Perdoe os Vícios pelo Amor
16 Bônus - Scott Harris
Notas iniciais
VIRTUDE DE NÚMERO 7 — Espirituosidade: fazer gracejos, de provocar risadas nos outros.
— Saia daí agora. — Ordenei com a voz fria o bastante para fazer um homem de verdade correr.
Para um homem.
Não para a minha irmã de quatro anos em um pula-pula.
— Mas Scott, eu acabei de brincar. — Ela tentou explicar arregalando os olhos enquanto passava a mão pelos cabelos.
— Exatamente. — Tentei novamente não me deixar levar pelos olhos castanhos pidões. — Vamos embora Lizzie.
Meu Deus. Como as crianças são teimosas. Os olhos dela começaram a brilhar mais por causa das lágrimas e cruzou os braços em um gesto de raiva. Pelo visto ser o irmão chato não ia dar resultado.
— Meu anjo. — Tentei sob o olhar duro do homem que gerenciava a saída das crianças de cada brinquedo.— Vamos embora, ainda tem muito para aproveitar, se não quiser tudo bem, eu tomo sorvete sozinho.
Sorvete.
Essa palavra simples fez Lizzie descer atrapalhada do brinquedo e correr para mim. Quase suspirei de alívio quando ela sorriu na minha frente sem nem um rastro de choro.
Eu sou mesmo um irmão babão.
— Quero sorvete de mirtilo.
A dicção dela era perfeita para uma criança de quatro anos. E fazia questão de pronunciar lentamente cada palavra rendendo muitas risadas.
— Tem certeza que não quer de chocolate?
— Não. — Insistiu. — Quero de mir-ti-lo.
Levantei os braços em rendição. Segurei sua mãozinha com força suficiente para garantir que ela não pudesse sair de perto de mim, mas sem machuca-la e rumei a sorveteria. A pequena me contou cada mínimo detalhe de como foi divertido no parquinho, gaguejando bastante nas frases.
— Esse sorvete tá com um gosto diferente. — Resmungou depois de colocar uma porção generosa na boca.
— Eu disse pra pegar o de chocolate.
Ela franziu o cenho.
— Me deixa pegar só um pouquinho do seu? Só um pequetitinho. — Distanciou o dedo indicador e o polegar cerrando os olhos.
Eu sabia que isso ia acontecer. A sorte é que eu gostava de sorvete de mirtilo. Tomei o meu bem rápido para poder ajudar Lizzie a tomar o dela antes que sujasse todo o vestido e render minha morte prematura.
Se bem que minha morte já está sendo bastante requisitada. Pensei amargo.
— Por que você está triste? — Lizzie perguntou tocando no meu rosto e lhe lançei meu melhor sorriso.
— Estou bem meu amor. Tome seu sorvete.
— Você está triste. — Constatou ignorando meu comentário. — A mamãe também brigou com você? Ou ela te levou no médico pra dar uma injeção em você?
Quem dera.
— Não Lizzie. — Refutei. Como eu ia explicar para ela? — Lembra quando você caiu na calçada em frente ao shopping?
Ela acenou efusivamente.
— Doeu muito. — Disse com uma careta. — Você tá dodói?
— Estou.
— Onde?
Apontei para o meu coração.
— Não tem problema Scott, eu vou fazer um curativo e vai passar a dor. Quer um beijinho também?
— Quem sou eu pra recusar um beijo da minha princesa. — Abri os braços e ela pulou do meu colo sujando a minha blusa e meu rosto de sorvete.
— Desculpa. — Murmurou.
Abracei ela mais forte e enterrei meu rosto no seu cabelo castanho claro, ele emanava um embriagador cheiro de bebê. Ela era a minha melhor terapia. Era de verdade, a minha doutora.
— É só lavar. — Resmunguei. — É só lavar.
***
Coloquei Elizabeth na cadeirinha e me acomodei no banco do motorista. Meu pai já me considerava responsável o suficiente para confiar a vida da minha irmã nas minhas mãos, e eu levava bem a sério o meu papel. Antes de ir para casa eu teria de passar no supermercado com ela e comprar umas coisas para a nossa cozinheira.
É aí que mora o perigo.
Já tentou desarmar uma bomba? Não? Bem, mas com certeza já deve ter tentado convencer uma criança a não levar um brinquedo que ela quer muito. Era para isso que eu estava me preparando.
— Onde nós estamos indo Smile? — Ela perguntou usando meu apelido ao perceber que o caminho não era o mesmo de sempre.
Falar a verdade era sempre a melhor opção.
— Fazer umas compras para a mamãe, mas eu não vou poder lhe dar nada okay?
— Tá bom.
Em menos de um minuto ela falou de novo.
— Scott. — Chamou e esperei paciente. — Sabia que eu fui pra fazendinha, e que a Susan não queria ficar comportada? Mas eu fiquei quietinha. O Lucca também ficou quietinho.
— Sim Lizzie. Você já me falou.
— E você sabia também que a tia Mileny achou o meu desenho mais bonito de toda a turma?
— O que você desenhou?
— Um monstro super-hiper-mega assustador.
Eu não consegui segurar a risada e ela me acompanhou com a sua.
— Ele era bem gelatinoso.
— Onde você aprende essas palavras bebê? — Indaguei realmente curioso.
— No Backyardigans. Tem o Pablo, o Austin, a Uniqua, a Tasha e o Tyrone. Todos eles.
— Parece divertido.
— Divertido. — Repetiu. — Sim é muito divertido. Vai assistir comigo?
— Sim senhora.
— Você é meu irmãozinho favorito.
