Perdoe os Vícios pelo Amor
4 Eu não consigo ficar longe de confusão
Notas iniciais
VIRTUDE NÚMERO 2 — Longanimidade : Significa tolerância. Proporciona o desenvolvimento de ânimo para suportar, com serenidade e resignação, insultos, vexames, ofensas e contrariedades.
Um garoto muito bonito pensou pela porta, era loiro, alto de olhos cor âmbar, ele parecia um príncipe, desses que vemos em contos de fadas. Mas não era ele o motivo do incomodo, e sim a morena ao seu lado dele com um sorriso presunçoso em nossa direção, mais especificamente, para Anya.
Vaca.
Pensei automaticamente. Ela não usava roupas curtas, na verdade usava um vestido florido na altura dos joelhos e uma maquiagem que lhe dava um ar angelical, mas se prestasse mais atenção veria uma malícia em seu olhar e sua postura oferecida.
― Podemos ir se você quiser. ― Leila tentou tranqüilizar a amiga segurando sua mão e eu concordei com a cabeça.
― Nós vamos ficar. ― Replicou decidida mesmo com seu olhar denunciando uma decepção.
― Essa é a minha garota. ― Leila comemorou.― Ainda vou acabar com essa vadia da Violet.
A única coisa que eu podia fazer era observar e tentar acalmar as duas que pareciam a beira de um colapso, principalmente quando o casal sentou uma mesa de distância da nossa.
― Eu não acredito.― Leila praguejou com seus olhos azuis ardendo de ódio. ― Scott é outro vagabundo. Vamos antes que eu acabe com esses dois.
― NÃO. ― Anya protestou desesperada segurando o braço da loira. ― Somos mais fortes que isso.
Um silêncio constrangedor se instalou, e me amaldiçoei por não saber lidar com aquela situação, logo eu que sempre tinha uma frase na ponta da língua.
Eu não deveria estar escutando nada disso.
― Posso confiar em você? ― Anya me perguntou como uma suplica.
Encarei-a.
Refleti sobre aquela loucura, eu mal conhecia as duas, mas a impressão que tinha é sempre fomos amigas, e estávamos apenas separadas.
Mas o que eu sei sobre amizade? A única amiga que eu tive me traiu da pior forma possível.
Por fim suspirei.
― Pode contar comigo, jamais falarei o que quer que seja para alguém sem sua autorização. ― A minha voz saiu em um sussurro, mas mostrou toda a sinceridade que eu queria passar.
As duas deram um mínimo sorriso com minha reação, e eu senti uma estranha alegria.
― Certo, é uma longa história.― Leila disse. ― E aqui não é o lugar apropriado para contar né?
― Concordo.― Batuquei minha unhas bem feitas na mesa. ― Pode ser amanhâ na minha casa?
Anya piscou entendendo meu raciocínio. Dinah não poderia reclamar.
― Perfeito Nancy, vou chamar a vovó assim poderemos conversar melhor.
― E você Leila?
― Claro. ― Falou dando de ombros.
― Não tem problema pros seus pais?
― Não.
Curta e grossa. Todos temos segredos afinal.
Continuamos nosso ´´almoço``, conversando tranquilamente, como se uma certa garota não estivesse nos matando com o olhar. Estalei a língua quando o sinal de subirmos para a sala tocou.
― Vamos. ― Anya resmungou levantando-se rapidamente da cadeira.
Não me passou despercebido o olhar que ela trocou com o tal Scott. Intenso demais. Aos poucos fui chegando à conclusão óbvia, mas eu esperava que a própria Anya confirmasse.
Deixei as duas passarem primeiro pela porta, eu queria defende-las, talvez fosse realmente um início de amizade. E fiz aquilo que sabia fazer de melhor : provocar.
Fiz questão de sustentar o olhar de Violet, que pareceu assustada pela minha ação repentina, fiz uma ameaça silenciosa com o olhar e sorri em deboche com seu rosto intimidado, ainda que tentasse esconder por trás da raiva expressa no seu rosto, como proteção agarrou o braço do namorado.
