Perdoe os Vícios pelo Amor
15 Capítulo 10 - Podia ser pior
Notas iniciais
VÍCIO DE NÚMERO 9— Covardia: sobre o meu rosto me fizeram despertar em paz.
— Buongiono papa. — Murmurei de volta ainda me acostumando com a claridade.
No dia anterior Dinah Vougan fez um ótimo trabalho tentando me animar. Quando a noite caiu nós já estávamos compartilhando um raro momento em família.
A sorte sorriu para mim ao me dar dois pais maravilhosos e um irmão carinhoso o bastante para me acompanhar em todos os lugares. Enquanto James era bem humorado e protetor (uma combinação eficaz), Lorenzo era mais calado e com um conselho na ponta da língua.
— Você tem aula hoje. — Puxou as minhas cobertas e segurou meu braço. — Levante.
Ele estava certo. Mesmo que a cama parecesse bem melhor que a aula, eu fiz o que ele mandou e beijou minha testa.
Peguei minha toalha e iniciei minha rotina. E irritantemente do momento em que banhei até o solitário café da manhã — Já que meus pais saíram enquanto eu me vestia — eu só tinha pensado em uma coisa: aula de Biologia no último horário.
— Senhorita Vougan? — Pisquei com um Mark preocupado na minha frente.
— Ah, bom dia Mark. — Cumprimentei me endireitando e pousei a mão em seu ombro sorrindo.
Ele retribui o sorriso exibindo uma falha entre seus dentes da frente.
— Por um instante achei que estivesse triste. — Admitiu com o pescoço adotando um tom avermelhado. Ele tinha medo de estar se metendo demais. Mark era da família. Ele tinha que aceitar isso. — Vim lhe avisar que...
— Comemore Nany, seu maninho chegou, então desmanche essa expressão de velório. — Edric entrou na cozinha tempestuoso com sua euforia habitual. — Onde está a matriarca mais linda de Phoenix?
— Atrasada. — Admiti pensando um pouco. — Ah, hoje ela está na verdade de folga. Vamos?
Edric murmurou um sim e se despediu de Mark com um tapinha nas costas. Arqueei uma sobrancelha ao ver que o motorista chamou Edric pelo primeiro nome e eu não. E cobrei para que ele fizesse o mesmo comigo. Ora essa, Mark me conheceu quando eu tinha dois anos de idade.
— Você sumiu ontem a noite. — Comentei ao entrar no carro para o meu irmão.
― Fui assistir um jogo. ― Respondeu indiferente.
― Hum.
― Está chateada? ― Ele desviou o olhar do trânsito para me fitar, preocupado. Era muito bom saber que ele ainda tentava ser um bom irmão.
― Não. ― Falei de imediato. ― Deve se divertir mesmo, o problema é comigo.
― O que é?
Suspirei profundamente encostando a cabeça na lateral do carro enquanto remexia no chaveiro da bolsa.
― Está acontecendo tanta coisa,e tão rápido que eu não estou conseguindo processar.
Edric concordou levemente com a cabeça. Não tinha sido fácil para ele também.
― Acho... ― Começou cauteloso. ― Que deveria deixar claro o que está sentindo. Você, Nany, joga problema em cima de problema é não resolve nenhum deles.
― Está insinuando que eu sou covarde?
― Sim, estou. ― Admitiu franco.
Ponderei um pouco. Eu não tinha medo dos problemas e sim o que encontraria em meio a solução.
― Tem razão.
Ele deu de ombros e sorriu.
― Costumo ter.
Após esse curto diálogo, ficamos em silêncio no restante do caminho. Ao sair do carro me despedi de Edric é segui o resto do caminho caminhando. Em todo caso, tinham comprado a ideia que éramos apenas amigos.
Segurei minha bolsa e andei em passos ligeiros até a escola antes que o sol desponta se com maior intensidade. O aglomerado de alunos em frente a escola inibiam qualquer vontade de entrar nela. Segui meu caminho sem encontrar um rosto conhecido.
― Onde elas se meteram? ― Resmunguei baixinho.
Um aluno passou por mim e trombou em meu ombro e fazendo ir para frente. Me preparei para ir de cara no chão, mas o impacto não veio.