— Obrigada pela consideração. Agora fique quieta pro maninho se concentrar no trânsito.
— Tá bom. — Olhei pelo retrovisor e vi ela brincar com as bonecas enquanto eu dirigia pelo caminho mais curto antes que ela voltasse a tagarelar.
Alguns minutos depois eu cheguei ao meu destino. Estacionei o carro e abri a porta de Lizzie.
— Posso levar minhas bonecas?
— Melhor não.
— Por que?
— Você pode esquecer elas lá dentro.
— Expliquei. — Voltamos em um minuto, prometo.
— Mas eu quero levar elas.
— Não. — Critiquei firme.
Lizzie era uma criança mimada. E eu estava começando a perceber o quanto isso estava afetando no seu comportamento. Meus pais contrataram uma babá para ficar com ela enquanto eu estudava, mas nas horas vagas era eu que ficava responsável por ela. Em resumo: Eles paparicavam ela e eu tinha que reparar o estrago sendo o irmão chato.
— Tudo bem. — Disse tristinha. — Mas só porque eu te amo.
Sorri com sua conformação e beijei sua bochecha.
***
Deitei na cama depois de todos os desafios vencidos do dia. Lizzie ressonava tranquila ao meu lado e lembrei da única pessoa que ocupava com frequência meus pensamentos. A minha primeira namorada. Anya Campbell.
Ultimamente ela andava bastante com o novato, Edric Lamartine. Eu não tinha esquecido a última discussão que tivemos, mas a verdade é que ele tinha razão. A culpa era minha. E eu estava pagando pelo meu erro. Pedi desculpas para ele no dia seguinte. Quem sabe em futuro próximo possamos ser mais amigos.
A outra companhia nova dela era Nancy Vougan, uma garota que poderia facilmente ser comum. Na uma garota que despertou a atenção do meu melhor amigo é tudo. Menos comum. Percebi que Nancy me olhava com raiva, provavelmente sabe de algum pedaço da história, má provavelmente não toda. Anya demora muito para confiar plenamente em uma pessoa.
Anya. Anya. Anya.
Éramos amigos desde os oito anos de idade, com as reuniões que nossos pais nos levavam. De primeira eu gostei dela, pelo seu jeito carinhoso e as brincadeiras divertidas. Ela não tinha frescuras com cabelo e assistia desenhos animados de super-heróis. Até mesmo Alex simpatizava com ela (a sua maneira). A outra amiga, Leila Oakley era meio fresca, antes de conhecer ela de verdade. No final as duas se tornaram minhas melhores amigas.
Só tinha um porém.
Anya não era bem só a minha amiga.
Ela gostava de mim além da amizade. Era bastante visível o quanto se incomodava quando eu falava de outras garotas, principalmente aos quinze anos. Percebendo tudo por um outro ângulo, eu fiquei surpreso ao notar que eu também nutria sentimentos por ela que iam além da amizade.
E se eu gostava dela. Eu não ia desistir tão fácil. Deixei a amizade fluir. Anya era incrível, sempre foi. E eu me perguntava: Como eu nunca reparei nela antes? Bem debaixo do meu nariz. O sorriso dela fazia meu coração bater acelerado, e nossos abraços já não eram percebidos por mim da mesma maneira, nem o olhar dela.
Tudo o que ela sentia estava nos olhos. Anya nunca conseguiu esconder nada de mim. Nem mesmo a paixão. E não sei ao certo quando meus olhos refletiram o mesmo que ela.
Só sei que em uma noite eu estava gostando. Na outra eu estava amando.
Leila já tinha reparado a um bom tempo. E me fez pedi-la logo em namoro.
Um pedido simples, cheio de insegurança, gaguejante e com as mãos suadas. Mas sincero.
O nosso beijo também foi inseguro.
Nunca estivemos realmente prontos para um relacionamento.
Apertei a ponte do nariz. Enquanto as memórias voltavam com força total.
As nossas brigas ficaram frequentes. Eu morria de ciúmes dela. Anya me achava distante, enquanto na verdade a minha mãe estava passando por uma gravidez de risco e precisava de mim. A única menina que eu realmente queria era ela.
Sorri sem humor, acariciando o rosto da minha irmã.
Meu pai era um grande filho da puta. Mas ainda era meu pai. E mesmo não estando presente em nenhum momento de merda, a pequena tinha direito a pensar que tem um bom pai.
No meio de toda a confusão, elas eram as três mulheres da minha vida. Eu faria qualquer coisa por elas.
E Violet?
Eu conheci ela através da Leila. Claro. As duas são primas. Até o jeito delas era um pouco parecido. Mas Violet sempre foi mais obstinada.
Quando eu fiquei mais próximo dela, Anya mandou uma mensagem para Leila confessando que não aguentava mais estar perto de mim, e por acidente acabei vendo essa mensagem. Ela falou apenas coisas ruins de mim. Dizia ainda que não me amava. Mas essa mensagem tinha que ser mentira. Os olhos dela não mentiam.
Após essa mensagem eu terminei o namoro e a amizade que tínhamos.
Acontece que eu não estava suportando ficar longe dela. E sentia que estava sendo hostil com a Violet. Eu gostava dela, mas não do jeito que ela gostava de mim.
E sempre que eu olho para Anya eu me pergunto o que eu estou fazendo da minha vida sem estar ao seu lado. Eu não era perfeito, nem ela. Mas nosso sentimento era uma pontinha de perfeição. O amor.
Nunca fui muito bom em lidar com perdas. Eu não ia perder Anya Campbell. E já sabia exatamente o que fazer para garantir isso.
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