Perfección
1 Utopía
Eu a admirava todo os dias, logo acima da lareira, pintada à óleo em uma tela absurdamente grande. Ela era linda, tão linda que doía olhar por muito tempo.
Nunca tomei coragem de perguntar ao meu tutor de língua espanhola se aquela pessoa realmente existia, até que um dia a mesma adentrou o escritório sem aviso prévio. Meus olhos se arregalaram e minha boca se abriu involuntariamente.
Era tão linda quanto na pintura.
Apenas abriu a porta, entrou alguns passos com o olhar um tanto quanto malicioso voltado para mim e, após desviar o mesmo para meu tutor, pareceu assustada e saiu rapidamente. Deixando-me a querer observar mais de seus movimentos tão graciosos.
Precisava falar com ela, não aguentava mais. Já era uma necessidade incoerente. O motivo era apenas sua perfeição e, por um momento, me achei a pessoa mais supérfula do planeta. Eu não era assim, mas agora não importava mais.
Assim, esperei até a lição acabar e perguntei:
– A senhorita que entrou a pouco é sua filha, professor? Não pude deixar de notar ser a mesma pessoa que a pintura acima da lareira.
– Como assim, James? Esta era a antiga dona da mansão, não tenho ligação com ela, mas deixei a tela em sua memória. Nunca entendi o por que deste ter ficado aqui, na verdade. Entretanto, aqui entre nós, ela é maravilhosa, não? — falou com seu olhar brilhando luxúria. — Que homem ousaria tirá-la da parede?
– Mas... — parei quando a figura delicada abriu a porta do cômodo outra vez com um dedo sobre os lábios, pedindo para me calar.
Estava confuso, mas tão hipnotizado que se ela me pedisse para me atirar em frente a uma carruagem em movimento, o faria.
– Ah, devo ter sonhado acordado. Ela é realmente muito bonita, afinal. — disse a olhando, enquanto saia outra vez do escritório, me lançando um par de piscadelas que me fez suspirar.
Meu professor riu e o acompanhei, assim acabamos a aula do dia.
Assim que sai pela porta, um puxão me atirou no chão ao lado da mesma e algo prendeu meus pulsos acima de minha cabeça.
Eu estava prestes a protestar quando vi quem foi.
– Tudo bem, James? — ouvi de dentro do escritório.
– Sim, senhor.
Olhei seu rosto tão perfeito, finalmente podendo o contemplar de perto. Seu cabelo ruivo ondulado e comprido caia e fazia um pouco de cocégas em minhas bochechas; a pele clara coberta de sinais e lábios cheios e vermelhos como suas maçãs do rosto.Tudo parecia não ter defeitos. E seus olhos verdes... Poderia morrer os fitando.
– Oi? — eu disse, enfim. Por mais que gostasse da situação em que nos encontrávamos, precisava ouvir explicações.
E, obviamente, sua voz.
Nada me respondeu, continuava a me analisar e cada vez mais me instigar a saber mais sobre seu ser, cada vez mais poder admirá-la e tocá-la.
Quem era ela?
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