Perdoe os Vícios pelo Amor
7 BÔNUS: Anya
Notas iniciais
Quando minha avó falou que eu teria que recepcionar a neta da Dinah Vougan, aceitei relutante, mas depois agradeci a ela pelo pedido. Nancy inicialmente era muito calada, porém foi se soltando aos poucos. Até Leila se deu bem com ela.
― Não temos nenhuma aula juntas. ― Nancy resmungou quando o sinal tocou. ― Encontro vocês na entrada da escola, qualquer coisa me mandem uma mensagem.
Essa era outra qualidade de Nancy, ela sempre se preucupava comigo e com Leila, conquistando a minha confiança. Se bem que de acordo com Leila, eu sou inocente demais, por sempre focar nas qualidades das pessoas.
É errado acreditar que todos podem ser bons?
― Até Anya. ― Nancy se despediu, e eu murmurei um "tchau" ainda saindo dos meus pensamentos.
Perdi metade das conversa, de novo, quem mandou ser sonhadora Campbell.
― Não entendo como a Nancy sempre tão correta tem um amigo tão idiota. ― Leila falou me acompanhando pelo corredor.
E eu não entendo sua antipatia por ele.
Impedi-me de dar voz as esses pensamentos, me sentindo subitamente fraca. Parei no meio dos corredores mal me equilibrando nas pernas. Como?
― Anya você está bem? ― Minha visão ficou turva e sua voz pareceu um sussurro distante.
― Eu...n-não. ― Balbuciei colocando a mão na minha testa, tropeçando nos meus próprios pés.
Eu ia cair, mas alguém me segurou, passando os fortes braços pela minha cintura. Meus olhos pesaram antes de ver quem era. O perfume. Percebi, era o perfume dele, mas era loucura.
É isso estou ficando louca.
Pensei, antes de me entregar ao inconsciente.
***
Meus olhos se abriram, e não contive um xingamento, incomodada pela claridade. Apoiei as mãos ao lado do meu corpo e tentei me levantar, mas não consegui, todos os meus músculos doíam.
Onde estou?
― Quer ajuda para levantar? ― Um arrepio percorreu todo o meu corpo e encarei o garoto a quem eu tinha declarado meus sentimentos.
― O que eu quero é que você saia daqui. ― Falei amargurada.
Não estava maluca.
― Dá o fora. ― Era a voz de Leila, procurei por ela com o olhar e a encontrei na porta do lugar onde eu estava, na maca da enfermaria da escola. ― Ouviu o que ela disse.
― Me poupe Leila. ― Scott levantou do banco próximo a mim irritado. ― Preciso conversar com ela em paz.
Seja forte.
― Já conversamos.
Ignorei seu olhar arrependido, era tarde demais para isso.
― Vá embora, por favor. ― Tentei novamente.
― Não. ― Afirmou rude. ― Não vou te deixar de novo, a menos que me prometa que vamos conversar depois.
Eu não queria chorar na frente dele, mas foi inevitavelmente uma lágrima rebelde escorrer pelo meu rosto, sem que me desse conta.
― Scott, se você pensa em ter filhos, sugiro que se retire. ― Leila explodiu voando até ele e dando um forte tapa em seu rosto.
Arregalei os olhos surpresa.
Scott não gritou com ela, apenas balançou a cabeça resignado.
― S-a-i-a.
Ignorando o olhar mortal da minha amiga, ele andou em passos lentos em minha direção com um carinho contido em seu olhar. Se eu estava fraca, naquele agora não era pelo mal estar. Scott segurou a minha mão acariciando seu dorso, e quando enchugava minhas lágrimas com a outra. Ele me tocou como se eu fosse quebrar.
― Ainda me preocupo com você.
Fiquei calada, com os batimentos acelerados e a respiração entre cortada.
― Sou seu amigo.
― Eu não quero mais sua amizade. ― Menti afastando a minha mão. ― E você me usou e me jogou fora. ― Sussurrei com as barreiras quebradas.
― Eu vou. ― Scott colocou as mãos nos bolsos com uma expressão melancólica.
Fechei os olhos e inalei o perfume que que tinha lhe denunciado momentos antes, até não conseguir senti-lo mais.
― Ele já foi. ― Leila sentou no banco em que ele tinha sentado e tocou a minha testa. ― Se não fosse por ele você teria dado de cara com o chão, deveria ter visto a cara da Vacaiolet quando ele te carregou até aqui.
Dei um sorriso fraco, imaginando a cena.
― Você bateu nele.
― Admito que adoro vocês juntos. ― Suspirou. ― Mas ele é idiota demais para aceitar que está arrependido e que gosta de você não da piranha que ele chama de namorada.
― Ele me vê como amiga.
― Claro. ― Leila ironizou. ― Continue se iludindo.
Eu conheci Scott nas reuniões de negócios em Phoenix, onde todos os grandes empresários apresentam suas ideias e tentam conseguir alianças vantajosas.
