Notas iniciais
Oi gente. Capítulo especial. Meio que especial.

Meu querido bloco de papel... Sim, estou escrevendo um diário em um maldito bloco de papel!!! Jean é um idiota elevado ao infinito. Eu deveria saber que ele não saberia acertar nada de primeira. Esse infeliz que vive alienado no mundo da fantasia...

Eu simplesmente acordei minutos antes do avião pousar. Bem a tempo de ouvir o comunicado. Simplesmente não pude acreditar que estava no VOO ERRADO!

Lucy jogou o bloco de papel dentro de sua bolsa de mão, que resgatara na mala.

Ainda não acreditava no que ouviria. Podia jurar que era coisa de sua cabeça, mas estava tão claro pelos modos das aeromoças e das outras pessoas. Havia muitos com cara de não turista: sem óculos, sem chapéu, sem muita roupa brega e queimaduras de sol no rosto. A última vez em que ela viajara para Londres, tinha muitos turistas, pois eles faziam um tour pela Europa...

Acabou se convencendo de que estaria indo pra New York mesmo. Ela guardava o sermão que daria no Jean. Ainda teria de pagar as passagens para ir para Londres. Quem não ficaria feliz com essas despesas seria sua mãe. Mas ela cobraria dolorosamente de Jean depois.

- E ai, gata, quantos anos tem?

Lucy virou o rosto e viu o rapaz com um boné virado e camisa com estampas indecifráveis. Forçou um sorriso.

- Não se pergunta a idade a uma mulher.

O rapaz sorriu e espichou o corpo para frente, para ver melhor.

- Que tal a gente sair depois pela cidade – o rapaz olho Jean dormindo. – Esse encosto que tá com você... Ele nem vai perceber a sua falta.

Lucy duvidava que ele não fosse sentir sua falta.

Ela sentou-se na cadeira e olhou para frente.

- Meu namorado não vai gostar de saber que tem alguém me paquerando na presença dele.

- Foi mal, gata. Mas você é muita coisa pra esse palerma aí.

Lucy suspirou de alívio. Não era a intenção de ela fazer se passar por namorada de Jean, mas também não queria ser paquerada. Ela gostava das investidas dos garotos, mas ultimamente queria saber quem era o mascarado que a beijara.

O avião pousara e com o impacto, Jean acordou, resmungando. Lucy não deu atenção a ele. Estava com raiva, mas não queria demonstrar isso naquele momento. Se discutisse com Jean o paquerador tentaria novamente com ela. E Lucy queria se ver longe dele.

Enquanto saiam, o rapaz a seguia. Ela pegou na mão de Jean e acelerou o passo para fora. Queria se livrar dele primeiro.

Jean estranhou a ação dela, mas não se importou. No saguão, depois de verificar que o outro havia sumido de sua vista, Lucy soltou a mão de seu amigo e respirou fundo.

- Cara, estamos em New York... NÃO EM LONDRES, SEU ENERGUMENO!

Jean exibiu um sorriso tímido e colocou a mão atrás da cabeça.

- Erro de vôo.

Lucy vôo pra cima dele.

- Erro de vôo? Erro vai ser você ter nascido, seu idiota! Agora estamos em outro país. Nem sei como conseguimos entrar no avião. O sistema de embarque não é tão infeliz assim...

Antes que estourasse. Ela andou até um balcão para pedir informações sobre o seu caso.

- O que pensa que ta fazendo?

Ele a segurou, afastando-a dali.

- Pedindo informações.

Jean a levou até a esteira onde pegam as malas.

- Se pedir informações, eles vão querer saber como entramos. Acham que vão acreditar que foi um erro no embarque? Vão achar que somos terroristas ou sei lá o quê.

Lucy não gostava da lógica dele, mas tinha certo fundamento.

- Você lê muitos quadrinhos.

Jean pegou a mala dele e quando avistou a da Lucy, arrancou-a dali e a entregou.

