Perdoe os Vícios pelo Amor

17 Capítulo 11 - Chego ainda mais perto


Notas iniciais
Queridos leitores, feliz Natal para vocês e obrigada para quem acompanha e comenta, se ainda escrevo e busco o meu melhor é por vocês.

VIRTUDE DE NÚMERO 8 — Temperança : qualidade ou virtude de quem é moderado, comedido.

As palavras escapuliram, e por incrível que pareça eu não me senti nervosa, pelo contrário, estava calma, ansiosa para ver qual reação o rosto de Alex teria.

E ela não veio.

Sua expressão era uma máscara rígida e indecifrável, sem ao menos mover os olho — que apenas se tornaram cuidadosos.

— Em mim? — Devolveu com a voz firme.

Soltei uma risadinha nervosa, mas ele provavelmente interpretou aquilo como deboche, pois seu maxilar trincou.

— Sim, em você. — Afirmei, escolhendo as melhores opções para as minhas palavras seguintes. — E em quanto tempo vai conseguir me aturar.

Toda a sua postura se suavizou. Por que ele sempre achava que tudo que eu falava era literal? Ele não tem senso de humor?

Sim, ele tem. Me lembrei do dia da festa, ele parecia natural.

Era só comigo, ou sempre que progrediamos um pouquinho ele se fechava e voltávamos a estaca zero?

— Não sei. — Confirmou. — Talvez se você for menos enxerida, ou tagarela, desastrada também...

— Ei. — Resmunguei. — Você também é um estúpido, grosseiro e...

Contive a minha vontade de apontar o dedo na cara dele.

— Continue. — Me desafiou girando uma caneta pelos dedos.

— Deveria mesmo continuar, mas sabe como é, não temos tanto tempo assim. — Respondi, voltando a anotar no meu caderno, e ele puxou a minha caneta fazendo um borrão no meio da folha, antes imaculada.

— Não me diga essas coisas. — Alertou quando obteve a minha atenção.

Ergui o queixo.

Aparentemente ninguém o desafiava.

As batidas do meu coração estavam tranquilas.

— Que bom, Alex Devens, temos algo em comum. Também não aceito que me digam essas coisas, e você não é excessão. Por favor, devolva minha caneta. — Falei com uma frieza digna da dele e semicerrei os olhos.

Por uma fração de segundos, jurei ter visto a ponta dos seus lábios se curvarem para cima.

— Perdão. — Na verdade, ele não estava nenhum pouco arrependido quando passou a caneta pelos meus dedos sem me tocar.

A aula prosseguiu lentamente. Cada segundo era um lembrete silencioso da presença dele ao meu lado. E nesse período eu percebi uma coisa. O meu real sentimento pelo garoto ao meu lado.

Ele me incomodava. Como se você que está acostumado as dunas do deserto se mudasse para Quebec, no Canadá. Era algo diferente. E a minha natureza me atraia para as diferenças (revestidas quase sempre por encrencas), e Alex era diferente.

A arrogância dele me deixava curiosa. Ele era assim por que é rico? Ou foi alguma coisa que ele passou? Será se é arrogância de verdade? Ou cautela mal expressa?

Será que ele é realmente tão ruim como as pessoas o definem? Ele já amou?

Essa última era uma pergunta incômoda, volta e meia eu acabava nela. O amor mudava as pessoas, mas com ele provavelmente não. Alex sempre tinha sido assim de acordo com Anya.

Anya...

A própria admitiu estar omitindo, ou mentindo coisas pra mim. Ou melhor, insinuou.

De vez enquando sentia os olhares de Leila sobre mim, me sondando. E arriscava por um curto período quando notava que estava tudo ok. Pisquei em uma das vezes a tranquilizando. Eu não era tão fraca.

Antes que o sinal batesse o professor sentenciou:

— Quero os trabalhos amanhã.

Comoção geral.

A sala virou um caos. Ninguém tinha se preparado para aquilo. A proxima aula era apenas na sexta. Olhei para Alex perdida, mas ele estava bastante tranquilo arrumando o material, enquanto os outros alunos berravam (Leila estava furiosa).

— O senhor é louco. — Ouvi ela discutir em meio ao alvoroço.

