Perdoe os Vícios pelo Amor
14 Bônus: Edric Lamartine
Notas iniciais
VÍCIO NÚMERO 8 — Libertinagem: Viver somente atrás de prazeres.
O ranger do meu banco e o ar condicionado eram os únicos ruídos acolhedores naquele barzinho imundo em um canto qualquer de Phoenix. Há alguns metros um grupo de bêbados barulhentos se animavam jogando pôquer. E eu estava começando a querer me juntar a eles.
Pensei em Nancy e no meu juramento a ela. Eu não iria me meter em confusão...no entanto se algo viesse a acontecer eu conseguiria me defender sem problema algum.
No momento que ela havia me deixado sozinho naquele hospital em San Diego, e partido para Phoenix em seguida, pensei que iria enlouquecer. Ela era minha irmã. A única amiga que eu tive, que confiou no que havia de bom em mim. Eu não ia deixar ela partir.
Bebi mais um gole de cerveja.
Era estranho pensar que aquela garota que apenas admirava a distancia era minha irmã. Quando a conheci, Nancy era uma mimada incapaz de falar alguma coisa relevante em um duas horas de conversa, mas ela amadureceu tão rápido quanto um piscar de olhos. E no final das contas ela que acabou cuidando de mim, não o contrário.
Bebi o último gole de cerveja.
E atendi minha vontade inicial.
Rumei até os homens que jogavam empolgados e coloquei as mãos nos bolsos do meu jeans gasto. Apenas três estavam realmente jogando.
― Posso me juntar a vocês?
― Você? ― Um deles perguntou com desdém.
― Prometo que não vão dar nem conta da minha existência.
O outro me analisou e disse por fim.
― Senta ai moleque.
Os três homens com quem eu jogava pareciam homens normais, rabugentos e embriagados. Rebatia as jogadas sempre ficando a margem, quando na verdade as cartas pareciam se iluminar na minha frente insistindo para mostrar as jogadas que poderia fazer com elas. Não importava em qual situação eu estivesse. Eu sempre transformava as coisas ao meu favor, desde a infância.
Meu pai era um bom homem. Carinhoso e presente. Mas da mesma forma que fazia sua parte cobrava de mim, tentando me moldar a perfeição, principalmente quando aos quatro anos eu já conseguia ler algumas frases. A inteligência era meu dom. Aos oito anos eu conseguia falar alemão, espanhol, francês e inglês. E depois busquei aprender matérias exatas.
Os números me encantavam com sua certeza.
Eu queria aquilo para minha vida.
No entanto, meus pai resolveu tentar empreender nos Estados Unidos quando fiz dez anos e deixou a minha mãe em Burano no Norte da Itália, uma ilha pequena e bastante tradicional. Cassandra Lamartine amava o hotel da sua família e fez sua escolha. Mandava e-mails todos os dias para os meus pai e se falavam por vídeo chamada. O amor deles sobrevivia a distância.
Isso até eu chegar a idade adulta e virar o presidente da sua marca.
Eu não aceitava, mas já não era uma ideia tão desagradável. O meu maior problema era conseguir um bom estilista substituto. Vários tinham talento, mas nenhum para ser o cargo chefe da sua marca: A Brillare Burano.
E as apostas?
Já participava delas em competições com cavalos, e consegui uma pequena fortuna com esses jogos, mas foi nos Estados Unidos que ganhei gosto para o pôquer. Quando meu pai se estabeleceu em San Diego descobri um bom cassino, mas ele era ilegal e contrai problemas sérios ali. O movimento dos três últimos dedos da mão esquerda nunca mais voltariam a ser como antes, e isso explicava tudo.
― Sua vez. ― O que tinha uma cicatriz no meio da testa falou.
― Venci. ― Coloquei as últimas cartas na mesa e sorri triunfante sob os olhares admirados dos senhores.
― Você trapaceou? ― Perguntaram quase ao mesmo tempo.
― Ele não trapaceou. ― Uma outra voz se manifestou e aquela era familiar. Pra confirmar minhas suspeitas me virei e encontrei Alex Devens no meio da pequena multidão que assistia o jogo. Segurava um copo de whisky na mão impressionantemente surpreso.
― Devens. ― Exclamei. ― Não esperava vê-lo aqui.
― Nem eu esperava ver você aqui. ― Retrucou firme franzindo o cenho olhando para a minha última jogada em cima da mesa.
― Bem se o Alex disse que ele não trapaceou então é verdade. ― O Cicatriz falou.
― Sim Billy, fim de jogo. ― Alex disse e levantou o copo. ― Bebida por minha conta para todo mundo.