Minha mãe era dona da Companhia Campbell, a maior empresa do sudoeste dos Estados Unidos em extração de minérios. Ela se aliou aos Devens, donos da Horizon que precisam da nossa matéria prima para a produção dos seus aparelhos. E o pai do Scott, William Harris é vice presidente da Horizon. Resumindo, eu via com frequência Alex Devens e Scott Harris.
Alex era sempre grosseiro e distante, mas conseguíamos manter uma conversa por alguns minutos. No fundo eu sabia que ele não era tão ruim assim.
Já Scott era gentil e bem humorado, fazia piadas ridículas tornando toda aquela situação menos incomoda. Aos poucos nossos contatos se extenderam na escola também.
Scott Harris era a minha incógnita, e isso fazia minha paixão por ele parecer um capricho do destino. O nosso fim nunca foi certo, e a atração que eu sentia por ele superou a repulsão do meu medo de me machucar.
Estar com ele sempre foi como pegar em uma rosa cheia de espinhos, eu tinha a satisfação de tê-lo ali perto de mim, enquanto eu sangrava, meu coração sangrava. Eu queria mais que amizade, e não falar para ele estava me sufocando, e quando o fiz, Scott me humilhou e passou a me evitar em seguida.
E ainda assim me sinto culpada.
E Leila?
Bem muitos não iam com a cara dela, pelo seu jeito extravagante e mimado. Mas ela era mal compreendida, com uma mãe mais preucupada em cirurgias plásticas e um pai que preferia ficar em Paris, trocando de amantes (sempre modelos) como quem troca de roupa.
Leila e eu nos tornamos amigas quando seu pai, Clint Oakley, convidou eu minha mãe para um jantar humilde casa. Definitivamente boates dão lucro.
― Obrigada por ficar comigo. ― Murmurei para Leila.
Ela piscou os olhos ofendida.
― Você é a irmã que eu nunca tive, minha família. É meu dever estar ao seu lado.
― Leila, você é fofa quando quer. ― Usei minha força, que ia voltando aos poucos para me sentar na maca e abraça-la. Eu não sabia como seria minha vida sem ela.
― Eca, estamos grudentas demais. ― Falou me soltando e arrumando a roupa. ― Tia Sally convenceu a diretora Katherine para te liberar mais cedo. E eu claro vou com você.
Já mandou até o motorista.
― Certo. ― Sussurrei e de súbito me lembrei de alguém importante. ― E Nancy?
Leila revirou os olhos sorrindo.
― Já mandei uma mensagem pra ela. Nancy sabe se virar mais que nós duas juntas.
Isso é um fato.
― Mas eu não me sinto bem deixando ela assim. ― Insisti. ― E a vovó? Já falou para ela nos encontrar na minha casa?
― Anya. ― Suspirou exasperada. ― Já pensou em ser freira? Você vai ser beatificada.
― Está bem, mas só por precaução vou mandar uma mensagem também.
― Eu nem sei porque estou surpresa.
Algum tempo depois, Leila me ajudou a descer da maca, para ir para casa. Infelizmente um certo não príncipe, parecia estar grudado na minha cabeça.
***
― Ei é mentira tá. ― Leila bufou. ― Eu nunca toquei um dedo nele. Simon Graham? Sério?
Gargalhei com a ideia absurda do site de fofocas local, que dizia que a minha amiga estaria namorando com "o estilista mais badalado da cidade".
― Ele é meu amigo. E é gay. ― Protestou. ― Fontes confiáveis é o caramba, nem fotos eles tem.
― Nem sei como você ainda se importa.
― Eu me importo com minha vida social.
Tentei pela milionésima vez, mostrar para Leila que a opinião desses tabloides sobre nós não importam. Mas quem disse que ela me escuta.
O interfone tocou e corri para o atender.
― Alô?
― Senhorita Campbell, uma moça chamada Nancy Vougan está aqui.
Nancy?
― Deixe-a subir Jon, obrigada.
Andei até o quarto surpresa e feliz, e olhei para Leila que pintava cuidadosamente suas unhas com um tom de azul claro.
― O que foi ? ― Indagou.
― A Nancy está aqui.
Leila deixou de prestar atenção no que fazia e jogou o esmalte em um canto da cama, levantando animada.
― Que bom, estou precisando dos dotes culinários dela.
Ao chegarmos até a porta a abrimos no exato momento em que Nancy ia tocar a campainha. Ela estava branca como papel, não sei se pelo susto da nossa euforia, ou por alguma outra coisa.
― A surpreendida fui. ― Falou com um sorriso brincalhão enquanto abraçava Leila, que não se importou em borrar suas unhas. ― E vejo que está bem melhor Anya.
Minha mãe tinha razão, as vezes a amizade surge das maneiras que menos imaginamos.
Fale com o autor