― C- como? ― Balbuciei com um toque diferente na minha cintura me ajudando a ficar de pé. Me virei curiosa para ver quem me ajudou e não consegui acreditar. O sorriso largo e os olhos castanho escuros pertenciam ao garoto com quem tinha conversado quando derrubei Violet. ― Você.
O brilho divertido em sua expressão me fez gargalhar inconscientemente.
― Eu. ― Confirmou fazendo uma breve reverência e me estendeu o braço. ― Permite-me acompanhá-la bela dama?
Coloquei meu braço sobre o seu e sorri encantada. Ele era um fofo.
― Posso saber o nome do meu salvador? ― Ergui o rosto para fita-lo, apesar de franzino era consideravelmente alto e nesse dia usava óculos com espessas lentes de grau, destacando ainda mais seus olhos.
― Seth Walker. ― Sua voz era como uma música, tranquila e agrada de ouvir.
Dei dois tapinhas em seu braço.
― Suponho que já tem um conceito sobre mim.
― Sim, eu sou um bom stalker.
Olhei-o curiosa.
― E o que descobriu sobre mim?
― Descobri que sua mãe se meteu em uma confusão digna de cinema, que você é uma aluna exemplar, desconta nas unhas quando está nervosa e a roupa que está vestindo equivale a minha mesada.
― Do mês?
― Do ano. ― Gargalhou.
Fiquei embaraçada e resolvi mudar de assunto.
― Me fale sobre você.
Ele ergueu uma sobrancelha.
― Sério? Eu não sou interessante.
― Todos temos algo interessante para contar.
Ele franziu o cenho.
― Não tenho dinheiro, e estudo muito para mudar a situação da minha família, que é basicamente eu, minha mãe e meu irmão adotivo. Meu pai morreu a quatro anos. E sou péssimo em qualquer esporte.
― Espero que realize todos os seus sonhos. ― Falei sincera.
― Eu também. ― Murmurou. ― Qual a sua primeira aula?
― Física.
― Posso acompanhar você até a aula se quiser. ― A insegurança tomou o rosto de Seth e ele se corrigiu nervoso. ― Mas tudo bem se não quiser, eu estou acostumado.
― Seria um prazer. ― Segurei sua mão com um sorriso encorajador.
Embora ele tenha sido bastante vago ao falar sobre si mesmo, percebi que ele não tinha muitos amigos.
― Gosto de teatro. ― Falou de súbito. ― Gosto de atuar.
Abri os olhos surpresa.
― Eu disse que tinha algo interessante em você. Isso é maravilhoso.
― Sério? ― Indagou incrédulo.
― Claro. Gostaria de ver qualquer dia desses.
― Vou lhe convidar.
― Seth, você é um achado. ― Sussurrei.
― E se eu não tivesse tocando em você acharia que não é real. ― O castanho do seu olhar ficou mais brilhante e ele pareceu realmente me notar.
Alguém me diz onde Seth Walker estava escondido para não ter achado ele antes?
Enquanto conversávamos, encontrei Edric andando pelos corredores — claramente acompanhado — E ao me ver lançou um olhar interrogativo, indicando sutilmente o garoto ao meu lado. Balancei a cabeça respondendo que explicaria depois.
― Posso perguntar o que é verdade o Lamartine significa para você?
Deu de ombros com a pergunta
Tudo.
― Somos grandes amigos sabe, como irmãos. ― Quase sorri com meu trocadilho idiota.
Ele assentiu e soltou meu braço para colocar as mãos dentro dos bolsos da calça jeans.
― Está entregue. Foi bom conversar com você Nancy. ― Falou meio sem jeito arrumando os óculos no rosto. ― E- espero...
― Espera... ― Incitei diante do seu nervosismo.
― Conversar com você de novo. ― Soltou em um fôlego só, aliviado e me encarou esperançoso.
― Eu também espero Seth Walker. ― Murmurei sorrindo. Segurei meu caderno e entrei na sala.
Andei até ao meu habitual assento, me deparando com Anya me fitando com um sorriso e erguendo as sobrancelhas. Ela estava diferente naquela manhã. Quem sabe mais animada?
― Que sorriso é esse? ― Indaguei curiosa. Sem ressentimentos. Tudo se arrumaria ao seu tempo. Eu não podia esperar que ela me contasse tudo de uma hora para outra, sendo que eu mesma não havia contado.