Rick pegou um de seus livros e bateu na mesa com força. O estrondo silenciou a todos.

— Eu não sou louco. — Disse, passando a mão pelos cabelos. — Vocês que são despreparados. Quero o trabalho para amanhã e ponto final. Uma boa tarde a todos.

Dito isso o dito cujo saiu, seguido por quase toda a sala furiosa.

Eu não tinha combinado nada com Alex, mas sabia do conteúdo por nós dois.

— Bem isso muda as coisas, mas não tem problema. Posso fazer a sua parte, mas fica me devendo para o próximo trabalho. — Sugeri.

— Vou acrescentar aos seus defeitos: desatenciosa. — Retrucou. — Você vai comigo.

— Oi?

Ele respirou fundo, com um tom de voz de quem explica algo para uma criança teimosa.

— Ontem no almoço eu comentei com seu pai sobre o trabalho e ele mesmo sugeriu que você fosse para a minha casa.

Coloquei as mãos na cintura desconfiada enquanto parava no corredor.

— Ele não ia falar uma coisa dessas.

— Ele não viu problemas. E a casa é quase minha, também não vejo problemas.

— Vou mandar uma mensagem perguntando. — Ameacei.

— Claro. — Falou seguro, para em seguida carregar a voz. — Mas isso iria comprovar que não confia em mim, e ontem mesmo você disse que confiava.

Mordi a língua.

Em uma frase ele me desarmou.

— Além disso. — Continuou. — O que eu iria querer com você, além de fazer o trabalho? Olhe para mim, e me diga se pareço estar interessado em algo além disso. — Ele estava certo.

Aparentemente ninguém o tocou o suficiente, e não era um aproveitador. Apenas um bruto que acabara acabará de ferir meu orgulho.

Me decidi o que era pior.

— Certo. — O acompanhei silenciosa e mandei uma mensagem para Edric. Não ia precisar da sua carona. Concentrei minha atenção naquela pequena tela, mas ficou difícil quando os alunos olhavam assustados para Alex e eu. Eles corriam os olhos por nós dois e sussurravam. Não era preciso ser um gênio para supor o teor das fofocas.

— Se importa com comentários sem fundamento? — Ele inquiriu ao notar minha preocupação.

— Não. — Fofocas acabavam tão rápido como apareciam. — Só que faz um tempo que eu virei foco de um deles. Na época eu até chegava a me divertir com eles. — Respondi distante e sem olhar para ele, mal humorada.

Alex assentiu satisfeito com a minha resposta.

— Já que é assim. — Ele aproximou seu corpo ao meu e deslizou sua mão um tanto áspera pelo meu braço, e ignorei o zumbido que meu corpo paraceu gritar em resposta, sincronizando com as minhas pernas que fraquejaram. Ele segurou meu cotovelo e aproximou sua boca do meu ouvido, para sussurrar. — Vamos nos divertir com as mentiras que surgirão amanhã então.

Não pude deixar de rir surpresa com seu gesto. Ali estava seu senso humor.

A escola parecia chocada. E assenti para ele. Seria bastante divertido, mais ainda se ele não agisse assim.

Eu tinha que fazer um trabalho. E não dar chama para a prosperidade de uma simples atração.

Andamos até a garagem da escola onde estava estacionado seu carro. Quando abri uma fresta da porta ele a segurou. Arqueei as sobrancelhas.

— O que?

— Vou abrir a porta para você. — Resmungou, e soltei a porta para que ele o fizesse.

Viu? Esse garoto não faz bem para a minha sanidade mental. Por isso, eu devia ter ficado longe.

— Que cavalheiro. — Murmurei baixinho revirando os olhos enquanto ele entrava no banco do motorista.

— Coloque o cinto de segurança.

Contive a careta mas fiz o que ele disse. Até parece que está preocupado com a minha segurança.

— Coloque uma música.

Pois bem. Iria ser no imperativo mesmo.

— Claro senhorita. — Retrucou, mas sem ser uma provocação de fato. E fez o que eu mandei. Uma música diferente começou a tocar, a melodia não me era estranha, mas a letra... Eu não sabia. — Está do seu agrado?

Na verdade ele estava pouco se importando pra minha opinião.

— Sim, está. — Retruquei satisfeita. — Essa música é de algum filme?

