Então quer dizer que você me acha gorda, feia, que eu deveria morrer. Que por eu não ser a mais inteligente, ou a mais atlética, eu deveria me sentar em um cantinho sujo e mofado e chorar minhas dores lá. Acha que por eu ser uma garota no meio de tantos homens deveria me submeter a eles, afinal, mais cedo ou mais tarde isso vai acontecer. E se for mais tarde, não vai ser de um jeito muito bom.

Então quer dizer que eu sou magra demais para o seu gosto. Uma “vara-pau”, como gosta de me chamar. Que eu deveria me envergonhar por minha anatomia e meus antepassados não terem me dado a glória de seios fartos, bunda durinha e cochas sem estrias. Que eu deveria pegar o dinheiro da minha faculdade e investir em silicones, já que eu nunca chegaria tão longe por conta própria.

Você acha que eu não tenho capacidade pra mais. Que o ápice da minha vida vai ser lavar pratos, enquanto cuido dos meus filhos e espero meu marido chegar com a comida quente já posta na mesa. Que ao acordar tanto santo dia, ainda vou agradecer a Deus por aquela minha vida, afinal, qual seria o sonho de todas as mulheres se não se casar e viver seus felizes para sempre?

Mas te digo desde já que você está errado. Não estamos mais em 1930, onde o sonho das menininhas eram encontrar seu príncipe encantado, vencer a bruxa má e serem felizes para sempre. Não. Estamos em pleno século XXI, onde cada vez mais mulheres empoderadas erguem sua voz para lutarem pelos seus direitos, mandando o foda-se pra essa sociedade machista e hipócrita de merda que só está feliz com os resultados, não importando os meios que você use para isso.

Então quer dizer que eu sou feia? Não ligo. Que eu deveria fazer uma dieta, ou quem sabe ganhar mais um pouco de peso? Bom, sinto lhe dizer que estou feliz comigo mesma e que a sua opinião não acrescenta em nada pra mim. Que eu sou muito masculina, por não fechar as pernas ao sentar e por proferir muitos palavrões? FODA-SE. E que por essas e outras hipocrisias eu nunca serei capaz de agradar o meu futuro companheiro e marido? Só lamento, se nem Jesus conseguiu essa proeza, não serei eu que vou me dar ao trabalho de fazer.

A minha unha do mindinho que você considera anormal, só é diferente. Assim como eu. As marcas que existem em minhas coxas, não são marcas de verdade. São as minhas lutas diárias para chegar aonde cheguei. Os seios considerados outrora pequenos demais estão na proporção exata do meu corpo, diretamente ligados com a minha alma. Aquelas pintinhas espalhadas desigualmente pelo meu corpo? Minha galáxia particular. E o meu sorriso, sim, aquele mesmo, o que é “danificado” por conta dos meus dentes serem separados de mais sabe? Bem, eles são perfeitos. Igual a todo o resto.

Então vá em frente e continue me inferiorizando, ridicularizando, achando que é melhor que eu de algum modo. De todos os modos. Eu não me importo. Mesmo.

Porque lá fora, a milhares de meninas e mulheres que, assim como eu, sofrem ou já sofreram isso de algum modo. E é por elas e por mim mesma que eu continuo lutando, de ombros eretos e cabeça erguida. Porque eu sei que de algum modo elas me apoiam. E eu faço o mesmo por elas.

Porque no final, eu sei que tenho a força de todas elas. Eu tenho a mim. E isso é mais que o suficiente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!