- Teremos de ficar na cidade por enquanto. Quando nosso visto de Londres vencer, podemos tentar voltar pra casa.

- Ai sim eles pensariam que somos terroristas.

- Não se fizermos isso em outra cidade que tenha aeroporto.

- Pra onde vamos?

- Algum hotel. Você tem o cartão de crédito. Ficaremos em um barato, mas agradável para suas necessidades.

A parte do hotel não seria tenebrosa pelo menos para Lucy. Ela odiaria ficar em um hotel fedorento e sujo.

Eles saíram sem pegar um taxi. Andaram pela cidade à procura de um hotel simples. Não seria difícil encontrar algum. Naquela cidade existia de tudo. Eles vagaram por algum tempo até avistarem um prédio aparentemente antigo e escuro. Não parecia ser local muito requisitado e nem abandonado.

Lucy gostava da arquitetura do lugar, mas não tinha certeza se queria passar uma noite ali. Tinha medo de seu cartão não arcar com as despesas.

Ao atravessarem a porta, parecia que estavam dentro de um museu da música. Havia discos colados nas paredes, vitrolas, LPs... Pelo hall todo.

- Bem vindos ao Jardim da Música.

- Obrigado – agradeceu Jean. – Eu queria... – ele olhou para Lucy. – Um quarto, por favor, um simples, mas que tenha banheiro.

A recepcionista começou a digitar no computador.

- Como assim um quarto?

- Quer mais despesas ou economizar?

Não havia como contrariar que precisava economizar, mas não queria dividir um quarto com um pervertido. Em Londres ficava na casa de seu pai, mas em outro país teria de se arranjar e ter bom senso de economia.

A moça entregou as chaves e após desejar uma boa noite, Lucy e Jean, seguiram para o elevador, puxando as malas logo atrás.

O corredor era amplo e decorado com notas musicais do chão ao teto. Lucy percebera que o carpete era pintado como se fossem as teclas de um piano. Não sabia se ficava entusiasmada pela decoração diferente ou temerosa do que esperar no quarto.

Na porta pintada de preto e com o número 9 pregado ali, sentia medo de saber o que viria logo a seguir. Nunca dividira um quarto com garoto nenhum e nem sabia quais eram as manias de Jean antes de dormir ou enquanto dormia.

Ele adentrou o quarto e Lucy foi em seguida. Só o hall e corredores eram chamativos. O quarto era como qualquer outro: cama, criado mudo, armário e lareira. Mas havia a decoração sugestiva do hotel: alguns discos de vinil pendurados na parede onde ficava a cabeceira da cama, uma vitrola sobre a lareira, alguns quadros nas paredes de cantores consagrados como Elvis Presley, The Beatles.

- Você vai dormir no chão – anunciou Lucy, sentando-se na cama.

- Ok.

Ele começou a desfazer as malas, procurando algo.

- Que vai fazer agora?

- Tomar um banho.

Lucy pegou a mala e correu. Jean entendendo, foi atrás, mas não alcançou o banheiro tão rápido. Lucy entrou e fechou a porta.

- Primeiro as damas.

Depois de Lucy sair do banheiro de banho tomado, jogou-se na cama de hobe. Conseguiu aliviar as tensões do dia, mas sua visita na cidade de New York apenas começou.

- Lucy, você acabou com o shampoo?

- Era pouco. Lave com sabonete. Ninguém se importa.

A porta se escancarou um garoto com a toalha enrolada na cintura e cabelo molhado. Ele adentrou o quarto.

- O que é? Não devia estar tomando banho?

- Preciso de shampoo e sei que tem um dentro da sua mala.

Lucy não queria ter pagar o tapete do quarto também, então abriu sua mala e entregou um frasco de shampoo e outro de condicionador.

- Melhor não acabar com tudo. Não comprarei outro.

Jean pegou e saiu, segurando a toalha que agora caia. Lucy riu da situação e aninhou-se na cama, abraçando um travesseiro.