Ele desviou o olhar do trânsito e me fitou.

— Talvez.

Bufei.

— Sim ou não?

— Sim. Um filme de faroeste. — Respondeu. Parecia surpreso por eu identificar. — Como sabe?

— Não é da sua conta.

Ele respirou fundo e com uma manobra rápida direcionou o carro para o acostamento, me segurei com o movimento brusco.

— Qual o seu problema? — Berrei quando ele parou o carro. — Destrave as portas, eu vou pra casa. Desisto. Você é impossível.

Os seus olhos azuis estavam arregalados e os lábios entreabertos. Ele não esperava essa minha reação.

— Nancy... — Chamou. Ele nunca tinha me chamado tão informalmente.

— Calado. — Sussurrei entre dentes. — Não sei como é a sua vida, e nem vou julgar mais suas atitudes. Portanto me respeite.

— Nancy Vougan. — Disse. — Eu sinto muito. Trégua por hoje tudo bem? Prometo me esforçar em não lhe tratar mal.

Mantive minhas mãos no trinco da porta sondando suas palavras.

— Não faça com que eu me arrependa. — Falei por fim e ele assentiu.

Alex direcionou o carro para a pista e abaixou o volume do carro.

— E então como conheceu aquela música? Não me diga que gosta de filmes western.

Pensei um pouco. Então era uma trégua mesmo?

— Eu costumo ir a um lugar aos sábados a tarde. E um amigo meu gosta muito desses filmes, sempre que dá assistimos um. Acho que por isso eu reconheci a musica. E sim, eu amo esse tipo de filme, aprendi a gostar pelo meu pai. E você ?

— Descobri uns gibis de faroeste que meu pai colecionava quando tinha minha idade. Gostei tanto que comecei a assistir os filmes também com essas trilhas sonoras incríveis.

Pousei a cabeça em uma das mãos surpresa com a sua naturalidade. Era esse o Alex da festa, só que mais aberto. Não esperava que fossemos conversar como normais.

— Qual seu filme favorito? — Perguntei curiosa.

— Por uns dólares a mais. — Respondeu sem muita convicção.

— Por um punhado de dólares, Django... são tantos filmes bons que é difícil escolher um favorito.

Sorri entendendo muito bem o que ele queria dizer.

— Gosto de Meu nome é Trinity.

— Um western italiano muito bom, mas está longe de ser meu preferido. — Comentou. — Em falar em Itália, por que ninguém pode saber que você e o Edric são irmãos?

Dei de ombros.

— Estamos esperando minha mãe se recuperar.

Alex assentiu.

— Ela já deve ter passado por coisas demais. E você também.

Bem mais do que imagina.

— Mas está dando pra levar. — Garanti.

— Você se dá muito bem com seu meio-irmão com tão pouco tempo. — Percebeu me olhando.

— Eu já conhecia ele antes de saber que era meu irmão. Não conseguia suportar sua presença, e nem ele a minha. Acho que até eu não me suportaria antes.

— Sério? — Questionou.

— Eu era mimada. — Disse.

— E tagarela. — Completou divertido e prendi a gargalhada mordendo os lábios.

O resto do caminho foi em um silêncio confortável. Eu precisava assimilar o que estava acontecendo. Esperava que fosse sempre assim. Alguns poucos minutos depois, chegamos a sua casa. Quando desci do carro ele parou de frente a mim e me analisou.

— Quer que eu leve sua mochila? Parece pesada.

— Pode levar. — De repente uma ponta de ousadia me tomou. — Se quiser me carregar também...

Pensei que estava dando as cartas, mas Alex abriu um sorriso. Um sorriso de verdade com dentes a mostra e tudo. A beleza daquele sorriso me fez quase cair de cara no chão.

— Prometo pensar no seu caso. — Respondeu desmanchando o sorriso, mas seus olhos sorriam no lugar.

Dito isso ele rumou até a casa sem me esperar me deixando embasbacada no meio do caminho.

Pisquei me questionando se não era uma alucinação.

— Vamos Vougan. — Gritou encostado na porta de maneira displicente, claramente rindo da minha cara.

Assenti, me acostumando com esse lado do Devens e me obriguei a andar até ele. Assim que passei pela porta, a mesma mulher de tinha me atendido no dia anterior parou na nossa frente.

