Perdidos
8 Procurando Um Caminho
O Sol já anunciava o fim de tarde, o céu antes azul já ganhava tons de laranja mostarda e amarelo canário. O vento fresco ajudava os adolescentes a não se cansarem.
Os pulmões jovens pediam por ar, o corpo estava cansado, as testas cobertas pelas gotas de suor.
Guilherme foi o primeiro a deixar o grande tronco cair no chão, colocando ambas as mãos no joelho, arfando, implorando por ar.
— Vocês... Vocês acham que isso vai funcionar? — o rapaz de óculos finalmente conseguiu proferir algumas palavras, mesmo com a respiração entrecortada.
— Vai ficar meio tosco... Mas vai ter que servir. — Thiago respondeu, também jogando o grande tronco no chão, próximo a uma pilha imensa de enormes troncos.
Mariara dera a ideia de fazer uma jangada, explicou com calma para todos como funciona, os troncos necessários, aonde encontrá-los e aonde arranjar as trepadeiras para juntar as madeiras. Logo após dar as ordens, Guilherme, Wesley e Thiago aceitaram sem reclamar, se prontificando em arranjar o que fosse necessário. Henrique questionou a garota como ela sabia disso, como montar uma jangada, onde eles encontrariam os troncos e as trepadeiras, mas Mariana respondeu vagamente, "eu apenas sei...".
Henrique não retrucou, mas tinha leve pressentimento, lhe dizia algo sobre Mariara, ele só não tinha certeza.
— Mas gente... E esses troncos estiverem podres? E se a jangada ceder? E se tiver... jacarés na água? — Nathália balbuciou assustada, olhando para todos os amigos.
— Nath, sei que pode ser perigoso... — Henrique se aproximou da garota, tocando levemente em seu ombro, tentando lançar um olhar de conforto. — Mas é melhor do que ficar esperando o Curupira vir nos pegar.
— Esse papo de Curupira de novo? — Amanda se pronunciou, arfando. As mãos arrastavam um tronco mediano pelo chão. — Por favor, eu só quero chegar na fazenda logo e ir pra casa!
— Qual é vocês! — Wesley se aproximou, com diversas trepadeiras no ombro esquerdo. — Vamos trabalhar mais e falar menos! Precisamos ser corajosos! Tipo a Mariara! — apontou para a garota, que permanecia em pé, observando o rio. Ela estava naquela posição já fazia alguns minutos.
— É! Mas ela podia deixar de ser corajosa e ajudar um pouco, não? — agora foi Deise que falou alto, jogando uma indireta tão óbvia que Mariara saiu do transe, virando o belo rosto para todos.
— Sinto muito... — murmurou, tirando os longos cabelos da face. — Eu estava... distraída. — anunciou, voltando seus olhos para o rio. — O rio me traz uma sensação estranha. Familiar! Eu só não sei o que significa...
— Vai ver, foi de onde você veio. — Henrique comentou calmo, fazendo com que Mariara virasse o rosto, chicoteando os cabelos no ar.
— Como disse? — as palavras soaram assustadas, um tanto desesperada.
— O tal acidente que fez você perder a memória. — desviou do assunto principal, andando com passos calmos, pegando um dos troncos do chão. — Você pode ter caído de um barco, ou quem sabe um avião que você vinha caiu dentro de um rio.
— Eu... Eu não tenho certeza... — Mariara encarou o chão, balançando a cabeça, tentando esquecer dessa angústia, pegando um tronco que estava numa parte mais afastada.
— Você não deve estar se sentindo bem! — Guilherme aproximou-se de Mariara, os cabelos negros grudavam na testa, as bochechas estavam coradas, Guilherme não estava acostumado com o trabalho pesado.
— Deixa que a gente carrega isso por você. Vá descansar! — Thiago também se aproximou da garota, limpando com a barra da camisa o rosto, tirando as gotas de suor.
Os rapazes pegaram juntos os troncos que estavam próximos de Mariara, e durante todo o momento eles foram observados por Nathália e Amanda, que grunhiram com raiva, uma pelo ciúme, outra pela atenção excessiva que a misteriosa garota ganhava.
Um novo ronco se fez presente, e Amanda, Deise e Wesley olharam diretamente para Guilherme, que corou violentamente, ele ainda estava com fome, não comia nada desde que se perderam.
— Desculpa... — falou calmo, mexendo os pés, envergonhado. — Eu ainda estou morrendo de fome...
— Eu não tenho mais nada na mochila. — porque uma certa garota comeu tudo o que tinha, quis terminar a frase com esta, mas era educada demais para falar algo desse gênero.
— Parece que teremos de esperar...
— Podemos comer peixe! — Mariara gritou, interrompendo Henrique, fazendo com que todos olhassem para a mesma. Ela carregava uma tilápia enorme nos braços, fazendo com que todos a encarassem de boca aberta.
— Como... Como você fez isso? — Deise questionou, chocada.
