uma perde comum de sangue.
Chamamos na hora a ambulância, e eles levaram as duas. Preocupado, sem rumo, e desnorteado, rezando em cada canto daquele hospital para que tudo fosse uma completa mentira e tudo voltasse como era antes, porém agora com a nossa Liz. Era assim que eu estava ao receber a notícia em que Bárbara não havia sobrevivido. A vida de Liz estava em minhas mãos, e lá estava eu, perdido.

Eu havia prometido a Bárbara que se alguma coisa acontecesse a ela eu seguiria em frente, teria meu tempo de luto, mas me recuperaria. Eu não sabia ao certo se conseguiria cumprir essa promessa, mas eu tentaria. Ao pegar Liz no colo pela segunda vez naquela noite eu percebi que eu estava carregando meu mundo inteirinho, e é até engraçado pensar que o meu mundo cabia na palma da minha mão. Lá estava Liz, linda e saudável. Seus cabelos loiros iguais o da mãe, os olhos escuros iguais a mim. Ela era incrivelmente linda, e parecida com Bárbara. E ali, a segurando em meus braços que eu entendi qual era o maior amor do mundo.