― Pergunto o mesmo para você. ― Devolveu. ― Pensei que ele não fazia seu tipo.
― Ele? Ele quem?
― Não se faça de sonsa.
― Seth? ― Sussurrei incrédula. ― Não, ele é apenas um conhecido. Nada mais.
Mas ele me intrigou.
― Sei. ― Falou sem confiança.
― O que sabe sobre ele?
Anya enrolou uma mecha de cabelo entre os dedos, pensativa.
― Sei que ele tem uma relação meio complicada com alguns alunos. Seth chegou a sofrer bullying, mas de uns anos pra cá ele começou com esse negócio de atuar. Acho que foi uma fuga da realidade pra ele sabe?
― Quem são esses alunos?
― A maioria já saiu, e não pegam mais no pé dele. Seth até conseguiu uns colegas de turma, conversa com todo mundo, mas não se apega. Ele é meio nômade. Vive apenas em função do irmão adotivo e da mãe. Amigos de verdade acho que ele não tem.
Eu imaginei que Seth era meio inseguro por causa da timidez, no entanto com o que Anya me falou, o real motivo começou a se desenhar no meu subconsciente. Eu sabia o que ele tinha passado, e o quanto deve ter sido difícil.
― Nancy. ― Ela me chamou. ― Eu devo estar sendo uma péssima amiga.
A confissão me atingiu em cheio, me inclinei mais para ela.
― Por que está dizendo isso?
― Eu não sou muito aberta com as pessoas, nem a Leila. Mas não pense que não confiamos em você. ― Os olhos dela se encheram de lágrimas, e o desespero se acumulou dentro de mim. ― É que quando confiamos em alguém, algo ruim sempre acontece.
Eu sou muito hipócrita.
― Eu também sou assim. Desculpa, eu devia entender mais o lado de vocês. ― Me levantei da cadeira e passei os braços por ela, dando-lhe o meu melhor abraço. E algo diferente aconteceu. Como um estalo. Eu percebi que naquele momento alguma coisa ia mudar. Os pelos só meu braço se arrepiaram, e estremeci com esse sentimento. Me soltei dela, e analisei seu rosto. Anya parecia ter sentido a mesma coisa que eu. Seus olhos estavam em pratos.
― Você percebeu isso? ― Arquejou.
― Sim. ― Murmurei, mas deixei meu ceticismo vencer. ― Não deve ser nada. Acho que estamos naquela fase.
Anya sorriu, tentando se convencer.
― Verdade, emotivas demais.
Infelizmente, a sensação me acompanhava embora com menos intensidade, eu só não conseguia definir se era boa ou ruim. Ao final da aula já estava acostumada com ela, e até pensaria que fazia parte de mim, dos meus sentimentos.
Anya me seguiu até a saída da sala, e nem pareceria ter passado pelo mesmo que eu. Ou ignorava isso, como eu.
Leila nos esperava na porta e exibia um sorriso radiante.
Não para nós.
Mas sim para Clark.
Com um Edric impaciente ao seu lado.
E a reação desse último ao me ver foi um suspiro audível.
― Graças a Deus. Eu não nasci pra ser candelabro.
― Edric. ― Leila berrou. ― Eu ia contar pra ela.
― Eu já sei sobre o relacionamento de vocês. ― Falei calma, a felicidade de Leila era evidente.
― Mas é diferente dessa vez. ― Clark continuou apoiando a mão na cintura da loira e a puxando para mais perto de si. ― Estamos namorando. Oficialmente.
Anya deu um gritinho e abraçou os dois.
― Parabéns. ― Exclamei e Clark me puxou para um abraço coletivo.
― Eu queria que vocês fossem as primeiras a saber. Amo vocês duas. ― Leila murmurou emocionada. ― Obrigada por serem a minha família.
Edric permaneceu um pouco distante, mas não escondia o sorriso.
― Vamos almoçar? ― Leila retomou. ― Mas dessa vez todos juntos.
― Nancy. ― Edric me chamou ao lado de Clark. ― Esse é o babaca.
― Oi. ― Clark me cumprimentou. ― É bem interessante ser apresentado a você pela segunda vez, só que agora como a irmã do meu melhor amigo.