- Quanto tempo isso irá durar?

•••

Com um movimento de espreguiçar, Lucy acertou algo e se afastou imediatamente. Quase gritou ao ver que na cama estava Jean vestindo um short branco, dormindo igual uma pedra, por não ter acordado com seu golpe.

Queria rogar pragas no ar, mas não fez nada. O chão, mesmo com o tapete, não deveria ser um lugar agradável de dormir.

Ela se levantou e trocou rapidamente de roupa. Era inverno ali. Precisaria se agasalhar bem. Sentia pena não ter uma bota e nem poderia comprar uma. Suas melhores roupas de inverno estavam em Londres, em seu quarto. Só poderia pagar o hotel e comprar comida de lanchonete. Suas regalias de patricinha teria de ficar pra outra hora. Contentaria com um tênis casual e duas meias, mais casaco.

Quando Jean acordou, ela estudava o quanto gastaria anotando no seu bloco de notas. Ele a ignorou e adentrou o banheiro. Voltou logo em seguida e ela continuava debruçada sobre o bloco.

- Que tal comer antes de gastar os neurônios com isso ai?

Ela o olhou e suspirou. Jean estava certo. Não conseguiria muito resultado sem se alimentar. Guardou o bloco de notas e a caneta em seu casaco e pegou sua carteira, guardando-a também.

- Vamos ficar por aqui quanto tempo?

- Não sei. Talvez devêssemos ficar até sairmos da cidade.

Eles entraram na primeira lanchonete que encontraram. Perceberam que não comiam há horas quando viram as imagens de hambúrgueres.

- Nunca gostei de hambúrguer, mas esse tá ótimo – Lucy disse ainda com um pedaço na boca.

Jean abocanhou o seu.

- Será que é porque não comemos há algum tempo?

- Deve ser.

Depois de um café que valeria por desjejum e almoço, eles partiram para andar pela cidade. Teriam de agüentar uma semana perambulando por entre bairros e vendo o que New York lhes oferecia.

O vento frio os obrigava a subir a gola do casaco para cobrir o pescoço, mas mesmo assim era torturante andar ao relento com o vento frio. Lucy daria tudo para ficar no hotel, mas sabia que ficaria louca e acabaria brigando com Jean. Nunca deu certos os dois sozinhos por muito tempo e em um lugar fechado.

A atenção de Lucy foi atraída por uma vitrine linda com roupas de grife e um lindo cachecol preto no manequim. Instantaneamente ela se imaginou com um cachecol no pescoço sem congelar dos pés à cabeça.

- Por que não compra? Pelo menos sobreviverá até daqui seis dias.

Lucy virou-se, lançando um olhar mortal.

- Eu adoraria comprar, mas tenho de economizar.

- Tudo bem, doutora economista.

Eles andaram por algum tempo até encontrarem um café. Para não parecer que fugia do frio, pediu dois cafés.

Jean olhou-a.

- Café é barato. Isso eu posso pagar.

Quando a garçonete entregou o pedido, ela sentiu-se melhor. Aquele cheiro lhe era agradável. Segurar uma xícara quentinha era tão reconfortante. Sentia falta de calor em seus dias ali. E só faziam menos de vinte e quatros que estavam na cidade.

Depois de inúmeros elogios ao café – e Jean rindo da atitude dela – eles continuaram ali, conversando e observando as pessoas. Foi uma das únicas coisas que podiam fazer para passar o tempo.

Um casal havia acabado de entrar. A mulher trajava um sobretudo branco e uma boina também branca. Desfilava até a mesa, acompanhada de um homem igualmente alto e com seu sobretudo preto. Eles pareciam ter combinado em sair no estilo preto e branco.

A mulher tinha os cabelos lisos e castanhos e observava com muita atenção o homem a sua frente.

- Com certeza apaixonada – comentou Lucy.