Aquelas palavras foram como mágica, todos que estavam aglomerados em um canto do bar agora já atormentavam o pobre atendente do balcão. O Devens parecia estar bem familiarizado com aquele ambiente, e com as pessoas também. Alguns passavam dando tapinhas nas suas costas e outros faziam brindavam em seu nome.
― Seus amigos? ― Questionei.
Alex deu de ombros.
― Trabalham na empresa do meu pai.
Sorri sem humor.
― Entendo.
Alex puxou uma cadeira sentando-se e indicou para que eu fizesse o mesmo.
― Sua jogada foi muito boa. Como conseguiu?
― Pratiquei muito.
Alex balançou a cabeça e abandonou o copo vazio em cima da mesa. Qualquer pessoa com o mínimo de noção naquela escola tinha distância dele, mas aparentemente ele estava mais controlado depois de – como os boatos dizem – seu tratamento psicológico.
― Sorte sua que não era eu jogando com você. ― Alex falou casualmente.
― Joga bem?
― O suficiente para dar trabalho para você em uma próxima partida.
Sorri com a sua afronta. Alex era uma pessoa divertida para se conversar de tempos em tempos mas seu temperamento era instável demais para qualquer mente sã acompanhar. Também não tinha nada contra o seu amigo, Scott, nem contra a sua namorada Violet. Apenas quando direcionavam suas próprias confusões para minha irmã. Aquilo era entre eles, Nancy e eu não deveríamos nos meter, mas já que ela escolheu tomar as dores da Leila e Anya, eu faria o mesmo.
Aos poucos estava começando a me afeiçoar por elas também, principalmente por Anya. Obviamente Scott ainda nutre um sentimento muito forte por ela, e é recíproco, porém não é eterno. E se ele tiver sorte vai aproveitar a chance que ainda tem.
― Sabe Alex poderíamos ser amigos.
― Sim. ― Concordou após um longo silêncio.
― Mas para isso teria uma condição.
Ele arqueou uma sobrancelha.
― Qual?
― Não se aproximar da minha amiga.
Um brilho estranho surgiu nos olhos deles ao me fitar, e eu não gostei nenhum um pouco. Ele sabia que eu falava de Nancy...mas tinha algo a mais, sabia de algo a mais. Billy chamou Alex do outro lado do bar, e ele se levantou dando um tapinha nas minhas costas, me deixando sentado sozinho. O cara tinha um jeito peculiar de agir. Fui até a porta mas antes de sair gritei.
― O que isso significou?
― Mostrou que estou negando a sua amizade.
***
Peguei meu celular no exato momento em que alguém me ligava, e um sorriso zombeteiro surgiu no meu rosto sabendo exatamente quem era. Me recostei nos meus travesseiros satisfeito por ter um próprio apartamento e atendi o meu amigo.
― Onde você se meteu cara? ― Clark resmungou do outro lado da linha. ― Combinamos de assistir o jogo de basebol e até agora você nem deu as caras.
― Sua namorada está com você.
Ele deu um suspiro.
― Leila não é minha namorada.
― Semântica. ― Rebati sorrindo com a idiotice de Clark. ― Vai fazer uma semana que vocês não desgruda, e quantos meses em ficadas sem compromisso?
― Eu tenho cara de que contei?
― Sim. Você tem esse jeito meloso que as garotas gostam.
― Dois meses.
― Não disse. ― Apertei a ponte do nariz sem acreditar. ― Por que não faz logo o maldito pedido?
Possivelmente esse era o momento em que Clark esfregava o rosto. Ele costumava fazer isso quando estava nervoso e juro que um dia a pele ainda vai desgrudar da sua cara.
―Leila ainda acha cedo, e eu vou respeitar os espaço dela.
Era o momento de fazer uma pergunta desagradável.
Mas necessária.
― Clark será que ela gosta de você como você gosta dela?
― É claro que gosta! ― Bradou pelo telefone.
Mais um que foi fisgado.
Leila era a mais indiferente da relação, ou pelo menos demonstrava ser, enquanto Clark estava completamente apaixonado por ela e as minhas críticas eram recebidas com a mesma alegria de dizer ´´Viva o Comunismo``, no meio de Nova York no período da Guerra Fria.
― Só pra certificar.
― Os sentimentos dela não são visíveis, eu conheço a minha Leila, eu sei que ela é muito mais que um rosto bonito. E antes de tudo sou amigo dela. Se não gostasse de mim, acredite, ela diria na minha cara.
― Provavelmente. ― Concordei pensando melhor. ― Vamos mudar de assunto? Me faz lembrar de coisas desagradáveis. Me fale mais sobre o tal jogo...
E Clark falou o suficiente para enevoar o sorriso luminoso de Lilian que aparecia de tempos em tempos nos meus pensamentos.
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