— Ora, o rio está cheio de peixes! Só precisei pegar! — disse calma, falando como se fosse algo tão óbvio e simples.
— Nossa! Além de beleza, você tem habilidades especiais! — Wesley disse tranquilamente, andando a passos leves, ficando próximo de Mariara.
— É... Muito especial! — Henrique cruzou os braços, e o mesmo pensamento de alguns minutos atrás voltou a sua mente.
No outro lado da margem uma criatura observava tudo escondido, vendo cada ato dos forasteiros. Um sorriso escárnio formou-se no rosto, abriu a palma da mão, vendo a pequena minhoca que ali se contorcia. Calmamente a depositou dentro do rio, uma luz incandescente surgiu, e quando ela se apagou as palavras deixaram sua boca:
— Faça seu trabalho!
~~~
O tempo se passou, e depois de muito esforço, trabalho árduo, e cansaço, a jangada já estava no extenso rio, os quatro garotos usavam troncos mais magros como remos, as três garotas estavam na parte de trás, já Mariara estava na frente, ao lado de Henrique. A jangada tomava um curso calmo, e frases animadas saíam das bocas, alegrando-se por tudo ter dado certo. E a misteriosa garota parecia ser a mais animada.
— Eu sabia que iria funcionar! Sabia que o rio nos levaria para a segurança!
— Eu só vou ficar feliz quando a gente estiver a salvo! Todos nós! — Deise comentou um tanto arrogante, mas este comentário foi ignorado por todos.
— Pode deixar, Mariara! A gente vai tirar você dessa! — Wesley tocou o ombro da garota, num gesto de conforto.
— Você vai voltar pra casa logo! — agora foi Thiago que comentou, lançando um olhar encorajador para a garota.
— Minha casa... — balbuciou a garota, olhando o extenso rio, os olhos se fecharam. — Seja lá onde for...
— Tenha fé, Mariara. — agora fora Henrique que dissera, fazendo com que Mariara abrisse os olhos castanhos, encontrando o jovem. — Tenho pra mim que sua casa está mais perto do que você pensa.
Na parte traseira da jangada, Nathália estava com a cara emburrada, os braços cruzados entre as pernas. E esse sentimento negativo não foi despercebido pelas colegas.
— Aí Nath, você parece chateada, e não é só porque estamos em perigo nesse pantanal assombrado! — Deise comentou, retirando os cabelos do rosto.
— Ai fofa, me dá um desconto porque você não tá em oferta, conta pra gente vai! — Amanda fez um coque desajeitado nos louros cabelos, olhando para a amiga após esse ato.
— Só estou incomodada porque desde que chegou parece que todo mundo só pensa nessa Mariara! — falou diretamente e sem rodeios, não era necessário esconder sua indignação.
— Ai, finalmente concordamos em alguma coisa. Essa garota está me irritando muito! — Amanda respondeu a amiga, compartilhando da indignação da morena.
— Sei! Amanda, você só está incomodada porque antes dessa garota aparecer você era o centro das atenções! — Deise alfinetou a loira, que apenas limitou-se a virar o rosto, encarando qualquer área do rio.
— Eu só sei que todos os meninos parecem bobos por ela! Olha o Thiago! — Nathália descruzou os braços, apontando para o moreno que estava de costas para elas.
— Ah, então o problema é esse! — Deise brincou com uma mecha dos cabelos. — Olha, eu sei que você é afim do Thiago... — Nathália corou e estava prestes a retrucar, mas o dedo de Deise a impediu. — Nem tente negar, é óbvio, você não sabe disfarçar esse seu crush. Se eu fosse você, eu contaria logo, afinal você não pode perder a oportuni...
Deise calou-se, e isso chamou a atenção das duas garotas, que viraram os rostos, vendo a morena encarando o rio de boca aberta.
— O que foi? — as duas indagaram e uníssono.
— T-Tive a impressão de ter visto alguma coisa grande na água... — gaguejou.
— Grande? Como um jacaré? — Amanda aproximou-se de Nathália, abraçando-a.
— Não... Bem maior!
— Ei! — Wesley falou alto, fazendo com que todos olhassem para ele. — Meu remo se prendeu em... — tentou puxar o remo, mas logo percebeu algo. — Não. Não prendeu, alguma coisa pegou! — puxou com mais força. — Solta! Larga! Larga senão...
Logo a figura apareceu na água, os dentes brancos e afiados, a boca enorme, e o remo estava preso entre elas. Sem pensar, Wesley soltou o remo, gritando e junto do grito um rugido alto foi ouvido, e uma enorme criatura saiu das águas. Uma minhoca gigantesca surgiu, a boca aberta, revelando as presas.
— Minhocoçu? — Henrique gritou.
— Mas que bicho é esse? — Amanda gritou, ainda abraçada com Nathália.
— É uma minhoca gigantesca que vive nos rios! — Henrique explicou.
— Outro bicho lendário que não deveria existir? — Deise berrou, sentindo as mãos das amigas em seus ombros.