― Estou surpresa pelo bambino não ter falado antes. ― Retruquei. ― Mas ele costuma ser difícil de conquistar.
― Bambino? ― Clark disse segurando a gargalhada.
― Porra Oliver, da frase toda você focou na parte mais inútil? ― Edric retrucou.
O nome do Clark é Oliver então.
― Parei. ― Deu-se por vencido. ― Mas não me chame de Oliver. Eu não gosto do meu primeiro nome.
― Parei. ― O outro repetiu.
Gargalhei com a interação dos dois. Leila me puxou pela não e começou a me contar como havia sido o pedido. Ela falou que iam oficializar as coisas com um jantar na próxima semana, na casa da Leila, com a família dos dois juntos, Anya e eu. Ela não queria que nada desse errado. Eu nunca tinha visto ela tão espontânea. O carinho entre eles e os olhares que trocavam mesmo conversando com a gente, me faziam ver a verdadeira paixão.
Eu não vi mais Seth depois de um breve cumprimento com ele no refeitório. O tempo praticamente voou. E Clark ganhou ainda mais minha consideração com o passar do tempo.
― Estou tão feliz por você Leila. ― Disse eu, quando passamos pela porta na aula de Biologia.
― Eu também Nancy. ― Seus olhos brilhavam. Ela inteira parecia brilhar de felicidade.
Assim que vasculhei a sala com o olhar quase estremeci de pânico. Alex estava em uma das cadeiras no fundo, e rabiscava com fúria o papel, de maneira que eu temia que pudesse rasga-lo. Hoje seus cabelos pretos estavam mais bagunçado que o habitual e ao mesmo tempo mais bonito. Fechei meus olhos com lapso.
Área perigosa Nancy.
Como se percebesse o olhar em cima dele, levantou a cabeça, mas antes que nossos olhares se cruzassem me virei para Anya e Leila, que fingiam não estarem botando tudo atentamente.
― Bem. Eu vou...
― Vai morrer perto dele, isso sim. ― Leila resmungou para receber um tapa da amiga ao lado.
― Para com isso. Ele não é ruim, e você sabe disso.
― Tanto faz. ― Leila seu de ombros. ― Boa sorte Nancy. ― Murmurou antes de arrastar Anya para o lado oposto da sala em que eu ia.
Ele ainda me observava. Alex tinha soltado a caneta, e cruzado os braços. Parecia anotar mentalmente todos os meus defeitos. Nesse momento ele conseguia me irritar, apenas. Coloquei minha bolsa pendurada na cadeira, e me sentei ao seu lado.
― Boa tarde. ― Resmungou puxando um caderno.
― Boa tarde. ― Devolvi tentando ignorar a minha consciência do perfume que emanava dele. Uma mistura cítrica e amadeirada. Forte e de personalidade como quem usava.
― Está com um ótimo humor hoje. ― Retruquei.
Atração eu sentia sim. Admiração era outra completamente diferente.
― Acredite. ― Disse se permitindo a um sorriso maldoso. ― Eu estou me esforçando.
― Melhore então. ― Rebati. ― Seus problemas são seus. Não desconte em mim, não tenho nada a ver com eles.
― Eu agradeço por isso. ― A ironia que veio acompanhada com essa frase me fez revirar os olhos.
Eu admirava a sua beleza e sentia vontade de bater a minha cabeça na parede quando meu estômago revirava com a beleza dos seus olhos.
Em pouco o professor de Biologia chegou, e eu ainda sentia raiva dele por me colocar como dupla de Alex, e não permitir mudar os pares.
Ao contrário da maioria, quando me sentia atraída eu fugia da pessoa em questão. Minha mente era confusa, e no meio disso tudo uma atração podia pular para uma paixão em um piscar de olhos.
― No que está pensando? ― Alex perguntou com a cabeça apoiada sobre uma mão com o rosto mais próximo ao meu do que gostaria e o pior de tudo, sem desdém apenas a mais pura e crua curiosidade. Ele não parecia nem um pouco incomodado com a proximidade. A atração e repulsa que eu sentia por ele estavam me enlouquecendo e como o seu humor variava. Naquele instante a única coisa que consegui falar foi:
― Em você.
Fale com o autor