Joga sujo meu bem? Uma pena por que com elas você não mexe mais.
― Finalmente Vougan, pensei que não fosse nos acompanhar. ― Leila comentou quando me coloquei ao seu lado.
― Eu também. ― Resmunguei. ― Vem cá, nessa escola ninguém consegue andar sem esbarrar nos outros não?
― Na verdade não. ― Respondeu Anya torcendo o nariz. ― Mas com o tempo você se acostuma.
― Eu nunca me acostumei com essa merda.― Leila retrucou.
***
Finalmente a última aula.
Para minha tristeza era Biologia, e eu já estava com uma tremenda dor de cabeça.
― O professor de Biologia mudou. ― Leila comentou sem entusiasmo. ― Trocaram um cadáver por outro, tenho certeza.
― Qual o nome dele mesmo? ― Anya perguntou.
― Sei lá, não me importo mesmo.
Entramos na sala e sem novidade nos sentamos na última fileira, aproveitei enquanto o professor não chegava para colocar as pernas na cadeira vazia ao meu lado. Esse era o único horário que ficávamos todas juntas.
― Richard Collins. ― Falei.
― Quem? ― Anya questionou confusa.
― O nome do novo professor de Biologia, vi no horário.
Leila colocou a mão da testa dramaticamente e se jogou da mesa fingindo uma morte.
― Se o nome é desinteressante, imagine às aulas.
Encostei-me melhor na cadeira e apoiei minha cabeça sobre ás mãos. A sala ficou subitamente silenciosa e olhei para a porta esperando que fosse o professor.
Não era o professor, e sim mais um aluno parado na porta segurando o livro de biologia e um caderno de forma desleixada. Limitei-me a fechar os olhos e continuar meu descanso, enquanto todos na sala pareciam observar cada movimento do estranho.
Um arrepio percorreu todo o meu corpo quando senti uma presença perto de mim.
― Tire as pernas da cadeira. ― Ouvi uma voz grave e profunda falar e abri meus olhos, todos na sala agora estavam olhando para mim, me deixando atordoada. O tom de voz dele tinha me surpreendido, aquilo era uma ordem.
― Claro. ― Resmunguei entredentes, olhando para o estranho na minha frente. Eu não tinha a menor intenção de mover um músculo a menos que ele pedisse com o mínimo de educação que uma pessoa civilizada faria.
Quem ele acha que é para falar assim comigo?
― Caralho garota! Tira a merda dessas pernas agora. ― Ele gritou passando as mãos pelo cabelo impaciente, e seus olhos azuis ficaram sombrios. A tensão era palpável.
― Nancy não o provoque. ― Leila sussurrou para que apenas eu escutasse. ― Você não quer vê-lo zangado.
Suspirei derrotada, eu não queria confusão no meu primeiro dia de aula, mas que droga, custava ser educado? Tirei minhas pernas da cadeira, e não deixei de reparar que tinha muitas outras vazias.
Ele se sentou e eu imediatamente corrigi minha postura e olhei para Anya que falava comigo, mas eu apenas fingia estar na conversa. Aos poucos o burburinho foi voltando a sua normalidade, e eu quase me esqueci da presença desagradável á minha esquerda.
Infelizmente a curiosidade me venceu e eu olhei para o fulano. Eu tinha que admitir que o imbecil era bonito, muito bonito. Possuía cabelos negros lisos e bagunçados, um rosto de traços elegantes, e uma pele levemente bronzeada, mas o que realmente chamava atenção era os olhos azuis, cor de gelo que passavam uma agressividade misturada com uma frieza incomum.
Quem é ele?
Talvez eu realmente não quisesse saber a resposta.
Quando a sala ficou novamente em silêncio tive certeza que dessa vez era o professor. E que professor. Soltei uma risada fraca para Anya ao ver Leila ter um súbito interesse por Biologia.
― Que gato! ― Escutei alguma menina sussurar.
― Olá alunos. ― O homem sorriu, arrancando muitos suspiros femininos. ― Como alguns já sabem meu nome é Richard Collins, o novo professor de Biologia e espero atender todas as espectativas.