— Rema! Vamos tentar fugir dele! — Thiago remava violentamente junto de Guilherme. — Vamos tentar passar dele!
— Nós não vamos... — Mariara foi a última a dizer qualquer coisa.
E em movimentos rápidos Minhocoçu avançou diante a jangada, destruindo-a parcialmente, jogando todos os tripulantes nas águas do rio. Gritos ecoaram, lágrimas já desciam do rosto de Nathália, Guilherme batia as mãos desajeitadamente, tentando flutuar.
— Se agarrem no resto da jangada, ou em qualquer tronco! Não podemos nos separar! — Henrique foi o primeiro a gritar, vendo que os amigos fizeram o que lhe foi mandado
— Não adianta! Nada disso adianta! — Mariara gritou, e todos viraram os olhos para a mesma. — Não há como enfrentar o Minhocoçu! É o fim!
— Não fala assim, Mariara! — Henrique respondeu aos gritos da bela garota, olhando Minhocoçu contorcendo-se, preparando para um novo ataque. — Eu acho que sei o que fazer!
A enorme minhoca deu um impulso, saltando para cima dos estudantes.
— Mariara, faça ele parar! — Henrique gritou.
— Fazê-lo parar? Eu? Mas o que eu posso...?
— Só faça!
Minhocoçu abriu a boca, pronto para atacá-los.
— PARE! — Mariara fechou as mãos, berrando a plenos pulmões a única palavra. E com está, a criatura parou a centímetros de distância.
— Mas o quê...? — Deise murmurou, estranhando tudo.
— E por que não? Funcionou com as capivaras, tive um palpite de que funcionaria com o Minhocoçu também! — Henrique agora sorria, radiante. — E agora eu acho que sei o motivo!
— Não quero feri-la, Mariara! — uma voz grossa se fez presente, chamando a atenção de todos. Olhos se arregalaram e bocas foram abertas. Ninguém acreditava no que estava vendo, na figura daquele ser. Os cabelos vermelhos como fogo, o corpo musculoso, as garras e as presas, os olhos amarelos e o mais assustador: os pés virados para trás. — Venha comigo! Você é minha... e de mais ninguém! — Curupira estendeu a mão, chamando Mariara para ficar próxima à ele.
— Pare com isso! Eu não sou "sua"! Eu não pertenço a ninguém! — a morena parecia ser a única com coragem o suficiente para enfrentá-lo, mas ela não parecia assustada com a aparência monstruosa da criatura. — Por que está fazendo isso? — berrava, franzindo o cenho. — Por que me persegue? E aos meus amigos?
— Não consigo crer que ainda não percebe! Ainda não entende! — Curupira balançava a cabeça negativamente, indignado. — Tenho que repetir outra vez? — e não houve resposta, com isso Curupira respirou fundo antes de berrar: — Eu amo você! Eu preciso de você!
Mariara fez uma careta, não suportando aquele diálogo.
— Preciso que você fique comigo! Apenas comigo! — Curupira levantou a mão. — Não quero ninguém entre nós. — fechou a mão, fazendo com que Minhocoçu abrisse a boca, abocanhando Henrique, deixando o estudante entre as enormes presas.
Os amigos gritaram, Wesley e Thiago pegaram alguns pedaços dos troncos, batendo na enorme minhoca, tentando, sem nenhum sucesso, fazer com que a criatura o soltasse.
— Imbecis! Não percebem que é inútil? — Curupira falou arrogante, chamando a atenção dos jovens. — Apenas uma coisa me impede de mandar o Minhocoçu devorar a todos! Eu só não quero deixar Mariara incomodada!
A garota sentiu a ira subir por todas as partes de seu corpo, assistindo o tempo todo Curupira andando de um lado para o outro, brincando com seus amigos.
— Mariara! — Henrique gritou, ainda preso na boca do monstro. — Só você pode me ajudar!
— Ele tem razão... Venha comigo sem resistir. Eu prometo libertar seu namoradinho. — o monstro da mata encarou a garota, vendo a expressão derrotada que se apossou.
— Não! Não faça isso! Mariara, não faça isso! Você é especial! — Henrique berrava em plenos pulmões. — Você fez as capivaras recuarem! Pegou um peixão de mãos vazias! — explicava, arfando. — Mariara, se você é quem estou pensando... Então você é muito mais poderosa que o Curupira!
— Chega! — Curupira cuspiu essas palavras. — Cale-se ou vou matá-lo! — ele fechou ainda mais os dedos, e Minhocoçu com este ato fechou a boca vagarosamente, prendendo Henrique dentre seus enormes e afiados dentes, e nos braços do estudante, sangue descia.
— Henrique! Não! — Mariara gritou.
— Mariara você não é uma pessoa comum! — Henrique usava todas as forças para continuar falando, sentindo a boca da enorme minhoca tentar lhe sugar para dentro.
— Cale-se, maldito! — Curupira gritou.
— Você... Você é... Você é a...
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