Ela continuava a fitar o casal e via como ele segurava a mão da mulher, gentilmente e delicada.

- Ele é tão gentil...

- Parece que você tá apaixonada por ele.

Lucy olhou para Jean e viu que ele tava afastado da cadeira e brincava com o a colher na xícara, tirando e retirando o resto de café que ficara ali. Estava entediado.

- É só observação.

- Então não conte comigo para ouvir – ele levantou-se e se espreguiçou. – Vamos andar ou voltar pro hotel. Ver casais apaixonados não é comigo.

Lucy deixou o valor do café dentro do cardápio e saiu. Ela ainda tinha os dólares desde sua última viagem a Miami anos antes. Não poderia se esquecer de sacar algumas notas para lanches e bebidas. Fatura de cartão de crédito era monstruosa e queria ser responsável pelo menos uma vez na vida.

Eles passaram por mais algumas vitrines, lanchonetes, restaurantes... Até um teatro que estava abarrotado. Não sabia o quanto andara, mas quando chegou ao hotel, retirou os sapatos e não queria saber deles e sim ter seus pés de volta.

- Parece que corri uma maratona inteira. Não sinto mais meus pés.

Jean jogou-se ao lado dela na cama e ficou de bruços com as mãos em formas de concha, olhando-a.

Lucy não gostou da posição dele e o empurrou, mas Jean foi rápido e segurou os braços dela e a puxou, ficando por cima dela.

- Esqueci. Você é um desses fanáticos que sabe de todos os golpes de lutas.

Ele sorriu e olhou-a com seus olhos verdes.

- Sinceramete. Não fico decorando os nomes, apenas te prendi.

Ela bufou e olhou para o lado.

- Seria pedir muito pra sair de cima de mim?

- Está dizendo isso com calma?

Lucy virou o rosto e viu o dele próximo. Seu coração disparou. Ele era um garoto, estava em cima dela, próximo demais... Ela gritou e o empurrou com força, derrubando-o da cama. Não queria esses tipos de pensamentos em sua cabeça.

- Desculpa – ela disse rindo.

- Deixa quieto. É melhor eu dormir. Ficar com você é cansativo.

Lucy jogou uma almofada nele e sentou-se na poltrona que havia ali. Voltou a rabiscar em seu bloco de notas. Marcara as despesas do dia e acrescentara com um sinal de mais a diária do hotel, vezes dois. Queria se precaver para não haver surpresas quando fosse pagar tudo.

- Já pensou em ser economista?

Lucy olhou Jean, com a caneta na boca.

- Por que diz isso?

Ele puxou as cobertas para mais perto.

- Por que está fazendo mais do que eu esperava. Tendo responsabilidades e gastando somente com o necessário.

Jean virou-se pro outro lado e Lucy ficou olhando-o. Era a primeira vez que alguém dizia que ela tinha responsabilidades e não se portava como patricinha. Ficou feliz e deixou a economia de lado.

Precisava se comunicar com Liz. Deveria ter enviado uma mensagem assim que chegara ali, mas esquecera completamente com tudo que estava acontecendo.

Ela pegou o celular e rapidamente enviou a mensagem

Lucy: Oi Liz. Estamos em New York. Vôo errado. Culpa do Jean.

Liz: Sério? E o que tão fazendo?

Lucy: Nada. Apenas andamos pela cidade. Teremos de esperar mais seis dias para voltar, pois é o tempo do visto pra Londres vencer.

Liz: Kkkkkkkkkkk

Não mate ele. Ele é legal e me ajuda com as lições de matemática.

Lucy: Sou eu que te ajudo em matemática.

Liz: Ops. Acabei de ouvir minha mãe me chamando aqui. Falo com vc depois.

Ela deixou o celular de lado.

Mas que vigarista Liz era! Pedindo ajuda para os dois e mesmo assim suas notas continuavam as mesmas. Lucy riu. Sua amiga era muito desmemoriada.

Notas finais
Opiniões????
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.