Já superou.
E eu ri com do meu pensamento. O ´´Rick´´ era um quarentão, só que digamos...charmoso. Sabe esses atores que a idade não afeta em quase nada? Era ele. Com um cavanhaque bem feito e um sorriso de matar.
Lilian diria que essa escola é abençoada por homens bonitos. Pensei amarga.
― Gostaria de avisar que a pessoa sentada a sua esquerda será seu parceiro de trabalhos até que eu diga o contrário. A cada final de conteúdo quero um resumo da dupla, vai funcionar como um ponto extra.
Não.
Olhei para Anya em busca de ajuda, mas ela parecia tão assustada quanto eu, e Leila mexeu os lábios formando a palavra ´´ferrada``.
Eu não vou ser dupla desse troglodita.
― Anotem em um papel o nome de vocês tudo bem? ― Rick continuou. ― Assim poderemos dar início ao conteúdo.
― Isso é cruel. ― Sussurrei mais para mim mesma, respirando fundo tentei criar coragem. ― Qual o seu nome? ― Perguntei ignorando o meu instinto que me mandava correr para longe dele, assim que seu olhar frio pousou sobre mim.
― Alex Devens. ― Respondeu a contra gosto, puxando uma folha de caderno ruidosamente. ― E o seu?
― Nancy Vougan. ― Retruquei com o mesmo tom enquanto ele anotava seu nome.
― Vougan? ― Alex levantou o olhar do papel e me analisou arqueando as sobrancelhas.
Assenti.
― Por quê?
― Nada que seja do seu interesse.
Se eu estou perguntando é porque é do meu interesse, ogro.
Não insisti no assunto, Alex era um ser de poucas palavras. O professor continuou sua aula com metabolismo energético, e eu jurava que aqueles NAD e FAD´s iam me enlouquecer.
Matéria para loucos, isso sim!
Absorvi o máximo que deu naquela aula e anotei tudo no meu caderno, quando senti uma sensação estranha que sempre indicava quando estava sendo observada.
― Você sempre anota tanto? ― Alex me perguntou ainda me olhando constatei ao conferir pelo canto de olho. Seu tom de voz como sempre grosseiro.
― Sempre. ― Respondi dando um fraco sorriso.
― Estou em boas mãos nos trabalhos então. ― Pela primeira vez levantei a cabeça para encará-lo, em toda sua aura agressiva, como se a qualquer momento fosse pular no meu pescoço e me matar.
― Não pense que vai se livrar dos trabalhos. ― Alertei, mesmo me sentindo intimidada eu não iria deixá-lo me subjugar.
― Isso jamais passou pela minha cabeça.
Irritante.
Bufei. Eu não consegui identificar se era sarcasmo ou não, achei melhor ignorar.
Depois da nossa pseudo-conversa a aula praticamente voou e soltei um suspiro ruidoso de alívio quando o professor passou pela porta e Alex em seguida. Juntei meu material e esperei as meninas terminarem de arrumar os seus também, elas iriam fazer com que me sentisse melhor.
― Nancy você está branca. ― Leila falou preocupada guardando seu último livro.
― Não é pra menos, ela agora é parceira de trabalho do Alex Devens. ― Anya resmungou.
― Ele é estranho. ― Confirmei.
― O Devens é o próprio caos gata. ― Leila explicou. ― Agora vamos dar o fora daqui.
***
Não fui de metrô, Anya me deu carona e insistiu em repetir o favor todos os dias. Até que para o primeiro dia de aula não tinha sido tão ruim.
Sete da noite e nem sombra da Dinah. Pensei ao me jogar no sofá depois de dançar feito uma louca a última cena de Grease, meu segundo filme favorito.
O meu celular vibrou na mesa de centro, e pensei que fosse a Dinossaura dando o ar da graça. Mas não, eu sabia que não ia conseguir ficar escondida por muito tempo, li pela terceira vez a mensagem.
Número Desconhecido: Estou voltando Nany.
― Vai a merda idiota!
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