E vocês podem não acreditar.

Mas Alex a abraçou com uma ternura que não achei que ele fosse capaz de expressar, passando os braços pelo seu pequeno e roliço corpo. A mulher o abraçou de volta murmurando palavras de conforto, como uma mãe faria. Só que Alex não tinha mãe, e eu sabia disso. Virei o rosto desconcertada por ver uma cena tão íntima.

— Vera, essa é a Nancy. — Alex apresentou segurando a senhora pela mão. — Nancy, essa é a minha governanta, amiga e mãe do coração, Vera Harmon.

— É um prazer. — Disse sincera estendendo a mão para ela.

Os olhos enrugados com um sorriso tinham uma sabedoria refletida que me assustou. Vera segurou minha mão e me puxou para um abraço apertado que eu retribui sem jeito. Alex soltou uma risada baixa, observando a cena de braços cruzados e deu de ombros quando nossos olhares de cruzaram. Era como se dissesse: Lido com isso todos os dias.

— Finalmente querida.

— Finalmente? — Questionei.

— Claro, não...

— Então. — Alex cortou segurando meus ombros e me empurrando levemente. — Temos muito trabalho para fazer, as moças conversam depois.

— Alex, é um resumo de... — Ele me olhou com um alerta silencioso. — Temos muito trabalho.

— Tudo bem, levo um lanche daqui a pouco.

— Obrigada. — Falei sendo puxada pelo braço. Ela olhou para Alex é depois para mim, e se virou de forma que não vi sombra do seu pensamento.

Fiquei pensando se outras pessoas tinham visto esse lado do Alex.

Subimos as escadas e me deparei com um corredor escuro decorado com porta retratos, provavelmente da família, em um deles pude ver uma miniatura de Alex, sério demais para uma criança e completamente sujo de terra, Scott estava um pouco atrás gargalhando.

— A sua seriedade é natural? — Indaguei desviando o olhar da fotografia para ele.

— Sim. — Respondeu sem rodeios. — Mas como você pode ver, existem algumas pessoas que fazem isso mudar.

— Fiquei surpresa ao ver que sabia sorrir. — Brinquei andando até ele.

— As vezes preciso praticar, para ter certeza que ainda não esqueci. — Falou áspero, no entanto estava apenas entrando na brincadeira.

Andamos mais um pouco. Ele parou em frente a porta do seu quarto, e girou a maçaneta me dando espaço para entrar. Para todos os efeitos, entrar no quarto de uma pessoa significava intimidade, só que Alex e eu estávamos em uma situação bem diferente da que eu tinha imaginado para entrar ali.

Não me julguem.

O quarto era de uma cor creme com vários porta retratos e livros. Muitos livros. Era bastante humilhante ver que a quantidade era bem maior que a minha. Outra coisa que eu também tinha notado era a organização impecável, inclusive os livros estavam organizados em ordem alfabética. A janela de vidro fazia a aurora entrar pelo quarto e colorir o ambiente de laranja, rosa e roxo.

E como todos os lugares, aquele quarto tinha um cheiro particular. Tinha cheiro do perfume amadeirado dele com flores. Franzi o cenho. Não tinha nenhum jarro de flores ali.

— Já admirou o suficiente? — Alex perguntou sentando na cama com uma pilha de livros no colo.

Nem preciso dizer que fiquei com vergonha.

— Vamos começar?

— Sim. Estava pensando que seria melhor ver o que cada um entendeu pelo assunto e misturamos um pouco as versões. — Falei me sentando na ponta oposta da cama.

Não tinha nenhuma mesa ali não?

Então, eu reparei em uma coisa.

— Por que a porta está aberta?

Alex nem se seu o trabalho em me olhar. Focado em sublinhar algumas partes do livro que considerava importante.

— Já aconteceu um problema, por causa dessa porta fechada. E também serve para a sua segurança, até por que você tem a péssima mania de dizer que confia nos outros da boca pra fora. — Fechei a cara. — Estou sendo sincero, Nancy.

Mas é claro que meu foco foi em outra parte. E achei melhor não perguntar.

— Vamos trabalhar.

Notas finais
Feliz Natal
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.